quinta-feira, 27 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 23: PENSANDO SOBRE DINHEIRO



Desde o surgimento da Umbanda, a gratuidade se estabeleceu entre os seus fundamentos. Em diversas ocasiões o Caboclo das Sete Encruzilhadas alertava aos médiuns sobre os perigos do “vil metal”, como ele chamava o dinheiro.

Nas muitas conversas que estabeleci com as entidades, elas sempre deixaram claro que não negociavam com a gratuidade. Ela deveria ser absoluta, irrestrita, incondicional. Não podendo haver, nunca, espaço para cobrança nos trabalhos ou na transmissão do conhecimento.

Portanto, estou bem certo de que a minha opinião neste capítulo poderá desgostar a muitos... Mas, como desejo compartilhar a minha vivência e aprendizado mediúnico, torna-se um dever de consciência torná-la pública, o que não fará dela – e não desejo que alguém a faça – parâmetro para coisa alguma, senão, para suas próprias reflexões... É apenas e, será sempre, uma opinião.

Mesmo sendo a gratuidade um dos fundamentos da Umbanda, encontrei algumas pessoas que pensavam de forma diversa. Alguns, alegando uma antiga “lei de salva”, afirmavam que, em casos de extrema necessidade, o médium poderia, sim, cobrar ou, pelo menos, retirar para si uma parte do dinheiro oriundo de doações, a fim de suprir suas necessidades...

Outros acabaram estabelecendo alguma taxa irrisória para os trabalhos, como a obrigatoriedade de se doar maços de velas e coisas do tipo. Atualmente, parece ser cada vez mais comum, a formação de sacerdotes profissionais que, nos moldes católicos/evangélicos, buscam viver exclusivamente de e para a religião, ganhando salários, etc.

Vejamos dois exemplos de médiuns: Chico Xavier chegou a passar fome e nunca pegou um centavo de suas obras mediúnicas. Trabalhou em restaurante, mercearia e, depois, no Ministério da Agricultura, até se aposentar. Zélio, o fundador encarnado da Umbanda, nunca viveu da Tenda Nossa Senhora da Piedade, trabalhando como qualquer outro cidadão para sobreviver... Então, por que deveríamos fazer diferente?

Também não concordo com a onda crescente de ensino Umbandista à distância onde você precisa pagar para aprender.

Eu já fiz alguns desses cursos quando estava começando e, de fato, aprendi bastante... Mas, percebo como cada vez mais isso se torna apenas um comércio... No último curso o “tutor” me parecia tão despreparado e ríspido nas respostas dadas às dúvidas de seus “alunos” que jurei a mim mesmo nunca mais fazer esse tipo de curso, até mesmo porque haviam em torno de 1500 pessoas matriculadas num curso de um mês, cada um pagando R$ 68,00 para poder cursá-lo...

A conta é simples: 68 x 1500 = 102 mil reais. Fica muito fácil, assim, ficar lançando curso atrás de curso, certo?

Como estou inscrito nestes sites, vivo recebendo e-mails

promocionais (alguns até apelativos), do tipo: preparamos uma oferta especial para você! Estamos enviando este e-mail exclusivamente para você! – a impressão que tenho é que estes caras aderiram ao marketing das grandes lojas que todo santo dia nos enviam um e-mail com uma super oferta que, no fundo, não é mais do que o de sempre...

Se a intenção é tão somente compartilhar conhecimento, por que ao invés das plataformas EAD pagas e sofisticadas não se utilizam de plataformas gratuitas e simples? Olha o YouTube aí...

Mesmo este livro e todos os demais livros religiosos que eu porventura venha a escrever não terão o lucro por foco. Eu não lucrarei um centavo com eles e isso não é um ato nobre da minha parte, é uma obrigação consciencial e religiosa. Eu estou repassando apenas o que aprendi e nunca nenhuma entidade me pediu um real ou uma vela para me ensinar as coisas que hoje sei. Devo, então, agir de forma contrária, buscando lucros com estas informações? Creio que não...

Mas, serei contrário, também, as lojas de artigos religiosos? Certamente, não! Ali se comercializam produtos que não são produzidos de graça, então, obviamente, eles têm um custo. Mas, mesmo aqui, acredito que cabe discernimento. Ora, essas lojas são necessárias, elas nos fornecem os elementos de

trabalhos que precisamos. Mas, existe um enorme abismo entre oferecer produtos e selvageria capitalista.

Eu já visitei lojas onde um terço de madeira, bastante simplório, que eu comprei por R$ 2,50 numa loja esotérica, era vendido por R$ 10,00 numa loja de artigos religiosos voltados à Umbanda. Mesmo produto, mesma marca...

Algum tempo atrás fui a uma loja de artigos religiosos para comprar um champanhe para minha guardiã e ele estava sendo vendido por R$ 16,00 reais, enquanto no supermercado próximo da minha casa, a mesma marca era vendida por R$ 5,50.

Adepto que sou do incentivo ao pequeno comércio, tenho começado a repensar essa minha atitude, pois quando tento privilegiar as lojas de artigos religiosos de Umbanda, percebo que muitas estão "enfiando a faca".

Eu já trabalhei com compras e sei como funciona o mercado, mas o que tenho percebido é que muitas lojas estão se aproveitando para lucrar absurdamente e injustificavelmente, o que tem me feito, aliás, recorrer à internet para solucionar isso... Um bom exemplo são os charutos: eu só compro pela internet, pois mesmo com o frete, a caixa ainda sai mais de 60% mais barato do que o encontrado em lojas religiosas (comerciantes, vamos ficar mais atentos aí!).

Por outro lado, a consulência também não tem consciência de que precisa ajudar e muitos dirigentes se incomodam em pedir essa ajuda explicitamente. Antigamente, deixávamos uma caixinha em formato de cofre com um papel acima pedindo doações e quase ninguém doava. Então, por votação, decidiu-se que, no encerramento, passaríamos uma toalha branca entre as fileiras para que, os que quisessem, depositassem ali a quantia desejada.

Não era obrigatório, mas as doações triplicaram. Algumas pessoas chegaram a me dizer que se sentiam incomodadas com esse procedimento e, confesso, eu mesmo sentia e votei contra... Mas, por fim, compreendi ser um “mal necessário”, pois sem essas doações, que ainda eram poucas, seria impossível manter uma casa aberta, ainda mais uma casa formada por médiuns da classe média baixa... Mas, ressalto: os trabalhos eram gratuitos, ninguém deixava de ser atendido ou era mal visto se não doasse.

As doações obtidas eram apenas para custear os gastos da casa. O custo do aluguel, água, luz e elementos para a firmeza eram muito altos, o que nos fez procurar alternativas, como comprar materiais pela internet e em grande quantidade e, mesmo assim, ainda faltava dinheiro...

Há tempos cheguei à conclusão que, geralmente, o médium de Umbanda paga para trabalhar. Eu mesmo gasto, mensalmente, algo em torno de R$ 100,00 reais,

somando contribuição e produtos para as minhas entidades e da minha esposa trabalharem. Não que eu defenda que o médium tenha que pagar para trabalhar, mas acaba sendo comum que assim o seja por falta de doações e de um meio de assegurar uma renda para casa.

Não é sem razão que muitas casas organizam bazares, feira de livros usados, bingos, jantares, a fim de arrecadar algum dinheiro para poder continuar funcionando.

Contudo, eu acredito no processo de conscientização e esclarecimento. Se cada pessoa que fosse semanalmente ao terreiro levasse um real, estou bem certo de que o médium não precisaria pagar para trabalhar. Não digo para tornar esse processo obrigatório, mas enfatizar sempre a importância da doação financeira ou de elementos de trabalho.

Não vejo o menor problema ou vergonha em, abertamente, pedir auxílio à assistência, informar sobre os gastos da casa, suas dificuldades, sua situação financeira, etc. Nada tendo a esconder, nenhuma casa precisará temer ao dizer a verdade àqueles que a procuram.

Além da contribuição financeira, existe a contribuição com serviços e as doações de elementos de trabalho. Estou bem certo de que nenhum terreiro dispensará a boa vontade de alguém que deseja varrer-lhe o chão,

ajudar na limpeza, organização, lavar um banheiro ou doar um maço de velas, uma garrafa de marafo, uma pemba, etc.

Se a pessoa não deseja ou não pode contribuir financeiramente, poderá contribuir com seu serviço ou mesmo doando algum dos elementos utilizados nos atendimentos.

Leonardo Montes 

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