quarta-feira, 4 de março de 2020

MUITO TEMPO

Imagem do google

Numa noite fria de Maio, uma senhora que aparentava idade bem avançada sentou-se para tomar passes com a Vovó Maria. Cumprimentou a entidade e o cambone, recebeu o passe e em seguida ouviu:

- Fia, suncê ainda há de viver maisi um cado grande nessa terra!

A velhinha num suspiro surpreendente, disse:

- Ah, não... Mesmo, vó?

Aquela resposta deixara Maurício, que cambonava a entidade, surpreso. Afinal, que pessoa recebe a notícia de que irá viver mais tempo e responde dessa forma?

- É zifia... – respondeu a bondosa entidade.

Como se desejasse algum desabafo, a velhinha vira-se para Maurício e prossegue:

- É que amanhã fará um ano que meu marido morreu e eu sinto muita falta dele... Fomos casados por 61 anos e nunca brigamos, acredita? Nenhuma discussão, nenhuma briga.

A entidade, em tom amoroso, interfere dizendo:

- É verdade zifia, vosso cumpanheiro era um homi de coração muito bão e do lado de cá tá muito arto, bem arto, cheio de luz!

A velhinha com os olhos marejados, diz:

- É... Não tenho dúvidas de que meu Geraldo deve estar muito bem, pois era um homem muito bom e caridoso. Eu agora espero a minha vez... Já tenho 84 anos, o que tinha para aprender ou já aprendi ou não aprendo mais... Já vivi o que tinha de viver, quero agora é ir embora encontrar o meu Geraldo!

A bondosa preta-velha toma-lhe as mãos, beija-as e diz:

- Zifia, suncê tem de cumpri o tempo que o Pai mandou. Aí suncê há de encontrá o cumpanheiro nas artura. Maisi tem que esperá um cado ainda, entendeu, zifia?

Resignadamente, a velhinha balançou a cabeça afirmando que sim...

Naquela noite Maurício demorou mais do que de costume a pegar no sono.

Leonardo Montes

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Um comentário:

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