sábado, 10 de abril de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 15: CONHECENDO AS ENTIDADES

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O desejo de saber quem são as entidades que trabalharão conosco gera uma enorme expectativa. Curiosamente, as entidades-chefes, durante o desenvolvimento, não costumam revelar estes nomes, esperando que as próprias entidades o façam.

O primeiro espírito que se deu a conhecer, como narrei anteriormente, foi o Pai José do Congo. Um preto-velho sábio, calmo, bom ouvinte. Eu já ouvira falar do Pai Arruda e que trabalharia com ele, mas não o conhecia. Só vim a incorporá-lo em novembro de 2015, três meses após iniciar os atendimentos públicos...

Em seguida, conheci o caboclo Uirapuru, da linha de Oxóssi. A princípio, ele quase não falava, agia energicamente e parecia incansável. Sempre que trabalhava com ele eu desincorporava quase morto de cansaço. Aos poucos, porém, começou a falar. Ainda hoje, é um caboclo de poucas palavras, mas seus conselhos são simples, claros e diretos, apesar de seu jeito truncado de dizer as coisas.

Logo, soube que trabalharia com um Hindu na desobsessão e nos trabalhos de cura. Eu aprendi a sentir a energia desse espírito que, quando incorporava, caminhava de forma ereta, quase nunca conversava e dava passes de forma bem diferente, fazendo movimentos circulares com as mãos, formas piramidais e quase teatrais, aos meus olhos. Ele só revelou seu nome em junho de 2015: Caboclo Ragi (e não faço ideia do motivo pelo qual se define como caboclo).

O quinto espírito que eu conheci foi o baiano Vicente. Eventualmente trabalhávamos com a linha dos Baianos e ele se manifestou por meu intermédio apenas três vezes em um ano de trabalho. Descontraído, atencioso e alegre, sua incorporação é tranquila, embora sinta um pouco de dor nas costas, já que ele não anda completamente ereto e sempre de mãos fechadas, gritando: axé, axé!

O sexto espírito foi o Exu do Lodo... Sempre se manifesta ao chão, com uma risada estridente, bastante alegre, brincalhão e muito desbocado... A primeira vez que eu o incorporei foi em meio à cana, enquanto estávamos fazendo uma entrega. Ele riscou seu ponto ali mesmo, com o dedo, na terra. A priori senti medo, pois seu modo de agir é totalmente diferente do meu. Com o tempo, porém, ele se tornou tão popular que passou a ser a manifestação mais esperada de todas.

Quase ao mesmo tempo conheci Rosa Vermelha da Encruzilhada, uma pombagira. Veio após um trabalho com os exus, trazendo sua presença feminina e seus bons ofícios em prol de todas as mulheres (atende quase exclusivamente mulheres) que sofrem com relações afetivas, problemas familiares, dificuldade na educação dos filhos, etc. Gosta de beber uma sidra vermelha semelhante ao champanhe e faz questão de ter sempre entre os dedos um cigarro convencional.

O oitavo espírito se apresentou de forma inusitada. Encerrávamos os trabalhos dos pretos-velhos e

começou-se a cantar para as crianças. Nunca havia desenvolvido com esta linha. Participei também dos cantos quando fui chamado pela preta-velha que comandava os trabalhos à concentração. Senti, então, uma energia intensa, totalmente diferente do que estava habituado e após um processo mais longo do que o normal se manifestou Juquinha Conchinha do Mar, criança da linha de Iemanjá. Sereno, educado e atua mais supervisionando as outras crianças do que, propriamente, atendendo. Gosta muito de conversar, chupar balas macias e beber fanta uva (bebida que eu detesto).

Após um ano e meio de trabalho vim a conhecer mais dois espíritos. O primeiro se apresentou como Wlado, um cigano muito atencioso, interpretador de sonhos e que demonstra muita lucidez e inteligência nos mistérios do mundo espiritual. Não abre mão de um charuto, vinho tinto e uma boa conversa. Mostra-se quase um professor.

O último veio da linha dos malandros. Apresentou-se apenas rapidamente, sem dar muitos detalhes e ainda não riscou seu ponto (alguns dizem que Malandro não risca ponto). Seu nome é Zé Pretinho e as únicas coisas que sei sobre ele é que gosta de cerveja bem gelada (outra coisa que detesto) e enroladinho de mortadela apimentada.

Esses são os espíritos que, de uma forma ou de outra, trabalharam comigo e parecem fazer parte de uma equipe espiritual com a qual irei trabalhar até o fim da

minha vida. Além destes, contudo, houveram outras manifestações, mas elas são tão raras e sei tão pouco desses espíritos que não os considero integrantes desta mesma equipe, mas trabalhadores eventuais.

No trabalho que ocorre em finados, por exemplo, trabalhei com uma preta-velha que se apresentou como Vó Maria Rosa do Cruzeiro das Almas. Em duas ocasiões, sendo uma delas um trabalho de desobsessão. Trabalhei também com uma cabocla d’agua, que também não sei quem é e, na festa de Ogum do ano de 2016, trabalhei com o caboclo Pena Vermelha, que também nunca mais deu notícias.

Acredito que, com o passar dos anos, conhecerei e trabalhei com outras linhas. Nunca vi, por exemplo, manifestações de Marinheiro, Boiadeiro ou Exu Mirim.

Enfim, caro leitor, o que posso lhe dizer sobre a ansiedade em querer saber sobre seus guias, é: tenha paciência!

Não procure informações na internet, como história da entidade, seu ponto riscado, essas coisas, pois você correrá o risco de ser influenciado pelo que vai ler. O melhor é deixar o processo fluir naturalmente que, sem dúvida, cedo ou tarde, você as conhecerá e verá que elas são suas companheiras e que sempre te auxiliarão, direta e indiretamente, em todos os momentos de sua vida... E, no fim, quem pode se queixar de esperar tendo tantos amigos dedicados em torno de si?

Leonardo Montes

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2 comentários:

  1. Eu comecei o meu desenvolvimento mediunico numa casa, mas por diversos motivos saí deste lugar, na minha cidade há diversas casas que trabalham errado, minha saída foi no começo deste ano de 2022 e desde então tive já duas incorporações em casa Não gostaria de desenvolver esse processo numa casa/terreiro, não sinto mais confiança nestes lugares. Tem como fazer esse processo sozinha? Tinha ido com a orientadora do desenvolvimento numa casa de produtos de umbanda, comprei diversas imagens da direita que já tinha incorporado e umas 3 imagens da esquerda que também havia incoroporado. Então estou um pouco perdida.

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    1. Não é impossível desenvolver sozinha, mas pense assim: você acha que um dentista aprenderia bem o seu ofício sem uma faculdade? Você se consultaria com um médico que não fez medicina? Os terreiros existem, justamente, como as universidades, preparando os alunos. Então, eu não recomendaria seguir por este caminho. Os atalhos em matéria de Umbanda, quase sempre, terminam em muros.

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