terça-feira, 1 de dezembro de 2020

ATABAQUES: VANTAGENS E DESVANTAGENS

atabaque

Inicialmente, não se usava atabaque na Umbanda. Há uma pequena gravação em que Zélio explica a razão que, basicamente, é a seguinte: o Caboclo das Sete Encruzilhadas considerava perda de tempo os toques, pois o objetivo do espírito era "baixar" e fazer a caridade. Assim, apenas os cânticos eram mantidos (sem palmas), como se faz até hoje na TENSP.

De lá para cá, porém, muita coisa mudou de tal forma que, hoje, os atabaques são bastante comuns dentro da religião e encontrados em quase todos os terreiros. Não há, propriamente, uma conotação positiva ou negativa em seu uso, ficando mais a critério do dirigente do terreiro adotá-los ou não.

Vantagens

Inegavelmente, os atabaques (e falo no plural porque tradicionalmente são três) são uma influência direta dos Candomblés embora, na Umbanda,  assumam um contorno bem diferente em relação a primeira religião.

Na Umbanda, os atabaques assumem um sentido mais de percussão, parte da musicalidade de terreiro e dão um charme especial às giras, mantendo sempre um ritmo vibrante, contagiante, favorecendo a concentração, a entrega e a fé das pessoas durante o trabalho.

Giras sem atabaques costumam parecer meio "sem graça", pois apenas o canto nem sempre é suficiente para manter um bom ritmo. As pessoas tendem a gritar ao invés de cantar e frequentemente desafinam muito. 

Com o atabaque, a impressão que tenho é que fica mais fácil manter o ritmo e a harmonia do conjunto.

Quando um ponto é bem tocado, as pessoas se emocionam, cantam com mais fé, com mais amor, com mais devoção e isso faz a vibração da corrente subir ao teto. É a principal razão para se tê-los, em minha opinião. 

Desvantagens

Nem tudo são flores no universo dos atabaques, existem alguns inconvenientes que precisamos abordar.

O primeiro deles é o barulho. Parece ser uma tendência comum no meio umbandista o exagero na intensidade do toque. Assim, da mesma forma que as pessoas costumam gritar ao invés de cantar, os curimbeiros tendem a esmurrar o atabaque, produzindo um som muito alto que chega a incomodar tanto as pessoas que participam do rito, quanto os vizinhos.

Obs.: Atualmente, é corrente chamar o tocador de atabaque de Ogã, mais isto é um erro, visto que Ogã é um cargo de Candomblé cuja função vai muito além de simplesmente tocar atabaque. O correto, na Umbanda, é chamar o tocador de atabaque de CURIMBEIRO.

O segundo inconveniente é que os atabaques favorecem o animismo. Este é um ponto que o Caboclo das Sete Encruzilhadas também abordava. Muitas pessoas se entregam facilmente a um transe anímico por força dos atabaques, do canto, do cheiro da defumação e, com muita frequência, entram em um transe, porém, não de incorporação. É assim que muitos consulentes começam a tremer na hora do passe ou mesmo na consulência, como se estivessem recebendo algo, mas na verdade não estão. 

Médiuns em desenvolvimento também tendem a "queimar etapas", forçando um transe que ainda não existe, pelo menos, na intensidade que ele demonstra, o que as entidades costumam explicar da seguinte forma: o cavaleiro jogou a cela, mas antes de montar o cavalo saiu correndo... 

O terceiro e último inconveniente é que os atabaques acabam gerando uma certa dependência. Os médiuns se habituam ao som dos mesmos e, na impossibilidade de tocá-los, por qualquer razão, acabam sentindo grande dificuldade em incorporar, como se a incorporação estivesse condicionada ao som dos atabaques e não deveria ser assim. O Velho sempre me orientou que o bom médium deve incorporar até embaixo d'água (ainda não fiz o teste, mas um dia pretendo). 

Conclusão

Particularmente, gosto dos atabaques apenas em momentos bem específicos do ritual, especialmente, na abertura e no encerramento. Mas, mesmo nestes casos, estimo muito mais um toque suave, harmônico e baixo a um ritmo frenético, desenfreado e estridente que parece ser a tendência do momento.

Da mesma forma, o coro do terreiro deveria observar com cuidado a influência do canto (que, para nós, funciona como uma oração musicada), e que deveria ser, como o próprio nome diz: cantado, não gritado.

Atabaques suaves, canto harmônico, fé e dedicação, são uma receita infalível, pelo menos para mim, de um bom ritual de Umbanda.

Leonardo Montes

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