sábado, 22 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 22: PRECONCEITO



Não é novidade que, nos últimos anos, o preconceito religioso, travestido da sua forma mais agressiva, a intolerância, tem se tornado cada vez mais comum no Brasil. Quantos terreiros são atacados e depredados? Lamentável, mas verdadeiro.

Isso faz com que muitos companheiros médiuns busquem esconder sua religiosidade e seu trabalho. Conheci excelentes médiuns, com anos de atuação e experiência em terreiros e que o faziam de forma totalmente oculta...

Claro... Existem pessoas que são mesmo muito discretas. Mas, não é o caso da maioria dos que eu conheci. A maioria procurava atuar em terreiros bem longe da sua casa, minimizando o risco de encontrar um conhecido.

Quando chegavam ao terreiro, vinham em roupas normais, deixando para fazer a troca somente dentro do terreiro. Não procediam assim para evitar sujar a roupa branca ou coisa semelhante, mas por vergonha/medo de andar na rua trajado de branco, com as guias no pescoço, etc.

Quando resolvi entrar para a corrente também tive um pouco de vergonha. Vestir-me de branco, pela primeira vez, foi algo desconfortável. Meus pais viam com estranheza meu recente interesse pela Umbanda e,

embora não fossem contra, procuravam não se envolver diretamente.

Eu saía na rua de branco, com as guias no pescoço e ia de moto para o terreiro. Em cada parada de semáforo, percebia os olhares, cochichos e risinhos nos motoristas ao meu redor. Não me importava!

Certa vez, uma companheira de terreiro, conversando com outra próxima a mim, disse:

- O Léo vem de branco pra cá, não tem vergonha de andar na rua.

Ao que a outra moça respondeu:

- Ah, eu não tenho coragem... Morro de medo do que as pessoas vão pensar...

Eu não me contive e disse:

- E daí o que elas vão pensar? Você não vem aqui para fazer o bem?

A conversa não prosseguiu e ali mesmo pude constatar que, embora a sociedade responda com preconceito às práticas umbandistas, a “autofobia” de muitos adeptos apenas reforça os estereótipos negativos.

Alguns conhecidos, já calejados de tentar explicar que Umbanda não tem a ver com sacrifício animal, não tem a ver com magia negra ou coisas negativas,

simplesmente ocultavam, até mesmo de seus familiares próximos, a sua religiosidade, definindo-se como católicos ou, simplesmente, pessoas que acreditavam em Deus.

Eu entendo que existam pessoas muito sensíveis à opinião alheia, à aprovação familiar, receosas quanto a possíveis hostilidades por parte de fanáticos ou, simplesmente, com medo do afastamento de membros da sua família por conta da sua escolha religiosa e reconheço, igualmente, que tudo isso é plausível de acontecer. É um risco que se corre...

Mas, se eu não assumo a minha religiosidade, como esperar que a sociedade aceite, entenda e respeite a Umbanda?

Tão logo comecei a frequentar terreiros, publiquei informações sobre a religião em meu perfil do facebook. Minha mãe chegou mesmo a pedir que não o fizesse, adepta que é da política da boa vizinhança e pouco afeita a dissabores familiares... Ela sabia que pessoas da minha família não concordavam com a minha escolha e pensava não ser necessário criar atrito com elas postando coisas sobre Umbanda no meu perfil...

Mas, isso apenas me estimulou.

Sempre pensei que, na minha vida, mando eu. Se o perfil era meu - embora eles fossem meus parentes -, eu

deveria usá-lo como quisesse, sem me preocupar com o que eles pensariam a meu respeito. E assim o fiz.

Descobri, para meu espanto, que ao ver minhas postagens, alguns amigos de longa data me procuraram em particular para dizer que também se simpatizavam com a Umbanda e alguns até frequentavam regularmente terreiros. Quando os questionei do motivo de nunca terem me dito isso, eles diziam não saber como eu reagiria e por isso preferiram nada dizer...

Felizmente, não sofri nenhuma sanção familiar. Sei, por conversas paralelas que chegaram até mim que alguns familiares comentavam sobre a minha escolha em tom de negatividade... Mas, diretamente aos meus ouvidos, ninguém se pronunciou.

Claro que, ao tornar pública minha vivência na religião, muitas pessoas se assustaram, chegando a pensar que era brincadeira, pois no imaginário delas, Umbanda é sinônimo de diabo. Mas, creia amigo leitor, você ficará espantado com a reação das pessoas depois que você as explicar o que de fato é Umbanda e o quão distante ela está dessas práticas macabras...

Um colega de trabalho mostrou-se muito assustado quando lhe revelei minha vivência religiosa. Mas, aos poucos, começou a conversar comigo sobre o assunto, a fazer perguntas e depois de alguns meses em que

dialogávamos eventualmente sobre isso, ele me narrou ter comentado com alguns familiares sobre como a Umbanda é mal vista na sociedade...

Por fim, devo dizer algo que aprendi: saiba o que conversar, com quem conversar, como conversar e quando conversar. Vi muitos companheiros empolgados com a Umbanda tentando convencer um parente evangélico de que exu não é diabo, descrevendo como ocorrem os trabalhos e coisas do tipo... Não aja como tolo falando de Umbanda ou de mediunidade o tempo todo, para todo mundo. Nem todas as pessoas se interessam por este assunto e é mais provável que você as assuste do que as esclareça agindo assim.

Leonardo Montes

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