quinta-feira, 18 de março de 2021

ERVAS, NOSSAS AMIGUINHAS?

ervas na umbanda

De modo geral, chamam-se de ervas, no contexto da Umbanda, toda e qualquer planta, folha, raiz, flor, etc. É uma palavra  generalizada para  facilitar a compreensão do "reino vegetal" na religião. 

Seu uso foi fartamente disseminado, especialmente pelas imensas dificuldades enfrentadas pela população pobre no início do século XX que raramente conseguia ter acesso a algum serviço de saúde.

A sabedoria ancestral aliou-se ao saber espiritual, fazendo das ervas um recurso poderosíssimo para o tratamento dos males deste e do outro mundo. Foi neste contexto que os terreiros se transformaram em "consultório de pobre" e foi assim que muita gente conheceu a Umbanda.

De lá para cá, porém, muita coisa mudou. A medicina avançou, o SUS surgiu, o acesso à saúde melhorou sensivelmente (esta é a principal razão pela qual quase não se vê mais as garrafadas, tratamentos com raízes, xaropes e chás recomendados pelas entidades), de modo que, atualmente, elas têm focado seus esforços em outros tipos de males que assolam a humanidade, tais como: a solidão, a tristeza, a rejeição, a depressão, etc.

Voltando às ervas, você certamente já deve ter ouvido falar de algum parente que conhece bem as plantas, que entende de folhas, que sempre sabe uma receita caseira para tratar isso ou aquilo, certo? 

Contudo, você também já deve ter ouvido falar de chás perigosos, abortivos, que causam males e, se conhece alguém das antigas que entende de ervas, perceberá que eles possuem uma visão diferente da que encontramos hoje em dia: respeito e receio de certas ervas. 

Àquele tempo, diferentemente de hoje, havia um respeito muito maior em relação à natureza: boa parte da população dependia dela para seu sustento. Plantava-se nos quintais, nos fins de semanas os homens saíam para caçar (e ter, assim, carne na mesa), as plantas curavam feridas, dores, traziam tranquilidade e alívio. Era um mundo diferente...

Mas, não era apenas pela necessidade dos elementos vegetais que manifestavam esse respeito, eles também sabiam - e muito bem - que certas ervas são perigosas, que determinadas combinações são nocivas e que, se não administradas com cautela, podem prejudicar.

Nos terreiros a situação não era diferente: os antigos manipulavam as ervas com muito cuidado, com muito receio, sendo tudo sempre sigiloso, misterioso

Atualmente, é corrente a visão de que as "ervas são nossas amiguinhas", que a natureza é nossa "mamãe", de que "mal não faz" e assim fomos de um "não põe erva na cabeça pelo amor de Deus" a um "dá nada não".

Mas, as ervas são nossas amigas?

R: - A natureza não é nossa amiga, ela é selvagem! 

Nada deixa isso mais em evidência do que quando assistimos aqueles documentários do NetGeo sobre "vida selvagem" e vemos algum felino caçando. Você, como eu, talvez sempre olhe para o outro lado para não ver a morte da presa... Mas, mesmo assim, ela ocorre... É o instinto, é a sobrevivência em ação: a natureza não é nossa amiga mais do que foi da gazela antes de ser morta pelo leão...

Quando você vai colher um galhinho de arruda, por exemplo, acha que a planta fica feliz? Acha que ela se sente bem ao ter um pedaço arrancado por alguém? É por isso que as entidades pedem para rezarmos antes, pedindo permissão a planta (e todos se sentem meio malucos por fazer isso), mas é uma prática que visa minimizar o dano, fazendo com que a planta entenda (e, sim, elas entendem) e facilitem a retirada das folhas (e é aqui que você que age como um trator ao retirar as folhas deve repensar sua conduta).

A energia que a erva possui é selvagem, não é boa ou ruim, não tem consciência de si ou como as entidades me ensinaram: é uma "força cega". 

Quando você libera essa força, seja através de banhos ou defumações, está liberando uma energia que, se adequada ao que você necessita, poderá lhe fazer muito bem; porém, se não for adequada, poderá lhe fazer mal e é por isso que eu, particularmente, não gosto de passar receitas: o que funciona para um, pode não funcionar para outro e pode mesmo prejudicá-lo, se não souber manipular com cuidado.

Eu me lembro de uma pessoa que queria desistir do seu desenvolvimento, dizendo que não conseguia evoluir sua mediunidade, que estava cansada, desanimada. Fiz um check-list verbal com ela, verificando se estava cumprindo todas as etapas. Quando chegamos no banho de ervas, ela me disse:

- Sim, faço sempre no dia da gira.

- Quais ervas você usa?

- Faço sempre com arruda.

- Oi?

Arruda é uma erva de limpeza profunda. Porém, se toda semana você toma banho de arruda, acabará limpando, igualmente, as energias boas que possui e, como consequência, acabará fraco, cansado, desanimado. O banho antes da gira precisa ser um estimulante à mediunidade, mas, se for feito com ervas que limpam, então, faltará energia e o desenvolvimento será fraco.

Bastou que lhe orientasse de uma outra forma e até hoje está firme, forte e trabalhando em terreiro...

A associação que as pessoas fazem do uso das ervas com benefícios imediatos é, no mínimo, imprecisa. Existem alguns livros, especialmente os mais antigos, que ensinam a fazer, por exemplo, defumações para prejudicar o próximo. É mole?

Você sabia disso?

Então, se as ervas são "amiguinhas", se a natureza é nossa "mamãe", se o "Orixá entende", então como poderia nos prejudicar, não é mesmo? 

Então, para não me alongar muito mais, vou resumir o meu entendimento: a energia das ervas é selvagem, nem boa, nem ruim; é preciso saber manipulá-las, do jeito certo, com respeito, oração, concentração, conhecimento de causa, para tirar o melhor proveito; se não observadas essas circunstâncias, se não houver respeito, se os procedimentos não forem corretos, os efeitos poderão ser bem inferiores aos desejados ou mesmo prejudiciais, especialmente, se as combinações não favorecerem o caso, o que requer sempre conhecimento de causa.

Leonardo Montes 

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