domingo, 27 de junho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 28: AMIZADE FORA DO TERREIRO

amizade

Nada mais comum e desejável que os amigos que se faça dentro do terreiro possam sê-lo fora dele. Realmente, eu pude sentir isso e estabeleci laços de afeto com pessoas que, em outras ocasiões, certamente não cruzariam meu caminho, dada a diferença de personalidade e interesses. Este é, porém, um momento perigoso na vida do médium iniciante e que exige muita cautela. Por vezes, o seu companheiro de terreiro não é uma boa companhia para se ter na vida privada... 

É preciso ter tato e, principalmente, discernimento. Presenciei alguns episódios onde pessoas, empolgadas por um ideal em comum, buscaram estreitar laços fora do terreiro e isso não deu muito certo. É preciso considerar, sempre, que os médiuns são - quase todos -, espíritos tremendamente endividados com o passado e não se pode esperar que passem a viver valores nobres da noite para o dia... Você pode ter muito apreço pelas entidades de um determinado médium, mas daí este médium agir conforme as entidades pregam por sua boca, o passo é grande... 

Logo, amizades que, a princípio, pareciam promissoras e frutíferas, terminaram por se mostrar desgostosas a ponto de prejudicar, inclusive, o trabalho que realizavam em conjunto dentro do terreiro, obrigando, por vezes, à mudança de casa. O seu companheiro, irmão de corrente, pode mostrar um vivo ideal de trabalho dentro da casa, mas somente quando você o conhecer sem "o branco" é que poderá avaliar se realmente se trata de uma pessoa que vale a pena trazer para sua vida e para seu lar. 

Infelizmente, entre amizades cujo fim foi negativo, figuram casos, por exemplo, de traição. Pessoas que se mostravam como irmãos-de-fé e que, na primeira ocasião, não se importavam em lançar olhares maliciosos aos cônjuges... Por outro lado, também vi verdadeiros laços de amizade surgirem e produzir bons frutos. Pessoas que, a princípio, mal se cumprimentavam, hoje são amigos inseparáveis. Seus filhos estudam juntos, brincam juntos, suas esposas visitam-se, uma bela relação. 

Como em qualquer outro setor da vida humana, estabelecer um laço de amizade requer muito cuidado, atenção, envolvimento e muita observação, não é por que a pessoa é Umbandista e médium do mesmo terreiro que você que ela se torna uma boa companhia para sua família.

Leonardo Montes

Share:

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 27: ANTIPATIA DENTRO DO TERREIRO

casal discutindo

Como dito em capítulo anterior, os médiuns são pessoas comuns e, às vezes, possuidores de chagas morais que tornam a convivência com seus irmãos de fé um verdadeiro desafio. Entretanto, da mesma forma que o médium tem que silenciar sua mente para que a entidade possa falar, ele precisa silenciar suas inimizades para que os guias possam trabalhar. 

Acompanhei de perto o caso de dois senhores amigos que, de repente, passaram a se evitar dentro do terreiro... Certa noite, durante a gira, ambos incorporados com seus caboclos começaram a discutir no meio do trabalho, a ponto do guia-chefe intervir para abafar o falatório... 

A casa estava cheia, pessoas necessitadas, aflitas, doentes e ali dois caboclos, simplesmente, brigando na frente de todo mundo... Ou será que a antipatia pessoal entre os médiuns falou mais alto e ambos deixaram isso transparecer? Não fingiram incorporação... Ela apenas se deu de modo incompleto. Não houve perfeito alinhamento dos chakras entre entidade/médium de modo que atuação dos guias ficou severamente restrita a mero reflexo corporal... As línguas chicotearam-se por conta própria... 

Em outra ocasião, uma médium muito experiente contou-me algo curioso, dizendo só ter adquirido verdadeira confiança em sua própria mediunidade quando uma pessoa por quem nutria extremada antipatia visitou a casa em que trabalhava e acabou passando com seu guia, sendo amplamente atendida em suas aflições sem que ela própria sentisse a menor repulsa naquele momento. 

Tão logo desincorporou, a revolta bateu-lhe à porta... Sem dúvida, o desejável é que haja entre todos os membros da corrente os melhores sentimentos. Mas, além das dificuldades pessoais que cada um carrega em seu íntimo, é preciso considerar que, por vezes, os membros de um trabalho espiritual já se encontraram em algum lugar do passado e podem ter estabelecidos ligações complicadas e, por vezes, dolorosas que vão se manifestar agora - embora sem a lembrança clara do motivo -, em forma de aversão... O mínimo necessário para que uma casa se mantenha e um trabalho se sustente é o respeito. 

Leonardo Montes 

Share:

TERREIRO COMO ÚLTIMO RECURSO

imagem de fé

Existe uma concepção bastante equivocada no universo da Umbanda que afirma ser o terreiro uma espécie de último recurso quando tudo o mais falha. Esta concepção produz um senso utilitarista do terreiro e é isto que explica o fato das pessoas não se interessarem muito por outras atividades que não sejam as consultas espirituais.

Em razão da pandemia, por exemplo, suspendemos as giras, porém, ofertamos um trabalho de passes (sem a incorporação) como forma de manter os trabalhadores ativos e também oferecer alguma assistência aos frequentadores. No entanto, curiosamente, o número de interessados é muito pequeno se comparado ao número de participações das giras.

O terreiro é o mesmo. Os médiuns são os mesmos. Os passes são os mesmos. Até os guias que ali estão dando o suporte ao trabalho são os mesmos. Apenas não ocorre a incorporação...

O que atrai, então, as pessoas ao terreiro? O clima de paz? A sensação de bem-estar? A oportunidade de estar num templo para vivenciar a religião escolhida? 

Ou será que são os fenômenos? As incorporações? A oportunidade de conversar com uma entidade que, em última instância – precisamos reconhecer – quase sempre não dirá nada que a pessoa já não saiba?

O triste é que esta visão está, inclusive, entre os próprios médiuns e cambones que, frequentemente, apontam o terreiro como um último recurso, especialmente, aos sofredores, como a dizer: vai no terreiro que lá você cura.

Mas, o terreiro cura? O terreiro salva? O terreiro produz mais “milagre” do que uma igreja, um centro espírita? A Umbanda é mais forte que o Espiritismo? A Umbanda é mais forte que uma igreja evangélica?

Hoje farei apenas perguntas, deixando uma mensagem para nossa reflexão:

“E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.” Lucas 7:50

Leonardo Montes


Share:

segunda-feira, 21 de junho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 26: CAMINHO RETO

estrada

Pai Cipriano das Almas uma vez me disse uma frase inesquecível: médium não é santo, se fosse, estaria no Altar, não no terreiro. Essa frase é bastante emblemática. A maior parte dos médiuns são espíritos com pesadas dívidas com o passado e a mediunidade surge como ferramenta de aperfeiçoamento e meio de quitar antigos débitos... 

Seguindo este raciocínio, não é difícil entender por que os médiuns possuem os mais diversos defeitos: desde falhas gravíssimas de caráter (mediunidade não é sinal de evolução), até pequenos desafios cotidianos comuns a todas as pessoas na Terra. Por isso, quando o médium resolve desenvolver-se, ele não está apenas assumindo um compromisso de servir de instrumento à manifestação do espírito em prol da caridade, ele também está assumindo o compromisso de melhorar-se como pessoa e será cobrado por isso. 

Há um ponto que diz: “não adianta bater no peito, saudar a encruza, e não agir direito... Viver só de traição, fazendo inimigos, maltratando seus irmãos... Ninguém engana a nenhuma entidade, por que exu é a própria verdade”. 

Certa vez um rapaz que estava se iniciando na mediunidade passou com meu exu para consulta e, tenho certeza, saiu dela muito pensativo. Ele foi advertido, severamente, em relação às traições que estava praticando, dividido entre duas moças, ambas enganadas. É ingenuidade pensar que um exu toleraria esse tipo de comportamento... 

Quando se trata de um preto-velho, a bronca pode ser suave, cheia de rodeios. Mas, se for um exu, é provável que ele lance a verdade nua, crua e sem pudor. Portanto, enganam-se gravemente os que pensam que podem desenvolver-se como médiuns sem mudarem, essencialmente, o que são como pessoas. 

As entidades nos acompanham, conhecem todos os aspectos da nossa vida, sabem onde erramos e onde acertamos. Elogiam-nos quando estamos certos e puxam nossa orelha quando erramos. Não esperam que nos tornemos santos da noite para o dia, mas cobram nossos esforços.

Leonardo Montes

Share:

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE: - CAPÍTULO 25: COMPROMISSO

aperto de mãos

Em capítulos anteriores eu mencionei brevemente como a mediunidade gera um sério compromisso. Basta lembrar, por exemplo, que a minha primeira atuação como médium atendendo publicamente se deu por ocasião em que vários médiuns experientes faltaram por conta da chuva e tive que agir naquele momento para suprir a ausência de pelo menos um deles. 

Geralmente, eu vejo as entidades perguntarem três vezes ao candidato à médium se ele quer, mesmo, trabalhar. Muitos negam, mas alguns dizem prontamente que sim. Entretanto, mesmo nestes casos, tenho visto as entidades exigirem provas mínimas de compromisso. Certa vez o caboclo que trabalha comigo (Uirapuru) atendeu a um rapaz e, imediatamente, percebeu sua mediunidade. 

Na conversa com o consulente, este lhe informou já ter recebido, antes, avisos sobre a mediunidade, mas sentia não ser a hora de trabalhar, pois ainda queria alcançar algumas metas profissionais. Mesmo assim, a entidade lhe alertou, dizendo que já estava, sim, na hora de começar. 

Uns três meses depois, eis que retorna o rapaz e acaba, novamente, passando com o caboclo, queixando-se das mesmas coisas de antes e, novamente, recebendo a mesma orientação: deveria trabalhar a mediunidade. Ele não aceitou. Passados mais uns dois meses, vi o rapaz novamente no terreiro, desta vez, sendo atendido por outra entidade. 

Eu já havia desincorporado e pude ouvir, ainda que de longe e imprecisamente, a entidade aconselhar, novamente, o trabalho mediúnico. Ao que parece, sem resultado algum. Em outras ocasiões, vi pessoas chegarem desesperadas ou super empolgadas ao terreiro, pedindo ajuda de todas as formas para desenvolver suas mediunidades, mas perante as menores provas de compromisso, como, por exemplo, passar a frequentar assiduamente os trabalhos de passes, simplesmente sumiam... 

É inegável que mediunidade gera compromisso. E, inegavelmente, cabe ao médium o que fazer com o compromisso assumido. Aqui, contudo, é preciso trazer alguns apontamentos. Antes de tudo, o médium tem de estar ciente de que seu compromisso é com a espiritualidade. Ele se coloca como instrumento dos bons espíritos para consolar, esclarecer, orientar, doar energias, etc. 

Como instrumento de trabalho, ele deverá entrar em ação sempre que se fizer necessário e nunca, jamais, esperar ou pedir recompensa financeira por conta disso... Se, por algum motivo, ele estiver impossibilitado de trabalhar numa casa, deverá procurar outra ou, na impossibilidade de conseguir outra casa, iniciar seu próprio trabalho, se tiver preparo para isso e seus guias concordarem, mas, nunca, deixar de trabalhar. 

As entidades que atuam na Umbanda, apesar de formarem equipes diferentes, atuam para o mesmo fim. Então, o médium não deve se esquecer que, acima da casa, existe a causa. E a causa da Umbanda, que é a caridade pelo espírito, será exercida em qualquer lugar onde haja alguém disposto a vivê-la. A casa onde desenvolvi era pequena. Cada médium servia de instrumento para o atendimento de cinco ou seis pessoas por trabalho. 

Logo, se muitos médiuns faltassem, o número de pessoas por cada entidade podia dobrar ou, em alguns casos, triplicar. Isso fazia o trabalho demorar mais do que o normal e, por consequência, os médiuns se desgastavam mais do que o esperado. Levando em consideração que a maioria tem família, no outro dia acorda cedo para trabalhar, alguns ainda fazem janta quando chegam em casa, etc., podemos fazer ideia do quanto pesa aos demais a falta de um médium. 

É fundamental que o médium tenha em mente que, enquanto ele puder trabalhar, ele deve trabalhar. Sem o desejo de me vangloriar, mas apenas para dar testemunho pessoal e real, cheguei diversas vezes molhado no terreiro para trabalhar, pois meu único veículo era moto e quando não pegava chuva na ida, pegava na volta e, nem por isso, faltava aos trabalhos, a não ser por motivo de força maior. 

Mas, então, o médium não tem o direito de faltar? Não pode, nem mesmo sob doença, deixar de comparecer? Deixará de ir, por exemplo, aos aniversários familiares se estes coincidirem com o trabalho a ser realizado? 

A resposta é: Você decide! Você vai adoecer, vai ter compromissos familiares, às vezes precisará fazer hora extra, enfim, vários motivos podem te impedir de comparecer ao terreiro e você será obrigado a faltar. Porém, existe uma grande diferença entre faltar de vez em quando e comparecer de vez em quando e, acredite, eu conheci vários médiuns que não se incomodavam em comparecer apenas de vez em quando...

Leonardo Montes 

Share: