quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 4: DESENVOLVENDO A INCORPORAÇÃO

 

médium

Ao término das giras públicas, os médiuns em desenvolvimento permaneciam no terreiro após a saída dos consulentes. Eu acompanhava com especial interesse o método de desenvolvimento que me parecia, em tudo, absolutamente simples.

Os médiuns já desenvolvidos e cambones permaneciam em círculo ou semicírculo, conservando, ao meio, o médium a ser desenvolvido. Um dos guias-chefes da casa se manifestava, ora caboclo, ora preto-velho.

Quando se manifestava o caboclo, ele fazia um círculo no chão, espalhava folhas de samambaia dentro, colocava a pessoa de pé e, às vezes, baforava charuto em sua cabeça, emitia seu brado e fazia a pessoa girar, pedindo aos membros da corrente que prestassem atenção para não deixá-la cair.

Quando vinha algum preto-velho, o processo era mais suave. Eles normalmente benziam com folhas, baforavam o cachimbo na cabeça da pessoa e seguravam levemente suas mãos, balançando-as suavemente. Quando isso não surtia efeito, punha-os a girar.

Eu geralmente fazia parte da corrente e observava com muita atenção as pessoas girando. Elas pareciam perder algo da sua consciência, o corpo amolecia, por vezes tremia, a respiração ficava mais intensa e, às vezes, desequilibravam-se e caíam ao chão.

Numa dessas giras de desenvolvimento, como são chamadas, fui arrastado de súbito pelo caboclo-chefe (que não é nada delicado) e colocado para girar. Além do susto inicial, essa perspectiva me atemorizava, pois em toda a minha vida sempre fui muito sensível a tontura. Só de me imaginar girando já fico tonto...

O caboclo me girava, girava, bradava, andava em torno a mim pisando firme no chão, fazendo movimentos que se assemelhavam a uma dança.

Lembro-me que, na primeira vez, senti apenas leveza... Demoraria cerca de um mês e meio para que sentisse uma energia percorrer meu corpo. A partir de então, durante a gira, passei a sentir uma imensa vontade de correr, o que frequentemente fazia com que me desequilibrasse e caísse, sendo amparado pelos amigos.

Posteriormente, observei leves movimentos involuntários dos meus braços. Se conseguisse deixar a mente serena, meu corpo simplesmente se movia sozinho, embora lentamente.

Conforme o desenvolvimento avançava e minha sensibilidade ia se tornando mais forte, percebia a entidade se aproximado de mim, geralmente, postando-se atrás, um pouco à esquerda. Sentia como um imã a percorrer meu corpo nos setes principais chakras o que fazia com que meu corpo ficasse amolecido, cambaleante para um lado e para outro.

Sentia o alinhamento dos chakras da entidade com os meus. Um leve torpor me tomava, a vista embaçava um pouco. Se fosse caboclo, o coração acelerava, uma energia me percorria e forte vigor tomava conta. Se fosse preto-velho, um peso insuportável nas costas, fraqueza nas pernas, incrível sensação de tranquilidade.

O desenvolvimento ocorria semanalmente e durava em torno de cinco minutos por pessoa, sendo encerrado pela entidade que estava no comando, que dizia quando começar e quando terminar, o que normalmente ocorria chamando o nome da pessoa para que despertasse do transe em que se encontrava.

Em essência, era esse o processo. A única diferença é que, a cada sessão, sentia mais forte, mais firme. Ao longo de três meses, já conseguia incorporar o caboclo e o preto-velho com relativa naturalidade, embora eles falassem muito pouco e permanecessem apenas alguns minutos.

Eu sentia o desenvolvimento ocorrer em duas seções distintas. Primeiramente, as entidades pareciam se esforçar para dominar meu corpo. Se incorporasse o preto-velho, por exemplo, sentia o peso nas costas, as pernas fraquejarem, os movimentos tornarem-se lentos e eu me movia de forma acentuadamente curvada.

Nunca tivera predisposição ao fumo, no entanto, incorporado o preto-velho, a boca chegava a salivar de vontade de fumar. Mas, não qualquer fumo. Tinha que ser o fumo natural, sem aroma artificial. Quando lhe ofereciam um cachimbo, balançava a cabeça em tom negativo, pedindo, por gestos, o cigarro de palha.

No instante em que colocava o cigarro de palha na boca, sentia satisfeita a “minha” vontade. Ele puxava com relativa dificuldade a fumaça, que não era tragada, isto é, não era “engolida”. Permanecia alguns segundos com ela na boca para, em seguida, ser soprada para fora. Quanto mais ele fumava, mais forte eu sentia a incorporação!

Entretanto, embora estivesse satisfeito, em parte, o controle do meu corpo, a minha mente permanecia inteiramente entregue a mim mesmo. Nada mudara em meus pensamentos, exceto, por certa lentidão na ordem comum das ideias e aqui reside a segunda parte do meu desenvolvimento...

Eu continuava pensante e, por vezes, desviava o pensamento para coisas que nada tinham a ver com o momento... O que me fazia pensar - como é absolutamente comum entre os médiuns iniciantes -, que não estava, de fato, incorporado... Chegando mesmo a cogitar se não me encontrava sob algum tipo de sugestão coletiva...

Levaria, ainda, algum tempo até que conseguisse silenciar a minha mente...

Leonardo Montes 

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