domingo, 26 de abril de 2020

VIDA PRIVADA / VIDA RELIGIOSA

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A princípio, poderíamos dizer, sem medo de errar, que vida privada e vida religiosa não se misturam. Mas, isto não é bem verdade.

Não somos seres bifásicos nem separados das situações ou dos acontecimentos: somos um só, embora nos ajustemos, mais ou menos, aos ambientes e circunstâncias ao nosso redor.

Assim, poderíamos dizer que, no âmbito da vida privada, cada umbandista é livre para viver como quiser, fazer o que quiser e – obviamente – receber o retorno de suas ações...

Contudo, vida privada e vida religiosa se misturam a partir de seu ponto mais óbvio: a pessoa!

Como eu posso ser alguém que, na vida privada, sente-se livre para viver como quiser (e, muitas vezes, de forma destrutiva, para mim e para os demais) se, na vida religiosa, tudo que sou causa impacto no trabalho que realizo?

Há quem diga que isto é moralismo, mas para mim é simples relação de causa-efeito.

Sim: a Umbanda nos dá liberdade para vivermos como quisermos, mas os guias nos asseguram continuamente que tudo que fizermos, fora do terreiro, se refletirá no que fazemos, dentro dele.

Causa e efeito.

Leonardo Montes


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quarta-feira, 22 de abril de 2020

terça-feira, 21 de abril de 2020

DOENTE DA ALMA



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Nosso companheiro estava cabisbaixo nos últimos dias. Uma amiga do terreiro aproximou-se e inquiriu sobre o que estava acontecendo.

- Ah, minha amiga... As coisas não tem sido fáceis pra mim. Luto mesmo todo dia para chegar ao terreiro com ânimo, mas tem sido difícil...

- Mas, o que lhe perturba?

- Bem – respondeu algo reticencioso – você sabe que meu irmão tem dado muitos desgostos à família. Tem um gênio difícil, problemático. De umas semanas para cá anda irritadiço, brigando com todo mundo por qualquer coisa... Acredita que metade da minha família já não conversa mais com ele?

A companheira que lhe ouvia o relato não tinha muito a lhe dizer por si mesma. Deu-lhe algumas palavras de bom ânimo e disse que pediria à sua preta-velha para orientá-lo...

Mesmo sendo médium, nosso companheiro já havia aprendido que “santo de casa não faz milagre”. Aguardou até a próxima gira, quando poderia conversar com a preta-velha.

Eis que surge ocasião.

Ele se aproxima e tão logo se coloca ante a bondosa velhinha, esta lhe diz:

- Zifio, vosso irmão é uma pessoa de coração bão. O probrema é que a cabeça dele é fraca. Ele é um ispírito que gosta muito de falá “não” pros outru, masi não aceita ouví um “não” pra ele. A vaidade fala muito arto nele.

Desejosa de ir mais fundo em suas ponderações, a velhinha prosseguiu:

- Zifio – continuou com carinho – vosso irmão é uma alma doenti. Suncê já visitô um hospirtar onde fica os moribundos? Eles vão falá cada coisa que suncê nem acredita... Até blasfemá contra o nomi do nosso sinhô Jesuis Quisto... Mais, fi, isso é enquantu eles istão doenti. Depois que mióra, eles inté arrependi de dizê essas coisa... Assim é vosso irmão....

Após uma pausa mais longa, continuou:

- Agora, zifio, diz pra nega véia... O certo é as enfermeira virá as costa pros nossos irmãos moribundo ou o certo é elas ignorá e continuá fazendo seu trabaiô? Zifio, num é fácil... Mais ele é doenti e nosso sinhô Jesuis num ensinô qui são os duenti que necessita de remédio? E se suncê dé as costa a ele, suncê é que vai tá agindo erradu... Quem é que tem condição de ajudá, ele ou suncê?

O médium nada respondeu. Apenas deixou algumas lágrimas escorrerem pela face, beijou as mãos da velhinha, agradeceu e levantou-se comovido.

Leonardo Montes

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sábado, 18 de abril de 2020

sexta-feira, 17 de abril de 2020

TERREIROS SÉRIOS SOFREM INFORTÚNIOS?


                                                                                           
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Existe uma “mística” que roda em algumas conversas de Umbanda que diz: terreiro sério, firme, fundamentado, “de axé”, não sofre as adversidades do mundo... Não sofre assalto, não sofre ataque, não sofre depredação, etc.

Mas, será que isso é verdade?

Enquanto pensava sobre este tema, lembrei-me de uma passagem dos Atos dos Apóstolos:

"E Saulo havia aprovado a morte de Estêvão. Naquele dia, rompeu uma grande perseguição contra a comunidade de Jerusalém. Todos se dispersaram pelas regiões da Judeia e de Samaria, com exceção dos apóstolos."



E:

"Saulo, porém, devastava a Igreja. Entrando pelas casas, arrancava delas homens e mulheres e os entregava à prisão."



A igreja, àquele tempo, era uma comunidade de cristãos, vivendo em uma espécie de vila.

As primeiras perseguições vieram dos próprios judeus, comandados por Saulo (que ainda não havia se tornado Paulo).

Os soldados invadiam as casas, prendiam as pessoas, dentro das comunidades fundadas pelos APÓSTOLOS, que também sofreram com a perseguição...

Nos anos que se seguiram, os cristãos sofreram com perseguições do sinédrio e, posteriormente, de Roma. Pessoas eram presas, torturadas, mortas. Igrejas destruídas, comunidades arrasadas...

Nas décadas seguintes:

Paulo foi degolado em Roma; Pedro crucificado de cabeça para baixo; Bartolomeu foi esfolado vivo; Filipe foi enforcado; Mateus assassinado, etc.

Ou seja:

Partindo de Jesus, o maior espírito que já esteve na Terra, quase todos os apóstolos tiveram suas vidas arrasadas e mortes violentas, suas comunidades foram perseguidas por séculos (os cristãos de hoje que não lembram sequer a poeira dos cristãos primitivos, deveriam se lembrar deste fato antes de serem intolerantes para com outras religiões), praticamente todos tiveram suas vidas arruinadas em nome de um ideal: o evangelho!

Diante de tudo isso, pergunto: você acha mesmo que um terreiro não pode ser assaltado? Que um terreiro não pode ser invadido e depredado? Que isso é falta de “axé”?

Estamos num mundo de provas e expiações e sujeitos, portanto, a toda sorte de males que assola este mundo. Não temos nada de diferente e fazemos mil vezes menos, dedicamos mil vezes menos, do que fizeram e dedicaram os primeiros cristãos...

Assim, afirmo sem medo de errar: não temos privilégio algum!

É certo que temos assistência espiritual. Assistência essa que nos livra de mil males e que nem nos damos conta...

Contudo, não nos iludamos: se estiver em nosso caminho, pessoal ou coletivo, atravessar quaisquer das provações sujeitas à humanidade, tenha o tamanho que tiver, a quantidade de membros que couber, os terreiros – como quaisquer instituições – também são chamados ao testemunho de fé, pelas provações inerentes à humanidade!

Leonardo Montes


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terça-feira, 14 de abril de 2020

AJUDAR OS GUIAS FORA DO CORPO: UMA REFLEXÃO



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Há muito tempo, quando iniciamos a desobsessão, uma entidade, Pai Benedito, nos pediu que, se possível, após a sessão, deveríamos chegar em casa, manter o resguardo, orar e dormir, por que as entidades viriam nos tirar do corpo para que pudéssemos auxiliar no trabalho de desobsessão que havia se encerrado horas antes, entre os encarnados, mas continuava noite adentro, entre os espíritos.

A recomendação, porém, teve pouco efeito prático... Algumas semanas depois e ninguém mais se interessou em seguir estas recomendações e isso por uma razão simples: chegando do terreiro, todos queriam retomar o curso natural de suas vidas, assistir TV até tarde, ficar nas redes sociais, ninguém queria dormir cedo, além da tentação de resistir a mais tempo de resguardo...

Essa experiência - em que eu mesmo fui um dos que falhou neste processo -, deixou bastante claro para mim que, de modo geral, não temos condições espirituais de auxiliar as entidades fora do corpo. Aliás, as auxiliamos muito quando não as atrapalhamos.... Não temos, geralmente, disciplina para isso, não conseguimos resistir aos menores chamados da vida material!

Assim, eu diria que a imensa maioria dos que desejam colaborar no plano espiritual, não colaboram. Sonham com algum lugar estranho e acordam dizendo para si mesmas que foram até o Umbral...

Dos poucos que realmente são levados por seus guias até um local de trabalho, a maioria vai para observar, aprender, por que não têm evolução suficiente para colaborar diretamente.

E uma parcela diminuta, realmente, tem condições de ir para ajudar e realmente o fazem.

Eu me lembro de uma situação em que uma pessoa pediu ao Velho para desenvolver a sua vidência, pois seu sonho era ser um “médium vidente”. A entidade, então, lhe recomendou o seguinte roteiro: vamos começar desenvolvendo um olhar benevolente com seus vizinhos. Se você conseguir olhar seus vizinhos com benevolência, já será um primeiro passo.

Ou seja: “quer ver os espíritos, mas não aprendeu ainda nem olhar os vizinhos com bondade”...

Agora, o curioso é vermos relatos de pessoas que saem do corpo, vão trabalhar no plano espiritual, visitam as colônias mais lindas ou os umbrais mais profundos, mas quando estão no terreiro, não se animam nem a lavar um corpo sujo...

Aqui na Terra não trabalham ou trabalham muito pouco, mas não podem dormir que são escaladas para atuar no plano espiritual. Estranho, não?

Leonardo Montes

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domingo, 12 de abril de 2020

PRETO MENSAGEIRO DA FÉ

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O branco sentia repulsa
Pelo preto asqueroso
Hoje o branco na Umbanda
Chama o preto de milagroso.
Serve como cavalo
Utilizando o seu valor
O preto velho tudo
esqueceu
E trata o branco com amor.
O preto não guardou ódio
Do branco que o renegou
Perdoando as chibatadas
Muitos brancos o preto
curou.
Com suas folhas e raízes
Vai ao branco ajudando
Com suas rezas e
mandingas
Aos brancos vai sempre
amando.
Com sua língua enrolada
Seu coração a pulsar
Sempre nos aconselhando
Ao próximo amar.
Nunca vi coisa igual
E tanta filosofia
Em vez de guardar ódio
Ele nos olha com alegria.
Vamos seguir o exemplo
Do preto lá da Guiné
Ele é um curador
E o mensageiro da fé.
Livro: O MOXICONGO NAS MINAS GERAIS
Raizes e Tradição - NELSON MATEUS NOGUEIRA – TATETO NEPANJI.
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sexta-feira, 10 de abril de 2020

TERREIRO FECHADO: TEMPO DE REFLEXÃO!

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Uma coisa que tenho feito nessa quarentena é pensar, pensar muito... Hoje, compartilharei um destes pensamentos com vocês.

Eu pisei pela primeira vez em um terreiro de Umbanda com 28 anos de idade. Foi uma experiência marcante, forte e que, sem dúvida, mudou o rumo da minha caminhada na Terra.

Contudo, eu vivi longos 28 anos sem terreiro...

Comecei a trabalhar e a desenvolver a minha mediunidade aos 30 e foi, sem dúvida alguma, a experiência mais transformadora que vivenciei até o momento.

Contudo, eu vivi longos 30 anos sem mediunidade...

Assim, pergunto: por que tanta gente desequilibrada com a casa fechada por um mês? A maioria das pessoas que conheço também viveram a maior parte das suas vidas sem terreiro...

Se conseguiram viver 20, 30, 40 anos sem terreiro, por causa de alguns meses de terreiro fechado vão se desequilibrar? Não há algo errado nessa história?

É claro que a gente sente falta (eu também sinto). O terreiro faz muito bem pra nossa alma...

Contudo, se eu preciso do terreiro para me sentir bem e equilibrado, então, talvez, a minha relação com a espiritualidade esteja equivocada.

O terreiro deve ser um complemento da nossa vida espiritual, um local para nos encontrar, confraternizar e trabalhar. Ele não pode (e não deve) se tornar uma muleta espiritual, caso contrário, estaremos repetindo os mesmos erros das velhas religiões...

O Velho sempre me ensinou: “O terreiro não são estas paredes e o teto, o terreiro é o sentimento que está no seu coração”. Bem, eu estou fisicamente afastado das paredes e do teto, mas não estou afastado do meu coração...

Logo, para quê sofrer?

Dure esta quarentena o que durar: dois meses, quatro meses, seis meses, um dia tudo vai passar e os terreiros poderão abrir suas portas...

Contudo, se não nos cuidarmos (e todos os trabalhadores sabem o que precisam fazer para isso), corremos o risco de retornarmos para o terreiro como enfermos e não como trabalhadores...

Leonardo Montes

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terça-feira, 7 de abril de 2020

EU NÃO PRESTO

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Há muito tempo, recebemos no terreiro uma senhora que parecia muito debilitada. Estava magra, pálida, pisava torto, tinha um braço sempre junto ao corpo e seu pescoço pendia para o lado esquerdo.

Cada médium aquela noite sentiu uma estranha e negativa vibração no ar. A concentração foi difícil, a incorporação, mais ainda. Os pretos-velhos vieram, as pessoas foram atendidas e aquela senhora ficou para o final.

A preta-velha que comandava os trabalhos posicionou alguns médiuns em locais específicos e logo passaram a receber entidades inferiores, vociferantes, habitantes das trevas mais profundas...

Terminada a onda de manifestações, desceu o caboclo-chefe que passou a dar passes na enferma. Gradativamente, o aspecto fisionômico da senhora foi se modificando. O braço e a perna voltaram ao normal e, na sequência, o pescoço.

Terminado o passe, o caboclo disse que ela poderia ir embora e, ante nossos olhos, aquela mulher que, duas horas antes, entrou toda torta no terreiro, saiu andando normalmente.

Todos respiraram aliviados.

Posteriormente, soubemos que aquela mulher havia chegado a nossa casa acompanhada por dezenas de entidades, o que causou enorme desgaste em nossos guias para poderem realizar aquele trabalho.

Atônitos, perguntamos o que ela fez para merecer tanto empenho inferior e nos foi respondido que era uma mulher muito ambiciosa e invejosa e que para conseguir satisfazer seus desejos, pulava de casa em casa, dessas que não se importam em fazer o mal, prometendo o que tinha e o que não tinha às entidades, igualmente inferiores, para realização de seus desejos mais insanos.

Conseguiu algumas coisas, outras não. Mas, em todo caso, nunca “pagou” o que prometera às entidades.

Não há perdão entre espíritos dessa classe. Eles são incapazes de sentir compaixão pelo outro. Só a lei do “quem pode mais” vigora e, quem promete, deve pagar...

*

Soubemos, posteriormente, que tão logo adentrou o carro para ir embora, essa senhora virou-se para uma amiga que a aguardava e disse em alto e bom tom:

- Eu não presto. Mereço tudo de ruim que acontece comigo... E, se precisasse, faria tudo de novo.

Nunca mais a vimos.

Leonardo Montes

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sábado, 4 de abril de 2020