sábado, 10 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 29: PAI-DE-SANTO

médium

Muitas casas de Umbanda seguem a forma de trabalho onde se elege um pai-de-santo, isto é, um sacerdote para o templo e orientador espiritual dos membros da casa. Pessoalmente, não concordo com este sistema e nunca adotei nenhum pai-de-santo em minha vida. Nos capítulos anteriores vimos como as pessoas podem ser complicadas e isso, logicamente, se estende ao pai-de-santo... 

Soube de muitos casos em que a relação pai/filho-de-santo não era boa e terminou em brigas, desavenças de todos os tipos e mesmo ataques pessoais. Claro, há sempre exceções. Pude conversar com pessoas que tiveram maravilhosos pais e mães-de-santo que personificavam não apenas um cargo, mas uma figura amiga, caridosa, conselheira, alguém que realmente tinha o respeito de seus filhos de-fé. Na casa onde desenvolvi, contudo, não tínhamos um pai-de-santo. Tínhamos um presidente para fins legais e um médium principal, através do qual, podíamos conversar com as entidades-chefes, estas sim, as verdadeiras chefes-de-terreiro. Deixávamos às entidades a chefia do nosso trabalho. 

Entretanto, mesmo aqui, é preciso considerar o seguinte: a chefia do terreiro não pode ser impositiva e autoritária. As entidades precisam de nós para trabalhar tanto quanto nós precisamos delas. Cria-se, assim, um sistema de parceria, onde, temos total liberdade para dialogar com os chefes e mesmo discordar deles, se for o caso. Sem essa abertura, aí sim os médiuns se tornam mesmo “cavalos”, esperando apenas o chicote nas costas para poder trabalhar... Creio que esse tempo já passou. 

Talvez o amigo leitor se surpreenda com essas palavras, mas elas representam uma experiência real. Muitos talvez se perguntem: mas, quem é que cuida de vocês? E a resposta é: nós mesmos! Não sentimos a necessidade de escolhermos alguém para nos orientar e dirigir, senão, a nossa própria consciência, sempre respaldada pelos ensinos e conselhos de nossos guias. Cada um, assim, se torna o responsável por si mesmo, seu mestre ou seu feitor, prestando conta do que fez de bom ou ruim à Deus e não aos homens tão falíveis como quaisquer outros... 

Apoiamo-nos uns aos outros dentro de nossas possibilidades, estabelecendo uma fraternidade entre os membros da corrente sem que haja um que esteja acima dos demais: estamos todos no mesmo barco! Alguns me perguntam: Mas, você é pai-de-santo? Ao que respondo: Não sou nem quero ser! Sou apenas um médium como qualquer outro, lutando dia-a-dia para vencer minhas imperfeições e ser uma pessoa melhor. 

Devo deixar claro, contudo, que não sou contra o sistema de filiação-de-santo, apenas que não o sigo. Na casa onde desenvolvi não o adotávamos e onde trabalho atualmente, continuamos a não adotá-lo e tudo tem dado muito certo.

Leonardo Montes

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