quinta-feira, 27 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 24: ESTUDAR SEMPRE



Posteriormente, estudando sobre a história da Umbanda, descobri que muitos médiuns e dirigentes do passado não incentivavam o estudo ou tentavam reter a informação de modo que os demais médiuns precisassem sempre recorrer a eles para saber o que fazer, como fazer, etc.

Havia o pressuposto de que o melhor era o médium nada saber, pois se sua entidade soubesse, seria a prova inequívoca de que ele estava mesmo incorporado.

Nas primeiras décadas da Umbanda, vários médiuns inconscientes surgiram para dar força à religião. As entidades que por eles se manifestavam lançaram as bases de cada forma de trabalho e, para isso, era necessário dispor desse qualificativo mediúnico.

O correr dos anos, porém, fez com que a mediunidade inconsciente se tornasse cada vez mais rara... A mediunidade consciente prevaleceu como a forma comum de trabalho. Os médiuns agora eram chamados a servirem mais do que como meros aparelhos, meros cavalos... Eles deveriam participar de todo o processo e, com isso, enriquecerem-se com as experiências vividas através da sua própria mediunidade.

Ainda há quem defenda que o médium nada deva estudar ou saber... Mas, felizmente, uma onda de informações - algumas boas e outras nem tanto -, atravessa a Umbanda neste momento. Nunca tantas

pessoas produziram conhecimentos e os disponibilizaram de forma livre através da internet atingindo adeptos e leigos...

***

Eu vinha – como já mencionei – de uma educação espírita. No Espiritismo não se estuda sobre ervas. Logo, eu nada sabia sobre elas. Assim como eu, a maioria dos médiuns iniciantes no terreiro sabia pouco ou nada sobre o uso das mesmas. Muitos, vindos do Catolicismo ou do Espiritismo não tinham a menor ideia da variedade de ervas que poderiam ser utilizadas nos trabalhos de Umbanda.

Como médium consciente, se a entidade quisesse, por exemplo, recomendar um banho de Pinhão Roxo, é bem provável que eu não conseguisse traduzir corretamente essa informação, pois até bem pouco tempo eu sequer sabia que existia um Pinhão Roxo...

É claro que, com muita dificuldade, a entidade incorporada pode até conseguir transmitir o que deseja, mas pela minha experiência prática, isso se torna muito difícil e angustiante para o médium que, se tiver um pingo de bom-senso, sempre vai ter receio ao recomendar banhos ou chás de ervas sobre as quais nada sabe...

O fenômeno da incorporação não é possessão. O espírito não entra em nosso corpo e passa controlá-lo como um fantoche, senhor absoluto de tudo. A

mediunidade é, em última instância, processo de conversão e tradução de informações e, requer, sempre, um banco de dados para trabalhar.

Se a entidade incorporada souber falar japonês, com o tempo, pode criar afinidade suficiente com o médium para “forçar” uma informação que não existe previamente em seu cérebro, como falar uma ou outra palavra em japonês, mas jamais irá estabelecer um diálogo nesse idioma, a não ser que, nos arquivos da memória espiritual daquele médium – ou na atual - haja o conhecimento do idioma, mas isso é muito raro e desnecessário...

Portanto, quanto mais conhecimentos, sobre os mais diversos campos, o médium possuir, mais recursos a entidade terá para trabalhar.

Bem entendido a necessidade do estudo, talvez você se pergunte: estudar o quê? Bom, eis aí uma verdadeira caminhada que só você mesmo poderá percorrer. A literatura de Umbanda é ainda pequena, mas muito diversa e, por vezes, confusa.

Sempre me recomendaram a leitura das obras de Rubens Saraceni, mas, pessoalmente, eu não me adaptei

à forma como ele aborda a Umbanda. Na verdade, eu iniciei meus estudos da religião pelo seu viés histórico (que eu adoro) e isso tem me ajudado muito a compreender – inclusive – as coisas que vivencio dia-a-dia dentro do terreiro.

Logo, não vou indicar, diretamente, nenhum livro ou autor. Vou dizer algo mais valioso: estude o que você quiser e o que te faça bem! Tudo que você aprender ainda será pouco. Conhecimento nunca é demais!

É claro que, como médium umbandista, se torna evidente que você precisará dedicar um tempo ao estudo da religião, a fim de que sua prática mediúnica se torne cada vez mais apurada e rica. Contudo, não se feche a ponto de não estudar nada além da religião, pois o mundo lá fora é vasto, incrível e maravilhosamente rico em informações e mistérios.

Leonardo Montes

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DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 23: PENSANDO SOBRE DINHEIRO



Desde o surgimento da Umbanda, a gratuidade se estabeleceu entre os seus fundamentos. Em diversas ocasiões o Caboclo das Sete Encruzilhadas alertava aos médiuns sobre os perigos do “vil metal”, como ele chamava o dinheiro.

Nas muitas conversas que estabeleci com as entidades, elas sempre deixaram claro que não negociavam com a gratuidade. Ela deveria ser absoluta, irrestrita, incondicional. Não podendo haver, nunca, espaço para cobrança nos trabalhos ou na transmissão do conhecimento.

Portanto, estou bem certo de que a minha opinião neste capítulo poderá desgostar a muitos... Mas, como desejo compartilhar a minha vivência e aprendizado mediúnico, torna-se um dever de consciência torná-la pública, o que não fará dela – e não desejo que alguém a faça – parâmetro para coisa alguma, senão, para suas próprias reflexões... É apenas e, será sempre, uma opinião.

Mesmo sendo a gratuidade um dos fundamentos da Umbanda, encontrei algumas pessoas que pensavam de forma diversa. Alguns, alegando uma antiga “lei de salva”, afirmavam que, em casos de extrema necessidade, o médium poderia, sim, cobrar ou, pelo menos, retirar para si uma parte do dinheiro oriundo de doações, a fim de suprir suas necessidades...

Outros acabaram estabelecendo alguma taxa irrisória para os trabalhos, como a obrigatoriedade de se doar maços de velas e coisas do tipo. Atualmente, parece ser cada vez mais comum, a formação de sacerdotes profissionais que, nos moldes católicos/evangélicos, buscam viver exclusivamente de e para a religião, ganhando salários, etc.

Vejamos dois exemplos de médiuns: Chico Xavier chegou a passar fome e nunca pegou um centavo de suas obras mediúnicas. Trabalhou em restaurante, mercearia e, depois, no Ministério da Agricultura, até se aposentar. Zélio, o fundador encarnado da Umbanda, nunca viveu da Tenda Nossa Senhora da Piedade, trabalhando como qualquer outro cidadão para sobreviver... Então, por que deveríamos fazer diferente?

Também não concordo com a onda crescente de ensino Umbandista à distância onde você precisa pagar para aprender.

Eu já fiz alguns desses cursos quando estava começando e, de fato, aprendi bastante... Mas, percebo como cada vez mais isso se torna apenas um comércio... No último curso o “tutor” me parecia tão despreparado e ríspido nas respostas dadas às dúvidas de seus “alunos” que jurei a mim mesmo nunca mais fazer esse tipo de curso, até mesmo porque haviam em torno de 1500 pessoas matriculadas num curso de um mês, cada um pagando R$ 68,00 para poder cursá-lo...

A conta é simples: 68 x 1500 = 102 mil reais. Fica muito fácil, assim, ficar lançando curso atrás de curso, certo?

Como estou inscrito nestes sites, vivo recebendo e-mails

promocionais (alguns até apelativos), do tipo: preparamos uma oferta especial para você! Estamos enviando este e-mail exclusivamente para você! – a impressão que tenho é que estes caras aderiram ao marketing das grandes lojas que todo santo dia nos enviam um e-mail com uma super oferta que, no fundo, não é mais do que o de sempre...

Se a intenção é tão somente compartilhar conhecimento, por que ao invés das plataformas EAD pagas e sofisticadas não se utilizam de plataformas gratuitas e simples? Olha o YouTube aí...

Mesmo este livro e todos os demais livros religiosos que eu porventura venha a escrever não terão o lucro por foco. Eu não lucrarei um centavo com eles e isso não é um ato nobre da minha parte, é uma obrigação consciencial e religiosa. Eu estou repassando apenas o que aprendi e nunca nenhuma entidade me pediu um real ou uma vela para me ensinar as coisas que hoje sei. Devo, então, agir de forma contrária, buscando lucros com estas informações? Creio que não...

Mas, serei contrário, também, as lojas de artigos religiosos? Certamente, não! Ali se comercializam produtos que não são produzidos de graça, então, obviamente, eles têm um custo. Mas, mesmo aqui, acredito que cabe discernimento. Ora, essas lojas são necessárias, elas nos fornecem os elementos de

trabalhos que precisamos. Mas, existe um enorme abismo entre oferecer produtos e selvageria capitalista.

Eu já visitei lojas onde um terço de madeira, bastante simplório, que eu comprei por R$ 2,50 numa loja esotérica, era vendido por R$ 10,00 numa loja de artigos religiosos voltados à Umbanda. Mesmo produto, mesma marca...

Algum tempo atrás fui a uma loja de artigos religiosos para comprar um champanhe para minha guardiã e ele estava sendo vendido por R$ 16,00 reais, enquanto no supermercado próximo da minha casa, a mesma marca era vendida por R$ 5,50.

Adepto que sou do incentivo ao pequeno comércio, tenho começado a repensar essa minha atitude, pois quando tento privilegiar as lojas de artigos religiosos de Umbanda, percebo que muitas estão "enfiando a faca".

Eu já trabalhei com compras e sei como funciona o mercado, mas o que tenho percebido é que muitas lojas estão se aproveitando para lucrar absurdamente e injustificavelmente, o que tem me feito, aliás, recorrer à internet para solucionar isso... Um bom exemplo são os charutos: eu só compro pela internet, pois mesmo com o frete, a caixa ainda sai mais de 60% mais barato do que o encontrado em lojas religiosas (comerciantes, vamos ficar mais atentos aí!).

Por outro lado, a consulência também não tem consciência de que precisa ajudar e muitos dirigentes se incomodam em pedir essa ajuda explicitamente. Antigamente, deixávamos uma caixinha em formato de cofre com um papel acima pedindo doações e quase ninguém doava. Então, por votação, decidiu-se que, no encerramento, passaríamos uma toalha branca entre as fileiras para que, os que quisessem, depositassem ali a quantia desejada.

Não era obrigatório, mas as doações triplicaram. Algumas pessoas chegaram a me dizer que se sentiam incomodadas com esse procedimento e, confesso, eu mesmo sentia e votei contra... Mas, por fim, compreendi ser um “mal necessário”, pois sem essas doações, que ainda eram poucas, seria impossível manter uma casa aberta, ainda mais uma casa formada por médiuns da classe média baixa... Mas, ressalto: os trabalhos eram gratuitos, ninguém deixava de ser atendido ou era mal visto se não doasse.

As doações obtidas eram apenas para custear os gastos da casa. O custo do aluguel, água, luz e elementos para a firmeza eram muito altos, o que nos fez procurar alternativas, como comprar materiais pela internet e em grande quantidade e, mesmo assim, ainda faltava dinheiro...

Há tempos cheguei à conclusão que, geralmente, o médium de Umbanda paga para trabalhar. Eu mesmo gasto, mensalmente, algo em torno de R$ 100,00 reais,

somando contribuição e produtos para as minhas entidades e da minha esposa trabalharem. Não que eu defenda que o médium tenha que pagar para trabalhar, mas acaba sendo comum que assim o seja por falta de doações e de um meio de assegurar uma renda para casa.

Não é sem razão que muitas casas organizam bazares, feira de livros usados, bingos, jantares, a fim de arrecadar algum dinheiro para poder continuar funcionando.

Contudo, eu acredito no processo de conscientização e esclarecimento. Se cada pessoa que fosse semanalmente ao terreiro levasse um real, estou bem certo de que o médium não precisaria pagar para trabalhar. Não digo para tornar esse processo obrigatório, mas enfatizar sempre a importância da doação financeira ou de elementos de trabalho.

Não vejo o menor problema ou vergonha em, abertamente, pedir auxílio à assistência, informar sobre os gastos da casa, suas dificuldades, sua situação financeira, etc. Nada tendo a esconder, nenhuma casa precisará temer ao dizer a verdade àqueles que a procuram.

Além da contribuição financeira, existe a contribuição com serviços e as doações de elementos de trabalho. Estou bem certo de que nenhum terreiro dispensará a boa vontade de alguém que deseja varrer-lhe o chão,

ajudar na limpeza, organização, lavar um banheiro ou doar um maço de velas, uma garrafa de marafo, uma pemba, etc.

Se a pessoa não deseja ou não pode contribuir financeiramente, poderá contribuir com seu serviço ou mesmo doando algum dos elementos utilizados nos atendimentos.

Leonardo Montes 

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sábado, 22 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 22: PRECONCEITO



Não é novidade que, nos últimos anos, o preconceito religioso, travestido da sua forma mais agressiva, a intolerância, tem se tornado cada vez mais comum no Brasil. Quantos terreiros são atacados e depredados? Lamentável, mas verdadeiro.

Isso faz com que muitos companheiros médiuns busquem esconder sua religiosidade e seu trabalho. Conheci excelentes médiuns, com anos de atuação e experiência em terreiros e que o faziam de forma totalmente oculta...

Claro... Existem pessoas que são mesmo muito discretas. Mas, não é o caso da maioria dos que eu conheci. A maioria procurava atuar em terreiros bem longe da sua casa, minimizando o risco de encontrar um conhecido.

Quando chegavam ao terreiro, vinham em roupas normais, deixando para fazer a troca somente dentro do terreiro. Não procediam assim para evitar sujar a roupa branca ou coisa semelhante, mas por vergonha/medo de andar na rua trajado de branco, com as guias no pescoço, etc.

Quando resolvi entrar para a corrente também tive um pouco de vergonha. Vestir-me de branco, pela primeira vez, foi algo desconfortável. Meus pais viam com estranheza meu recente interesse pela Umbanda e,

embora não fossem contra, procuravam não se envolver diretamente.

Eu saía na rua de branco, com as guias no pescoço e ia de moto para o terreiro. Em cada parada de semáforo, percebia os olhares, cochichos e risinhos nos motoristas ao meu redor. Não me importava!

Certa vez, uma companheira de terreiro, conversando com outra próxima a mim, disse:

- O Léo vem de branco pra cá, não tem vergonha de andar na rua.

Ao que a outra moça respondeu:

- Ah, eu não tenho coragem... Morro de medo do que as pessoas vão pensar...

Eu não me contive e disse:

- E daí o que elas vão pensar? Você não vem aqui para fazer o bem?

A conversa não prosseguiu e ali mesmo pude constatar que, embora a sociedade responda com preconceito às práticas umbandistas, a “autofobia” de muitos adeptos apenas reforça os estereótipos negativos.

Alguns conhecidos, já calejados de tentar explicar que Umbanda não tem a ver com sacrifício animal, não tem a ver com magia negra ou coisas negativas,

simplesmente ocultavam, até mesmo de seus familiares próximos, a sua religiosidade, definindo-se como católicos ou, simplesmente, pessoas que acreditavam em Deus.

Eu entendo que existam pessoas muito sensíveis à opinião alheia, à aprovação familiar, receosas quanto a possíveis hostilidades por parte de fanáticos ou, simplesmente, com medo do afastamento de membros da sua família por conta da sua escolha religiosa e reconheço, igualmente, que tudo isso é plausível de acontecer. É um risco que se corre...

Mas, se eu não assumo a minha religiosidade, como esperar que a sociedade aceite, entenda e respeite a Umbanda?

Tão logo comecei a frequentar terreiros, publiquei informações sobre a religião em meu perfil do facebook. Minha mãe chegou mesmo a pedir que não o fizesse, adepta que é da política da boa vizinhança e pouco afeita a dissabores familiares... Ela sabia que pessoas da minha família não concordavam com a minha escolha e pensava não ser necessário criar atrito com elas postando coisas sobre Umbanda no meu perfil...

Mas, isso apenas me estimulou.

Sempre pensei que, na minha vida, mando eu. Se o perfil era meu - embora eles fossem meus parentes -, eu

deveria usá-lo como quisesse, sem me preocupar com o que eles pensariam a meu respeito. E assim o fiz.

Descobri, para meu espanto, que ao ver minhas postagens, alguns amigos de longa data me procuraram em particular para dizer que também se simpatizavam com a Umbanda e alguns até frequentavam regularmente terreiros. Quando os questionei do motivo de nunca terem me dito isso, eles diziam não saber como eu reagiria e por isso preferiram nada dizer...

Felizmente, não sofri nenhuma sanção familiar. Sei, por conversas paralelas que chegaram até mim que alguns familiares comentavam sobre a minha escolha em tom de negatividade... Mas, diretamente aos meus ouvidos, ninguém se pronunciou.

Claro que, ao tornar pública minha vivência na religião, muitas pessoas se assustaram, chegando a pensar que era brincadeira, pois no imaginário delas, Umbanda é sinônimo de diabo. Mas, creia amigo leitor, você ficará espantado com a reação das pessoas depois que você as explicar o que de fato é Umbanda e o quão distante ela está dessas práticas macabras...

Um colega de trabalho mostrou-se muito assustado quando lhe revelei minha vivência religiosa. Mas, aos poucos, começou a conversar comigo sobre o assunto, a fazer perguntas e depois de alguns meses em que

dialogávamos eventualmente sobre isso, ele me narrou ter comentado com alguns familiares sobre como a Umbanda é mal vista na sociedade...

Por fim, devo dizer algo que aprendi: saiba o que conversar, com quem conversar, como conversar e quando conversar. Vi muitos companheiros empolgados com a Umbanda tentando convencer um parente evangélico de que exu não é diabo, descrevendo como ocorrem os trabalhos e coisas do tipo... Não aja como tolo falando de Umbanda ou de mediunidade o tempo todo, para todo mundo. Nem todas as pessoas se interessam por este assunto e é mais provável que você as assuste do que as esclareça agindo assim.

Leonardo Montes

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segunda-feira, 17 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 21: O FUMO

fumo na umbanda

Vindo de família que não fuma e detesta o fumo, imaginei que esse seria um dos fatores que mais dificultariam meu ingresso na Umbanda. Se não bastasse, sou bastante alérgico e sofro com rinite crônica. As primeiras vezes em que frequentei um terreiro foram tormentosas por conta da fumaça da defumação e, posteriormente, dos cachimbos, charutos, cigarros de palha, etc. Desejava sair correndo em busca de ar fresco. Com o tempo, porém, acostumei-me. 

Certo dia, uma bondosa preta-velha, Vovó Maria do Rosário, ofereceu-me um cigarro de palha. Aceitei a contragosto, pois jamais pensei em fumar. Pediu-me que acendesse ali mesmo e que segurasse a fumaça na boca, sem engoli-la, pois é assim que eles fazem, sem tragar. Acendi, fumei e, para minha surpresa, minha rinite parecia adormecida. Mais: minha boca salivava de vontade de fumar outro e outro, como se estivesse me deliciando com alguma iguaria muito apreciada! 

Fumei rapidamente aquele cigarro de palha e, tão repentinamente quanto começou, aquele efeito passou. Tentei acender outro cigarro, por minha própria conta e tossi violentamente, a boca amargou e lancei-o bem longe de mim. Rindo, a bondosa velhinha explicou que eu senti aquela vontade por que era a vontade do preto-velho que estava perto de mim e que trabalharia futuramente comigo. Tempos depois, quando já estava mais seguro da incorporação com o preto-velho, este pediu um “pito de palha”, acendeu e puxou aquela fumaça. 

Como não tinha hábito de fumar, creio ter exagerado na força de sucção. O resultado? Tossi violentamente, quase a ponto de cortar o transe por completo. Levaria uns três meses para que eu me acostumasse com o cigarro de palha e quase um ano para me acostumar com o gosto de charuto. Muitas pessoas ainda me perguntam se isso não me faz mal à minha saúde e a resposta é um singelo: não! As entidades não engolem a fumaça. 

Apenas a retém na boca tempo suficiente para misturá-la com as energias do médium ou para absorver a energia que da fumaça se desprende, expelindo-a depois sem maiores problemas. Ainda hoje, porém, incomoda-me o cheiro do charuto no corpo após os trabalhos. Chegando em casa tomo um demorado banho a fim de me libertar desse cheiro. 

O amargor que o charuto deixa em minha língua permanece por horas, só cedendo quando escovo os dentes com água quente do chuveiro e faço, em seguida, bochecho com enxaguante bucal (fica a dica!). 

Obs.: Se você é sensível ao gosto do fumo na boca, tome muita água após a gira. Isso evita dores de cabeça!

Leonardo Montes

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quinta-feira, 13 de maio de 2021

HOJE É O DIA DOS PRETOS-VELHOS

imagem de preto velho

 *Hoje, 13 de maio, é o dia dos pretos-velhos*.

A maioria dos terreiros procura fazer uma homenagem/festa nesta data ou próxima a ela, onde se costuma servir aos consulentes bolo de fubá e, claro, o famoso cafezinho (dessa vez, com açúcar).

A data faz referência à abolição da escravatura, em 13/05/1888, embora saibamos que, de fato, a escravidão não tenha acabado completamente apenas pela assinatura de um papel...

Contudo, simbolicamente, esta data – da libertação dos escravos – é considerada o dia em que toda a Umbanda festeja e louva os pretos-velhos.

Na Umbanda que pratico, TODO preto-velho foi escravo ou descendente direto de escravos, nascidos no Brasil ou em África. Tornam-se pretos-velhos não necessariamente os pretos idosos. O “velho” aqui significa sabedoria (em diversas culturas africanas, a idade não é desprezada ou temida, como no Brasil) Portanto, o preto-velho é o preto-sábio.

Aquele que tendo vivenciado a escravidão e conhecido de perto a crueldade humana, saiu dela mais forte, mais esclarecido, disposto a ajudar, a fazer o bem, a exercitar a caridade. São as entidades mais amorosas e acolhedoras da religião. Aquelas que melhor sabem ouvir e aconselhar e, acima de tudo, as que mais nos ensinam as virtudes do perdão e de uma consciência tranquila no bem.

Saravá, preto-velho!

Leonardo Montes 

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terça-feira, 11 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 20: ELEMENTOS DE TRABALHO

charutos

Resolvi abordar este assunto num capítulo próprio por ser um tema que gera muitas dúvidas. Enquanto espírita, eu não podia compreender por que razão um espírito, ao se incorporar, necessitaria beber ou fumar alguma coisa. A explicação mais razoável, simples e comum, era a de que se tratava de entidade inferior, apegadas ainda aos prazeres terrenos. Tese, aliás, frequentemente esposada por muitos espíritas... 

Ao contrário, porém, de alguns colegas que insistem em dizer que o uso dessas substâncias seja exclusivamente para fins de trabalho, eu aprendi que, em certo ponto, elas gostam, sim, de fazer uso delas. Mais de uma vez vi pretos-velhos falarem da saudade que sentiam de tomar um café ou pitar um cigarro de palha. Várias vezes ouvi o Pai Cipriano falar sobre seu apreço pelo vinho tinto. Muitas vezes presenciei o contentamento de um exu ao receber uma cachaça de engenho e por aí vai. Não vejo a menor falta de respeito em dizer a verdade, pelo menos, essa é a minha experiência... 

As entidades, em um ponto ou em outro, ainda são muito semelhantes a nós e nada mais natural, humano e lógico do que eles se deliciarem com aquilo que apreciavam na vida material. Ou você, caro leitor, acha que, após a morte, simplesmente irá se libertar do interesse por chocolate, coca-cola, pizzas e lasanhas? Dito isso é preciso considerar que, de fato, a finalidade do uso dessas substâncias é o trabalho a ser realizado, o que não lhes tira certa dose de prazer ao manipulá-las. Quando um preto-velho bafora seu cachimbo no consulente, por exemplo, realiza uma profunda limpeza em sua psicosfera quase que instantaneamente. 

O fumo é sagrado em muitas culturas e tem um alto poder de limpeza energética. O homem é que banalizou seu uso, transformando-o em estimulante sem propósito. O vinho, por exemplo, assumiu desde séculos, no Cristianismo, um papel de destaque nas cerimônias católicas. E por aí vai. Todas as bebidas possuem energia. Quando ingerimos um alimento, não estamos em busca apenas dos nutrientes da matéria. Quando o estômago faz a quebra das enzimas, a energia (ou fluido vital) daquele alimento é liberada e absorvida pela alma, através do corpo espiritual. Assim, em cada refeição, nos alimentamos por duas vias... 

Quando um preto-velho toma seu café; quando um exu bebe uma pinga ou o malandro a sua cerveja, eles extraem dessas bebidas a energia necessária para realizarem seus trabalhos e, principalmente, para dar força ao transe. Quem já presenciou um trabalho de Umbanda sabe como as entidades dominam o corpo do médium, o que exige, de ambos, muita energia para manter o fluxo de um para o outro... Sem desejo de lançar qualquer disputa sem sentido, sabemos que em nenhuma outra religião mediúnica o transe ocorre de maneira tão intensa... Ora, sabe-se que em todo trabalho mediúnico há gasto energético. 

O espírito que tanto doa se enfraquece e precisa recompor-se. Na Umbanda, eles o fazem ali no ato do passe através do fumo, da bebida, da água, do fogo, das ervas... No Espiritismo, quando retornam para a colônia e tomam um caldo reconfortante, como explica André Luiz em suas obras. Entretanto, existem espíritos que não necessitam extrair essa energia da bebida ou do fumo. Eles se elevaram o bastante para deixarem de lado todas as necessidades materiais, tirando de si mesmos, da atmosfera, da natureza, os elementos que necessitam. Contudo, a grande maioria dos trabalhadores espirituais são espíritos comuns, como nós, desejosos de servir, fazer o bem, contribuir para a paz em nosso mundo e ainda distantes da angelitude espiritual.

Leonardo Montes 

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sábado, 8 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 19: ORIXÁS DE CABEÇA

Orixás

Uma curiosidade muito natural das pessoas quando entram para a corrente é saber quem são seus Orixás de cabeça. Já acompanhei muitos diálogos na internet sobre os métodos para conhecer o Orixá da pessoa. Alguns jogam búzios, outros tentam adivinhar pela data de nascimento, etc. 

Cada pessoa possui apenas dois Orixás de cabeça, isto é, a que ela está ligada por semelhanças de personalidade, sendo um masculino e outro feminino, ao que damos o nome de Pai e Mãe de Cabeça. A única entidade que falava sobre os Orixás era o Pai Cipriano. 

Não se jogava búzios, ele apenas observava com atenção a pessoa, pedia um tempo para pensar e depois respondia. Eu já contava com uns cinco meses de desenvolvimento quando surgiu esse assunto entre os médiuns. 

A maioria estava em desenvolvimento e tinha muita curiosidade em saber quais eram seus orixás. Eu, sinceramente, não me importava muito com isso. Vinha do Espiritismo, onde não se falava em Orixás, então eu não me sentia tão interessado no assunto como os demais... 

Naquele mesmo dia o Pai Cipriano se manifestou e fez questão de nos explicar sobre as características de personalidade de cada Orixá. Em nossos trabalhos são cultuados nove: Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Oxum, Iansã, Iemanjá, Nanã e Omulu. Diferentemente de muita coisa que eu havia lido a afiliação aos Orixás que ele nos ensinou não era literal. Nós não nascemos ou estávamos vinculados em definitivo a algum Orixá. 

Nós apenas tínhamos características de personalidade que se casavam com o referencial deste ou daquele Orixá e que, com o passar dos anos e das encarnações, nossa personalidade se modificando, nossa filiação também se modificaria. Disse-nos mesmo que, quando ele estava encarnado, era filho de Omulu com Iansã. Eu sou filho de Oxalá, pelo lado masculino e de Iemanjá, pelo lado feminino. 

Curiosamente, era o único homem da casa ligado a Oxalá. Havia outro médium ligado a Oxossi e todos os demais médiuns homens eram de Ogum. Minha esposa é filha de Omulu e de Iemanjá e, curiosamente, também era a única pessoa na casa filha de Omulu. 

Aparentemente, nós dois tínhamos características únicas, já que eu era o único homem de Oxalá e ela a única pessoa de Omulu e sabem o que isso significa? Nada! Por vezes vi uma guerrinha boba de pessoas querendo a disputa deste ou daquele Orixá ou pessoas que eram filhas de um Orixá querendo ser de outro ou mesmo dizendo qual era o melhor e coisas do tipo. Tudo bobagem... Enfim, como filho de Oxalá - segundo a entidade -, destacaria em mim a inteligência, a tranquilidade e a serenidade diante dos problemas. 

De fato, pude observar isso ao ver meus colegas de terreiro. Como filhos de Ogum, eles pareciam estar sempre dispostos a tratar tudo a ferro e fogo, enquanto eu preferia o caminho da temperança, o caminho do meio. Isso me fazia melhor? Absolutamente não, apenas era uma característica minha diferente da deles. E só. 

Como filho de Iemanjá, sou uma pessoa com emoções muito profundas... Acolhedor, amigo, leal, mas também difícil de conquistar e de se entregar às amizades... As características que ele nos narrou sobre Oxalá e Iemanjá (que eu expus apenas brevemente) casavam perfeitamente com a minha personalidade e estilo de vida. Por fim, devo dizer aos médiuns novatos que não se inquietem tanto por quererem saber isso. 

Na hora certa você saberá, seja lá qual for o método empregado na sua casa. Durante o desenvolvimento, quanto menos você desviar o pensamento em outras preocupações, mais rapidamente vai se desenvolver. Então, foque o trabalho que precisa realizar que o resto vem com o tempo.

Leonardo Montes

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quarta-feira, 5 de maio de 2021

TODO MÉDIUM DE INCORPORAÇÃO É TAMBÉM MÉDIUM DE TRANSPORTE?

 

médium de transporte

❓❓ Pergunta do dia

A pergunta de hoje foi enviada por ES: Todo médium de incorporação é também médium de transporte?

A palavra “transporte” no contexto da Umbanda foi utilizada largamente no passado para se referir aos médiuns que tinham a capacidade de receber espíritos sofredores/obsessores, nas puxadas e desobsessões.

Com o passar do tempo, houve mesmo quem fizesse distinção entre incorporação (no sentido dos médiuns que recebiam os guias) e transporte (no sentido de médiuns que recebiam sofredores/obsessores). Contudo, essa divisão não existe, propriamente: todo médium de incorporação é também de transporte e vice-versa. 

O que se percebeu no passado é que determinados médiuns tinham mais facilidades que outros para receber espíritos que não fossem guias espirituais. Em alguns, a facilidade era tanto que os dirigentes terminaram por deixa-los apenas nesta função, o que levou a compreensão errônea de que a “mediunidade deles servia apenas para isso”.

O fato, contudo, é que quem incorpora guia também incorpora obsessor. A mediunidade é a mesma, embora existam pessoas que realmente têm uma facilidade maior do que outras para receber espíritos sofredores.

Grato pela pergunta,

Leonardo Montes

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segunda-feira, 3 de maio de 2021

DICA PARA MÉDIUNS EM DESENVOLVIMENTO: EVITE O CONSUMO DE ÁLCOOL

Dica para médiuns em desenvolvimento: evite o consumo de álcool.

Muitos médiuns em desenvolvimento, ao fazerem uso do álcool, acabam se desequilibrando e neste vídeo explico o motivo.

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sábado, 1 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 18: MECANISMOS DA INCORPORAÇÃO


Aprendera no diálogo com os espíritos que apesar do termo, incorporação não quer dizer, exatamente, entrar no corpo. A entidade que irá se incorporar permanecerá, sempre, fora do corpo do médium. 

O que ocorre é simples aproximação da mesma, envolvimento vibratório de um para com outro, entrelaçamento entre fluxos energéticos vindo dos chakras do espírito e do médium. Vou tentar detalhar ao máximo o que aprendi com as entidades, embora não compreenda todo o processo. O médium se concentra, elevando seu pensamento e, por consequência, seu padrão vibratório. Se for uma entidade da direita, um caboclo, por exemplo, ele abaixará seu padrão vibratório o mais próximo possível do nível do médium. Se for uma entidade da esquerda é provável que não haja muito esforço de ambas as partes, dada a proximidade vibratória. 

A partir daí - por um processo que sinceramente desconheço -, filamentos fluídicos começam a se estender dos chakras da entidade e do médium. Em algum ponto eles se encontram, entrelaçam-se e estabelecem uma corrente. Quando este processo se inicia, é normal o médium sentir o coração acelerar; suas mãos suarem ou ficarem geladas; um arrepio forte percorrer o seu corpo, etc...

Tende a cambalear e a sentir solavancos. Conforme as ligações vão se tornando mais fortes, o médium, geralmente, começa a tremer e a sacolejar. Esse processo é algo estranho e pode causar algum desconforto, mas não causa dor. O último chakra a ser ligado, pelo menos em grande parte dos casos, é o coronário, situado no topo da cabeça. 

Quando este processo termina, o médium está incorporado. Em todos os casos de incorporação há ligação entre os sete crackras. A diferença está na força do fluxo ou da corrente, por assim dizer. Nos médiuns iniciantes ela geralmente é fraca, o que deixa o médium em dúvida sobre estar ou não incorporado. Nos médiuns mais experientes, é forte o suficiente para não produzir dúvida. Com o tempo, as sensações tendem a ser mais intensas. 

Cheguei mesmo a presenciar dois casos em que o entrelaçamento fluídico foi tão intenso que a entidade dominou completamente o corpo do médium, produzindo uma inconsciência profunda. Numa dessas situações, a entidade chegou a queimar a mão do médium numa vela, a ponto de feder e ficar toda chamuscada, sem que este esboçasse a menor reação de dor, o que seria praticamente impossível de ser fazer num médium consciente que continua, embora reduzidamente, sensível à dor...

Quando a incorporação ocorre o corpo físico do médium torna-se um reflexo da entidade. Se esta levanta, ele levanta. Se ela bate no peito, ele bate no peito. Se ela fala, ele fala. Quando o preto-velho senta-se num toco, pede seu cachimbo e fica ali "pitando", o corpo do médium nada mais está fazendo do que o reflexo do que a entidade está fazendo no mundo astral, normalmente, posicionada ao seu lado, sentada num toco plasmado pela força do seu pensamento e "pitando" um cachimbo igualmente plasmado por sua vontade.

Leonardo Montes

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