segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Batismo na Umbanda

Ontem realizamos, mais uma vez, o batismo em nosso terreiro. Ainda influenciado pela boa energia do momento, gostaria de refletir um pouco sobre a importância do batismo na religião, conforme a doutrina aprendida por mim.

A ideia do batismo é uma herança católica e que, por sua vez, apoia-se no fato de que o próprio Jesus foi batizado por João Batista (Mateus 3:13-17) e simboliza um momento de conversão na vida do indivíduo.

Contudo, diferentemente do que, lamentavelmente, se faz hoje em dia, em que indivíduos que nunca pisam numa igreja correm para batizar seus filhos nela, para perpetuar uma tradição herdada sem sentido religioso algum para eles, o batismo na Umbanda tem um profundo valor e significado intrínsecos. 

Este batismo (e existem mil formas diferentes de fazê-lo, conforme cada terreiro), visa o reconhecimento público, perante aquela comunidade, da fé daquele que batiza ao passo que, ele mesmo, assume, para si e para seus guias, o compromisso nos caminhos da Umbanda.

É por esta razão que não se deve batizar qualquer pessoa. É preciso dar importância, valor, significado e isto, certamente, cada indivíduo é que descobre para si mesmo e, por esta razão, ninguém é obrigado.

Batiza-se quem quer, quem tem fé, quem dê importância a isso e apenas quando quiser!

No caso das crianças, o princípio é o mesmo, porém, exercido por escolha de seus pais que, por professarem esta fé, resolvem criar seus filhos dentro dos princípios da religião, o que de modo algum impedirá que, na vida adulta, eles possam escolher outros caminhos religiosos, se quiserem: Umbanda liberta, não aprisiona!

Os que se batizam, além de participarem de um ritual mágico, poderoso, encantador, embora simples, se permitem viver emoções e conexões com seus guias e com a comunidade de uma forma profunda e marcante.

Como diz o Velho aos recém-batizados: seja bem-vindo à Umbanda!

Leonardo Montes

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sábado, 15 de janeiro de 2022

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda - Cap 4: O que esperar do desenvolvimento mediúnico?

 


Resolvidas as questões apontadas nos capítulos anteriores, resta-nos uma pergunta: o que esperar do desenvolvimento mediúnico? Para responde-la, falarei com absoluta franqueza.

Muitas pessoas quando chegam nos terreiros imaginam que todos os médiuns sejam inconscientes, que eles simplesmente recebem seus guias, apagam e acordam no final da gira. 

Isto foi realidade no começo do século passado, quando a espiritualidade precisava atuar de forma mais incisiva para desbravar os caminhos da religião, porém, hoje em dia, a imensa maioria dos médiuns são conscientes e lembram-se de boa parte do que ocorreu durante a gira.

Saber disso é importante para que o candidato à mediunidade não se iluda imaginando que, ao chegar ao terreiro, será possuído como num filme de terror, porque este tipo de coisa não existe.

O desenvolvimento mediúnico é, simplesmente, o desabrochar da mediunidade que cada um traz em si. O que fazemos é criar um ambiente espiritualmente seguro, com pessoas mais experientes para guiar o neófito em sua jornada. Mas, que fique claro: a jornada é pessoal.

Expectativas quanto ao terreiro

Muitas pessoas chegam aos terreiros em extrema carência afetiva e tendem a reviver suas relações familiares no próprio terreiro, projetando sobre pessoas da casa as suas relações familiares (saudáveis ou não).

É incrível o número de pessoas com quem já conversei que se mostravam magoadas com o dirigente do terreiro pelo fato dele não ser tão atencioso quanto gostariam (esta é uma reclamação muito recorrente). 

Contudo, quando ouço tais queixas, percebo, quase sempre, que são expectativas frustradas por idealizações impossíveis de serem alcançadas... É que a empolgação inicial fez o médium pensar que todos no terreiro fossem iluminados e a convivência mostrou o contrário.

Por isso, fique bastante claro: todo terreiro é formado por uma coleção de espíritos em marcha evolutiva, uns com defeitos bastante graves, outros, nem tanto, mas nenhuma pessoa ali dentro é santa, apesar de todos estarem fazendo o seu melhor, mesmo que este melhor pareça muito pouco...

Isto não quer dizer que você não encontrará boas pessoas ou que seja impossível viver relacionamentos saudáveis, porém, essa idealização de um médium perfeito, um dirigente perfeito, um terreiro perfeito, é apenas uma fantasia.

Por isso, a única expectativa que recomendo que você alimente é a de que o combinado seja cumprido. Que o terreiro permaneça fiel aos princípios da religião e que seja capaz de criar um ambiente espiritual favorável ao seu desenvolvimento. Se isto for alcançado, então, ele terá cumprido a sua função. Tudo o que vier a mais, é lucro...

Quanto tempo leva o desenvolvimento?

Diversos fatores influem nesta questão: o quanto a mediunidade já foi trabalhada em vidas passadas, a sua tarefa, a idade física, a condição social e, por fim, a vida emocional. Vou explicar cada um destes itens antes de responder à pergunta inicial.

Existem pessoas que exercem a mediunidade há incontáveis encarnações. Sempre nascendo e morrendo no caminho da mediunidade. Essas pessoas tenderão a se desenvolver mais rapidamente e com maior firmeza, afinal, já estão neste caminho há várias vidas.

Por outro lado, existem aquelas que estão começando hoje e que nunca foram médiuns em suas vidas passadas... Para estes, tudo será difícil, lento. Porém, temos que começar em algum momento, não é?

Outro fator importante é a tarefa de cada médium: cada um nasce para cumprir um determinado caminho. Enquanto uns nasceram para ser médiuns de corrente, outros nasceram para ser dirigentes, outros nasceram para ser referência em termos de mediunidade, enquanto outros são missionários que mudarão o rumo das coisas.

Cada médium é um espírito que nasce, por assim dizer, com uma missão e o seu desenvolvimento será o primeiro passo para que se concretize a sua tarefa. Logo, cada um tem um caminho e não importa se você veio mudar o mundo ou apenas cumprir sua parte num terreiro: faça o seu melhor, sempre!

A idade física também precisa ser considerada. Quanto mais jovem é o médium, mais rapidamente ele tende a se desenvolver. E isto por uma razão simples: quanto mais jovem, mais vigor físico, mental e espiritual. 

Considero que 18 anos seja a idade mínima para se desenvolver, até para que a pessoa tenha ciência e arque com as responsabilidades de sua escolha. Antes disso, geralmente, está muito imaturo. Entre os 22 e 25 anos, considero o período ideal, pois nesta faixa geralmente a pessoa já “viveu” bem as emoções da juventude e já começa a pensar em algo mais sólido para sua vida.

Quanto mais jovem a pessoa iniciar o seu desenvolvimento, mais rapidamente ela tenderá a conclui-lo. Não há como comparar o desenvolvimento de uma pessoa com 25 anos de idade com uma de 55 anos. É certo que a primeira fará o percurso com muito mais tranquilidade e rapidez. No entanto, não existe limite de idade para começar ou para terminar o desenvolvimento.

A condição social também é outro fator importante a se considerar, afinal, se o médium está preocupado entre ter o que comer e se desenvolver, ele não fará um bom desenvolvimento, por isso, sempre recomendo que a pessoa esteja, no mínimo, com sua vida no eixo antes de começar o seu desenvolvimento. Nada de perfeição, apenas o suficiente para não ter que se preocupar com outros problemas. 

Por fim, a vida emocional, o mais importante de todos os itens. É imprescindível que o candidato à mediunidade esteja vivendo em estabilidade emocional, do contrário, a mediunidade será um tormento em sua vida.

Suponhamos, por exemplo, que esteja com depressão. Se iniciar o desenvolvimento assim, a tendência é que a depressão aumente, pois o desenvolvimento mediúnico é um processo de sensibilização e quanto mais se desenvolver, mais sensível ficará o sistema nervoso da pessoa e, com isso, a depressão aumentará.

Logo, se houver qualquer transtorno emocional, deve-se trata-lo antes de iniciar o desenvolvimento.

Considerando tudo isso, posso dizer que um desenvolvimento bem feito, seguindo o método que vou explicar mais adiante, leva entre dois e três anos para se completar, embora não haja limite de tempo máximo para se concretizar.

Aventure-se

O desenvolvimento mediúnico é um processo incrível, profundo e pessoal. É o processo em que a pessoa sentirá, em sua própria pele, a realidade do espírito. Esta é uma viagem e tanto, mas frequentemente pouco valorizada, uma vez que vivemos numa sociedade profundamente ansiosa...

Boa parte dos médiuns preocupa-se tanto em saber o nome de seus guias, quando vão riscar ponto, quando vão poder dar consultas, que acabam não percebendo essa incrível jornada e quase todos os que conheci, ao olharem para trás, acabam percebendo que não viveram o processo de forma tão plena, justamente, por terem sido derrotados pela ansiedade.

Por esta razão, entregue-se. Confie na casa que você escolheu. Confie em seus guias, confie em si mesmos e deixe o processo fluir através de você. Você vivenciará uma experiência que mudará completamente os rumos da sua vida.

Leonardo Montes


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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Exus do bem ou Exus do mal? – Entendendo a questão de uma vez por todas

exus

Ex
us são entidades controversas no meio umbandista há bastante tempo. Assim, aqueles apaixonados pela religião, sempre dispostos a se indispor com qualquer leigo que os associe ao Diabo, devem ficar bastante tranquilos, pois este é um problema das antigas e nada indica que se resolverá brevemente.

Eu já fiz um post, resumindo a maneira pela qual aprendi e vejo tais entidades, segundo a doutrina da nossa casa e aproveito este momento para relembrar que tudo que produzo em matéria de Umbanda reflete apenas um ponto de vista, sem pretensão de unanimidade em matéria religiosa, especialmente, nestes assuntos espinhosos.

A primeira vez que minha esposa visitou um terreiro (ela foi antes de mim), lá pelos já longínquos anos de 2011/2012, ouviu dentro do próprio terreiro em questão que exus eram entidades sorrateiras, perigosas e que devia ficar longe deste tipo de espírito.

Sim, você leu direito: ela ouviu isso dentro de um terreiro de Umbanda e não era uma casa desestruturada, pois existe até hoje e possui boa reputação. Tratava-se apenas de uma casa cuja tradição religiosa não contemplava o trabalho com essa linha e não via com bons olhos quem procedesse diferentemente.

Cultura é isso, cultura religiosa é isso também.

Por esta razão, é perda de tempo querer se indispor com leigos que veem tais entidades como demônios ou coisas do tipo, pois se nem dentro da religião existe concordância, que dirá fora, certo?

Resumo do problema

A palavra “Exu” que no contexto da Umbanda utilizamos para nos referirmos às entidades que atuam nesta linha tem sua origem no Candomblé Iorubá onde existe uma divindade chamada Exu (Orixá). Sabemos que desde os tempos dos portugueses na África, já se associava a figura do Orixá Exu com o Diabo, seja em razão do seu comportamento (meio trickster) ou por suas representações em imagens.

Porém, ninguém sabe exatamente onde e como se começou chamar alguns espíritos de exus. O que podemos afirmar é que muito possivelmente essa associação tenha ocorrido em razão da comparação entre o comportamento destas entidades, quando incorporadas, com os mitos que falam de Exu (Orixá).

É provável que alguém vendo tais entidade nos primórdios de suas manifestações (entre fins do século XIX e início do século XX), tenha feito essa associação e, desde então, ela não se apagou mais, da mesma forma que alguém, em algum momento, passou a chamar algumas entidades femininas de Pombagiras que, tudo indica, é uma corruptela de Pambu Njila, uma divindade do Candomblé de Angola.

Cultura é isso, diversidade é isto!

Espíritos

A melhor forma de entendermos o que de fato é um exu é lembrarmo-nos de que são espíritos. Todos os que estudam o Mundo Espiritual sabem que, do outro lado, existem espíritos bons, maus e mais ou menos, da mesma forma que na Terra existem pessoas boas, más e mais ou menos.

Logo, ninguém deve pressupor que, por ser espírito, necessariamente a entidade seja boa ou necessariamente seja ruim. Ela é, simplesmente, a alma de alguém que viveu, em algum momento, aqui na Terra e, portanto, pode ter toda a variedade possível de caráter tal como as pessoas presentes neste mundo.

O que ocorre é que, no imaginário de muitas pessoas (e esse imaginário foi construído do embate de diversas ideias, dentro e fora da religião) a Umbanda é uma religião cuja diretriz moral não é muito bem definida, especialmente, para leigos.

E apesar do esforço crescente – intramuros – em mostrar a Umbanda para o mundo como uma religião que pratica o bem através da caridade e que, portanto, não abre espaço algum para a maldade (antes, a combate), é preciso reconhecer que uma parcela significativa dos terreiros não contribui em nada para alimentar esse discurso.

Vejamos alguns exemplos:

A pessoa diz que exu não é o Diabo, que a Umbanda é uma religião boa e que apenas pratica o bem. Porém, posta frases do tipo: “quem me vigia não dorme”; “não mexe comigo que não ando só”, “não mexa com o povo da calunga, pois a cova pode ser rasa, mas a terra é profunda”, etc. 

exu do lodo
Imagem de Exu do Lodo. Wikipédia

Diz que o exu só faz o bem, mas cultua imagens com cifres, dentes vampíricos, pés de bode... Fazem giras que parecem open-bar, médiuns que terminam o trabalho bêbados... Ora, é no mínimo, bastante ingenuidade pensar que pessoas leigas vão olhar para tudo isso e concluir que de fato se trate de algo “do bem”.

Isto sem contar a quantidade de conflitos, disputas, mesquinharias e mesmo artimanhas negativas que, infelizmente, ocorrem em diversos terreiros. Quantas pessoas já me procuraram relatando coisas dignas de filmes de terror e que foram vivenciadas em seus próprios terreiros?

Sem me alongar, quero dizer com tudo isso que, ao lado de todo preconceito gestado fora da religião, existem boas razões, dentro dela, para que tais estereótipos sejam reforçados o tempo todo, seja em razão daquilo que é reproduzido nas redes sociais ou mesmo do comportamento, bastante inadequado, de um certo contingente de umbandistas. 

Para mim, isto é uma verdade tão clara quanto à luz do sol...

Quando se diz: no centro espírita X o mentor é Y, ninguém imagina que esteja se referindo ao mentor do crime e, sim, ao mentor espiritual, a entidade que dirige os trabalhos, certo?

A palavra mentor pode significar ambas as coisas, dependendo do contexto. Pode tanto falar para o bem, quanto para o mal e a mesma coisa se aplica a palavra exu, no que se refere aos espíritos.

Quando se fala em exu, no contexto da Umbanda, naturalmente deve-se pensar que estamos falando de entidades que apenas trabalham para o bem, pois em casas sérias, fundamentadas, não há espaço para outro tipo de entidade. Se é terreiro sério, exu só pode trabalhar para o bem.

Mas, e fora da Umbanda?

Uma boa parte dos estudiosos resolveu adotar um caminho mais simplista para resolver o problema, afirmando que exu só faz o bem, porém, outras entidades, maléficas, se manifestam por aí e usam os nomes de exus, sem o serem, de fato.

Esta simplificação coloca aos exus como sendo propriedade da Umbanda, um conceito típico dela (apesar de não ter surgido nela) e produz, no meu entender, uma compreensão equivocada, pois existem outras religiões/cultos em que se manifestam exus e eles não estão necessariamente compromissados com o bem.

Aqui, voltamos à pergunta inicial do texto: mas então, exus são bons, são maus, são ambíguos? 

E eu respondo: existem exus bons, exus maus e exus ambíguos... O que precisa ficar claro é que, no universo da Umbanda, só há espaço para exus que trabalham em favor do bem, fora dela, contudo, há espaço para tudo. 

Porém, há quem diga que exu é uma “força” neutra e que assume o aspecto moral do local onde é evocado. Isto é, se tal exu trabalha num terreiro de Umbanda e lá se faz apenas o bem, ele assim se comportará. Mas, caso venha a se manifestar num terreiro onde não necessariamente se faz apenas o bem, ele assim se comportará.

Isto é, nesta concepção, exu é realmente como uma força que se molda ao local em que se manifesta. Porém, nada do que vi, ouvi e conversei com os próprios exus, através de diversos médiuns, atesta esta posição que, no meu entender, é fantasiosa.

O processo é mais simples: se tal local é bom, todas as entidades que ali atuam, do preto-velho ao exu, são necessariamente compromissadas com o bem. Se num outro terreiro se faz o bem e também o mal (apesar de ser incoerente), então, tal comportamento atrairá entidades que também agem assim. Da mesma forma que terreiros que abertamente fazem o mal, contarão como trabalhadores espirituais entidades que também fazem o mal.

Não é que a mesma entidade atua de forma diferente em diferentes terreiros. Se ela trabalha para o bem num terreiro, jamais aceitará fazer o mal em outro. Contudo, muito além dela, existem milhares de outras entidades que aceitariam fazê-lo, até porque vivemos num mundo em que o mal anda ombro a ombro com boa parte das pessoas...

Cargo

Exu é um cargo. Como um segurança, um policial do Mundo Espiritual. Sua função é fazer a proteção espiritual de pessoas ou locais que lhes sejam importantes, como o terreiro, por exemplo.

Os que atuam na Umbanda, não atuam para impedir que o médium seja assaltado ou tenha seu carro roubado, como muitos imaginam (apesar de poderem ajudar), atuam para proteger o médium e seu terreiro dos ataques das trevas. 

Cada pessoa ajudada num terreiro sério, volta para casa com o coração mais leve, a cabeça em paz e sua fé em Deus renovada. Muitas destas pessoas sofrem perturbações espirituais e tais obsessores, muitas vezes, querem atacar o terreiro ou o médium através de quem a pessoa recebeu a ajuda, para impedir que tal trabalho continue, que tantas outras pessoas sejam ajudadas... Aí entram os exus, nos livrando de todo o mal que atraímos por simplesmente fazer o bem e não para limpar as “cagadas” que nós mesmos fazemos com nossos comportamentos equivocados...

Porém, nada indica que tal cargo seja exclusivo da Umbanda, até por ser anterior a ela. Assim, terreiros que fazem o mal também possuem seus exus; muitas bocas de fumo também; muitos bandidos de toda ordem também possuem a simpatia e proteção de exus, só não são os mesmos que atuam em terreiros sérios!

Ao invés de simplificarmos a questão, dizendo que exu só faz o bem e quem diz o contrário é mal-informado ou pilantra, parece-me muito mais honesto olhar para a questão como ela de fato se apresenta, pois são os próprios exus que me ensinaram este sistema que acabei de explicar.

Tudo em matéria de espiritualidade é sintonia. Não basta escrever “Terreiro de Umbanda”, na fachada de uma casa, para que o que se faça lá dentro seja, automaticamente, típico da Umbanda, como também não basta dizer-se umbandista para atrair a simpatia dos bons espíritos... É sobretudo na prática, no dia-a-dia, com base no caráter de cada trabalhador que a “egrégora” espiritual do terreiro se forma. 

É isto que garante a assistência de bons pretos-velhos, bons caboclos e também de bons exus. 

Leonardo Montes


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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

A VIDA DO MÉDIUM FORA DO TERREIRO


A #Umbanda é uma das religiões mais abertas que conheço, pois aposta em um processo consciencial e não castrador. Isto é, ao invés de estabelecer uma lista de proibições referentes a comportamentos/atitudes, a proposta da religião é bem diferente, visando esclarecer as consequências de nossos atos, para conosco e com o próximo, deixa ao encargo da consciência de cada um o caminho a ser trilhado...

Cada um vive como quer, faz o que quer e, naturalmente, encara as consequências, boas ou ruins, de suas próprias escolhas. Contudo, este processo não deve ser visto como indiferença e, sim, como educativo. A aposta da Umbanda é que a educação espiritual mude o ser, mas deixa a ele a escolha do caminho a ser trilhado.

Certamente, é desejável que todos nos esforcemos para viver fora do terreiro tudo que aprendemos nele. Contudo, isto nem sempre é possível. Cada um está em um grau evolutivo e age, portanto, de acordo com a sua consciência. Nem por isto, contudo, as entidades deixam de ensinar ou mostrar o bom caminho, entretanto, o adepto é sempre senhor do próprio destino.

Assim, a vida que o médium leva fora do terreiro diz respeito apenas a ele, a seu processo consciencial e ao caminho por ele escolhido, pois o caminho da dor ensina tanto quanto o caminho do amor, apenas dá mais voltas e é mais perigoso, mas chega ao mesmo destino...

A exceção, claro, fica por conta de atitudes extremadas que coloquem o médium em risco ou coloquem a casa em risco, neste cenário, certamente tal comportamento inviabilizaria qualquer oportunidade de trabalho construtivo.

Contudo, desde que o médium evite tais extremos e seja capaz de, no mínimo, cumprir o resguardo e dedicar-se com fé ao seu trabalho espiritual, mesmo que tenha a vida toda torta, ele será capaz de realizar a sua gira.

"Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas os pecadores". Marcos 2:17

Leonardo Montes

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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda: Capítulo 3: Encontrando um bom terreiro


Talvez o terreiro que te levou a descobrir a sua mediunidade não seja o local mais interessante para você iniciar o seu desenvolvimento mediúnico: talvez fique longe da sua casa, talvez os dias de trabalho não se adequem ao seu caso, talvez você tenha visto coisas com a quais não concorde, etc.

Porém, seja como for, o fato é bastante simples: você precisará de um terreiro! Porém, como encontrar um bom?

Antes de entrar propriamente no assunto, gostaria de abordar três pontos que considero fundamentais para que todo candidato ao desenvolvimento mediúnico avalie antes de aceitar o compromisso de atuar em uma casa de Umbanda: disciplina, amor e caridade.

A disciplina se observa pela ordem dos trabalhos. Os trabalhos ocorrem em harmonia ou são caóticos? Começam no horário previsto ou não possuem horários previstos? Os médiuns se recolhem em oração ou ficam na porta fumando, conversando, contando piadas?

Todas essas questões devem ser observadas pelo candidato ao desenvolvimento que deve se atentar a elas, afinal, se as giras são caóticas, tente imaginar como será feito o seu desenvolvimento...

O segundo ponto, o amor, pode ser observado pela forma como as pessoas se tratam. Elas se dão bem ou se alfinetam na frente uns dos outros? O dirigente recebe e trata bem as pessoas ou tudo é resolvido aos berros e com falta de educação? As pessoas são receptivas e colaborativas ou parecem ter acordado com o pé esquerdo?

Aqui, novamente, a regra é simples: se não tratam bem os visitantes, imagina como devem se tratar internamente...

Por fim, a caridade. A Umbanda possui por princípio a gratuidade de seus trabalhos, logo, todo terreiro que cobra está em flagrante contradição com este princípio. Se o terreiro em vista cobra dos consulentes – novamente – imagine o que não vão inventar para te cobrar: é trabalho disso, daquilo; é oferenda disso e daquilo outro; é despacho pra cá e pra lá, enfim...

Estes três pontos precisam ser cuidadosamente observados, a fim de se evitar dor de cabeça futura. Contudo, antes de prosseguirmos, fica um alerta muito importante: não existe terreiro perfeito... Em todos existem conflitos, discussões, disputas, incompreensões... Porém, os bons terreiros são formados por pessoas que, além de suas diferenças pessoais, são capazes de abaixar seus braços em prol de um bem maior que é o próprio terreiro... Logo, não espere encontrar um terreiro perfeito, um dirigente perfeito, porque isso simplesmente não existe.

Se tal terreiro em vista conseguir ter disciplina, conseguir criar um clima interpessoal favorável e trabalhar gratuitamente, estará de bom tamanho...

Agora, vejamos algumas dicas práticas.

Pesquise na internet

Além do boca a boca, a melhor forma de encontrar um terreiro é pesquisando na internet. Se você vive em grandes centros urbanos, com certeza encontrará dezenas. Se você vive no interior, poderá não encontrar tantos, porém, seja como for, pesquise, mesmo que você acredite não existir algum.

Ao longo dos anos, conversei com muitas pessoas que me diziam com certeza absoluta não haver nenhum terreiro em suas cidades, porém, qual não era a surpresa quando, finalmente resolviam pesquisar e, Voilà, encontravam algum terreiro, às vezes, mais perto do imaginavam.

Boa parte dos terreiros não possuem CNPJ, site ou página na internet. Porém, as pessoas que frequentam os terreiros estão na internet e, principalmente, nas redes sociais. Logo, além do Google, você pode pesquisar sobre os terreiros em grupos do Facebook de sua cidade. Toda cidade tem grupos de vendas, trocas, Whatsapp, essas coisas. Basta você perguntar nestes grupos e provavelmente alguém te indicará algum.

Frequente várias vezes

Nada de amor à primeira vista: frequente várias vezes o terreiro, observe como as pessoas se relacionam e todos os critérios mencionados anteriormente. Converse bastante com as entidades, de coração aberto, mas não traga para sua vida, senão, os conselhos que fizerem sentido para você.

Estude detalhadamente a casa por alguns meses e só então, caso assim decida, pergunte sobre como participar, quais os critérios para iniciar o desenvolvimento, como funciona, etc. Se possível, frequente vários terreiros antes de fechar com um.

Tire todas as suas dúvidas antes de aceitar

Pergunte tudo que você gostaria de saber, pois é muito comum as pessoas se deixarem levar pela empolgação até que se deparem com alguma prática ou obrigação com as quais não concordem, o que seria plenamente evitável se houvesse mais critério antes de aceitar este compromisso.

Questões como: participação, dia de desenvolvimento, se é preciso contribuir financeiramente ou não, diretriz doutrinária da casa, etc., são muito importantes. Já conversei com muitas pessoas que aceitaram participar de terreiros sem muito critério até que, por exemplo, descobriram que a casa realizava sacrifício de animais e, como não concordavam, entravam em conflito.

Casas que não cobram diretamente um valor monetário, mas possuem diversas ajudas de custo ao longo do processo, deixando o desenvolvimento muito oneroso, por exemplo, são bastante comuns. Enfim, procure saber detalhadamente sobre todo o processo, a fim de evitar aborrecimentos.

Escute o seu coração

Não são os guias que escolhem o terreiro que o médium deve desenvolver... Essa escolha cabe ao próprio médium. Contudo, os guias podem intuir e direcionar em algum sentido, afinal, eles não vão querer trabalhar numa casa cuja prática venha na contra mão daquilo que eles pregam (nem faz sentido), porém, suponhamos que o médium esteja dividido entre dois terreiros que lhe pareçam igualmente bons, a escolha desta ou daquela casa será do médium.

Se a casa for minimamente boa (conforme explicado anteriormente), eles vão se manifestar, o que é a prova máxima de que aceitaram o terreiro. Repito: os guias só não aceitariam um terreiro cujas práticas ferissem os princípios fundamentais da Umbanda. Agora, se tal terreiro é da vertente A ou B, não importa: se cumpre com os princípios fundamentais, está tudo certo.

Não enrole

Observadas as condições pontuadas neste capítulo, provavelmente, o médium escolherá um bom terreiro, onde fará o desenvolvimento seguindo um bom critério e terá uma boa formação.

Se este terreiro já foi escolhido, não enrole. Não jogue para amanhã, até porque nunca sabemos se teremos um amanhã... Portanto, a partir do momento em que o médium decide sobre a casa, tão logo possível, deve conversar com o dirigente da mesma sobre a possibilidade de se desenvolver e uma vez aceito, bastará então que siga as orientações que lhe forem apresentadas.

E se não achar um bom terreiro?

Nossa casa é um terreiro bem pequeno, porém, recebemos pessoas de várias cidades. Algumas destas pessoas moram há quase 200 km de distância, o que significa que, para se desenvolverem, ida e volta, viajam quase 400 km, duas vezes por mês, portanto, 800 km/mês.

Você acha que essas pessoas fariam essa escolha se tivessem uma casa com a qual se afinassem em suas próprias cidades? Provavelmente, não. Porém, a partir do momento em que não encontram um terreiro que julguem adequado, o que resta fazer, senão, procurar em outra cidade? Aí vai da vontade de cada um... Quem quer, corre atrás!


Leonardo Montes

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda - Capítulo 2: A obrigatoriedade da mediunidade

Desenvolvimento mediúnico na umbanda

Eis um assunto sobre o qual – tenho consciência – sou uma voz quase dissonante: a obrigatoriedade do desenvolvimento da mediunidade.

No primeiro capítulo, expliquei o meu ponto de vista a respeito dos médiuns, deixando claro que, em minha interpretação, nem todas as pessoas podem, de fato, ser médiuns, embora boa parte delas tenha, pelo menos, um rudimento de mediunidade que lhes permita ter intuições, pressentimentos, etc.

Para mim, apenas um número bem reduzido (se comparado a quantidade total de pessoas no mundo), são de fato médiuns e essas pessoas vieram para a Terra após um rigoroso processo de preparação do plano espiritual.

O desenvolvimento mediúnico de que este livro se ocupa não é mais do que oferecer condições adequadas e seguras para que tais pessoas possam “acordar” a mediunidade adormecida em si mesmas. Mediunidade esta que lhes foi atribuída pelo plano espiritual e não por exercício da sua própria vontade.

Costumo dizer que a escolha entre ser ou não ser médium ocorre no Mundo Espiritual, antes da encarnação. Uma vez escolhido este caminho, cabe ao espírito apenas dar cumprimento e é por esta razão que, inicialmente, disse que sou uma voz quase dissonante.

Desenvolvendo todo mundo?

Atualmente, é corrente a visão no meio umbandista de que a mediunidade é uma faculdade como outra qualquer e que basta ao indivíduo o desejo de se desenvolver para de fato vir a ser médium. Em minha opinião, isto está profundamente equivocado.

Este procedimento acaba por produzir uma legião de “médiuns” que nunca incorporaram realmente e que, portanto, acabam por produzir transes anímicos em que o que de fato se manifesta, quando muito, é apenas uma faceta do próprio inconsciente...

É por isso, infelizmente, que encontramos relatos de pessoas que dizem frequentar terreiros há anos e a não ser por uma experiência de êxtase do tipo: arrepio intenso, emoção pelos toques e cânticos bem executados, nunca conversaram realmente com um médium incorporado que lhes assegurasse a convicção de estarem conversando com uma entidade manifestada...

Isto é, conversam com estes médiuns, obtém conselhos relativamente interessantes, mas nunca tiveram qualquer experiência profunda em termos de revelações ou aconselhamentos que versassem sobre algo além do senso-comum, o que para mim é estranhíssimo e vou explicar o motivo:

Quando visitei pela primeira vez um terreiro de Umbanda, sem quase nada conhecer da religião, não tinha muita fé de que viveria uma experiência genuinamente espiritual.

Busquei um antigo terreiro aqui da minha cidade e em lá chegando comecei a reparar os médiuns mais velhos, pois imaginava que, com estes, provavelmente teria uma experiência melhor.

Para minha frustração, acabei passando com um médium mais jovem do que eu. Confesso: fui desanimado conversar com o caboclo. Em lá chegando, a entidade me saudou, aplicou o passe e em seguida disse:

— Eu sei por que você está aqui...

— Por quê? Perguntei meio petulante.

— Você está aqui porque foi promovido no serviço e seus antigos colegas agora estão com dificuldade para te aceitar como chefe.

O choque foi tão grande que não me lembro de mais nada do que a entidade me disse naquela noite. Explico...

Eu trabalhava numa usina de álcool há 65 km da minha cidade, quase fronteira com outra cidade. Era um trabalho na zona rural, logo, apesar da empresa ser grande, eu tinha contato muito reduzido com outras pessoas, pois trabalhava num almoxarifado durante anos e finalmente havia sido promovido à chefe do setor, o que ocorreu uma semana antes da conversa com a entidade e o que ela me disse realmente estava me incomodando.

Eu não conhecia aquele médium. Olhei ao redor para ver se alguém ali me conhecia (olha a petulância), mas ninguém me conhecia. Não estava escrito na minha testa que fora promovido, assim, apesar da relutância, só havia uma explicação plausível: a entidade sabia o que estava falando...

Voltei neste terreiro outras quatro vezes e em três delas tive experiências semelhantes. Depois, fiquei um bom tempo sem visitar esta casa e quando retornei este médium não estava mais lá. Não faço ideia de quem seja, qual o seu nome ou o nome do caboclo que me atendeu... O que posso dizer é que ele mudou a minha vida e eu mudei a vida de muita gente depois disso...

Este foi apenas o primeiro episódio. Depois – e conforme eu me aprofundava neste universo – tive incontáveis experiências espirituais em diversos terreiros que me satisfizeram todas as necessidades de cético mais exigente...

Portanto, quando vejo pessoas falarem que nunca tiveram conversas relevantes com as entidades, mesmo frequentando diversos terreiros, penso, algo muito errado está acontecendo e, em minha opinião, isso se deve, em parte, a este processo generalizado de desenvolvimento mediúnico que se tem aplicado na Umbanda, procurando desenvolver a mediunidade em quem não a possua...

Tais pessoas podem ser bem intencionadas, ter um bom coração, mas nunca poderão aconselhar mais do que poderiam por elas mesmas, já que, sem efetivamente entrar em transe espiritual, apenas falariam aquilo que gostariam de ouvir...

A outra parte deste problema se deve ao próprio ser humano que, mesmo tendo feito o desenvolvimento mediúnico de forma adequada, sempre é assolado por seus próprios fantasmas, tais como a insegurança, o medo de errar, o medo de ser julgado, de estar sendo mistificado, etc. Tais inseguranças terminam por reduzir o potencial de muitos médiuns que, do contrário, teriam tudo para brilhar (aliás, dica aos médiuns: façam terapia, com certeza se tornarão médiuns melhores).

Observação importante

Apesar de ter deixado claro no texto acima a importância de o médium estar realmente bem incorporado para transmitir com segurança as orientações espirituais, devo considerar que não existe obrigatoriedade das entidades em ficar provando sua manifestação, principalmente, diante de pessoas arrogantes.

É relativamente comum o comparecimento de pessoas que se acham por demais importantes nos terreiros com o objetivo de serem convencidas pelas entidades da realidade espiritual.

Quando são arrogantes tolos, como eu fui, a espiritualidade pode dar uma ajudinha, como foi o meu próprio caso, porém, quando são arrogantes envaidecidos, com o ego exacerbado, frequentemente, as entidades não farão a menor questão de provar nada e, possivelmente, a pessoa sairá do terreiro tão descrente quanto entrou.

Há uma frase atribuída a São Tomás de Aquino que exemplifica bem o problema da fé:

“Para alguém que tenha fé, nenhuma explicação é necessária. Para aquele sem fé, nenhuma explicação é possível”.

Há pessoas que vão aos terreiros querendo ser “estupradas mediunicamente”, isto é, querem que as entidades entrem em suas cabeças, em suas vidas, em seus sonhos à força, sem o menor gesto de simpatia de suas partes e, a pretexto de se convencerem, exigem que as entidades saibam até o que elas almoçaram ontem, como se estivessem diante de um oráculo capaz de ver o presente, o passado e o futuro e não de um espírito amigo que só quer ajudar...

Não vá por este caminho, antes, converse com as entidades de coração aberto, mesmo que você seja cético, mesmo que duvide e pode ser que você se surpreenda.

As melhores revelações espirituais que eu já recebi – e já recebi várias – vieram em momentos em que eu sequer cogitava de solicitá-las.

Voltando à obrigatoriedade...

Abordado o problema dos médiuns que não são médiuns apesar de muitos terreiros dizerem o contrário, podemos retornar à questão original deste texto, encerrando este capítulo.

As entidades que me orientam, sempre deixaram claro que todas as pessoas são livres para viverem suas vidas como quiserem, contudo, em contrapartida, devem lidar com as consequências, positivas e negativas, de suas próprias escolhas.

Muitas pessoas me perguntam se poderiam trocar o trabalho mediúnico por uma vida dedicada à caridade, por exemplo. Respondo sempre que não, pois uma coisa não implica em outra.

Ser caridoso é obrigação de qualquer pessoa espiritualizada e, sem dúvida, há muito mérito em exercer a caridade, contudo, se o indivíduo nasceu com a mediunidade, isso significa que ele foi preparado para isso, logo, não é possível trocar o exercício da mediunidade pelo da caridade, uma coisa não anula a outra.

Contudo, se esta for a vontade da pessoa, deve estar ciente de que todas as entidades com quem já conversei até hoje afirmaram em alto e bom tom que, neste caso, a pessoa retornará para o Mundo Espiritual, por ocasião da sua morte, no tempo próprio, com uma tarefa não cumprida.

Poderá ter sido excelente pessoa em vida, ter realizado grandes coisas, uma alma virtuosa, mas algo que lhe cabia cumprir, não foi cumprido.

Àqueles que não tem compromisso com a mediunidade, simplesmente, não nascem com ela. É assim que sabemos quem deve e quem não deve ser médium.

Leonardo Montes

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda - Cap. 1: Quem pode ser médium?

 
desenvolvimento mediúnico

Introdução

Era costume, entre as antigas ordens de cavaleiros medievais, grafar frases de efeito em suas espadas. Uma das mais famosas dizia: “Não me desembainhar sem razão, não me empunhar sem valor”. Isto é, os cavaleiros só deviam retirar suas espadas se houvesse uma causa justa e, depois de retirada, deveriam empunhá-la com muita honra, nunca esquecendo os valores nobres de um cavaleiro.

Penso que esta frase se aplica perfeitamente à mediunidade no contexto da Umbanda: jamais devemos utilizá-la sem razão e nunca devemos esquecer nosso compromisso espiritual, parafraseando.

A mediunidade é, por um lado, um dom divino, pois permite ao homem o contato com o espiritual, o que deve sempre ser feito de forma sagrada. Por outro, pode ser entendida como uma conquista do espírito, um sentido extra, o que não lhe tira também o devido valor.

Seja como for, a mediunidade no contexto da Umbanda é o carro-chefe da religião, a parte mais importante, pois é através dela que os médiuns entram em transe e permitem a manifestação de seus guias espirituais que “descem” à Terra com o propósito de ajudar, aliviar e esclarecer.

Por esta razão escrevo este livro, a fim de compartilhar o nosso modelo de desenvolvimento mediúnico, construído em parte a partir da minha própria experiência e, por outra parte, com auxílio e apontamento dos espíritos, dando origem a um método que pode facilitar o desenvolvimento da mediunidade aos terreiros que se identificarem com o mesmo.

Não se trata – sem dúvida – de um método perfeito, porém, ao longo dos anos, tenho compartilhado este método em conversas informais com pessoas de todo o Brasil que sempre se encantaram com o mesmo e lamentaram que seus terreiros ainda prefiram um desenvolvimento “caótico” a um estruturado.

Este método não oferece milagres, nem caminhos fáceis. Contudo, procura sistematizar o desenvolvimento em fases, apontando os pontos positivos e negativos de cada parte do processo e pode ser igualmente esclarecedor tanto aos dirigentes quanto aos médiuns novatos.

Enfim, sem pretensão de infalibilidade, ofereço mais um livro gratuito à comunidade umbandista, com a melhor das intenções. Como todos os demais, este livro foi escrito de uma forma simples, por uma pessoa simples e destinado a outras pessoas igualmente simples.

O autor.

Capítulo 1: Quem pode ser médium?

A mediunidade é um atributo humano e, por isso, encontrada em todas as culturas, em todas as épocas, colorida das mais diversas formas ao longo do tempo. É uma possibilidade que Deus nos concedeu para que não nos sentíssemos tão isolados no imenso cosmos...

Contudo, um real entendimento desta faculdade só começou a nascer no século XIX, com as publicações de Allan Kardec e apenas no século XX, com a especial contribuição do espírito André Luiz, através de Chico Xavier, é que pudemos, enfim, formar um entendimento mais profundo desta faculdade humana.

É certo, porém, que tais obras não tratam de Umbanda. Contudo, não devem ser desprezadas. Se a mediunidade é uma faculdade humana – e ela é – então, sua manifestação será sempre a mesma, embora cada religião/movimento/cultura possa interpretá-la de determinada forma.

Logo, não existe uma “mediunidade espírita” ou “mediunidade umbandista”, existe apenas a mediunidade, sendo o Espiritismo ou a Umbanda duas religiões que dão abertura a ela.

Isto quer dizer que a incorporação num centro espírita é exatamente o mesmo fenômeno que ocorre num terreiro de Umbanda e é por isso que um médium espírita pode vir a se tornar umbandista e vice-versa. É claro que terá de aprender a cultura da nova religião, porém, mediunidade é mediunidade, independentemente da escola em que tal médium tenha se desenvolvido.

Porém, efetivamente, quem pode ser médium?

Popularmente, costuma-se dizer que todos são médiuns. Mas, será isso verdade? Analisemos.

Esta afirmação nasce de uma interpretação recortada de um determinado trecho de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec:

“Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns”. Item 159.

Você provavelmente já leu esse trecho em algum lugar. E lendo-o, assim, recortado, tem-se mesmo a impressão de que Allan Kardec esteja de fato dizendo que todas as pessoas são médiuns. Porém, este item não termina neste recorte, ele continua:

“Todavia, usualmente, assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva. É de notar-se, além disso, que essa faculdade não se revela, da mesma maneira, em todos. Geralmente, os médiuns têm uma aptidão especial para os fenômenos desta, ou daquela ordem, donde resulta que formam tantas variedades, quantas são as espécies de manifestações. As principais são: a dos médiuns de efeitos físicos; a dos médiuns sensitivos, ou impressionáveis; a dos audientes; a dos videntes; a dos sonambúlicos; a dos curadores; a dos pneumatógrafos; a dos escreventes, ou psicógrafos”.

Nesta segunda parte, Kardec afirma que, usualmente, isto é, na prática, os médiuns são aqueles que, muito mais do que sentir a influência dos espíritos, são capazes de produzir efeitos patentes, de certa intensidade, isto é, capazes de produzir fenômenos que possam ser perceptíveis a outras pessoas.

Lendo-se o trecho por inteiro, poderíamos reescrevê-lo da seguinte forma: quase todas as pessoas são capazes de receber a influência dos espíritos em algum grau. Contudo, chamam-se de médiuns aqueles que, mais do que receberem tais influências, conseguem transformá-las em algum tipo de trabalho.

Talvez, se Kardec tivesse usado o termo mediunidade na primeira parte do item e médium na segunda, toda essa interpretação equivocada que leva muitas pessoas a imaginar que todos os seres humanos sejam médiuns em potencial (e, neste caso, bastando que quisessem se desenvolver), seriam evitáveis. Contudo, ele preferiu usar o termo médium, no começo em sentido amplo (aquele que sente a influência dos espíritos) e, posteriormente, médium num sentido prático (aquele que é capaz de exercer um trabalho) e, creio, mesmo com todo cuidado do mundo, acabou dando brechas para interpretações errôneas...

Poderia aprofundar a análise deste item, pois é dele (ainda que quem diga que todos sejam médiuns não saibam a referência), a interpretação equivocada que ainda ecoa por muitos terreiros. Contudo, creio que o exame exposto seja o suficiente...

Por esta razão, em minha maneira de crer e entender, quase todas as pessoas possuem mediunidade, isto é, podem receber a influência dos espíritos em algum grau, porém, proporcionalmente falando, apenas um contingente relativamente pequeno de pessoas são de fato médiuns, isto é, capazes de exercer a sua mediunidade em forma de um trabalho/comunicação.

São médiuns aqueles que carregam em si mesmos o chamado “gérmen da mediunidade”, isto é, uma condição física, cerebral, que lhes permite entrar em contato com o Mundo Espiritual, o que pode variar conforme a faculdade e grau. Porém, desde que o indivíduo seja dotado desta capacidade, pode-se dizer que se trata de um médium.  

Como saber se sou médium?

Muitos pensam que os indivíduos médiuns sejam pessoas que desde a mais tenra infância manifestam sinais de tal mediunidade. Porém, isso não é necessariamente verdade. Posso testemunhar neste sentido que, embora tenha tido algumas experiências “paranormais” ao longo da minha vida, nunca imaginei que seria, efetivamente, um médium.

Nunca vivi qualquer episódio que me fizesse pensar que teria alguma mediunidade que pudesse ser trabalhada e jamais me vi na condição de trabalhador da mediunidade.

Por isso, não se deve pensar que a mediunidade se verifica por uma série de sintomas estranhos que acompanharão o indivíduo ao longo de sua vida, pois isto nem sempre ocorre, embora possa ocorrer.

Entretanto, não vou me ater aos sintomas que poderiam denunciar ou não a presença de uma faculdade mediúnica, pois este processo não precisa ser interpretado ou deduzido, uma vez que, na Umbanda, temos um método muito simples para saber se temos ou não temos mediunidade a ser trabalhada: perguntando às entidades.

É claro que não se deve perguntar isso para qualquer “entidade”, pois sabemos que, muitas vezes, os médiuns não estão incorporados de fato ou, se estão, não estão firmes. É duro admitir isso, mas é a verdade... Devemos perguntar este tipo de coisa apenas para entidades que se manifestem através de médiuns de confiança, numa casa séria e responsável.

Não existem atalhos, é preciso procurar... Frequentar diversos terreiros, ir sempre de coração aberto, mas nunca aceitar uma determinada informação a menos que você sinta firmeza no médium e o que for dito faça sentido para você. E, acredite, o dia que você encontrar um médium firme, você saberá, pois através dele, a entidade falará coisas que não apenas vão fazer sentido para você, ela também falará coisas que o médium não poderia saber.

Quando isto acontecer, pergunte se você é médium e, se for, que tipo de mediunidade você possui e pronto, você sairá da gira sabendo se é ou não é médium.

Como as entidades sabem quem é médium?

No topo da nossa cabeça, existe o chakra coronário. Ele é o responsável por fazer a ligação do plano material ao plano espiritual. As pessoas que não são médiuns possuem uma irradiação luminosa bem fraquinha no topo da cabeça, enquanto as que são médiuns (variando conforme o grau de mediunidade), possuem uma irradiação bastante intensa no topo da cabeça, por vezes, a irradiação emite fachos de luz para cima que dão a impressão de formar uma coroa (e é por isso que muitas entidades chamam a mediunidade de coroa).

Como esse tipo de coisa só pode ser percebido por uma entidade, de nada vale perguntar a outro médium ou mesmo a um dirigente de terreiro, pois mesmo que seja muito experiente, somente as entidades são capazes de ver esse tipo de irradiação (os médiuns podem ver a coroa, às vezes, durante a incorporação, apenas).

A entidade olhará o topo da cabeça da pessoa e sem sombra de dúvidas dirá se a pessoa é médium e, se for, dirá qual tipo de mediunidade ela possui (eu não sei detalhar como eles sabem distinguir o tipo de mediunidade a partir da irradiação luminosa).

Se a resposta for positiva, deve-se perguntar à entidade qual deve ser o próximo passo e ela o indicará.

Leonardo Montes

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Natal e a Umbanda

natal

Aproxima-se o dia 25 de dezembro, o natal, dia em que se comemora em todo o mundo cristão (e, sim, a Umbanda é cristã), o nascimento de Jesus Cristo. Se Jesus nasceu realmente dia 25/12? Se ele era branco, de olhos claros? Isso não nos importa.

Importa saber que este nascimento significa a vinda de uma estrela de grandeza espiritual para um mundo da crueza material e que seus ensinos são (e continuarão a ser) luz em nossos caminhos. Por esta razão, o nascimento de Jesus simboliza a vinda da esperança para nossa Terra.

Neste dia, as famílias se reúnem em confraternizações diversas. Votos de felicidade, saúde e bem-estar são trocados entre todos e isto é o que mais importa: as entidades que me orientam nunca foram contra as festas, nunca foram contra os pratos que procuramos colocar em nossas mesas, porém, sempre alertaram para que não fiquemos apenas na satisfação do corpo e que buscássemos, nesta data, força e incentivo para viver bem, em família, com amigos, com alegria e leveza.

O Velho sempre me disse – e disse porque eu não dava a mínima importância ao natal – que procurasse comparecer às festividades com mais interesse, porque não saberia se no próximo ano teria a oportunidade de estar com todos na mesma mesa e que essa incerteza deveria, por si só, me fazer olhar para a data com mais carinho.

Assim tenho feito e recomendo.

Feliz natal!

Leonardo Montes 


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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Golpe da Espiritualidade (Fique atento)


Acabo de ler uma matéria do jornal Correio Brasiliense, cujo título é: Mulher extorque R$ 400 mil aplicando golpe de "espiritualidade". Não há muitas informações sobre o modus operandi do golpe, apenas informa que, ao longo de quatro anos, tal pessoa teria extorquido esse valor afirmando que, se não fizesse algumas rezas especiais, os familiares da vítima adoeceriam. 

Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento em matéria de espiritualidade sabe que esse tipo de proposta é totalmente sem sentido, contudo, ainda assim, todos os anos, matérias como esta surgem aqui e ali.

E, ao contrário do que popularmente se pensa, as pessoas que caem nestes golpes não são, necessariamente, pessoas simples, ingênuas, mas frequentemente, pessoas desesperadas.

Eu já conversei com dezenas de pessoas que passaram por situações assim e que, na dúvida, vieram me procurar para tirar uma segunda opinião, boa parte delas com ótimo grau de instrução, bons empregos, boa família, etc.

O que leva, então, alguém a cair num golpe assim? Frequentemente, o desespero.

Quando passamos por um grande sofrimento, nos desesperamos e, no desespero, tomamos atitudes que, em outras situações, frequentemente não tomaríamos. É este o caso da reportagem? Não sei, mas era o caso de muitas das pessoas com quem já conversei em situação semelhante.

O desespero coloca as pessoas em vulnerabilidade. Eu tenho um vídeo sobre “Psicografia na Internet”, onde falo, justamente, que não existe psicografia pela internet e vocês se surpreenderiam com a quantidade de comentários de pessoas pedindo por psicografias neste vídeo, inclusive, informando nome, data, endereço e – pasmem – número de documentos...

Eu compreendo o desespero dessas pessoas, a dor, a angústia que sentem, mas isso é prato cheio para aproveitadores que – diga-se – existem em todos os cantos. Há um meme que corre no Facebook e que sintetiza bem esta problemática: se você não controla sua mente, alguém vai.

E pode sair caro....

Leonardo Montes 


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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Afinal, pode ou não pode incorporar em casa?

médium

Em 2017, publiquei na internet um livreto chamado: Incorporando em casaSugestões para médiuns umbandistas que atendem em casa. Na época, muita gente me agradeceu e muitos me criticaram. Nele, ofereço todas as dicas e orientações que recebi no processo de criação do nosso terreiro que nasceu no quintal de uma casa.

Não se trata de incentivo para que os médiuns incorporem em suas residências, mas ofereço algumas orientações para os médiuns que receberam de seus guias a permissão para trabalhar em casa ao invés de um terreiro. Percebem a diferença?

Este é um assunto que até hoje divide muitas opiniões e é por isso que resolvi escrever este texto, explicando de uma vez por todas, o que realmente penso sobre o assunto.

Aliás, é um tema tão controverso que recentemente vi um post no Facebook comparando a incorporação em casa com “nadar num rio cheio de piranhas”, mas, será mesmo?

Primeiro de tudo é preciso compreender que a incorporação, como um processo mediúnico, necessita apenas do médium, que se assemelha a um templo vivo e ambulante, por isso, onde quer que o médium esteja, ali haverá a possibilidade de trabalho.

Além do mais, as entidades sempre sabem o que fazem de tal modo que, se um guia quer incorporar, então, é porque há uma razão justa para isso, afinal, a entidade é um espírito autônomo, independente e esclarecido... Não é o médium quem incorpora, quem incorpora é o espírito, logo, não faz sentido pensar que quem escolhe incorporar é o médium, o que ele escolhe é dar passividade à incorporação ou não.

Existem inúmeros casos disso e eu mesmo já incorporei nos lugares mais estranhos possíveis, onde os guias julgaram realizar algum atendimento, trazer uma palavra, um conforto, etc.

Porém, existem riscos.

Fora do terreiro, o médium não possui a mesma cobertura espiritual que encontra nele, afinal, trata-se de um local preparado espiritualmente para isso, com firmezas e toda uma proteção espiritual adequada, o que faz com que a incorporação ocorra de modo tranquilo e seguro.

Fora do terreiro, o médium está por conta própria e é aqui que “mora o perigo”.

O número de espíritos transitando pelas ruas, entrando e saindo das casas das pessoas que não oferecem uma mínima proteção espiritual, é enorme. Se pudéssemos ver o que se passa, provavelmente, ficaríamos aterrorizados com o entra e sai de entidades de todos os lugares, inspirando, influenciando e também vampirizando as pessoas.

Este simples fato faz com que a incorporação fora do terreiro seja, por si só, bastante perigosa, pois vários destes espíritos podem influenciar o processo e, com isso atrapalhar ou mesmo virem a se passar pelas entidades do médium (mistificação), em casos mais graves.

Fora do amparo espiritual do terreiro, todo trabalho mediúnico é extremamente desgastante. Afinal, não terão as firmezas e, principalmente, não terá uma forte corrente, como a que existe na gira, o que faz com que as energias do médium sejam drenadas muito mais rapidamente.

Este é o grande problema!

Imagine, por exemplo, a energia que existe em boa parte das casas das pessoas que nunca se preocuparam com a reforma íntima, que fazem da fé um adorno, que não conseguem viver em harmonia com seus entes queridos, lugares em que há muitas discussões, brigas, xingamentos e todo tipo de pensamento contrário ao bem.

Uma parte considerável da população vive nestas condições, logo, uma parte considerável destes locais se tornam impróprios para a incorporação pelos riscos anteriormente citados.

Por outro lado, uma pequena parcela da população vive em harmonia e em paz, nestes locais, a incorporação poderia acontecer sem maiores inconvenientes.

Este é o ponto fundamental: não é que incorporar fora do terreiro seja, necessariamente, uma passagem à perturbação espiritual, nem mesmo um “rio cheio de piranhas”, é preciso considerar o ambiente, a necessidade e, principalmente, a conveniência do trabalho. Porém, quem decide isso são as entidades e não o médium.

Mas, o médium não tem nenhuma responsabilidade?

Sim, tem. E este é o ponto nevrálgico do texto... Muitos médiuns, especialmente em desenvolvimento ou mesmo alguns já desenvolvidos, são pessoas carentes, com baixa autoestima e que encontram na mediunidade uma forma de ficar em evidência.

Estes médiuns podem trabalhar muito bem no terreiro, sob amparo e vista das entidades, porém, não possuem firmeza suficiente para trabalhar sozinhos, longe das vistas de alguém mais experiente. Neste cenário, tais médiuns podem se encontrar numa região de vulnerabilidade que os predispõe a influência negativa e, quase sempre, imperceptível.

E, engana-se quem pense que os guias não permitirão que algo ruim aconteça... Primeiro, porque os guias têm suas ocupações e não ficam atrás do médium o tempo todo... Segundo, que o médium precisa aprender por si mesmo e, neste sentido, as experiências dolorosas ensinam também.

Eu já fiz vários trabalhos fora do terreiro, quase sempre, previamente combinados com as entidades. Preparava-me para isso, tomava banho de ervas, defumava o lugar, fazia firmezas e, ainda assim, era tudo muito difícil e também já fui vítima de mistificação... Imagina, agora, incorporar numa festa? Num churrasco? Nas festas de fim de ano? Quando isso acontece, é muito provável que seja animismo do médium ou um espírito mistificador, pois os guias, como espíritos lúcidos e conscientes, sabem muito bem quando, como e para que se manifestar...

Enfim, se o médium é desenvolvido, firme, possui fé de verdade e sente que seus guias querem vir fora do terreiro, é porque existe uma razão justa para isso, é um trabalho nobre, apesar dos riscos mencionados. Porém, se o médium não tiver essas qualidades, melhor se abster, pois o tombo pode ser feio.

Leonardo Montes 


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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Dica infalível para incorporar mais fácil

 

meditação

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Uma das dificuldades mais comuns nos médiuns é a de concentração. A entidade diz: firma a cabeça e o médium não sabe o que fazer. Mas, afinal, o que é firmar a cabeça? Simplesmente, concentrar-se. Mas, como fazer isso?

Pois é, não é fácil!

A imensa maioria das pessoas nunca parou para pensar na importância da disciplina mental. Algo bem diferente acontece, por exemplo, entre os povos orientais que, desde a infância, aprendem a fazer isso na escola, no esporte, nas artes marciais, etc. Porém, no ocidente, não temos essa cultura.

Para a maioria das pessoas, a mente é uma coisa abstrata que existe em suas cabeças e que, em alguns casos, parece ter vida própria, fugindo completamente ao controle...

Por esta razão os médiuns sofrem tanto durante o processo de desenvolvimento mediúnico, afinal, nunca tendo exercido qualquer controle mental, simplesmente, não sabem o que fazer para se concentrarem e é nisto que vou ajuda-los com este texto.

Antes, porém, vamos entender como a falta de concentração afeta o desenvolvimento mediúnico e mesmo os médiuns mais experientes.

Sabemos que a incorporação ocorre através das ligações energéticas existentes entre os chakras do médium e da entidade. Contudo, a ligação mental necessária para que as informações fluam de um para outro ocorrem apenas no estágio final do processo e, para que se dê de forma satisfatória, é preciso que a mente do médium esteja, no mínimo, limpa o suficiente.

Mas, limpa do quê?

Limpa de pensamentos ruins, preocupações, ansiedades e quaisquer outros tipos de pensamentos negativos que sejam incompatíveis com a espiritualidade superior. Neste ponto, contudo, você talvez diga: raríssimos são os médiuns que conseguem manter-se assim – ao que eu concordaria – respondendo: por isso são tão poucos os médiuns seguros de suas mediunidades!

Como a maioria das pessoas não possui uma mente disciplinada, é natural que o processo de incorporação não ocorra de forma tão limpa, clara e forte como gostariam e esta é uma das principais causas de ruídos na comunicação que, por tantas vezes, causam tantos problemas nos terreiros...

Então – voltando ao começo do texto – a entidade diz: firma a cabeça! Porém, minutos antes, o médium estava batendo papo com os colegas ou estava preocupado com as contas ou estava reparando nas pessoas da casa ou estava com raiva porque o chefe lhe tratou mal, etc.

Enfim, a entidade pede que ele se concentre, mas naturalmente não consegue fazer isso muito bem, já que até poucos minutos antes a sua mente estava completamente desordenada...

Por isso, ao invés de sair para o terreiro em cima da hora, dirigindo feito louco e xingando todo mundo no trânsito, saia mais cedo. Ao invés de ficar batendo papo no terreiro, jogando conversa fora, vá para o seu canto, mantendo-se em concentração.

Fazendo isso, você irá ajudar muito o processo da incorporação. Na sequência, vem a dica fundamental deste texto: medite!

Sim, meditação... Especialmente, uma técnica simples, profundamente funcional (inclusive, aplico no meu consultório psicológico com regularidade), chamada: meditação em um minuto!

Eu vou resumir esta técnica, porém, deixarei aqui o link de um vídeo em que você poderá compreendê-la em detalhes. Repito: trata-se de uma técnica simples, porém, profundamente funcional. Não precisa acreditar em mim, faça o teste e depois me diga o que achou.

Siga os passos abaixo:

1.     Procure um lugar tranquilo do terreiro onde poderá permanecer em silêncio e oração;

2.     Feche os olhos e faça uma oração pedindo proteção e amparo para o trabalho;

3.     Quando sentir que já está mais relaxado, tendo se recuperado da correria que foi para chegar ao terreiro, inicie a meditação;

4.     Procure um lugar para se sentar confortavelmente. Deixe seus pés firmes do chão, mantenha o corpo ereto (sem exagero) e deixe os braços na posição mais confortável para você;

5.     Programe o seu relógio ou celular para despertar em um minuto (sim, apenas um minuto);

6.     Feche os olhos e concentre-se em sua respiração. O foco da sua atenção precisa ser a sua respiração, sentindo o ar entrando e saindo do seu corpo, naturalmente;

7.     Pensamentos intrusivos surgirão: o boleto que vence, o próximo jogo do seu time, a receita de bolo da sua mãe, preocupação com o clima, etc. É natural, não lute contra isso. Se estes pensamentos vierem, simplesmente, diga mentalmente: hum... E volte sua atenção novamente para a respiração, deixando que os pensamentos desapareçam naturalmente;

8.     É normal que surjam dificuldades, afinal, você nunca fez isso antes... Não se aborreça, nem seja exigente com você mesmo. Pode levar semanas e mesmo meses até que você consiga fazer a meditação durante um minuto sem nenhum tipo de pensamento intrusivo. Contudo, não se esforce demais: um passo de cada vez, sem pressa;

9.     Quando você conseguir meditar em um minuto sem qualquer pensamento intrusivo, poderá aumentar este tempo se quiser, porém, não vejo razão: um minuto é suficiente para os benefícios desejados.

E quais seriam estes benefícios?

Assim que abrir os olhos (depois de um minuto), perceberá que sua cabeça estará mais leve, seus pensamentos menos acelerados e mais claros. Todo aquele ruído mental inicial terá diminuído severamente e você se sentirá mais confiante, calmo e mais focado.

Faça esta meditação antes de iniciar o desenvolvimento (se você for um médium em desenvolvimento) ou longo antes da gira (se você for um médium já desenvolvido).

Sem tantos ruídos mentais, a incorporação ocorrerá mais facilmente, com maior intensidade e conexão com seu guia. Você sentirá isso na prática.

Se você fez, diz aí nos comentários: como foi para você?

Leonardo Montes

 


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