terça-feira, 17 de dezembro de 2019

SEM EXU, NÃO SE FAZ NADA?

Imagem do google

É muito comum, na Umbanda, as pessoas dizerem: sem exu, não se faz nada! Mas, será mesmo? Reflitamos.


A Umbanda nascente não contava com exus em suas manifestações. Estas começaram a surgir em algum momento entre 1940/1950, quando pessoas vindas das Macumbas Cariocas (onde se manifestavam exus), começaram a se integrar nas correntes de Umbanda que estavam se popularizando neste período e, com isso, “trouxeram” seus exus em seu “repertório mediúnico”.

No livro: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, lançado em 1933, Leal de Souza comenta brevemente sobre exus ligados aos trabalhos de Magia Negra. Não há nenhuma citação sobre exus se manifestando em terreiros de Umbanda.

Na década de 1940, surge o livro: Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, um congresso realizado em outubro de 1941, no Rio de Janeiro, onde diversos representantes de terreiros importantes se reuniram para discutir aspectos relevantes da religião, como: História, filosofia, doutrina, etc. Não há sequer uma única citação a exus.

Assim, pergunto: se os exus são tão importantes a ponto de nada se fazer sem eles, como fizeram os primeiros terreiros de Umbanda que pelo menos durante 30 anos trabalharam sem exus?

Eu não quero, com esta pergunta, desmerecer o trabalho destas entidades, até mesmo como alguém que recebe exus e sabe da importância do trabalho que eles executam, seria um contrassenso...

O que desejo é refletir sobre essa frase generalizante e que produz uma compreensão errônea do trabalho destas entidades.

Candomblé

No clássico: Orixás, de Pierre Verger, podemos encontrar uma citação muito interessante:

“Exu é o guardião dos templos, das casas, das cidades e das pessoas. É também ele que serve de intermediário entre os homens e os deuses. Por essa razão é que nada se faz sem ele e sem que oferendas lhe sejam feitas, antes e qualquer outro Orixá, para neutralizar suas tendências a provocar mal-entendidos entre os seres humanos e em suas relações com os deuses e, até mesmo, dos deuses entre si.” (p. 36)

O texto se refere, naturalmente, a Exu enquanto Orixá e não propriamente a exu-entidade, como é o caso da Umbanda. Contudo, fica claro de onde surgiu este pensamento de que sem exu não se faz nada: é uma herança do Candomblé Iorubano, cuja aplicação se refere a uma particularidade de culto para o Orixá e não para a entidade!

Incorporação/Proteção

Alguns estudiosos afirmam que, embora haja terreiros que não trabalhem com exus na incorporação, isso não quer dizer que eles deixem de atuar fora dela. Realmente, isso é muito comum: os exus podem atuar não apenas em terreiros, como em vários outros locais sem que se saibam da sua existência.

Entretanto, outras entidades também podem fazê-lo, como os pretos-velhos, caboclos, etc., e não se vê ninguém dizendo que “sem preto-velho não se faz nada”, por que seria absurdo pretender que todo trabalho espiritual, necessariamente, contasse com um preto-velho.

Logo, sim, muitos exus trabalham em terreiros onde não possuem permissão para se manifestar, em razão da doutrina da casa, contudo, pretender que assim seja com todos os terreiros, é um erro.

Difusão

Tal conceito também se popularizou devido a pontos, como o famoso “Exu da Meia Noite”, cantado pelo magistral J. B de Carvalho, cujo refrão é:

“Exu da Meia Noite
 Exu da Encruzilhada
 Sarava o povo da Umbanda
 Sem Exu não se faz nada”.


Conclusão

Embora tenham chegado à Umbanda pelas macumbas, os exus hoje se tornaram parte do repertório espiritual da maioria dos terreiros, tendo seu trabalho espiritual mais ou menos definido, de forma pública ou fechada, de tal forma que, naturalmente, se espera que os terreiros trabalhem com estas entidades.

Contudo, não existe essa obrigatoriedade!

Assim como não existe obrigatoriedade em se trabalhar com marinheiro, boiadeiro, baiano, etc.

Existem médiuns que nunca incorporaram exus e nem por isso são menos protegidos, já que os demais guias podem realizar o trabalho de proteção e mesmo de descarrego.

Existem terreiros que não trabalham com exus, nem mesmo espiritualmente, e a despeito do que pensam uns e outros, aí estão há décadas prestando sua caridade sem o menor problema...

Que os exus sejam bem aceitos na Umbanda, é indiscutível... Contudo, pretender que sejam imprescindíveis para que um terreiro exista, é exagero.

Leonardo Montes

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Um comentário:

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