segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

OS PERIGOS DA INCORPORAÇÃO FORA DO TERREIRO

Kiumba

Contarei a vocês uma das piores experiências que tive em relação a mediunidade na intenção de que sirva de alerta a quem trilhe o mesmo caminho.

Certa vez, ao me mudar para uma nova casa, senti a presença do exu dizendo que desejava fazer uma limpeza nela (ou, pelo menos, julguei que era ele). Concordei. Marquei o trabalho, convidei algumas pessoas e foi um completo desastre.

Eu tenho poucas lembranças do ocorrido, não sei se por inconsciência do transe ou pelo excesso de bebida, mas posso dizer que foi uma manifestação grosseira e totalmente atípica. 

Vomitei horrores e depois capotei com um sono profundíssimo. Acordei no outro dia com uma baita dor de cabeça, minha esposa estava nervosa com todas as asneiras que a entidade fez e falou e eu me senti tão decepcionado que joguei quase tudo dele fora, tomado de verdadeira ira.

Posteriormente, o exu com quem trabalho assumiu a responsabilidade, disse que a energia da casa estava muito pesada, que ele exagerou na dose e eu acreditei. Porém, hoje, acho que ele assumiu essa culpa para me proteger, para que eu não reagisse de forma negativa à verdade que hoje me parece clara: era um mistificador!

Àquele tempo, ainda iniciando, eu me achava forte demais. Não que me viesse como médium extraordinário ou uma pessoa iluminada, mas eu padecida da ilusão que domina boa parte das pessoas no meio mediúnico e que faz com que se julguem mais fortes do que de fato são e este foi o meu erro.

Eu achava que os guias nunca iriam deixar algo assim acontecer comigo, que a minha boa-vontade no terreiro, os meus estudos em espiritualidade, todo o trabalho de caridade que eu exercia, somados ao meu esforço em ser sempre uma pessoa melhor, naturalmente me colocariam sempre na companhia de bons espíritos e que fatalmente eu reconheceria caso um embusteiro se aproximasse. Eis o meu erro!

Nós - em termos de humanidade - somos ainda espíritos muito fracos, débeis de forças mais robustas, de uma fé mais viva e sólida. Nós frequentemente balançamos ao sabor do vento, colocamos nossas certezas em cheque com frequência e quase sempre escorregamos em nossa conduta moral. O nosso melhor esforço ainda é muito pouco para nos livrarmos, em absoluto, da influência dos maus espíritos, daí a necessidade de precaução e prudência, que foi o que me faltou e tenho absoluta convicção de ter sido a razão da não interferência dos guias: uma lição amarga, porém, necessária ao meu aprendizado! 

De lá para cá, aprendi a lição.

Cada vez que uma entidade quer me dizer alguma coisa, eu escuto com atenção e tiro a prova: duas, três vezes se for necessário. Dependendo da gravidade da questão, ouço o que me dizem em casa (o que é raro e costuma acontecer apenas no dia do evangelho) e aguardo até a próxima gira, no ambiente seguro do terreiro, para então ter certeza de que realmente recebi uma comunicação correta: isso se chama prudência e é o que falta em muitos médiuns.

Quantos são os que também se acham fortes como eu me achava e que juram de pé junto, as vezes perante o dirigente, outras vezes, perante os próprios guias, que não recebem em casa, que não dão passe ou consulta fora do terreiro e que igualmente se coçam de vontade de incorporar ao menor arrepio, que incorporam em festas, que vivem de passar mil recados, sem nenhum critério, nenhuma preparação...

Assim, quando o dirigente de um terreiro diz para não incorporar em casa, para não ficar recebendo "guia" toda hora, para não ficar nessa onda de passar recado que nunca termina, é para proteger - claro, quando o dirigente é sério -, proteger o corpo mediúnico da casa que, por vezes, pode se achar forte demais e, com isso, acabam por não ver suas próprias fraquezas e podem sofrer uma experiência negativa como a que eu sofri.

É claro que existem situações atípicas, emergenciais ou circunstanciais, em que a presença de um guia se faça necessária fora do terreiro, mas estas situações precisam ser exceções e não a regra da conduta mediúnica de alguém, do contrário, daqui a pouco o médium estará recebendo um Kiumba achando que é seu preto-velho.

O coração que sabe discernir busca o conhecimento, mas a boca dos tolos alimenta-se de insensatez.

Provérbios 15:14

Leonardo Montes

Share:

0 Comments:

Postar um comentário

Os anos de internet me ensinaram a não perder tempo com opositores sistemáticos, fanáticos, oportunistas, trolls, etc. Por isso, seja educado e faça um comentário construtivo ou o mesmo será apagado.