Análise de um artigo da BBC sobre a Umbanda

 


Recentemente, o site BBC Brasil publicou uma matéria cujo título é: Zélio, o Caboclo das Sete Encruzilhadas: o fundador da umbanda que não é bem aceito por umbandistas atuais. O link para leitura da mesma se encontra no próprio título.

Não reproduzirei o texto por completo aqui, para evitar problemas de direitos autorais. Contudo, reproduzirei alguns trechos da reportagem, apresentando o meu contraponto. Os trechos entre aspas e em itálico são citações da matéria.

A começar pela data: 15 de novembro de 1908. Sim, um 15 de novembro, aniversário da Proclamação da República, data portanto da criação do Brasil contemporâneo”.

Segundo o autor, a escolha do dia 15 de novembro como marco inicial da Umbanda é uma espécie de carona pega por Zélio, pois é também a data da Proclamação da República (quando, enfim, a monarquia caiu) e, portanto, teria sido escolhida por seu valor simbólico, nacionalista.

Não se considera que, talvez, por ser feriado, fosse mais fácil comparecer à reunião espírita que ocorreria naquele dia, assim como também se desconsidera que o feriado em questão é apenas uma coincidência na sequência de fatos que marcaram o início da mediunidade de Zélio (apesar de, particularmente, penso, seja muito mais adequado colocar o dia Nacional da Umbanda em 16 de novembro, quando efetivamente houve a primeira cerimônia da religião).

 (...) “é negar que a umbanda já vinha sendo praticada por negros oriundos da África e seus descendentes em solo brasileiro” (...)

Em que região da África ou do Brasil a Umbanda era praticada? Note, caro leitor, que há sempre este argumento da anterioridade da religião, apesar de nunca indicarem onde e como isso teria acontecido.

(...) “é entregar a primazia da religião afrobrasileira a um homem branco”.

Esse é realmente um ponto indigesto. Os que se esforçam para criar uma Umbanda afro-brasileira sempre se deparam com o problema de que Zélio era branco e de classe média. Então, não podendo ignorar sua história, só resta distorcê-la...

(...) “Para o historiador Guilherme Watanabe, pai de santo do terreiro Urubatão da Guia, em São Paulo e membro fundador do Coletivo Navalha, Zélio é "a representação de uma grande construção histórica", do "mito de fundação que, a partir dos anos 1960, começa a se fazer no Rio". "Uma grande mentira".

Mito de fundação a partir de 1960? A história do Zélio, até onde sabemos, aparece pela primeira vez nos jornais cariocas no dia 07 de maio de 1924, quando o jornalista Leal de Souza publica uma matéria no jornal A Noite, intitulada: Um louco em uma sessão espírita. A matéria cita Zélio e a Tenda Nossa Senhora da Piedade.

O que houve a partir de 1960, realmente é a construção de um mito: o de uma Umbanda afro e, às vezes, afro-brasileira, coisa que nunca existiu. Este mito tem raízes profundas e é reproduzido, inclusive, na academia.

Há um excelente artigo de Láreserá, intitulado: Zélio de Moraes e o caboclo das sete encruzilhadas: mito de origem ou reconstrucionismo histórico? – Neste artigo, cujo link está no próprio título, o autor demonstra de forma cabal a origem dos erros das pesquisas em que todos os demais acadêmicos se apoiaram para repetir as ideias errôneas de que Zélio, quando muito, foi apenas um personagem importante da religião.

Convido o leitor a lê-lo. É extenso, mas depois de lido, não restará dúvidas sobre este assunto.

(...) “Ele é caboclo mas, dentro do mito, também é um padre jesuíta. O que cria uma disforia total, uma loucura promovida pelo processo de embranquecimento [da umbanda]", diz Fiorotti.”

Qualquer adepto minimamente esclarecido sabe que o espírito pode encarnar entre diversos povos, diversas culturas e assumir, portanto, diferentes imagens de si mesmo. O próprio caboclo, através de Zélio, dizia ter sido padre numa encarnação, como também dizia ter sido indígena, em outra. Logo, não há nenhuma “disforia” (olhem o termo!), trata-se de algo corriqueiro no âmbito da espiritualidade.

"Na ata de 15 de novembro de 1908 da citada federação [espírita] não há registros destes fatos, o nome do dirigente da suposta sessão não confere com a história, nem mesmo o nome de Zélio se faz presente", afirma Dias.”

  1. Alguém já viu esta ata?
  2. Desde quando, seja em federativa ou centro espírita, se faz ata de reunião pública?

Porém, existem outras ponderações interessantes a respeito disso.

O pesquisador Renato Guimarães, do blog Registros de Umbanda, publicou, em 2012, um estudo chamado: O verdadeiro local da primeira manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, em que conclui algo bastante curioso:

À época de Zélio, a Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro, funcionando em Niterói (daí a tradição ter preservado como “Federação de Niterói”), não possuía sede própria, funcionando num prédio do Centro Espírita Santo Agostinho (cujos membros foram, em parte, fundadores da federação), isto é, quando a Federação se reunia, utilizava-se uma das salas deste centro para realizar seus encontros.

O autor conclui, portanto, que na verdade Zélio teria participado de uma sessão neste centro espírita e não propriamente na federação, embora ela funcionasse no mesmo prédio. A confusão, neste caso, seria perfeitamente compreensível.

Segundo especialistas, a história de Zélio como fundador da umbanda foi uma construção que passou a tomar forma nos anos 1960, quando o médium já era idoso. Em 1961, a jornalista e umbandista Lilia Ribeiro publicou pela primeira vez essa versão no jornal informativo Macaia, ligado à Tenda de Umbanda Luz, Esperança e Caridade, da qual ela era dirigente”.

A história de Zélio já era bastante conhecida na década de 1920 com as publicações de Leal de Souza no jornal A noite e também ganharam notoriedade nos anos 1930 quando a próxima série de reportagens se transformou no livro: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, publicado em 1933.

Em fins da década de 30, Zélio também teve participação na fundação da então Federação Espírita de Umbanda. Portanto, pode-se dizer que, pelo menos por 30 anos consecutivos, seu nome, o nome do caboclo e da sua tenda foram muito conhecidos.

O que parece ter ocorrido, porém, é que Zélio focou seu trabalho na Tenda Nossa Senhora da Piedade e gradativamente foi esquecido pelo mundo exterior, até que efetivamente sua história foi resgatada 20 anos depois por Lilia Ribeiro.

"Há indícios de que já havia práticas de umbanda muito semelhantes tanto em ritualística quanto em estética ao que acontece hoje muito antes de 1908", diz ele.”

Bom e desde quando a Umbanda de HOJE é semelhante a que ocorria em 1908? Qualquer um que veja, por exemplo, no Youtube, as filmagens de como funcionam as giras na TENSP, verá que trabalham de forma bem diferente da maioria dos terreiros.

No entanto, quais seriam estes indícios? Quais práticas? Onde? Novamente, nada...

Existiam cultos anteriores com alguma semelhança com a Umbanda? Sim. Nenhuma religião surge do nada e a Umbanda não é exceção: ela é uma mistura do Espiritismo, Catolicismo e Candomblé e, ao que tudo indica, essa mistura, fruto do processo religioso sincrético brasileiro já havia ocorrido outras vezes, em outros tempos, com outros nomes, outras práticas, outras crenças. O correto, portanto, seria dizer que existiam práticas sincréticas onde havia a manifestação de espíritos (como nos Calundus), mas daí dizer que essas práticas eram semelhantes à Umbanda, o passo é grande.

"Essa umbanda que tem Zélio como fundador é uma umbanda muito associada ao espiritismo em si. Mas há diversos autores que se sentem contemplados por essa narrativa e eles são pessoas fortemente associadas ao espiritismo e a algumas ideias esotéricas, místicas. Fogem da vivência do terreiro de fato. A estrutura umbandista já existia no século 19."

A Umbanda é profundamente associada ao Espiritismo. As ideias de Deus, mediunidade, reencarnação, espíritos, são todas vindas do Espiritismo, assim como os elementos de trabalho, como as imagens, velas, defumações, são todos de origem católica, assim como as oferendas, os atabaques, o uso das ervas, são todos de origem do Candomblé.

Agora, o que me chama a atenção e me parece um pensamento muito arrogante é dizer que “fogem da vivência de terreiro de fato”. Sem comentários...

Por fim, cabe dizer que, até meados da década de 1940, a maioria dos umbandistas se viam como espíritas. Considerava-se que a Umbanda era apenas um tipo diferente de Espiritismo, o que fica muito claro no Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda.

Enfim, quando mergulhamos nas fontes históricas, seja em Leal de Souza ou mesmo nos anais do congresso, fica evidente que a Umbanda nascente era profundamente associada ao Espiritismo. O que não fica evidente nas fontes é qualquer origem afro...

“Watanabe lembra que a própria palavra umbanda vem das línguas quimbundo e umbundu da África Central e "significa algo como arte ou maneira de curar".

De fato, a palavra Umbanda existe neste idioma. Isto não é uma exclusividade. Existem várias palavras em português que significam coisas completamente diferentes em espanhol, inglês e, como descobri mais recentemente, até mesmo em russo... É uma ilusão achar que cada língua possui palavras únicas... Agora, o que se conhece como Umbanda em quimbundo tem alguma semelhança com o que se faz nos terreiros de Umbanda? A resposta é um sonoro não...

Porém, segundo outra interessante pesquisa de Renato Guimarães, transcrevendo fitas antigas de Zélio, descobriu-se que o nome original da religião era Alabanda (Deus ao nosso lado).

Algum tempo depois, por não soar muito bem, o nome foi trocado para Aumbanda, supostamente, com o mesmo significado. Tudo indica que, com o correr do tempo e pela forma de falar, Aumbanda acabou virando: A Umbanda.

"Zélio é a história de um homem branco classe média que se apropria da cultura dos centro-africanos e seus descendentes", resume o historiador Watanabe. "Além disso, apaga e invisibiliza a cultura dos centro-africanos ao se dizer fundador de algo que, na verdade, já existia."

Qual cultura de centro-africanos? Novamente, nenhuma citação, apenas afirmações soltas.

Agora, caro leitor, perceba: Zélio além de não ter fundado nada acabou apagando e invisibilizando outras culturas... É o ou não é uma bela inversão de valores?

Conclusão

Eu poderia ter citado outros trechos da matéria, mas creio que estes sejam suficientes. Fazia bastante tempo que não lia nada tão agressivo, seja pelas expressões utilizadas, seja pelo desmerecimento a tudo que Zélio fez e representou.

O que não surpreende, contudo, é que tais críticas sejam ideológicas... Tenta-se, a todo custo, classificar a Umbanda como uma religião afro-brasileira, apagando (sim) e invisibilizando (sim) a sua principal característica: o sincretismo religioso.

A Umbanda é uma religião brasileira, não afro-brasileira, não de matriz africana, mas totalmente cunhada, desenvolvida e moldada no Brasil, com influências do Espiritismo, do Catolicismo e do Candomblé, em maior conta, e também influenciada por conceitos/práticas esotéricas, místicas e indígenas. É isto que lhe confere seu caráter mestiço, logo, torna-la afro é desprezar todas as demais influências em detrimento de uma, sem qualquer lastro histórico para isso, apenas ideologia, pura e simplesmente.

Leonardo Montes
(Foto retirada do site da TENSP)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os anos de internet me ensinaram a não perder tempo com opositores sistemáticos, fanáticos, oportunistas, trolls, etc. Por isso, seja educado e faça um comentário construtivo ou o mesmo será apagado.