terça-feira, 26 de novembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 59 - NECESSIDADE DE ESTUDO

Imagem do google

O estudo é fundamental em todas as áreas da vida, pois é um dos maiores legados da humanidade: a capacidade de transmitir às novas gerações o conhecimento acumulado nas anteriores.

Contudo, nem sempre foi assim.

Século XX

Estudos mais recentes mostram que há pelo menos 11 milhões de analfabetos no Brasil. Tente imaginar, agora, no começo do século XX, quando a Umbanda nasceu e se espalhou.

As pessoas não sabiam ler (diferentemente de hoje que sabem, mas não querem) e para se informarem sobre a religião tinham que recorrer, necessariamente, a sabedoria dos mais velhos, razão pela qual o conhecimento foi transmitido quase que exclusivamente via oralidade.

Neste período, a maioria dos médiuns de incorporação eram inconscientes e isso se deu pela necessidade da espiritualidade em fundamentar a religião, o que exigia maior domínio do corpo do médium para que a entidade pudesse trabalhar de maneira mais livre.

Para assegurar a veracidade das manifestações haviam muitos testes para confirmar se a pessoa realmente estava incorporada: andar sobre brasas, engolir fogo, comer caco de vidro, etc. As pessoas acreditavam que estes testes eram necessários para provar a manifestação (embora em qualquer circo se faça o mesmo, sem estar incorporado...).

Havia também a crença de que o médium nada precisava saber, que o guia sabia tudo (o que, em partes, se justificava pela inconsciência do transe, embora o médium inconsciente também influencie na manifestação).

Os médiuns começavam a gira, apagavam, retornavam ao final e iam para casa. Faziam isso durante anos e praticamente nada aprendiam, senão, aquilo que conseguiam pegar aqui e ali.

Contudo, conforme os fundamentos foram estabelecidos e o tempo avançava, a inconsciência foi perdendo espaço para a consciência (que, diga-se, sempre existiu, mas eram poucos os médiuns conscientes), o que acabou gerando diversas crises (existem obras das décadas de 1950/1960 em que autores tentam explicar as razões desta mudança).

Assim, a necessidade de saber, de entender, de aprender, tornou-se cada vez mais forte. Neste período, as pessoas começaram a se interessar mais sobre a religião e começaram a procurar mais informações, o que fez com que vários autores clássicos da religião escrevessem suas obras, atendendo a esta necessidade.

Estudo

Apesar de tardiamente se interessarem pelo estudo, o fato é que há bastante tempo já se sabia sobre a importância do mesmo. Em O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, é dito o seguinte:

“Assim, quando encontramos em um médium o cérebro povoado de conhecimentos adquiridos na sua vida atual e o seu Espírito rico de conhecimentos latentes, obtidos em vidas anteriores, de natureza a nos facilitarem as comunicações, dele de preferência nos servimos, porque com ele o fenômeno da comunicação se nos torna muito mais fácil do que com um médium de inteligência limitada e de escassos conhecimentos anteriormente adquiridos.”

Assim, o que os antigos pensavam sobre o estudo estava profundamente errado e isso é sempre um alerta: não é por que algo é antigo que é bom ou verdadeiro. As pessoas, devido a falta de estudo, pelas próprias condições socioeconômicas em que viviam, tinham uma compreensão bastante equivocada deste processo.

Intérprete

O médium é o intérprete dos espíritos, não uma marionete nas mãos deles. O médium tem a faculdade de receber o pensamento do espírito, interpretá-lo e então realizá-lo no mundo material.

Continuando a citação:

“Com um médium, cuja inteligência atual, ou anterior, se ache desenvolvida, o nosso pensamento se comunica instantaneamente de Espírito a Espírito, por uma faculdade peculiar à essência mesma do Espírito. Nesse caso, encontramos no cérebro do médium os elementos próprios a dar ao nosso pensamento a vestidura da palavra que lhe corresponda e isto quer o médium seja intuitivo, quer semi mecânico, ou inteiramente mecânico. Essa a razão por que, seja qual for a diversidade dos Espíritos que se comunicam com um médium, os ditados que este obtém, embora procedendo de Espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal.

Portanto, estude pouco ou muito, todo médium (mesmo os inconscientes), influenciam nas manifestações, já que o pensamento do espírito, ao ser recebido pelo cérebro do médium, passará por um processo de decodificação conforme a cultura do próprio médium: é um processo de tradução da informação.

Logo, o medo de que o médium ao estudar venha a influenciar negativamente a manifestação não se sustenta.

Necessidade do estudo

Um exemplo pessoal:

Certa feita, um guia queria recomendar ao consulente o banho de Pinhão Roxo. Eu não conhecia esta planta. Assim, vinham na minha cabeça: Pinha, Pinheiro, Pinhal, Roxo, Banho, e eu não entendia o que a entidade queria dizer.

Ela dizia, claramente: Pinhão Roxo, mas como eu não conhecia a planta, meu cérebro recebia o pensamento e buscava as palavras mais próximas (dentro do banco de dados disponível, isto é, o meu conhecimento), que pudessem se encaixar de forma adequada ao que a entidade queria dizer.

É por isso que o médium precisa estudar, não para ensinar a entidade ou atender em seu lugar, mas para que possa ser melhor instrumento para a espiritualidade.

“Efetivamente, quando somos obrigados a servir-nos de médiuns pouco adiantados, muito mais longo e penoso se torna o nosso trabalho, porque nos vemos forçados a lançar mão de formas incompletas, o que é para nós uma complicação, pois somos constrangidos a decompor os nossos pensamentos e a ditar palavra por palavra, letra por letra, constituindo isso uma fadiga e um aborrecimento, assim como um entrave real à presteza e ao desenvolvimento das nossas manifestações.

“Por isso é que gostamos de achar médiuns bem adestrados, bem aparelhados, munidos de materiais prontos a serem utilizados, numa palavra: bons instrumentos, porque então o nosso perispírito, atuando sobre o daquele a quem mediunizamos, nada mais tem que fazer senão impulsionar a mão que nos serve de lapiseira, ou caneta, enquanto que, com os médiuns insuficientes, somos obrigados a um trabalho análogo ao que temos, quando nos comunicamos mediante pancadas, isto é, formando, letra por letra, palavra por palavra, cada uma das frases que traduzem os pensamentos que vos queiramos transmitir.

O mesmo vale para a incorporação.

Estudo para a vida

Saindo um pouco do âmbito da mediunidade, o estudo também é importante para que o médium aumente a sua cultura, o seu saber e se torne uma pessoa com melhores ferramentas à sua disposição, caso queira se melhorar enquanto indivíduo.

O estudo da espiritualidade, como um todo, enriquece o nosso saber espiritual e melhora nossa compreensão da religião.

Quantas pessoas há, muitas vezes trabalhadoras da religião, e que não dizem nada de útil? Que não são capazes, sequer, de oferecer uma simples explicação para um leigo?

Somos formadores de opiniões!

A palavra de um médium que atue em terreiro tem peso de chumbo para um leigo. Por isso, chega a ser quase incompreensível o descaso da maioria dos umbandistas frente a possibilidade de aprender mais sobre a própria religião, embora haja, hoje em dia, uma febre de curiosidade, mas não passa disso: curiosidade. Uma vez satisfeita a curiosidade, a empolgação vai embora e o interesse desaparece como que por encanto.

Seja como for, nunca tivemos tantas possibilidades: livros, cursos, blogs, podcast, canais, páginas, enfim, abundam informações das mais diversas naturezas pela internet de modo que todos podem ter acesso, se quiserem.

Até o próximo estudo!

Leonardo Montes

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