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Exus do bem ou Exus do mal? – Entendendo a questão de uma vez por todas

exus

Ex
us são entidades controversas no meio umbandista há bastante tempo. Assim, aqueles apaixonados pela religião, sempre dispostos a se indispor com qualquer leigo que os associe ao Diabo, devem ficar bastante tranquilos, pois este é um problema das antigas e nada indica que se resolverá brevemente.

Eu já fiz um post, resumindo a maneira pela qual aprendi e vejo tais entidades, segundo a doutrina da nossa casa e aproveito este momento para relembrar que tudo que produzo em matéria de Umbanda reflete apenas um ponto de vista, sem pretensão de unanimidade em matéria religiosa, especialmente, nestes assuntos espinhosos.

A primeira vez que minha esposa visitou um terreiro (ela foi antes de mim), lá pelos já longínquos anos de 2011/2012, ouviu dentro do próprio terreiro em questão que exus eram entidades sorrateiras, perigosas e que devia ficar longe deste tipo de espírito.

Sim, você leu direito: ela ouviu isso dentro de um terreiro de Umbanda e não era uma casa desestruturada, pois existe até hoje e possui boa reputação. Tratava-se apenas de uma casa cuja tradição religiosa não contemplava o trabalho com essa linha e não via com bons olhos quem procedesse diferentemente.

Cultura é isso, cultura religiosa é isso também.

Por esta razão, é perda de tempo querer se indispor com leigos que veem tais entidades como demônios ou coisas do tipo, pois se nem dentro da religião existe concordância, que dirá fora, certo?

Resumo do problema

A palavra “Exu” que no contexto da Umbanda utilizamos para nos referirmos às entidades que atuam nesta linha tem sua origem no Candomblé Iorubá onde existe uma divindade chamada Exu (Orixá). Sabemos que desde os tempos dos portugueses na África, já se associava a figura do Orixá Exu com o Diabo, seja em razão do seu comportamento (meio trickster) ou por suas representações em imagens.

Porém, ninguém sabe exatamente onde e como se começou chamar alguns espíritos de exus. O que podemos afirmar é que muito possivelmente essa associação tenha ocorrido em razão da comparação entre o comportamento destas entidades, quando incorporadas, com os mitos que falam de Exu (Orixá).

É provável que alguém vendo tais entidade nos primórdios de suas manifestações (entre fins do século XIX e início do século XX), tenha feito essa associação e, desde então, ela não se apagou mais, da mesma forma que alguém, em algum momento, passou a chamar algumas entidades femininas de Pombagiras que, tudo indica, é uma corruptela de Pambu Njila, uma divindade do Candomblé de Angola.

Cultura é isso, diversidade é isto!

Espíritos

A melhor forma de entendermos o que de fato é um exu é lembrarmo-nos de que são espíritos. Todos os que estudam o Mundo Espiritual sabem que, do outro lado, existem espíritos bons, maus e mais ou menos, da mesma forma que na Terra existem pessoas boas, más e mais ou menos.

Logo, ninguém deve pressupor que, por ser espírito, necessariamente a entidade seja boa ou necessariamente seja ruim. Ela é, simplesmente, a alma de alguém que viveu, em algum momento, aqui na Terra e, portanto, pode ter toda a variedade possível de caráter tal como as pessoas presentes neste mundo.

O que ocorre é que, no imaginário de muitas pessoas (e esse imaginário foi construído do embate de diversas ideias, dentro e fora da religião) a Umbanda é uma religião cuja diretriz moral não é muito bem definida, especialmente, para leigos.

E apesar do esforço crescente – intramuros – em mostrar a Umbanda para o mundo como uma religião que pratica o bem através da caridade e que, portanto, não abre espaço algum para a maldade (antes, a combate), é preciso reconhecer que uma parcela significativa dos terreiros não contribui em nada para alimentar esse discurso.

Vejamos alguns exemplos:

A pessoa diz que exu não é o Diabo, que a Umbanda é uma religião boa e que apenas pratica o bem. Porém, posta frases do tipo: “quem me vigia não dorme”; “não mexe comigo que não ando só”, “não mexa com o povo da calunga, pois a cova pode ser rasa, mas a terra é profunda”, etc. 

exu do lodo
Imagem de Exu do Lodo. Wikipédia

Diz que o exu só faz o bem, mas cultua imagens com cifres, dentes vampíricos, pés de bode... Fazem giras que parecem open-bar, médiuns que terminam o trabalho bêbados... Ora, é no mínimo, bastante ingenuidade pensar que pessoas leigas vão olhar para tudo isso e concluir que de fato se trate de algo “do bem”.

Isto sem contar a quantidade de conflitos, disputas, mesquinharias e mesmo artimanhas negativas que, infelizmente, ocorrem em diversos terreiros. Quantas pessoas já me procuraram relatando coisas dignas de filmes de terror e que foram vivenciadas em seus próprios terreiros?

Sem me alongar, quero dizer com tudo isso que, ao lado de todo preconceito gestado fora da religião, existem boas razões, dentro dela, para que tais estereótipos sejam reforçados o tempo todo, seja em razão daquilo que é reproduzido nas redes sociais ou mesmo do comportamento, bastante inadequado, de um certo contingente de umbandistas. 

Para mim, isto é uma verdade tão clara quanto à luz do sol...

Quando se diz: no centro espírita X o mentor é Y, ninguém imagina que esteja se referindo ao mentor do crime e, sim, ao mentor espiritual, a entidade que dirige os trabalhos, certo?

A palavra mentor pode significar ambas as coisas, dependendo do contexto. Pode tanto falar para o bem, quanto para o mal e a mesma coisa se aplica a palavra exu, no que se refere aos espíritos.

Quando se fala em exu, no contexto da Umbanda, naturalmente deve-se pensar que estamos falando de entidades que apenas trabalham para o bem, pois em casas sérias, fundamentadas, não há espaço para outro tipo de entidade. Se é terreiro sério, exu só pode trabalhar para o bem.

Mas, e fora da Umbanda?

Uma boa parte dos estudiosos resolveu adotar um caminho mais simplista para resolver o problema, afirmando que exu só faz o bem, porém, outras entidades, maléficas, se manifestam por aí e usam os nomes de exus, sem o serem, de fato.

Esta simplificação coloca aos exus como sendo propriedade da Umbanda, um conceito típico dela (apesar de não ter surgido nela) e produz, no meu entender, uma compreensão equivocada, pois existem outras religiões/cultos em que se manifestam exus e eles não estão necessariamente compromissados com o bem.

Aqui, voltamos à pergunta inicial do texto: mas então, exus são bons, são maus, são ambíguos? 

E eu respondo: existem exus bons, exus maus e exus ambíguos... O que precisa ficar claro é que, no universo da Umbanda, só há espaço para exus que trabalham em favor do bem, fora dela, contudo, há espaço para tudo. 

Porém, há quem diga que exu é uma “força” neutra e que assume o aspecto moral do local onde é evocado. Isto é, se tal exu trabalha num terreiro de Umbanda e lá se faz apenas o bem, ele assim se comportará. Mas, caso venha a se manifestar num terreiro onde não necessariamente se faz apenas o bem, ele assim se comportará.

Isto é, nesta concepção, exu é realmente como uma força que se molda ao local em que se manifesta. Porém, nada do que vi, ouvi e conversei com os próprios exus, através de diversos médiuns, atesta esta posição que, no meu entender, é fantasiosa.

O processo é mais simples: se tal local é bom, todas as entidades que ali atuam, do preto-velho ao exu, são necessariamente compromissadas com o bem. Se num outro terreiro se faz o bem e também o mal (apesar de ser incoerente), então, tal comportamento atrairá entidades que também agem assim. Da mesma forma que terreiros que abertamente fazem o mal, contarão como trabalhadores espirituais entidades que também fazem o mal.

Não é que a mesma entidade atua de forma diferente em diferentes terreiros. Se ela trabalha para o bem num terreiro, jamais aceitará fazer o mal em outro. Contudo, muito além dela, existem milhares de outras entidades que aceitariam fazê-lo, até porque vivemos num mundo em que o mal anda ombro a ombro com boa parte das pessoas...

Cargo

Exu é um cargo. Como um segurança, um policial do Mundo Espiritual. Sua função é fazer a proteção espiritual de pessoas ou locais que lhes sejam importantes, como o terreiro, por exemplo.

Os que atuam na Umbanda, não atuam para impedir que o médium seja assaltado ou tenha seu carro roubado, como muitos imaginam (apesar de poderem ajudar), atuam para proteger o médium e seu terreiro dos ataques das trevas. 

Cada pessoa ajudada num terreiro sério, volta para casa com o coração mais leve, a cabeça em paz e sua fé em Deus renovada. Muitas destas pessoas sofrem perturbações espirituais e tais obsessores, muitas vezes, querem atacar o terreiro ou o médium através de quem a pessoa recebeu a ajuda, para impedir que tal trabalho continue, que tantas outras pessoas sejam ajudadas... Aí entram os exus, nos livrando de todo o mal que atraímos por simplesmente fazer o bem e não para limpar as “cagadas” que nós mesmos fazemos com nossos comportamentos equivocados...

Porém, nada indica que tal cargo seja exclusivo da Umbanda, até por ser anterior a ela. Assim, terreiros que fazem o mal também possuem seus exus; muitas bocas de fumo também; muitos bandidos de toda ordem também possuem a simpatia e proteção de exus, só não são os mesmos que atuam em terreiros sérios!

Ao invés de simplificarmos a questão, dizendo que exu só faz o bem e quem diz o contrário é mal-informado ou pilantra, parece-me muito mais honesto olhar para a questão como ela de fato se apresenta, pois são os próprios exus que me ensinaram este sistema que acabei de explicar.

Tudo em matéria de espiritualidade é sintonia. Não basta escrever “Terreiro de Umbanda”, na fachada de uma casa, para que o que se faça lá dentro seja, automaticamente, típico da Umbanda, como também não basta dizer-se umbandista para atrair a simpatia dos bons espíritos... É sobretudo na prática, no dia-a-dia, com base no caráter de cada trabalhador que a “egrégora” espiritual do terreiro se forma. 

É isto que garante a assistência de bons pretos-velhos, bons caboclos e também de bons exus. 

Leonardo Montes


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