sábado, 31 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 36: FIM DO DESENVOLVIMENTO?


No momento em que escrevo esse texto (24/06/2016) nada mudou em minha mediunidade de incorporação. O que descrevi para vocês é exatamente como tenho trabalhado até o presente. Porém, uma nova mediunidade começa a nascer em mim: a audiência espiritual. 

Há algumas semanas comecei a perceber algo diferente. Não parecia a costumeira intuição, nem a sempre presente inspiração. Eu tinha a nítida impressão de ouvir uma voz, mas não dentro da minha cabeça e, sim, fora. Como se alguém sussurrasse em meus ouvidos de forma a poder compreender algumas sentenças bem completas. Vamos aos exemplos. 

Estava trabalhando quando tive a impressão de ouvir o Pai José do Congo dizer, de forma lenta, como se fosse um ditado: fulana precisa descansar mais. Fulana é uma amiga nossa e médium. Para minha surpresa, tão logo chego em casa minha esposa me disse que ela estava internada, pois sofreu tonturas. Por esses dias, estávamos em dúvida se a próxima gira seria de caboclos ou pretos-velhos e tive a impressão de ouvir uma voz firme dizendo: Caboclo! 

Ocorreram poucas manifestações até o momento deste novo gênero mediúnico para mim, mas como já havia sido instruído previamente que isso cedo ou tarde aconteceria, estou encarando com naturalidade, se é que esta mediunidade se tornará mais intensa... Portanto, caro leitor, tenha sempre em mente que o desenvolvimento nunca terá fim. 

Novos gêneros de mediunidade podem surgir para você conforme o trabalho que você vier a construir aqui na Terra. Não seria de surpreender se, de repente, além da incorporação, você viesse a desenvolver outros dons, mesmo a tão rara e apreciada psicografia. Tudo depende da tarefa que, como médium, você terá que executar e dos seus esforços como indivíduo perseverante no bem e representante da luz - ainda que imperfeitamente -, na Terra. 

De uma coisa, porém, nunca se esqueça: há sempre com quem aprender e a quem ensinar e é sempre tempo de recomeçar e reaprender.

Leonardo Montes

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DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 35: DESOBSESSÃO


Não tenho a menor dúvida de que a desobsessão ajudou e muito o meu desenvolvimento mediúnico. Nas giras convencionais temos que aprender a reconhecer e a trabalhar com apenas uma ou duas entidades. Na desobsessão, nunca se sabe que espírito se manifestará. 

Atuei durante pouco mais de um ano na desobsessão, que ocorria toda segunda-feira. A princípio como esclarecedor e, depois, como médium de incorporação. Recebia, principalmente, suicidas e perdidos, mas também recebia assassinos, assassinados, enlouquecidos, etc. 

Essa grande variedade de manifestações, embora me causasse enorme cansaço e, por vezes, muita dor no corpo (se se manifestava um suicida que deu um tiro em sua cabeça, eu sentia muita dor de cabeça) fez com que eu evoluísse como médium. Se antes eu demorava alguns minutos para incorporar, na desobsessão isso se tornou segundos. 

Grande variedade de espíritos, grande variedade de sofredores, maior flexibilidade para energias diferentes, melhor médium eu me tornava. Sei, contudo, que não são todas as casas de Umbanda que mantém reuniões de desobsessão. A maioria faz apenas o “puxado” que é quando o espírito se manifesta ali mesmo, na gira. Mas, se a casa que você frequenta tiver desobsessão ou qualquer outro tipo de serviço mediúnico, eu sugiro que você participe, pois a exposição a tantos tipos diferentes de espíritos e energias irá acelerar muito o seu desenvolvimento. 

Posso dizer que a desobsessão foi um divisor de águas no meu desenvolvimento mediúnico e, ao contrário do que possa parecer, não causa nenhum prejuízo ao médium ainda em desenvolvimento... Porém, como em tudo, é preciso calma e prudência, além do aval dos chefes para ingressar ou não um novo médium nesse tipo de trabalho.

Leonardo Montes 

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DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 34: ENVOLVA-SE


Defino envolvimento como uma relação de amor, onde você faz coisas pelo simples prazer de estar ali e poder viver aquele momento. Quando comecei a frequentar o terreiro, sentia-me como alguém que visita uma cidade nova e se encanta com tanta coisa diferente. As entidades me acolheram muito bem, deram-me liberdade para pesquisar, perguntar, questionar à vontade. 

Quando comecei a me desenvolver, fui auxiliado sem preguiça pelas bondosas almas, sempre prontas a me esclarecer e orientar. Parecia um sonho! Eu finalmente encontrara a casa espiritual que a vida toda procurara... Eu trabalhava o dia todo e não via a hora de chegar ao terreiro, ansioso por saber o que aconteceria, como seriam os trabalhos, o meu desenvolvimento, o que sentiria essa semana? Com o tempo notei, contudo, que nem todos os médiuns pareciam sentir igual. 

Muitos chegavam desanimados, reclamando, mostravam-se frustrados, apáticos. Alguns preferiam ficar do lado de fora batendo papo, mesmo a espiritualidade recomendando que entrássemos e nos concentrássemos... Ao fim dos trabalhos não queriam permanecer para o desenvolvimento dos médiuns novatos. Olhavam para o relógio o tempo todo. 

Se algum chefe demonstrasse interesse em ficar mais um pouco para alguma conversa, mostravam-se contrafeitos, quando não pediam para sair no meio da conversa... Se planejávamos uma ação de caridade, apareciam meia dúzia de médiuns... Enfim, parece-me sumamente importante que você, como médium, não se preocupe apenas com o seu desenvolvimento, com o seu trabalho. Você é parte de uma engrenagem que faz parte de um mecanismo maior que é o terreiro. 

Quanto mais você se envolver nas atividades do terreiro, melhor irá se sentir naquele local, isso facilitará, inclusive, a sua concentração e mostrará às entidades o quanto, de fato, você está empenhado em fazer o bem, o que pode mesmo acelerar o seu desenvolvimento mediúnico, já que eles ficam muito contentes quando desenvolvem médiuns que se encantam com a espiritualidade mesmo quando não estão incorporados...

Leonardo Montes 

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terça-feira, 20 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 33: REFORMA ÍNTIMA


A maioria dos médiuns Umbandistas que eu conheci não gostava de estudar e, muito menos, esforçar-se por se tornarem melhores enquanto indivíduos. Em nossa antiga casa, implantamos um estudo e apenas cinco pessoas, quando muito, apareciam... No dia de trabalho, eram 20; nos estudos, cinco. 

Muitos diziam não ter tempo para vir ao estudo, mas arrumavam tempo para não faltar da gira e se fosse da esquerda, o que ocorria sextas à noite, não faltava um... A bem da verdade, mesmo sabendo que na Terra a imperfeição impera e não desconsiderando que eu mesmo sou muito imperfeito, devo dizer que as pessoas mais complicadas que eu já encontrei no campo espiritual estão dentro da Umbanda, isso tanto presencialmente quanto virtualmente. 

Não desejo menosprezar meus colegas de religião e muito menos a mim mesmo, contudo, é notório aos meus olhos a diferença existente entre o “comportamento típico Espírita” e o “comportamento típico Umbandista” e isso me chocou muito, pois eu via pessoas que dentro do terreiro se esforçavam muito para serem ótimos trabalhadores, cambones ou médiuns, mas bastava pisar fora do terreiro que todo aspecto mundano da personalidade do sujeito tomava novo vulto, sem maiores reflexões ou pudores. 

Não tenho dúvidas de que no Espiritismo há também muitas pessoas complicadas... Mas, pelos anos em que trabalhei em centros espíritas, elas procuravam minimizar isso ou pelos menos disfarçavam muito bem... O Espiritismo tem um apelo muito forte à reflexão, ao entendimento, ao exame da própria consciência e isso começa desde cedo, na evangelização infantil, o que normalmente não ocorre na Umbanda, malgrado os sempre belos ensinos morais dos guias... 

O Umbandista precisa conscientizar-se de que não basta apenas ser um excelente médium ou um excelente devoto de tal Orixá, é preciso que se torne uma excelente pessoa, o que exigirá um grande esforço e uma longa caminhada para conhecer a si mesmo, identificar as próprias imperfeições e traçar estratégias para vencê-las. Penso que, hoje, é indispensável o médium não apenas estudar e buscar conhecimento, mas que igualmente se dedique à sua reforma íntima, tornando-se uma pessoa melhor... Não dá para querer ser uma pessoa fora do terreiro e outra dentro dele!

Leonardo Montes

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sábado, 17 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 32: VAIDADE

espelho

A vaidade é, sem dúvida, um dos maiores perigos a que o médium estará exposto. Ela pode se manifestar de várias formas e mesmo o mais firme dos médiuns está sujeito a ela. A vaidade na mediunidade geralmente se manifesta quando o médium superestima sua capacidade mediúnica ou as entidades com quem trabalha ou quando passa a se sentir agraciado com os créditos que na verdade são direcionados às entidades. 

É preciso combatê-la ainda em seu nascedouro. Se esperarmos demais, ela pode estar com raízes profundas o suficiente para resistir com força ou mesmo chegar ao ponto em que se torna impossível extirpá-la sem maiores danos. Se o médium possui uma faculdade pouco comum, como a vidência (capacidade de ver os espíritos) ou a psicografia, certamente as pessoas o colocarão num patamar diferenciado dos demais. 

Tais faculdades não são muito comuns, mas extremamente apreciadas pelas pessoas necessitadas, de modo que muito rapidamente esses médiuns se tornam famosos e bastante procurados. Como os médiuns, geralmente, são espíritos endividados com o passado, muitos podem trazer ainda a chaga da vaidade que frequentemente é instigada pela bajulação daqueles que, em busca de suas faculdades mediúnicas, ultrapassam as fronteiras do bom-senso, chegando mesmo a investigar o que o médium posta em suas redes sociais para descobrir seus gostos, derretendo-se em gentilezas, presenteando-o com regalias, enfim, uma série de tentações que o colocam perigosamente no limiar de um abismo. 

Cabe lembrar, ainda, que a vaidade não representa perigo apenas para o médium. Certa feita conheci um senhor que se gabava aos quatro ventos por ter sido cambone (auxiliar da entidade quando incorporada) de uma entidade e dava verdadeiros ataques pelo simples fato de ver outros médiuns usando o nome da referida entidade em seus perfis do facebook... Chegou mesmo ao ridículo de ameaçar de processo quem usasse o nome da entidade sem sua prévia autorização (como se os espíritos tivessem donos...). 

Noutra ocasião conheci uma senhora que se apresentava sempre com muita humildade, sempre fazendo menção de que somos todos iguais, que ninguém é melhor do que ninguém até que pude surpreendê-la num diálogo com um jovem rapaz que apenas lhe questionou uma informação, ao que ela respondeu: “Quem é você pra me questionar? Antes de você pensar em nascer eu já era mãe de santo” e outras coisas do tipo. A vaidade no meio religioso tem feito e continuará fazendo muitas pessoas caírem. 

É preciso, sempre, manter os olhos bem abertos e lembrar que somos apenas instrumentos, engrenagens de um mecanismo muito maior do que podemos supor... Contudo, é importante considerar que lutar contra a vaidade não quer dizer abstenção de elogios e incentivos. Há casas que proíbem as pessoas de fazerem quaisquer elogios aos médiuns ou às entidades, de baterem palmas após uma palestra, etc. O que se deve combater é a bajulação descabida e imprópria, mas o estimulo construtivo no bem deve sempre ser incentivado.

Leonardo Montes 

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DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 31: OS GUIAS TAMBÉM ERRAM


Os espíritos que atuam nos terreiros são chamados de falangeiros. São espíritos ainda imperfeitos, embora muito melhorados em relação à humanidade comum. Todos tiveram existência Terrena e alguns, quando nos dão a conhecer suas histórias, falam abertamente sobre seus erros do passado e afirmam ainda terem dívidas a pagar. Estou ciente de que isso possa causar polêmica, mas como meu objetivo é compartilhar a minha experiência da forma mais precisa e honesta possível, preciso dizer a verdade... 

Vejo muitos companheiros de fé falando das entidades como se fossem anjos de luz baixando à Terra e preciso dizer que isso está muito longe da verdade, pelo menos, da que tenho observado... Nossos guias (faço uma distinção entre guias – direita - e guardiões - esquerda) são, sim, espíritos em franco progresso espiritual. Espíritos que venceram a maioria das dificuldades em que ainda nos demoramos e, por isso, assumem a posição de guias: eles estão alguns passos à nossa frente! E embora possuam maior capacidade de auxílio, ainda são falíveis. 

Aliás, já tive oportunidade de conversar com alguns sobre suas reencarnações futuras e um deles chegou a me dizer que após o desencarne de todos os médiuns da casa, iria se encarnar para quitar antigos débitos e que contaria com nosso auxílio espiritual quando estivesse envolvido pela matéria... É por essa proximidade evolutiva que chamamos os guias de pai/mãe, avô/avó. 

Eles são como parentes que nos amam e que nos auxiliam na subida até onde se encontram, distanciados de nós alguns passos na senda do progresso. Esclarecido isso é preciso dizer que os guias também erram. Muitos talvez objetem que não, que o médium erra, mas não o guia... Mas, isso não é verdade. A respeito de o médium errar, isso já foi explicado no capítulo anterior, agora, é preciso entender o que leva um guia a errar. 

Certa vez vi uma entidade se manifestar e dizer que os trabalhos que ocorreriam em tal lugar seriam maravilhosos e na verdade foram um desastre completo. Tanto o médium quanto a entidade eram extremamente confiáveis. Então, o que aconteceu? Alguns espíritos conseguem ver o futuro de forma mais ou menos precisa e por um tempo mais ou menos longo. Mas, quando o veem, eles na verdade estão vendo um possível futuro. 

O futuro se apresenta como vários caminhos que, conforme as atitudes levarão a possíveis desfechos. Naquele momento a tendência dominante era de que tudo seria muito bom, mas acontecimentos que atrapalharam a caminhada mudaram completamente o rumo das coisas, resultando em um futuro diferente daquele que o guia achou que seria o mais plausível. 

No processo que defini antes como “leitura mental”, por exemplo, o guia pode não fazer uma correta interpretação das emoções da pessoa, dando um feedback, pelo menos em parte, incorreto. É claro que aqui fica muito difícil dizer que não foi o médium que entendeu errado, mas já conversei com uma entidade em que ela mesma me disse não ter entendido ou, pelo menos, feito a leitura pouco precisa das necessidades do consulente. 

Destaco, porém, que me parece ser extremamente raro um guia errar neste processo já que eles têm percepções que nós não temos. E, se acontecer, o médium não precisa se constranger... Ao contrário, deve perguntar a entidade o que aconteceu, por que motivo errou, etc. Não tenha dúvidas: as entidades são muito mais humildes do que nós e certamente assumirão o erro, se vierem a cometê-lo. 

Um diálogo franco, direto e fraterno, seja entre os filhos de fé, seja entre os filhos e os guias é fundamental para que ambas as equipes, espiritual e material, venham a se entender e construírem, juntas, um sólido e lindo trabalho espiritual num mundo onde não há - nem pode haver - perfeição!

Leonardo Montes 

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terça-feira, 13 de julho de 2021

BANHO DE MARAFO?

 

marafo

A pergunta de hoje é: Ouvi uma pessoa relatar que foi a um terreiro numa gira de esquerda e o Exu que a atendeu recomendou que ela fosse a uma encruzilhada a meia noite em ponto, levasse uma garrafa de pinga e jogasse da cabeça aos pés e ao terminar, jogasse a garrafa pra trás sem olhar. Gostaria de entender pra qual situação é indicado esse tipo de trabalho? – Grato pela pergunta, ES.

O “banho de marafo” é uma prática antiga de limpeza profunda. Contudo, da forma como trabalho, ele não é indicado para caso algum, simplesmente, pela imensa dificuldade de se realizar tal coisa.

Imagina como ficaria uma pessoa ensopada com cachaça da cabeça aos pés? Ela andaria na rua assim? Entraria no seu carro molhada? Simplesmente, não faz sentido.

Além do mais, não fazemos nada em encruzilhadas (afinal, para alguém é uma encruzilhada, para outro, é a esquina da sua casa e, mesmo que não seja, é uma forma de poluir o local).

Então, em minha opinião, embora a cachaça realmente tenha esse poder de limpeza, trata-se de uma prática antiquada, haja vista que se pode obter o mesmo efeito fazendo um banho com ervas fortes, como arruda, guiné, manjericão, por exemplo, em casa mesmo e sem todo esse constrangimento.

Quer fazer sua pergunta? Envie para: canalumbandasimples@gmail.com

Leonardo Montes

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sábado, 10 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 30: MEDO DE ERRAR


Todo médium que se preze tem medo de errar. Tem medo de estar sendo mistificado. Tem medo de estar enganando a si mesmo na incerteza de estar ou não incorporado. E isso é ótimo! Sim, eu sei que é desagradável sentir medo, seja do que for... Porém, o medo de todas essas coisas que eu citei indica que você tem caráter. O que assusta são médiuns que não tem medo de nada, que colocam tudo na conta da “entidade”, isso, sim, assusta... Preciso dizer, contudo, que este medo nunca vai cessar. 

Com o tempo, você se acostumará com o trabalho e se entregará mais facilmente, mas a ansiedade e expectativa sempre estarão com você. Conheci uma senhora com 50 anos de mediunidade e embora ela trabalhasse com uma naturalidade incrível, me confessou que, pelo menos às vezes, ela sente uma pontinha de insegurança. Se você tem medo de errar, de não consolar a pessoa, de não passar direito o recado do guia, saiba: é absolutamente normal! Agora, o que vou explicar precisa ser entendido com muita atenção: Você vai errar! Sim, é isso mesmo... 

Você vai fazer o resguardo, vai se preparar, vai se concentrar e, ainda assim, haverá dias em que você não conseguirá passar corretamente o recado do guia, podendo, inclusive, causar um efeito negativo a partir disso... Eu já vi isso acontecer, inclusive, com médium inconsciente e que, trabalhando com raiva, a mesma transparecia em seus guias... Não que os guias ficassem com raiva por que o médium estava com raiva... Mas, a mensagem era contaminada no processo (uma vez que inconsciência não pressupõe isenção da mente, mas apenas sonolência da mesma). 

Se o guia queria dizer: você precisa ter mais paciência... Normalmente diria com amor, com bondade. Mas, o médium estando nervoso, a frase poderia até sair em sua sentença completa, mas teria tom áspero, rude... É a contaminação da mensagem pelo estado emocional do médium... E se isso acontece com médium inconsciente, imagina com o consciente? Então, não tenha dúvidas: você vai errar! Afinal, você é humano e embora os espíritos possam te chamar de “aparelho”, você não é feito de engrenagens e circuitos, mas de carne e osso. 

Afaste o desejo de perfeição num mundo imperfeito! Uma vez estando claro que você vai errar, resta saber o que se pode fazer a este respeito e, aqui, penso, cabe um diferencial que poderá te destacar como médium: a humildade. Nunca pense que seus guias são infalíveis (eles também erram...) ou que você é um médium “banda-larga” conectado com o além de forma incorruptível... Tenha humildade para aceitar seus erros e, principalmente, deixe as pessoas e entidades à vontade para te falarem sobre isso. 

Eu conheci médiuns que demoraram muito para se desenvolver por que não tinham abertura para aceitar o contraditório. As entidades queriam alertar que estavam errando, que estavam passando à frente delas, mas como se melindravam muito facilmente, o alerta vinha por rodeios, sem atacar tanto o ego, mas isso fazia o processo de desenvolvimento demorar mais do que o necessário. Se estes médiuns tivessem mais humildade e aceitassem que são falíveis, as entidades iriam orientá-los com maior precisão e eles aprenderiam, mais rapidamente, a fazer a distinção do que de fato é da entidade e do que é deles... Conheci, inclusive, uma médium que, vindo de uma casa menos criteriosa, trabalhava há anos como médium sem nunca, de fato, ter incorporado. 

O máximo que ocorria é a entidade se aproximar e entrelaçá-la fluidicamente, dando-lhe uma leve sensação de sua presença espiritual. E como era uma senhora extremamente melindrosa, os espíritos a incluíram no desenvolvimento, onde ela deveria caminhar com todos os que estavam iniciando, mas não demonstrava o menor interesse em aprender, até que terminou por se afastar da casa... Em outra situação, vi uma médium iniciante que, incorporada e tendo exagerado na bebida, se atirou nos braços de um médium amigo, tentando beijá-lo, desculpando-se, depois, pelo deslize da sua pombagira... 

Não me parece minimamente crível que uma entidade tente fazer isso, mas se a médium alimenta esse desejo, a bebida deixa-o transparecer mais facilmente... Como todo médium eu também sempre desejei fazer o melhor. Sempre desejei acertar e sentia, também, muito medo de errar. Como narrei anteriormente, no processo que em fiquei bêbado no terreiro, o Pai Cipriano falou abertamente comigo sobre isso, explicando-me o problema da minha concentração e de como isso poderia me afetar. Ali aprendi que a abertura para que outras pessoas ou mesmo as entidades nos orientassem sobre nossos erros é fundamental para nosso crescimento mediúnico. 

Sem dúvida, quando errava, eu sentia vergonha, receio no próximo trabalho, medo de errar novamente... Mas, com o tempo, fui aprendendo a confiar mais no processo e a não me culpar tanto pelos erros que pudesse ter cometido, tendo ciência de que ali estou de corpo e alma para servir, ainda que imperfeitamente...

Leonardo Montes 

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DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 29: PAI-DE-SANTO

médium

Muitas casas de Umbanda seguem a forma de trabalho onde se elege um pai-de-santo, isto é, um sacerdote para o templo e orientador espiritual dos membros da casa. Pessoalmente, não concordo com este sistema e nunca adotei nenhum pai-de-santo em minha vida. Nos capítulos anteriores vimos como as pessoas podem ser complicadas e isso, logicamente, se estende ao pai-de-santo... 

Soube de muitos casos em que a relação pai/filho-de-santo não era boa e terminou em brigas, desavenças de todos os tipos e mesmo ataques pessoais. Claro, há sempre exceções. Pude conversar com pessoas que tiveram maravilhosos pais e mães-de-santo que personificavam não apenas um cargo, mas uma figura amiga, caridosa, conselheira, alguém que realmente tinha o respeito de seus filhos de-fé. Na casa onde desenvolvi, contudo, não tínhamos um pai-de-santo. Tínhamos um presidente para fins legais e um médium principal, através do qual, podíamos conversar com as entidades-chefes, estas sim, as verdadeiras chefes-de-terreiro. Deixávamos às entidades a chefia do nosso trabalho. 

Entretanto, mesmo aqui, é preciso considerar o seguinte: a chefia do terreiro não pode ser impositiva e autoritária. As entidades precisam de nós para trabalhar tanto quanto nós precisamos delas. Cria-se, assim, um sistema de parceria, onde, temos total liberdade para dialogar com os chefes e mesmo discordar deles, se for o caso. Sem essa abertura, aí sim os médiuns se tornam mesmo “cavalos”, esperando apenas o chicote nas costas para poder trabalhar... Creio que esse tempo já passou. 

Talvez o amigo leitor se surpreenda com essas palavras, mas elas representam uma experiência real. Muitos talvez se perguntem: mas, quem é que cuida de vocês? E a resposta é: nós mesmos! Não sentimos a necessidade de escolhermos alguém para nos orientar e dirigir, senão, a nossa própria consciência, sempre respaldada pelos ensinos e conselhos de nossos guias. Cada um, assim, se torna o responsável por si mesmo, seu mestre ou seu feitor, prestando conta do que fez de bom ou ruim à Deus e não aos homens tão falíveis como quaisquer outros... 

Apoiamo-nos uns aos outros dentro de nossas possibilidades, estabelecendo uma fraternidade entre os membros da corrente sem que haja um que esteja acima dos demais: estamos todos no mesmo barco! Alguns me perguntam: Mas, você é pai-de-santo? Ao que respondo: Não sou nem quero ser! Sou apenas um médium como qualquer outro, lutando dia-a-dia para vencer minhas imperfeições e ser uma pessoa melhor. 

Devo deixar claro, contudo, que não sou contra o sistema de filiação-de-santo, apenas que não o sigo. Na casa onde desenvolvi não o adotávamos e onde trabalho atualmente, continuamos a não adotá-lo e tudo tem dado muito certo.

Leonardo Montes

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