domingo, 20 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 2: SENSIBILIDADE MEDIÚNICA

médium iniciante

Ainda naquela noite, Pai Cipriano me explicou que eu não “servia” pra incorporar, mas que poderia desenvolver minha sensibilidade a ponto de saber, inclusive, quando o espírito ia se incorporar em algum médium. Não é preciso dizer que isso elevou minha curiosidade à enésima potência.

O processo, contudo, me parecia demasiadamente simples. Depois de terminado o atendimento às pessoas da gira, eu me sentava num pequeno banquinho em frente ao preto-velho que pousava a destra sobre minha cabeça, ao mesmo tempo em que baforava o seu cachimbo. O método era simplesmente este, embora às vezes usasse alguma erva sob a mão.

Da primeira vez, senti um arrepio intenso percorrer a minha coluna. Uma sensação semelhante à leve choque elétrico, diferente de tudo que já sentira. E foi só.

Esta era a sensação e ocorria no momento do meu desenvolvimento. Não sentia nenhuma diferença nos demais instantes da minha vida.

Decorridos cerca de um mês e meio do início do meu desenvolvimento, fui convidado a participar dos trabalhos de desobsessão que se iniciariam em breve. Sinceramente, nunca me interessei pelo assunto, mas a oportunidade de acompanhar médiuns mais experientes me animou bastante. Aceitei!

Assumiria a função de esclarecedor, isto é, a pessoa que conversaria com a entidade manifestante. Embora fosse a minha primeira vez num trabalho daquela natureza, eu já havia lido extensamente sobre o assunto de modo que me sentia razoavelmente preparado para exercer a função.

As sessões ocorreram normalmente, até que, no fim de abril de 2015, num dos trabalhos de desobsessão, enquanto me concentrava em preces para os trabalhos da noite, pude sentir, novamente, o estranho arrepio na coluna. Mas, dessa vez, não havia nenhuma entidade colocando a mão em minha cabeça. Tão logo sentia o arrepio, a médium a meu lado incorporava. E assim foi durante toda a noite: arrepiava, ela incorporava.

Às vezes, tinha a sensação de que alguém colocava suas mãos sobre minha cabeça. Chegava mesmo a olhar ao redor de tão viva era essa impressão e nada via. Posteriormente, soube que eram as entidades ajudando o meu desenvolvimento, que consistia num estímulo energético constante sobre meu chakra superior (Sahasrara).

Aqui, entretanto, faço questão de esclarecer o seguinte: o termo arrepio me parece o mais adequado para definir a sensação que me dominava naquele instante. Mas, diferentemente do arrepio quando se leva um susto ou quando se sente frio, esse era intenso, durava vários segundos, subia e descia por toda a minha coluna vertebral, irradiando-se por meus braços e pernas de modo frenético, semelhante a um pequeno choque elétrico...

Passei a perceber, então, que isso não ocorria somente na reunião de desobsessão. Nas giras públicas também. Sentia o arrepio, o médium ao meu lado incorporava. Curioso, passei a me posicionar ao lado de diferentes médiuns para ver se o mesmo acontecia e, de fato, acontecia. A partir desse dia, adquiri a capacidade de sentir um arrepio intenso quando os espíritos incorporavam em seus médiuns.

Com o tempo, comecei a perceber que essa capacidade evoluía, melhorava-se, tornava-se mais apurada. Eu escutava sempre outros médiuns conversando sobre a energia da casa, dizendo que “hoje está pesado ou hoje está leve” e coisas assim. Entretanto, até aquele momento, eu nada sentia. Entrava e saía do terreiro com as mesmas impressões de entrar ou sair da minha própria residência, sem afetação alguma.

Aos poucos, porém, percebi que isso foi se modificando. Gradativamente, assim que pisava no terreiro, não apenas sentia o arrepio, mas por algum processo que ainda não sei explicar, como um sentido novo que surgisse em minhas percepções, eu era capaz de distinguir se as energias estavam boas ou ruins.

Se estivessem boas, isto é, se a soma vibratória de todos os presentes no terreiro estava boa, as energias eram leves, sutis e proporcionavam a sensação de paz, tranquilidade. Se, porém, houvessem pessoas perturbadas (e logo aprendi que uma pessoa severamente perturbada é capaz de contagiar vinte outras...) as energias eram densas, o coração se acelerava, um estranho pesar se abatia sobre meus ombros, os pensamentos ficavam lentos, etc.

Minhas sensações permaneceram as mesmas por cerca de seis meses. Por volta de outubro de 2015, senti novamente que elas se ampliavam. Bastava me concentrar em determinado médium, olhá-lo fixamente, enquanto se preparava para incorporar e podia, sutilmente, sentir a entidade se aproximar e incorporar-se nele.

Não apenas isso. Conseguia, agora, novamente sem explicar por que meio, saber onde estava a entidade. Se à esquerda do médium, se à direita, se atrás, etc.

Uma atitude que me ajudou muito a fazer distinção das minhas percepções e saber se eram mesmo impressões mediúnicas ou se as estava imaginando, é que sempre busquei conversar com as entidades-chefes, perguntando se minhas impressões estavam certas ou erradas. Às vezes errava, mas na maioria, acertava.

No ano seguinte, conseguiria distinguir com certa precisão quando se tratava de um caboclo ou de um preto-velho, por exemplo. Essa capacidade se tornaria ainda mais refinada, dando-me a percepção de espíritos não apenas no terreiro, mas em diversos outros lugares, embora com menos frequência...

Certa noite, por exemplo, estava numa pizzaria com amigos, quando, de repente, senti a vibração de uma entidade de baixa evolução bem atrás de mim. Olhei discretamente e vi um grupo de jovens que havia acabado de chegar. Próximo de um deles senti a presença de uma entidade que, em tudo, deu-me a clara impressão de ser um vampiro sugando suas energias.

Disfarcei o quanto pude, mas as sensações emanadas de uma entidade perturbadora causam muito desconforto. Afetou-me a respiração, os batimentos cardíacos se descompassaram e até mesmo o estômago chegou a ficar indisposto. Os amigos perceberam, mas desconversei.

Empreendi grande esforço de concentração mental e após elevar uma prece sincera, parei de perceber a entidade. Se ela se afastou ou se simplesmente não pude mais percebê-la, sinceramente, não sei.

Dali em diante, mais sensível a tudo ao meu redor, teria que aprender a concentrar meu foco de atenção e se, por ventura, viesse a perceber alguma entidade inferior fora do ambiente de trabalho mediúnico, procurava desviar o meu pensamento ou refugiar-me na oração sincera.

Aqui, talvez, o leitor pense: qual a utilidade dessa mediunidade? Explicarei.

A sensibilidade, isto é, a capacidade de sentir os espíritos e as energias do ambiente é irmã da intuição. Ao passo que me sentia mais sensível às energias, percebia-me também mais intuitivo em meus propósitos. Se proferisse uma palestra, por exemplo, sentia o aproximar da entidade que me auxiliaria, sua mão espiritual ligando-se a região da minha nuca e o fluxo de pensamentos que partindo dela embalava-me as ideias. Era um mundo novo de percepções. Mas, não apenas isso!

Se me dispunha a dialogar com os espíritos na desobsessão, antes mesmo da incorporação, sabia quando se se tratava de um suicida, um criminoso ou de um espírito arrependido, etc. Isso me facilitava o diálogo com as entidades sofredoras.

Quando conclui a minha graduação em psicologia, tão logo voltei a me sentar, depois de pegar o “canudo”, senti alguns amigos espirituais ao meu lado. Na próxima gira, sem que eu nada dissesse, algumas das entidades me parabenizaram pelo feito e disseram ter comparecido à minha colação de grau...

Se em algum momento da minha vida estivesse prestes a tomar uma decisão que não me fosse prudente, por vezes, sentia o pensamento amigo de algum espírito a me fazer pensar com mais retidão. Enfim, uma faculdade que ajuda o trabalhador da seara espiritual em todos os sentidos...

Devo deixar claro, contudo, que essa sensibilidade me causou, sim, alguns aborrecimentos. Uma simples ida a um bar, por exemplo, se mostrava uma empreitada

perigosa, pois se me permitisse entrar em faixas mentais menos felizes, como conversas sem proveito ou pensamentos negativos, eu me tornava muito mais vulnerável e isso causava enorme desgaste físico e mental.

Um ano e meio após o início do meu desenvolvimento eu havia aprendido a “controlar” essa faculdade. Não consegui encontrar (se é que há) algum botão de liga-desliga. Mas, aprendi a concentrar e desconcentrar meu pensamento com certa facilidade.

Tornei-me capaz de sentir, algumas vezes, o estado emocional de algumas pessoas. Quando alguém se aproximava, podia sentir com exatidão a sua disposição emocional, o que me permitia auxiliá-la com maior eficácia.

Entretanto, cabe considerar que essa faculdade não se exerce como nos filmes, a bel prazer do médium. Pode ser que a entidade se encontre ao seu lado e você não seja capaz de percebê-la ou que uma pessoa extremamente infeliz passe por você sem que nada seja captado. Por vezes, me esforçava muito para que ela “funcionasse”, sem resultado algum. Podia concentrar o quanto quisesse numa pessoa e nada sentir sobre ela.

Foi então que compreendi que a faculdade é como uma manifestação viva, por si só e que não depende, exclusivamente, da minha vontade para iniciá-la. A minha única escolha era sobre o que fazer com as sensações que chegavam até mim: aceitá-las ou ignorá-las, isso era comigo!

Leonardo Montes

Share:

0 Comments:

Postar um comentário

Os anos de internet me ensinaram a não perder tempo com opositores sistemáticos, fanáticos, oportunistas, trolls, etc. Por isso, seja educado e faça um comentário construtivo ou o mesmo será apagado.