quarta-feira, 10 de junho de 2020

OFERENDAS NAS ESCRUZILHADAS ERAM PARA ESCRAVOS FUGITIVOS?

oferendas
Imagem do google

Ninguém sabe, muito bem, o que faz um conteúdo viralizar. Pessoalmente, penso que seja uma combinação de fatores: conteúdo certo, na hora certa.

 

Eu já tive alguns conteúdos viralizados: reflexões como “Ida ao Umbral” ou “Técnicas para incorporar melhor”, explodiram em número de visualizações em poucas semanas e textos como: “Quaresma: quando abrem os portões do Umbral”, não apenas viralizararam, como foram copiados, alterados e divulgados com nomes de outros autores (eu nem imagino a cara de pau de alguém que coloca seu nome num texto alheio).

Há uns três anos começou a circular na internet um texto que supostamente explicava a origem das oferendas nas encruzilhadas. O texto a que me refiro é este:

"De acordo com o professor Leandro (historiador da UnB) as oferendas deixadas nas encruzilhadas era uma forma dos negros alimentarem seus irmãos escravos que estavam fugindo dos feitores.

Os pretos escolhiam lugares estratégicos por onde escravos fugitivos passariam e colocavam comida pesada; carne, frango e farofa porque sabiam da fome e dos vários dias sem comer desses indivíduos e deixavam também uma boa cachaça pra aliviar as dores do corpo e dar-lhes algum prazer na luta cotidiana.

As velas eram postas em volta dos alimentos pra que animais não se aproximassem e consumissem o que estava reservado para o irmão em fuga e aí surge o que todos conhecem como macumba. O rito permanece sendo realizado pelas religiões afro como forma de agradecimento e pedidos aos seus ancestrais e em homenagem a seus santos.

A cultura branca e eurocêntrica foi quem desvirtuou a prática, para causar medo, terror e abominação e reforçar os preconceitos e discriminações contra os negros. Não tenho religião e não pratico nenhum culto mas gosto de saber que já houve tanta solidariedade no mundo e que as pessoas se preocupavam muito umas com as outras a ponto de fazerem um esforço pra alimentarem alguém mesmo sem conhecerem o seu rosto. Hoje vejo tanta gente em igrejas e igrejas em tantos lugares servindo apenas como instrumento de manipulação e exploração da fé alheia para manutenção do poder. Enfim nós não evoluímos."

Segundo o que apuraram vários sites, o que houve foi o seguinte: este professor fez um comentário durante a apresentação de um TCC e uma pessoa presente escreveu o texto a partir do que entendeu sobre a fala do mesmo.

Entretanto, fica evidente que o entendimento da pessoa sobre esta questão está completamente equivocado. Vamos fazer uma análise simples:

1) Se existissem rotas conhecidas para fuga dos escravos a ponto de outros escravos (cuja movimentação era bastante reduzida) conhecerem, por que os fazendeiros não armavam emboscadas?

2) O tempo de queima de uma vela é de cerca de duas horas. Então, esta suposta “proteção” duraria pouco tempo e seria extremamente difícil que os escravos fugitivos passassem justamente por ali, neste intervalo;

3) Onde os escravos conseguiam alimentos, cachaça e vela para disponibilizar nas encruzilhadas?

E por aí vai.

Contudo, nem precisamos fazer esta análise. O texto é simplesmente um erro de interpretação de quem ouviu uma fala, retirou-a do seu contexto e teve o seu texto viralizado em redes sociais, copiados por centenas de páginas e perfis sem citar à fonte de tal modo que sua origem se perdeu.

O que encontramos hoje são apenas reproduções do texto original.

As oferendas nas encruzilhadas remontam a cultos antiquíssimos. Cada Orixá tem o seu “ponto de força”, como a pedreira para Xangô, a cachoeira para Oxum, a mata para Oxóssi e a encruzilhada para Exu.

Portanto, trata-se de uma Fake News. 

Leonardo Montes

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Um comentário:

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