terça-feira, 6 de abril de 2021

MÉDIUNS DE ANTIGAMENTE E DE HOJE

médiuns

A Umbanda nasceu num contexto extremamente problemático: cerca de 82% da população brasileira era analfabeta, pobre e tinha muito medo da religião. Os médiuns do começo do século XX enfrentaram obstáculos quase inimagináveis, como por exemplo, o desemprego, o estigma e o desamparo.

Existem muitos relatos de pessoas que foram presas durante os cultos, apanhavam da polícia, eram soltas no dia seguinte e se mudavam com suas famílias para outra localidade para então erguer novamente seus terreiros. Particularmente, creio que este tenha sido o mecanismo inicial que fez com que a Umbanda saísse do Rio de Janeiro para os demais estados brasileiros. 

Contudo, apesar dos pesares, existiram grandes médiuns, capazes de executar fenômenos extraordinários e que praticamente não são mais vistos hoje em dia. O que mudou?

O mundo mudou!

Inicialmente, a maioria dos médiuns eram inconscientes e isso se dava em razão da necessidade da espiritualidade de fundamentar a religião, trazer a sua base. Uma vez que isso se tenha dado, a mediunidade, gradativamente, caminhou para a consciência que é a característica predominante hoje em dia.

Há quem pense que isso seja suficiente para explicar os fenômenos do passado, como por exemplo, os observados e descritos por Matta e Silva em seu livro: Umbanda e o poder da mediunidade.

Ao ler este livro, tem-se a impressão de que os fenômenos descritos não podem ser verdadeiros, dado o inusitado das manifestações. Contudo, eles são perfeitamente coerentes com o que se sabe a respeito da mediunidade, só não ocorrem com frequência na atualidade.

E, particularmente, penso que a principal razão para que tais fenômenos não mais ocorram seja, justamente, a mudança dos médiuns. E não falo da transição da inconsciência para a consciência na incorporação, mas da transição do compromisso e da retidão, para o desinteresse e a má vontade, característicos do nosso tempo.

Os médiuns do passado, em sua maioria, eram pessoas de rija têmpera, de fé inabalável, forte determinação e confiança em Deus. Eram presos num dia e no dia seguinte se mudavam com a família para dar continuidade aos trabalhos em outro lugar. Muitas vezes não tinham o que comer e repartiam o pão com os enfermos que lhes batiam à porta.

O caráter destes médiuns foi forjado na luta de um Brasil carente de tudo e sem rumo certo. Estas pessoas viviam em estado de privação e a vida se resumia em trabalhar, criar os filhos e o terreiro. Não havia muito tempo para distração e futilidades.

E hoje?

Hoje o médium tem mil distrações, mil ocupações, mil lazeres. Apesar de ainda vivermos tempos de crise e de estarmos longe das alegrias de um “primeiro mundo”, muita gente tem acesso a coisas que até bem pouco tempo seriam inimagináveis...

Para os médiuns de hoje o terreiro não é prioridade. Na verdade, aparece no quarto ou quinto lugar (e olhe lá!). Comparecem às gira se não estiver frio, se não estiver muito quente, se não houver festa na cidade, se não houver muito o que fazer...

Certa feita, uma pessoa com mais de 40 anos de Umbanda e que trabalha numa casa enorme, me disse:

- Léo, quando eu comecei na casa, se cinco médiuns faltassem, na outra semana tínhamos uma reunião para ver o que aconteceu, o motivo de tanta falta. Hoje, quarenta anos depois, faltam 30 médiuns numa gira e achamos normal, porque não dá pra exigir muito dos médiuns de hoje!

E, lamentavelmente, ela está coberta de razão!

A maioria dos médiuns que conheci, tanto pessoalmente quanto pela internet, participavam pouco das atividades da casa, interessavam-se pouco pelos rumos do trabalho, contribuíam pouco ou quase nada, comportando-se de maneira indiferente, apática, sem vontade. Não raro, sofrem o tempo todo de crises diversas: falta de fé, dúvida sobre a própria mediunidade, incerteza sobre a sua vida espiritual, etc.

Enfim, no passado, encontraríamos muitos médiuns extraordinários cujas mediunidades foram forjadas na luta e em terreno árido. Na atualidade, com tantas facilidades e distrações, encontramos uma multidão de médiuns meia-boca, sempre dispostos a ficar pelo caminho...

E não pensem que fujo a esta equação, pois embora não me veja tão desleixado quanto a maioria que conheci, nem de longe possuo a fé ardente dos primeiros médiuns da Umbanda. 

A parte boa é que podemos nos inspirar em quem quisermos, procurando o melhor que existe em nós mesmos: podemos nos aproximar dos primeiros ou dos últimos. A escolha é nossa!

Leonardo Montes 


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