terça-feira, 29 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 8: QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA


É de conhecimento comum no meio mediúnico que as manifestações de incorporação se dão em três formas: conscientes (90% dos médiuns); semiconscientes (9% dos médiuns) e inconscientes (1% dos médiuns). Essa proporcionalidade me foi passada por uma das entidades chefes da casa onde desenvolvi.

Os médiuns inconscientes são tão raros que muitos pensam que estão extintos e definem-se por aqueles que não conservam qualquer lembrança após o transe mediúnico: tudo que as entidades fazem após a incorporação lhes é desconhecido.

Os semiconscientes são aqueles que se mantêm conscientes durante o trabalho, mas não exercem domínio sobre o próprio corpo, que age independentemente da sua vontade, sendo comum que suas lembranças se embaralhem ao final do transe.

Os conscientes - a maioria dos médiuns -, estão plenamente de posse do próprio corpo, veem tudo que acontece e recordam-se de tudo ao fim. Poderíamos dizer que trabalham em parceria com os espíritos.

Acredito que, no futuro, a literatura a respeito da incorporação necessitará rever algumas coisas. Por exemplo: de fato, existem esses três estados de consciência durante o transe mediúnico. Porém, percebi que, dentro de cada um desses estados existem níveis, variáveis. Um médium inconsciente, num trabalho, pode estar em algo semelhante a um sono profundo e em outro se encontrar como alguém que cochila. Em ambos os casos pode-se dizer que dorme, mas a profundidade do sono é bem diferente.

Outra situação: considera-se médium inconsciente o que não se recorda de nada durante o transe. Porém, consciência e memória, embora estejam ligadas, são funções mentais (ou cerebrais, para os mais materialistas), diferentes. Pode ser que um médium esteja inconsciente durante o transe e, ao final, ainda se recorde de algo? Penso que sim... Mas, deixemos isso para os estudiosos do futuro... 

Voltemos à apreciação do meu caso pessoal.

Naturalmente, as pessoas tendem a dar maior credibilidade aos médiuns inconscientes, uma vez que, neles, os espíritos podem se manifestar com quase total liberdade, que só não é absoluta, pois sempre há influência da mentalidade do encarnado na manifestação.

Como todo médium iniciante, eu desejava, também, perder a consciência. Inicialmente, o médium luta muito contra a dúvida. Perguntas, como: estou mesmo incorporado? Sou eu ou é o guia? São muito comuns. Costumo dizer, entretanto, que as dúvidas também evoluem e, ao longo de algum tempo, essas dúvidas passarão para algo, tipo: interpretei corretamente o que o espírito queria dizer?

Como médium consciente, tive que aprender a controlar os meus pensamentos e aquietar a mente, calá-la para que outro pudesse falar. Quanto mais me concentrava e menos pensava em coisas diversas, mais forte e firme era a manifestação. Isso sem dúvida não é fácil. Por vezes me sentia extremamente perdido em meus próprios pensamentos e nos das entidades que sentia como sutis intuições do que e como dizer/fazer as coisas.

Conforme os trabalhos iam ocorrendo, porém, e percebia um feedback positivo da consulência, minha confiança aumentava e sentia que, mais livremente, o guia podia atuar. 

Gradativamente, compreendi que a consciência não é um obstáculo à manifestação mediúnica e que, ao contrário do médium inconsciente que nada levava consigo após a gira, eu aprendera muito com os conselhos dos guias e com a experiência de vida dos sofredores que buscavam ajuda espiritual.

É preciso recordar, ainda, que não importa se o médium é consciente ou não. A capacidade de atuação de um guia não se limita à consciência do médium. Ainda que o espírito não consiga expressar tudo quanto gostaria verbalmente através de um médium consciente, nem por isso deixa de dar o seu recado e nem por isso seu passe tem menos eficácia.

O trabalho se inicia no momento da gira, mas quase sempre se prolonga por vários dias, semanas, meses, totalmente independente do primeiro contato que se deu através do médium...

Leonardo Montes

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domingo, 27 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 6: PRIMEIRO TRABALHO

umbanda

Após a conversa com o Pai Cipriano, sentia-me pressionado, inseguro e, sinceramente, com muito receio. A assistência fiel percebeu que eu me colocara na posição de médium e muitos pares de olhos me acompanhavam com curiosidade, o que elevou ainda mais minha insegurança.

Fiz uma prece com todo meu coração, de todo meu ser, pedindo auxílio ao preto-velho que trabalharia. Estava com medo, mas desejava servir! Se ele me julgasse digno e pronto, que tomasse meu corpo, que viesse espalhar sua luz.
Foi então que senti uma vibração intensa como nenhuma outra. Todo meu corpo formigava. Meus braços e pernas tornaram-se lentos, meu olho esquerdo fechou e não conseguia mais abri-lo. Sentia um torpor intenso na região da mandíbula, um forte tremor em todo o corpo e, em poucos instantes, manifestava-se José do Congo, preto-velho que não gosta de ser chamado de Pai nem de Zé, apenas, José.
Encurvado, de andar lento, mãos trêmulas, enxergando apenas com o olho direito, caminhou devagarzinho até o Pai Cipriano, saudando-o. Em seguida, dirigiu-se para a imagem de Jesus (Oxalá) saudando-a.
Sentou-se com dificuldade num banquinho, cumprimentou o cambone, riscou seu ponto, acendeu um cigarro de palha e disse:
- Pode chamar, filho... Vamos trabalhar!
Leonardo Montes
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DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 7: LEITURA MENTAL

Médium

O bondoso velho cumprimentava com singeleza e delicadeza cada consulente que se sentava à sua frente. Pedia a pessoa que pensasse em Deus e no que desejaria obter. Colocava sua destra sobre a cabeça do consulente e um mundo novo de percepções se abria diante de mim.

De imediato, uma multidão de sensações invadia a minha cabeça. Apontamentos bem específicos surgiam, como por exemplo: problema na família, dificuldade no trabalho, doença, dinheiro, etc. Por alguns instantes, parecia poder sentir as aflições mais graves da pessoa que, nem sempre, casavam com aquilo que ela verbalmente dizia...

Ali aprendera outra lição: não importa o que a pessoa diz ou do que ela reclame. As entidades sabem do que ela necessita! Por vezes, notei os consulentes aborrecidos ou contrafeitos por terem feito uma reclamação e terem recebido orientação sobre outra situação.

Neste sentido, Vó Cambinda de Guiné, uma das entidades chefes, dizia sempre: Cada fi vai escutá o que precisa, não o que qué!

Com o tempo, a leitura mental - como passei a chamar esse fenômeno -, tornara-se mais precisa. Se, inicialmente, em conjunto com as sensações aflitivas do consulente surgiam apontamentos que davam o direcionamento do problema, agora surgiam

elaborações mais complexas, como a dizer: Você está com dificuldade de relacionamento com o seu pai; Você bateu o carro; A dívida que deseja receber logo será paga ou coisas do tipo.

Simplesmente, informações que não se poderia obter com leitura fria ou através de indicativas, dado que o consulente só dizia o seu problema após a “sondagem” do preto-velho, surgiam de forma clara em minha mente.

Isso me deu enorme confiança na capacidade dos meus guias e na força da minha própria mediunidade.

Leonardo Montes

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 5: ABRINDO FALANGE

MÉDIUM

O termo “abrir falange” frequentemente é empregado ao ato da fala. Quando a entidade é capaz de incorporar-se com naturalidade e falar, está aberta a falange e está apta a atender publicamente. É quando normalmente ela risca seu ponto de forma definitiva e dá o seu nome de falangeiro.

É comum que os médiuns se sintam inseguros em relação a este período. Alguns retardam o quanto podem o momento em que suas entidades passarão a atender publicamente.
Conheci médiuns que levaram mais de dois anos e meio de desenvolvimento para que as entidades falassem seus nomes. Isso se deve, quase sempre, à insegurança do próprio médium.
Quanto mais seguro o médium se torna, mais rapidamente ele abrirá falange. Para que isso ocorra, contudo, torna-se indispensável dedicação e paciência, sendo desejável, o estudo.
Eu não tive maiores problemas em relação a fala. O timbre de voz, contudo, era o meu. Levaria alguns meses para que o timbre e a maneira de falar começassem a mudar de entidade para entidade e isso se deu com suave naturalidade e, por vezes, de forma imperceptível para mim. Quando me dava conta, já estava falando em outro timbre e de outra forma!
Sentia-me relativamente seguro das minhas incorporações quando, em agosto de 2015, quase seis meses do início do meu desenvolvimento, numa gira em que compareceram poucos médiuns e ampla assistência, o Pai Cipriano me chamou e disse que, dali por diante, eu trabalharia.
Foi um choque!
Eu me sentia feliz com o meu desenvolvimento, mas, nunca tinha atendido. As entidades apenas incorporavam, riscavam seu ponto, fumavam charuto ou cigarro de palha, bebiam um pouco de café ou vinho e iam embora. Não me imaginava atendendo antes de, pelo menos, um ano de desenvolvimento...
De imediato, não aceitei... Disse que não me sentia pronto, que ainda precisava desenvolver por mais tempo, que estava feliz como cambone e assim queria permanecer, ao que ele me disse:
- Você confia em mim?
- Sim, o senhor sabe que sim... Mas...
- Então, vamos trabalhar. Hoje tem pouco médium e muita assistência. Você consegue. Se você não estivesse pronto eu não te chamaria!
Nada mais respondi. Ele continuou:
- Confie em mim, eu vou estar aqui. O que vier na cabeça, diga, não trave a língua, vai dar tudo certo...
Leonardo Montes
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 4: DESENVOLVENDO A INCORPORAÇÃO

 

médium

Ao término das giras públicas, os médiuns em desenvolvimento permaneciam no terreiro após a saída dos consulentes. Eu acompanhava com especial interesse o método de desenvolvimento que me parecia, em tudo, absolutamente simples.

Os médiuns já desenvolvidos e cambones permaneciam em círculo ou semicírculo, conservando, ao meio, o médium a ser desenvolvido. Um dos guias-chefes da casa se manifestava, ora caboclo, ora preto-velho.

Quando se manifestava o caboclo, ele fazia um círculo no chão, espalhava folhas de samambaia dentro, colocava a pessoa de pé e, às vezes, baforava charuto em sua cabeça, emitia seu brado e fazia a pessoa girar, pedindo aos membros da corrente que prestassem atenção para não deixá-la cair.

Quando vinha algum preto-velho, o processo era mais suave. Eles normalmente benziam com folhas, baforavam o cachimbo na cabeça da pessoa e seguravam levemente suas mãos, balançando-as suavemente. Quando isso não surtia efeito, punha-os a girar.

Eu geralmente fazia parte da corrente e observava com muita atenção as pessoas girando. Elas pareciam perder algo da sua consciência, o corpo amolecia, por vezes tremia, a respiração ficava mais intensa e, às vezes, desequilibravam-se e caíam ao chão.

Numa dessas giras de desenvolvimento, como são chamadas, fui arrastado de súbito pelo caboclo-chefe (que não é nada delicado) e colocado para girar. Além do susto inicial, essa perspectiva me atemorizava, pois em toda a minha vida sempre fui muito sensível a tontura. Só de me imaginar girando já fico tonto...

O caboclo me girava, girava, bradava, andava em torno a mim pisando firme no chão, fazendo movimentos que se assemelhavam a uma dança.

Lembro-me que, na primeira vez, senti apenas leveza... Demoraria cerca de um mês e meio para que sentisse uma energia percorrer meu corpo. A partir de então, durante a gira, passei a sentir uma imensa vontade de correr, o que frequentemente fazia com que me desequilibrasse e caísse, sendo amparado pelos amigos.

Posteriormente, observei leves movimentos involuntários dos meus braços. Se conseguisse deixar a mente serena, meu corpo simplesmente se movia sozinho, embora lentamente.

Conforme o desenvolvimento avançava e minha sensibilidade ia se tornando mais forte, percebia a entidade se aproximado de mim, geralmente, postando-se atrás, um pouco à esquerda. Sentia como um imã a percorrer meu corpo nos setes principais chakras o que fazia com que meu corpo ficasse amolecido, cambaleante para um lado e para outro.

Sentia o alinhamento dos chakras da entidade com os meus. Um leve torpor me tomava, a vista embaçava um pouco. Se fosse caboclo, o coração acelerava, uma energia me percorria e forte vigor tomava conta. Se fosse preto-velho, um peso insuportável nas costas, fraqueza nas pernas, incrível sensação de tranquilidade.

O desenvolvimento ocorria semanalmente e durava em torno de cinco minutos por pessoa, sendo encerrado pela entidade que estava no comando, que dizia quando começar e quando terminar, o que normalmente ocorria chamando o nome da pessoa para que despertasse do transe em que se encontrava.

Em essência, era esse o processo. A única diferença é que, a cada sessão, sentia mais forte, mais firme. Ao longo de três meses, já conseguia incorporar o caboclo e o preto-velho com relativa naturalidade, embora eles falassem muito pouco e permanecessem apenas alguns minutos.

Eu sentia o desenvolvimento ocorrer em duas seções distintas. Primeiramente, as entidades pareciam se esforçar para dominar meu corpo. Se incorporasse o preto-velho, por exemplo, sentia o peso nas costas, as pernas fraquejarem, os movimentos tornarem-se lentos e eu me movia de forma acentuadamente curvada.

Nunca tivera predisposição ao fumo, no entanto, incorporado o preto-velho, a boca chegava a salivar de vontade de fumar. Mas, não qualquer fumo. Tinha que ser o fumo natural, sem aroma artificial. Quando lhe ofereciam um cachimbo, balançava a cabeça em tom negativo, pedindo, por gestos, o cigarro de palha.

No instante em que colocava o cigarro de palha na boca, sentia satisfeita a “minha” vontade. Ele puxava com relativa dificuldade a fumaça, que não era tragada, isto é, não era “engolida”. Permanecia alguns segundos com ela na boca para, em seguida, ser soprada para fora. Quanto mais ele fumava, mais forte eu sentia a incorporação!

Entretanto, embora estivesse satisfeito, em parte, o controle do meu corpo, a minha mente permanecia inteiramente entregue a mim mesmo. Nada mudara em meus pensamentos, exceto, por certa lentidão na ordem comum das ideias e aqui reside a segunda parte do meu desenvolvimento...

Eu continuava pensante e, por vezes, desviava o pensamento para coisas que nada tinham a ver com o momento... O que me fazia pensar - como é absolutamente comum entre os médiuns iniciantes -, que não estava, de fato, incorporado... Chegando mesmo a cogitar se não me encontrava sob algum tipo de sugestão coletiva...

Levaria, ainda, algum tempo até que conseguisse silenciar a minha mente...

Leonardo Montes 

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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 3: PRIMEIRA INCORPORAÇÃO

médium

11 de maio de 2015, uma segunda-feira fria, por volta de 20h40min da noite.

Íamos começar a sessão de desobsessão. Todos sentados à mesa, música suave ao fundo, luzes apagadas, apenas uma pequena luz vermelha acesa na parede lateral. Quatro médiuns à mesa, quatro esclarecedores juntos a cada médium e duas ou três pessoas para suporte.
Após a prece inicial, concentrei-me nas sensações que, àquele tempo, ainda eram confusas para mim. De repente, percebi que meu corpo balançava, para frente e para trás, involuntariamente, embora de forma sutil. Logo em seguida, estranho mal-estar se abateu sobre mim.
Meu estômago ficou absurdamente indisposto, ânsia de vômito e, por fim, não pude segurar: vomitei sobre a mesa e sobre minhas próprias pernas! Asco e agito geral. As pessoas imaginaram que eu estivesse passando mal. Eu mesmo pensei isso. Tremia freneticamente, sentia falta de ar, coração aos pulos, olhos arregalados, intenso frio, pensei mesmo que estava tendo um derrame ou algo do tipo.
Todo esse processo durou cerca de três minutos, até que, gradativamente, cessou, deixando-me trêmulo, confuso e com muita dor do esôfago ao estômago. A médium que estava ao meu lado incorporou um dos mentores do trabalho, Pai Benedito, que me acalmou
com sua palavra confortadora e passes de refazimento, informando-me que se tratava de uma entidade suicida, que adentrou os portões da morte ingerindo soda cáustica e que se aproximara de mim por afinidade vibratória, pois era também, quando encarnado, um pesquisador do mundo espiritual.
Levaria ainda vários minutos até que pudesse me recompor. Entretanto, minha mente fervilhava: mas, então, o que senti foi a simples aproximação de um espírito? A hora, no entanto, não comportava maiores esclarecimentos. Era preciso aguardar o fim dos trabalhos.
Para minha surpresa, nada me foi esclarecido. Precisei aguardar o próximo trabalho público, quando, finalmente, o Pai Cipriano incorporou-se, ao final, para desfazer as minhas dúvidas.
A entidade, que normalmente tinha aspecto sério, esboçava um sorriso e dava gostosas gargalhadas. Chamou-me para conversar, dizendo:
- Recuperou do susto?
- Sim, mas não entendi o que aconteceu – respondi.
- Ué, você incorporou...
- Mas, como? O senhor me disse que eu não servia para incorporar!?
Ele baforou seu cachimbo, bebeu um gole de vinho e disse:
- Se eu tivesse dito, naquele tempo, quando você chegou ao terreiro cheio de preconceito e curiosidade, que você iria incorporar na Umbanda, você teria acreditado?
Meditei alguns segundos e respondi:
- Não, creio que não acreditaria.
- Por isso eu disse que você não servia para incorporar – e rindo, continuou – agora você serve!
Ali, aprendera mais uma lição: tudo tem seu tempo, inclusive, a verdade!
Leonardo Montes
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domingo, 20 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 2: SENSIBILIDADE MEDIÚNICA

médium iniciante

Ainda naquela noite, Pai Cipriano me explicou que eu não “servia” pra incorporar, mas que poderia desenvolver minha sensibilidade a ponto de saber, inclusive, quando o espírito ia se incorporar em algum médium. Não é preciso dizer que isso elevou minha curiosidade à enésima potência.

O processo, contudo, me parecia demasiadamente simples. Depois de terminado o atendimento às pessoas da gira, eu me sentava num pequeno banquinho em frente ao preto-velho que pousava a destra sobre minha cabeça, ao mesmo tempo em que baforava o seu cachimbo. O método era simplesmente este, embora às vezes usasse alguma erva sob a mão.

Da primeira vez, senti um arrepio intenso percorrer a minha coluna. Uma sensação semelhante à leve choque elétrico, diferente de tudo que já sentira. E foi só.

Esta era a sensação e ocorria no momento do meu desenvolvimento. Não sentia nenhuma diferença nos demais instantes da minha vida.

Decorridos cerca de um mês e meio do início do meu desenvolvimento, fui convidado a participar dos trabalhos de desobsessão que se iniciariam em breve. Sinceramente, nunca me interessei pelo assunto, mas a oportunidade de acompanhar médiuns mais experientes me animou bastante. Aceitei!

Assumiria a função de esclarecedor, isto é, a pessoa que conversaria com a entidade manifestante. Embora fosse a minha primeira vez num trabalho daquela natureza, eu já havia lido extensamente sobre o assunto de modo que me sentia razoavelmente preparado para exercer a função.

As sessões ocorreram normalmente, até que, no fim de abril de 2015, num dos trabalhos de desobsessão, enquanto me concentrava em preces para os trabalhos da noite, pude sentir, novamente, o estranho arrepio na coluna. Mas, dessa vez, não havia nenhuma entidade colocando a mão em minha cabeça. Tão logo sentia o arrepio, a médium a meu lado incorporava. E assim foi durante toda a noite: arrepiava, ela incorporava.

Às vezes, tinha a sensação de que alguém colocava suas mãos sobre minha cabeça. Chegava mesmo a olhar ao redor de tão viva era essa impressão e nada via. Posteriormente, soube que eram as entidades ajudando o meu desenvolvimento, que consistia num estímulo energético constante sobre meu chakra superior (Sahasrara).

Aqui, entretanto, faço questão de esclarecer o seguinte: o termo arrepio me parece o mais adequado para definir a sensação que me dominava naquele instante. Mas, diferentemente do arrepio quando se leva um susto ou quando se sente frio, esse era intenso, durava vários segundos, subia e descia por toda a minha coluna vertebral, irradiando-se por meus braços e pernas de modo frenético, semelhante a um pequeno choque elétrico...

Passei a perceber, então, que isso não ocorria somente na reunião de desobsessão. Nas giras públicas também. Sentia o arrepio, o médium ao meu lado incorporava. Curioso, passei a me posicionar ao lado de diferentes médiuns para ver se o mesmo acontecia e, de fato, acontecia. A partir desse dia, adquiri a capacidade de sentir um arrepio intenso quando os espíritos incorporavam em seus médiuns.

Com o tempo, comecei a perceber que essa capacidade evoluía, melhorava-se, tornava-se mais apurada. Eu escutava sempre outros médiuns conversando sobre a energia da casa, dizendo que “hoje está pesado ou hoje está leve” e coisas assim. Entretanto, até aquele momento, eu nada sentia. Entrava e saía do terreiro com as mesmas impressões de entrar ou sair da minha própria residência, sem afetação alguma.

Aos poucos, porém, percebi que isso foi se modificando. Gradativamente, assim que pisava no terreiro, não apenas sentia o arrepio, mas por algum processo que ainda não sei explicar, como um sentido novo que surgisse em minhas percepções, eu era capaz de distinguir se as energias estavam boas ou ruins.

Se estivessem boas, isto é, se a soma vibratória de todos os presentes no terreiro estava boa, as energias eram leves, sutis e proporcionavam a sensação de paz, tranquilidade. Se, porém, houvessem pessoas perturbadas (e logo aprendi que uma pessoa severamente perturbada é capaz de contagiar vinte outras...) as energias eram densas, o coração se acelerava, um estranho pesar se abatia sobre meus ombros, os pensamentos ficavam lentos, etc.

Minhas sensações permaneceram as mesmas por cerca de seis meses. Por volta de outubro de 2015, senti novamente que elas se ampliavam. Bastava me concentrar em determinado médium, olhá-lo fixamente, enquanto se preparava para incorporar e podia, sutilmente, sentir a entidade se aproximar e incorporar-se nele.

Não apenas isso. Conseguia, agora, novamente sem explicar por que meio, saber onde estava a entidade. Se à esquerda do médium, se à direita, se atrás, etc.

Uma atitude que me ajudou muito a fazer distinção das minhas percepções e saber se eram mesmo impressões mediúnicas ou se as estava imaginando, é que sempre busquei conversar com as entidades-chefes, perguntando se minhas impressões estavam certas ou erradas. Às vezes errava, mas na maioria, acertava.

No ano seguinte, conseguiria distinguir com certa precisão quando se tratava de um caboclo ou de um preto-velho, por exemplo. Essa capacidade se tornaria ainda mais refinada, dando-me a percepção de espíritos não apenas no terreiro, mas em diversos outros lugares, embora com menos frequência...

Certa noite, por exemplo, estava numa pizzaria com amigos, quando, de repente, senti a vibração de uma entidade de baixa evolução bem atrás de mim. Olhei discretamente e vi um grupo de jovens que havia acabado de chegar. Próximo de um deles senti a presença de uma entidade que, em tudo, deu-me a clara impressão de ser um vampiro sugando suas energias.

Disfarcei o quanto pude, mas as sensações emanadas de uma entidade perturbadora causam muito desconforto. Afetou-me a respiração, os batimentos cardíacos se descompassaram e até mesmo o estômago chegou a ficar indisposto. Os amigos perceberam, mas desconversei.

Empreendi grande esforço de concentração mental e após elevar uma prece sincera, parei de perceber a entidade. Se ela se afastou ou se simplesmente não pude mais percebê-la, sinceramente, não sei.

Dali em diante, mais sensível a tudo ao meu redor, teria que aprender a concentrar meu foco de atenção e se, por ventura, viesse a perceber alguma entidade inferior fora do ambiente de trabalho mediúnico, procurava desviar o meu pensamento ou refugiar-me na oração sincera.

Aqui, talvez, o leitor pense: qual a utilidade dessa mediunidade? Explicarei.

A sensibilidade, isto é, a capacidade de sentir os espíritos e as energias do ambiente é irmã da intuição. Ao passo que me sentia mais sensível às energias, percebia-me também mais intuitivo em meus propósitos. Se proferisse uma palestra, por exemplo, sentia o aproximar da entidade que me auxiliaria, sua mão espiritual ligando-se a região da minha nuca e o fluxo de pensamentos que partindo dela embalava-me as ideias. Era um mundo novo de percepções. Mas, não apenas isso!

Se me dispunha a dialogar com os espíritos na desobsessão, antes mesmo da incorporação, sabia quando se se tratava de um suicida, um criminoso ou de um espírito arrependido, etc. Isso me facilitava o diálogo com as entidades sofredoras.

Quando conclui a minha graduação em psicologia, tão logo voltei a me sentar, depois de pegar o “canudo”, senti alguns amigos espirituais ao meu lado. Na próxima gira, sem que eu nada dissesse, algumas das entidades me parabenizaram pelo feito e disseram ter comparecido à minha colação de grau...

Se em algum momento da minha vida estivesse prestes a tomar uma decisão que não me fosse prudente, por vezes, sentia o pensamento amigo de algum espírito a me fazer pensar com mais retidão. Enfim, uma faculdade que ajuda o trabalhador da seara espiritual em todos os sentidos...

Devo deixar claro, contudo, que essa sensibilidade me causou, sim, alguns aborrecimentos. Uma simples ida a um bar, por exemplo, se mostrava uma empreitada

perigosa, pois se me permitisse entrar em faixas mentais menos felizes, como conversas sem proveito ou pensamentos negativos, eu me tornava muito mais vulnerável e isso causava enorme desgaste físico e mental.

Um ano e meio após o início do meu desenvolvimento eu havia aprendido a “controlar” essa faculdade. Não consegui encontrar (se é que há) algum botão de liga-desliga. Mas, aprendi a concentrar e desconcentrar meu pensamento com certa facilidade.

Tornei-me capaz de sentir, algumas vezes, o estado emocional de algumas pessoas. Quando alguém se aproximava, podia sentir com exatidão a sua disposição emocional, o que me permitia auxiliá-la com maior eficácia.

Entretanto, cabe considerar que essa faculdade não se exerce como nos filmes, a bel prazer do médium. Pode ser que a entidade se encontre ao seu lado e você não seja capaz de percebê-la ou que uma pessoa extremamente infeliz passe por você sem que nada seja captado. Por vezes, me esforçava muito para que ela “funcionasse”, sem resultado algum. Podia concentrar o quanto quisesse numa pessoa e nada sentir sobre ela.

Foi então que compreendi que a faculdade é como uma manifestação viva, por si só e que não depende, exclusivamente, da minha vontade para iniciá-la. A minha única escolha era sobre o que fazer com as sensações que chegavam até mim: aceitá-las ou ignorá-las, isso era comigo!

Leonardo Montes

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sábado, 19 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 01

médium

CAPÍTULO 1: DESCOBRINDO-ME MÉDIUM

Exceto pelo episódio obsessivo anteriormente citado, jamais me imaginei médium. Pelo contrário, dizia sempre que preferia pensar com a minha própria cabeça a cedê-la a outro.

Tivera, sim, episódios estranhos vez ou outra, mas nada que se caracterizasse de forma a me fazer pensar que poderia ser portador do gérmen da mediunidade.

E assim vivi até os 30 anos de idade.

Era início da quaresma de 2015. As entidades nos alertavam sobre os perigos desse período, onde as forças trevosas tinham maiores possibilidades de influir sobre os encarnados e todos os cuidados seriam poucos. Deveríamos redobrar nossos esforços na oração e na vigilância constante de nossos pensamentos e atos.

Durante esse período, quem assumiria os trabalhos da casa seria o Pai Cipriano das Almas, entidade sempre tratada com muita reverência e respeito, especialmente, por ser um preto-velho mais rigoroso.

Estava curiosíssimo para conhecê-lo.

Para minha surpresa, depois de incorporado, pediu-me para que sentasse ao seu lado e acompanhasse seus atendimentos. Ali, a primeira surpresa: diferentemente dos outros pretos-velhos, o português do Pai Cipriano era tão bom quanto o meu.

Com muita clareza e propriedade, ele me explicava cada atendimento dado. A razão de se dar o passe assim ou assado, o motivo do uso desta ou daquela erva. A importância do fumo e da bebida para isso e para aquilo, etc.

Passaram-se três semanas, quando ele me fez uma pergunta:

- Você tem uma pequena sensibilidade, quer desenvolvê-la?

- Sim – respondi rapidamente.

- Tem certeza?

- Tenho!

- Tem mesmo certeza? Arrematou o velho pela terceira vez...

- Sim.

Foi então que, depois de ter me questionado três vezes, iniciei meu processo de desenvolvimento mediúnico, a começar pela sensibilidade, isto é, a capacidade de sentir a presença de espíritos.

Leonardo Montes 

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - INTRODUÇÃO

médium

INTRODUÇÃO

Desde muito jovem interessei-me pelo assunto mediunidade. Lembro-me de, aos 17 anos, ir à livraria de um Centro Espírita e pedir um exemplar de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.

A vendedora, uma senhora de meia idade, olhou-me com carinho e me recomendou outra leitura, dizendo que o livro que desejava não era para minha idade. Eu deveria ler outros, mais “leves”.

No entanto, insisti.

Havia acabado de ler O Livro dos Espíritos e queria acompanhar a sequência natural. Depois de muita relutância, terminou por vender-me o precioso livro. Li-o com interesse voraz nas férias da família, na praia.

Venho de família sem-religião, embora cada um cresse em Deus à sua maneira. Assuntos religiosos não eram comuns em nossa casa. Não que fossem proibidos, apenas não conversávamos muito sobre isso.

Exceto por um tio-avô distante cujo contato durante a vida somou-se nos dedos de uma mão, eu era o primeiro a me assumir espírita. Tinha exatos 17 anos de idade e comecei a ler vorazmente. Desejava saber tudo que fosse possível sobre Espiritismo.

Aos 18 anos cai num processo obsessivo que me perturbou o sono em barulhos estranhos durante a noite... Vozes que pareciam me chamar ou rir de mim. Estranha sensação de estar sendo observado o tempo todo... Vultos que me apreciam e sumiam antes que pudesse divisá-los com clareza, etc.

E se não fosse a intercessão amiga recebida no mesmo centro onde adquiri o livro, talvez tivesse caído em absoluta prostração.

O tempo passou e exceto por uma ou outra experiência sutil o suficiente para me deixar confuso sobre sua realidade, eu nada mais tive.

Mergulhei mais fundo ainda nos estudos o que me levou a um estado de crítica sobre o Movimento Espírita que simplesmente me paralisou qualquer esforço perseverante no bem.

Alguns anos haviam se passado desde então e eu me encontrava cada vez mais distanciado do trabalho em algum centro espírita. Frequentava apenas eventualmente, algumas vezes ao ano. Permanecia isolado em minha fé...

Mas, os ventos do destino sopram alheios à nossa vontade e acabei me interessando pela prática mediúnica na Umbanda. Conheci uma casa que muito gentilmente me acolheu e me deu total liberdade para estudar os fenômenos.

Munido de uma coragem vinda não sei de onde, propus à entidade chefe do terreiro o meu intento de pesquisar sobre a mediunidade na Umbanda. Para minha surpresa, fui recebido de braços abertos.

A partir de então, em cada gira (nome dado às sessões), comparecia com um caderno e tinha certa liberdade para transitar e fazer as anotações que quisesse.

Observei tudo: as reações corporais dos médiuns durante o transe, a alteração no timbre da voz, os movimentos do corpo, a forma de trabalho da entidade, seu ponto riscado, etc. Se não bastasse, as próprias entidades se propuseram a responder minhas perguntas e, desde então, tive o prazer de conversar dezenas de horas com preto-velhos, ciganos, caboclos e exus sobre todos os mistérios da Umbanda.

Pouco tempo depois, um convite: se desejasse, iria ser cambone (pessoa encarregada de auxiliar a entidade incorporada) em todos os trabalhos. Aceitei de pronto. Vesti-me de branco, o que causou muita estranheza e zombaria de alguns amigos e mesmo das entidades que me chamavam de “pesquisador” ou “cabeçudo”.

Mergulhei sinceramente no trabalho. Auxiliava em tudo. Preocupava-me, por vezes, mais que o próprio médium no preparo dos elementos de trabalho de suas entidades. Acompanhava com vivo interesse cada atendimento, cada palavra amiga que as entidades ofereciam aos consulentes.

Em fevereiro de 2015, um dos guias-chefes da casa, Pai Cipriano das Almas, me ofereceu a oportunidade do desenvolvimento mediúnico. Se quisesse, iria desenvolver a minha sensibilidade, isto é, a capacidade de perceber os espíritos... Para alguém que sempre se interessou em mediunidade, isso era o santo graal!

A partir de então, a mediunidade despontou-se como um iceberg no horizonte de um mar tranquilo. Uma transformação inimaginável operou-se em minhas percepções de modo que, ao recordar tudo que passou, chego mesmo a ficar sem palavras...

Assim, amigo leitor, de agora em diante, você acompanhará a minha experiência pessoal no desenvolvimento da mediunidade sensitiva e, posteriormente, de incorporação. 

Narrarei com o máximo possível de detalhes tudo que me aconteceu, como aconteceu, o que senti, quanto tempo durou, etc. E, na segunda parte do livro, oferecerei opiniões sobre diversos assuntos que direta ou indiretamente tocam a mediunidade e que permearam o meu desenvolvimento...

Quero apresentar um quadro vivo das minhas experiências, na esperança de ajudar outros médiuns que estejam em desenvolvimento ou que pretendam se iniciar.

Não desejo oferecer explicações técnicas ou teóricas da mediunidade. Existem muitos livros sobre isso. Desejo apenas oferecer o relato verídico da minha experiência pessoal como médium na Umbanda.

A força deste relato não está, propriamente, na minha experiência em si, tão comum quanto tantas outras, mas no fato dessa experiência ter sido narrada a partir do ponto de vista de alguém que se desenvolve, no momento em que se desenvolve e não do ponto de vista de um teórico escrevendo sobre o assunto. 

Leonardo Montes

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

POSTURA NA INTERNET

internet

Certa vez, uma pessoa me mostrou um print de um comentário de um médium que conhecíamos no facebook. Era um comentário estarrecedor, do tipo que causa vergonha alheia em quem tenha um pingo de bom-senso. 

Logo depois, essa mesma pessoa que me enviou o print disse:

- Já pensou se alguém reconhece esse médium? Como fica a casa? E se alguém que já passou com os guias dele vir esse comentário?

Antes de dizer a vocês o que penso das perguntas que me foram feitas, gostaria de contar, brevemente, uma história.

Eu estava numa casa de artigos religiosos. Enquanto o vendedor atendia outra pessoa, percebi que um homem me encarava. Aquilo me deixou um pouco desconfortável, disfarcei, olhei para os lados e percebi que ele continuava me encarando.

Virei-me para ele, então e, como bom mineiro, falei: 

- Bão?

Ele me respondeu e disse: 

- Sr., posso te fazer uma pergunta?

Eu achando aquilo tudo estranhíssimo, respondi: 

- Sim.

- Você é o Leonardo Montes?

Naquele momento, levei um susto com uma pergunta tão inesperada. Quando confirmei, ele abriu um sorriso, estendeu a mão e disse que era "muito meu fã". Falou com entusiasmo das reflexões e eu fiquei sem reação (pois, sim, eu sou tímido...). 

Foi a primeira vez que alguém me reconhecia na rua pelo meu trabalho na internet e ali percebi, de forma bastante clara, o cuidado que temos que ter com nossa imagem, afinal, o homem me encarava tanto que já começava a imaginar que boa coisa não sairia dali...

Agora, imaginem se eu tivesse tratado este homem com hostilidade? Se eu tivesse dito, por exemplo, algo assim: tá olhando o quê, perdeu alguma coisa? Ou até mesmo algo mais desagradável... Que imagem eu passaria a alguém que, em suas próprias palavras, era "tão fã" do meu trabalho?

Assim, penso que a partir do momento em que alguém coloca "o branco" e associa seu nome ao de uma casa, a um canal, a uma página, a um blog, deixa de ser só mais um no mundo e passa a ter uma responsabilidade maior, podendo mesmo vir a ser interpelado por alguém quanto a isso.

Já pensou se, no exemplo inicial, a pessoa a quem o médium agrediu (pois o comentário feito na rede era uma agressão descabida), um dia viesse a passar com um dos seus guias? Já imaginou o médium se concentrando na gira e perceber que a pessoa que ele xingou esta ali na assistência esperando atendimento?

Infelizmente, porém, nem todos possuem esse zelo ou refletem sobre a responsabilidade que lhes cabe. Em casos assim, a única resposta satisfatória que consigo pensar se resume numa frase emblemática que certa vez ouvi do Velho: Deixa arder...

Há pessoas que só mesmo passando por constrangimentos é que acordam. A casa, em si, não tem nada com isso. A pessoa é médium de tal terreiro do portão para dentro, pois do portão pra fora, ela vive como quiser e colhe, igualmente, as consequências de suas próprias ações...

Mas, que fica feio... fica!

Leonardo Montes

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

OS PERIGOS DA INCORPORAÇÃO FORA DO TERREIRO

Kiumba

Contarei a vocês uma das piores experiências que tive em relação a mediunidade na intenção de que sirva de alerta a quem trilhe o mesmo caminho.

Certa vez, ao me mudar para uma nova casa, senti a presença do exu dizendo que desejava fazer uma limpeza nela (ou, pelo menos, julguei que era ele). Concordei. Marquei o trabalho, convidei algumas pessoas e foi um completo desastre.

Eu tenho poucas lembranças do ocorrido, não sei se por inconsciência do transe ou pelo excesso de bebida, mas posso dizer que foi uma manifestação grosseira e totalmente atípica. 

Vomitei horrores e depois capotei com um sono profundíssimo. Acordei no outro dia com uma baita dor de cabeça, minha esposa estava nervosa com todas as asneiras que a entidade fez e falou e eu me senti tão decepcionado que joguei quase tudo dele fora, tomado de verdadeira ira.

Posteriormente, o exu com quem trabalho assumiu a responsabilidade, disse que a energia da casa estava muito pesada, que ele exagerou na dose e eu acreditei. Porém, hoje, acho que ele assumiu essa culpa para me proteger, para que eu não reagisse de forma negativa à verdade que hoje me parece clara: era um mistificador!

Àquele tempo, ainda iniciando, eu me achava forte demais. Não que me viesse como médium extraordinário ou uma pessoa iluminada, mas eu padecida da ilusão que domina boa parte das pessoas no meio mediúnico e que faz com que se julguem mais fortes do que de fato são e este foi o meu erro.

Eu achava que os guias nunca iriam deixar algo assim acontecer comigo, que a minha boa-vontade no terreiro, os meus estudos em espiritualidade, todo o trabalho de caridade que eu exercia, somados ao meu esforço em ser sempre uma pessoa melhor, naturalmente me colocariam sempre na companhia de bons espíritos e que fatalmente eu reconheceria caso um embusteiro se aproximasse. Eis o meu erro!

Nós - em termos de humanidade - somos ainda espíritos muito fracos, débeis de forças mais robustas, de uma fé mais viva e sólida. Nós frequentemente balançamos ao sabor do vento, colocamos nossas certezas em cheque com frequência e quase sempre escorregamos em nossa conduta moral. O nosso melhor esforço ainda é muito pouco para nos livrarmos, em absoluto, da influência dos maus espíritos, daí a necessidade de precaução e prudência, que foi o que me faltou e tenho absoluta convicção de ter sido a razão da não interferência dos guias: uma lição amarga, porém, necessária ao meu aprendizado! 

De lá para cá, aprendi a lição.

Cada vez que uma entidade quer me dizer alguma coisa, eu escuto com atenção e tiro a prova: duas, três vezes se for necessário. Dependendo da gravidade da questão, ouço o que me dizem em casa (o que é raro e costuma acontecer apenas no dia do evangelho) e aguardo até a próxima gira, no ambiente seguro do terreiro, para então ter certeza de que realmente recebi uma comunicação correta: isso se chama prudência e é o que falta em muitos médiuns.

Quantos são os que também se acham fortes como eu me achava e que juram de pé junto, as vezes perante o dirigente, outras vezes, perante os próprios guias, que não recebem em casa, que não dão passe ou consulta fora do terreiro e que igualmente se coçam de vontade de incorporar ao menor arrepio, que incorporam em festas, que vivem de passar mil recados, sem nenhum critério, nenhuma preparação...

Assim, quando o dirigente de um terreiro diz para não incorporar em casa, para não ficar recebendo "guia" toda hora, para não ficar nessa onda de passar recado que nunca termina, é para proteger - claro, quando o dirigente é sério -, proteger o corpo mediúnico da casa que, por vezes, pode se achar forte demais e, com isso, acabam por não ver suas próprias fraquezas e podem sofrer uma experiência negativa como a que eu sofri.

É claro que existem situações atípicas, emergenciais ou circunstanciais, em que a presença de um guia se faça necessária fora do terreiro, mas estas situações precisam ser exceções e não a regra da conduta mediúnica de alguém, do contrário, daqui a pouco o médium estará recebendo um Kiumba achando que é seu preto-velho.

O coração que sabe discernir busca o conhecimento, mas a boca dos tolos alimenta-se de insensatez.

Provérbios 15:14

Leonardo Montes

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sábado, 5 de dezembro de 2020

COMPORTAMENTO NO TERREIRO: DIFAMAÇÃO

lingua ferina

Penso que a difamação é uma das piores coisas que se pode fazer em relação a outra pessoa. Ela é cruel, bem pouco realista, mas como nasce das entranhas, quase sempre arrebata multidões (e as redes sociais e seus "cancelamentos" aí estão para provar), de modo que precisamos refletir seriamente sobre isso.

Para dar uma ideia mais precisa do quanto acho desastrosa a difamação, vou contar, resumidamente, uma experiência vivida por mim e que, graças a Deus, já se resolveu e, por esta razão, não entrarei em maiores detalhes, porque o importante é o onde quero chegar.

Houve um momento em que decidi me afastar do terreiro em que trabalhava. Pensei seriamente nos problemas (de ordem humana) que a casa enfrentava e decidi que não era mais possível continuar.

Conversei sobre isso com uma das entidades que se manifestavam no médium-dirigente, ela concordou com meus argumentos e então resolvi partir.

Foi uma das coisas mais difíceis que fiz, porque amava o terreiro com todo o meu coração... Não sai sozinho, outras pessoas também se afastaram por escolhas próprias.

Porém, sai sem brigar com ninguém, sem destratar a ninguém, sem falar mal de ninguém, simplesmente, segui a minha jornada.

Para minha surpresa, contudo, alguns dias depois, percebi que algumas pessoas desta casa e que faziam parte de um dos meus grupos de Whatsapp (e quem me acompanha há mais tempo sabe que tive vários), começaram a fazer algumas postagens estranhas que pareciam me alfinetar.

Achei aquilo tudo estranhíssimo, afinal, eu não briguei com ninguém em minha saída. Contudo, logo depois, uma a uma, elas saíram do grupo e dei o caso por encerrado.

Alguns dias depois, minha esposa me mostrou uma publicação feita na página do terreiro (que, semanas antes, era administrada por mim, diga-se...), e aquilo me deixou completamente atordoado.

Havia uma postagem completamente mentirosa, agressiva e raivosa direcionada não apenas a mim, como também a outras pessoas que saíram da casa.

Aquilo me doeu de várias formas: primeiro, porque era a página do terreiro. Página que servia para divulgar os trabalhos, trazer textos sobre espiritualidade, não para atacar pessoas e, em segundo lugar, pelo texto mentiroso que ali estava exposto, uma vez que tinha a certeza de ter sido uma pessoa exemplar em minha conduta no terreiro.

Naquele ponto, percebi que a minha saída, embora sofrida para mim, fora um certo livramento, pois a perturbação havia se instalado fortemente na casa.

Resolvi relevar o assunto e segui com a minha vida.

Dias depois, comecei a receber mensagens por Whatsapp de amigos, antigos membros da casa e mesmo de alguns frequentadores que tentavam entender o teor daquelas mensagens difamatórias e foi ali que percebi que não se tratou apenas de uma mensagem postada na página, mas diversas. Porém, eu não as conseguia ver, pois estava bloqueado, mas eles me enviaram alguns prints e era uma mensagem pior do que a outra.

Confesso: eu fiquei com muita raiva!

Pensei muito no que fazer... Alguns até me passaram contato de um advogado que poderia intervir, dada a gravidade do caso.

No entanto, o que mais me doeu, foi ver nos comentários pessoas que, semanas antes, me procuravam dizendo que adoravam as minhas explicações, que amavam os meus conteúdos e que ali, publicamente, endossavam aquelas mentiras todas (a página era enorme, cada publicação tinha centenas de comentários, dezenas de compartilhamentos).

Não me doeu tanto ver as mentiras que estavam sendo ditas a meu respeito (outras pessoas também foram difamadas, mas a obstinação principal era comigo), pois estava claro para mim que a perturbação havia se instalado em alguns corações previsíveis, mas ver aqueles comentários realmente me afetou e ali  compreendi uma verdade que ainda hoje vejo com muita clareza: o caminho da Umbanda é muito bonito, mas é recheado de ingratidão do começo ao fim.

Diante de tudo isso, precisei me afastar e me acalmar. Rezei muito, pedi muita inspiração aos guias, lembrei-me do exemplo de Chico Xavier que só fez o bem e levou pedrada a vida inteira e, com muito custo, consegui relevar.

Agradeci aos amigos o interesse fraterno e pedi que não me falassem mais no assunto, não me mandassem prints nem nada. Simplesmente, passei a ignorar o ocorrido – seguramente, foi a prova mais difícil que já vivenciei até hoje.

Para resumir, é preciso dizer que as difamações continuaram, não apenas pelo facebook, mas também pelo Whatsapp, mais de um ano depois de me afastar do terreiro. Várias pessoas que participavam dos meus grupos, influenciadas pelas difamações e pela pessoa causadora de todo esse alvoroço, acabaram saindo e algumas até me ofenderam no particular (novamente: pessoas que sempre ajudei).

O tempo fez o seu trabalho e os anos se passaram. Um dia reencontrei as pessoas do antigo terreiro. A que mais me feriu e causou toda essa onda de perturbação pediu perdão, explicou seus motivos (que apenas confirmaram que se tratou de uma perturbação espiritual forte, pois eram injustificáveis) e tudo foi resolvido, embora cada um tenha seguido o seu caminho e a confiança que um dia eu tive, provavelmente, só com o véu do esquecimento na próxima reencarnação para ser reconstruída...

Porém, posso dizer que “o meu final” foi feliz, já que eu perdoei, esqueci aquilo tudo e segui com a minha vida (tanto é que é a primeira vez que falo abertamente no assunto, quase seis anos depois do ocorrido).

Mas, nem todos conseguiram...

Algumas pessoas envolvidas no caso e que foram também difamadas até hoje não perdoaram. Outras saíram da casa e nunca mais vestiram o branco. Decidiram se afastar em definitivo da religião...

Percebem a tragédia que a difamação se torna?

Portanto, aqui vai o ponto fundamental do texto:

a)   Se você é um médium ou cambone de algum terreiro e, por alguma razão, não está contente com a casa, simplesmente, peça licença, agradeça o chão em que um dia você bateu cabeça e vá embora. Não perca um minuto da sua vida falando mal deste terreiro, do dirigente ou de seus antigos colegas: o seu tempo ali chegou ao fim, siga adiante;

 

b)   Se você é médium ou cambone de uma casa e, por alguma razão, alguém que era da corrente saiu, simplesmente, esqueça esta pessoa. Tenha sido um ótimo ou um péssimo filho da casa, ela seguiu o caminho dela. Para todos os efeitos, é como se ela nem mais existisse para você;

 

c)    Se você é dirigente de uma casa, nunca esqueça que sua responsabilidade é enorme. Se você usar sua posição e influência para difamar alguém, a lei do retorno fará com que, um dia, seja você o assunto da vez, portanto, não siga por este caminho, pois além de trair seus votos espirituais, você pode atrapalhar a vida de alguém e, pior, pode ser a causa da destruição da fé de outras pessoas e a vida lhe cobrará caro cada lágrima que injustamente você causar aos outros.

O mesmo vale também para os frequentadores que, por qualquer razão, justa ou injusta, adquiriram antipatia a um médium ou mesmo a um terreiro.

Se alguém lhe pedir indicação de uma casa, você não precisa falar mal das outras até chegar na que recomenda: simplesmente, ignore as que você julga ruim e recomende as boas... Simples assim!

A difamação destrói vidas e a fé das pessoas.

Eu fico imaginando, por exemplo, alguém que possua conduta difamatória e que, repentinamente, desencarne, chegando ao mundo espiritual com a lembrança de que seu último ato na vida terrena foi difamar alguém. Deve ser muito triste...

Neste texto, foquei o universo religioso, mas você pode refletir sobre os desdobramentos da difamação em todos os sentidos: em casa, no trabalho, em relação aos vizinhos, nas redes sociais, etc.

Leonardo Montes

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

ATABAQUES: VANTAGENS E DESVANTAGENS

atabaque

Inicialmente, não se usava atabaque na Umbanda. Há uma pequena gravação em que Zélio explica a razão que, basicamente, é a seguinte: o Caboclo das Sete Encruzilhadas considerava perda de tempo os toques, pois o objetivo do espírito era "baixar" e fazer a caridade. Assim, apenas os cânticos eram mantidos (sem palmas), como se faz até hoje na TENSP.

De lá para cá, porém, muita coisa mudou de tal forma que, hoje, os atabaques são bastante comuns dentro da religião e encontrados em quase todos os terreiros. Não há, propriamente, uma conotação positiva ou negativa em seu uso, ficando mais a critério do dirigente do terreiro adotá-los ou não.

Vantagens

Inegavelmente, os atabaques (e falo no plural porque tradicionalmente são três) são uma influência direta dos Candomblés embora, na Umbanda,  assumam um contorno bem diferente em relação a primeira religião.

Na Umbanda, os atabaques assumem um sentido mais de percussão, parte da musicalidade de terreiro e dão um charme especial às giras, mantendo sempre um ritmo vibrante, contagiante, favorecendo a concentração, a entrega e a fé das pessoas durante o trabalho.

Giras sem atabaques costumam parecer meio "sem graça", pois apenas o canto nem sempre é suficiente para manter um bom ritmo. As pessoas tendem a gritar ao invés de cantar e frequentemente desafinam muito. 

Com o atabaque, a impressão que tenho é que fica mais fácil manter o ritmo e a harmonia do conjunto.

Quando um ponto é bem tocado, as pessoas se emocionam, cantam com mais fé, com mais amor, com mais devoção e isso faz a vibração da corrente subir ao teto. É a principal razão para se tê-los, em minha opinião. 

Desvantagens

Nem tudo são flores no universo dos atabaques, existem alguns inconvenientes que precisamos abordar.

O primeiro deles é o barulho. Parece ser uma tendência comum no meio umbandista o exagero na intensidade do toque. Assim, da mesma forma que as pessoas costumam gritar ao invés de cantar, os curimbeiros tendem a esmurrar o atabaque, produzindo um som muito alto que chega a incomodar tanto as pessoas que participam do rito, quanto os vizinhos.

Obs.: Atualmente, é corrente chamar o tocador de atabaque de Ogã, mais isto é um erro, visto que Ogã é um cargo de Candomblé cuja função vai muito além de simplesmente tocar atabaque. O correto, na Umbanda, é chamar o tocador de atabaque de CURIMBEIRO.

O segundo inconveniente é que os atabaques favorecem o animismo. Este é um ponto que o Caboclo das Sete Encruzilhadas também abordava. Muitas pessoas se entregam facilmente a um transe anímico por força dos atabaques, do canto, do cheiro da defumação e, com muita frequência, entram em um transe, porém, não de incorporação. É assim que muitos consulentes começam a tremer na hora do passe ou mesmo na consulência, como se estivessem recebendo algo, mas na verdade não estão. 

Médiuns em desenvolvimento também tendem a "queimar etapas", forçando um transe que ainda não existe, pelo menos, na intensidade que ele demonstra, o que as entidades costumam explicar da seguinte forma: o cavaleiro jogou a cela, mas antes de montar o cavalo saiu correndo... 

O terceiro e último inconveniente é que os atabaques acabam gerando uma certa dependência. Os médiuns se habituam ao som dos mesmos e, na impossibilidade de tocá-los, por qualquer razão, acabam sentindo grande dificuldade em incorporar, como se a incorporação estivesse condicionada ao som dos atabaques e não deveria ser assim. O Velho sempre me orientou que o bom médium deve incorporar até embaixo d'água (ainda não fiz o teste, mas um dia pretendo). 

Conclusão

Particularmente, gosto dos atabaques apenas em momentos bem específicos do ritual, especialmente, na abertura e no encerramento. Mas, mesmo nestes casos, estimo muito mais um toque suave, harmônico e baixo a um ritmo frenético, desenfreado e estridente que parece ser a tendência do momento.

Da mesma forma, o coro do terreiro deveria observar com cuidado a influência do canto (que, para nós, funciona como uma oração musicada), e que deveria ser, como o próprio nome diz: cantado, não gritado.

Atabaques suaves, canto harmônico, fé e dedicação, são uma receita infalível, pelo menos para mim, de um bom ritual de Umbanda.

Leonardo Montes

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