sexta-feira, 22 de novembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 57 - FRATERNIDADE ENTRE TERREIROS

Imagem do google

De modo geral e, infelizmente, os terreiros permanecem isolados uns dos outros, como se cada um fizesse parte de um mundo totalmente diferente do outro. Assim, não é incomum encontrarmos casas que proíbem seus frequentadores de visitarem outros terreiros ou até mesmo expulsem membros que se arrisquem em fazê-lo.

Crescimento caótico

Como já estudamos, a Umbanda se expandiu de forma caótica no Brasil, isto é, sem um direcionamento por parte de uma liderança ou instituição. Basicamente, o processo de formação de novas casas se dava essencialmente por mudança de membros para novas cidades ou por cisões.

Eventualmente, um médium, por ocasião de trabalho, por exemplo, era transferido para uma nova cidade. Em lá chegando, procurava saber sobre a existência de algum terreiro e não encontrava. Assim, para não deixar de trabalhar, começava a receber seus guias em sua casa. Com o passar do tempo, mais pessoas chegavam e logo havia estrutura suficiente para abrir um novo terreiro.

Foi basicamente este o modelo que fez com que a Umbanda se espalhasse, gradativamente, pelo interior do país.

Contudo, às vezes, as pessoas divergiam, entravam mesmo em atrito e surgiam dissenções. Neste caso, um ou mais médiuns acabavam por sair do terreiro e fundavam, logo em seguida, um outro, com tudo aquilo que consideravam adequado e que o anterior não possuía.

Então, não apenas surgia uma nova casa, mas uma casa com diferenças em relação a primeira. Este procedimento, ao longo do tempo, produziu imensa variabilidade nas formas de se praticar Umbanda e gerou também seus efeitos colaterais.

Dirigentes que, por uma razão ou por outra, não concordavam com a forma da nova casa trabalhar, acabavam por criticá-la, abertamente ou não, apontando erros, perigos e mesmo incoerências neste novo terreiro.

Com razão ou não, o fato é que este comportamento desestimulava seus frequentadores de visitarem a outra casa, sob pena de saírem dela “com carrego” ou com algo negativo.

Cruzar linhas

É deste contexto que nasceu a expressão “cruzar linhas” como sinônimo de algo ruim. Como a dizer que quem encontrou o seu terreiro não deve visitar outro, sob pena de sair pior, de pegar energias ruins, de passar mal, etc.

Contudo, pergunto: independentemente das divergências humanas, todo terreiro sério não trabalha pela mesma causa, embora as maneiras possam ser diferentes?

Os guias que atuam no terreiro A, por acaso, seriam inferiores aos que atuam no terreiro B? Os consulentes que frequentam o terreiro A e recebem as graças que buscam, estariam privados de recebe-las se frequentassem o terreiro B?

Costumo dizer, em tom descontraído, que o “que cruza linha é pipa no céu”.

Os espíritos atuam em todos os seguimentos onde se façam necessários. Não importa que seja terreiro A ou B. Se necessário, os espíritos que habitualmente atuam numa casa vão mesmo auxiliar em outras, até mesmo fora do seguimento religioso, pois a solidariedade é um dos caminhos espirituais de evolução.

Portanto, não tenho a menor dúvida em afirmar que este conceito é errôneo e, mais, tem produzido, ao longo do tempo, divisionismos que não se justificam de forma alguma, fazendo que com os terreiros se comportem como pequenos feudos interessados apenas no que acontece em suas próprias terras.

Na melhor das hipóteses, os terreiros que proíbem seus membros de visitarem outras casas sofrem com excesso de zelo e, na pior, têm o desejo de controlar a experiência religiosa do outro, repetindo os mesmos erros que as velhas tradições religiosas repetem há milênios...

Experiência pessoal

Este divisionismo não está apenas na Umbanda, vários outros seguimentos sofrem com isso. Para ilustrar, contarei um caso pessoal.

Certa feita fui indicado, por um conhecido, a fazer um estudo sobre Obsessão Espiritual num pequeno centro espírita da cidade. Ninguém lá me conhecia.

Fiz o estudo e as pessoas gostaram muito. Ao final, os dirigentes da casa vieram conversar comigo, interessados em marcar uma nova reunião de estudos, procurando saber mais sobre mim.

Tudo ia muito bem até que uma senhora perguntou em que centro eu trabalhava. Respondi-lhe que em nenhum, dizendo que estudava o Espiritismo desde os meus 16 anos de idade, mas que estava em processo de desenvolvimento mediúnico num terreiro de Umbanda.

O susto foi geral. A conversa foi minguando, as pessoas procuraram outras para conversar e em poucos minutos me vi sozinho, indo embora praticamente ignorado por todos os presentes que, minutos antes, me cercavam...

Nunca mais recebi convite para retornar a esta casa.

Novo olhar

Eu ajudei a fundar um terreiro e trabalho em outro há quase três anos, ajudando nos trabalhos de desobsessão. Nunca me aconteceu qualquer aborrecimento sobre isso, pelo contrário, foi um pedido das próprias entidades e tem dado muito certo!

Todo terreiro trabalha pela mesma causa, assim, não há razão para proibir as pessoas de visitarem outras casas. Pelo contrário: isso deveria ser estimulado, pois fortalece a religião.

Em nossa casa, qualquer médium pode visitar outro terreiro e se julgar que servirá melhor nesta nova casa, poderá ficar, sem problema algum, sem qualquer ressentimento, pois todo terreiro sério é bom e se é bom merece nosso apoio.

Assim, conclamo, especialmente os dirigentes, a abrirem suas mentes sobre isso. Desde que as pessoas aprendam a respeitar cada terreiro em sua singularidade, será sempre uma experiência positiva conhecer outras casas.

Fraternidade

Dentro do possível, todo terreiro deveria ajudar outros terreiros, especialmente, se em dificuldade e isso por uma razão simples: trabalhamos pela mesma causa!

Recentemente, visitei um terreiro muito importante para mim, e lá soube, pelo dirigente, que estavam passando muitas dificuldades financeiras em razão de uma dívida.

Então, fiz uma pequena campanha junto aos membros da nossa casa e arrecadei quase duzentos reais para ajuda-los. Sei que foi uma pequena quantia, mas antes ter duzentos a mais do que a menos, não é?

Se os terreiros se visitassem e se auxiliassem, a religião como um todo se fortaleceria, os laços fraternais criados pelas casas, ainda que sejam de doutrinas diferentes, beneficiaria a todos por este elo de amizade e estima recíproca.

A religião é que ganharia com este novo olhar!

Até a próxima aula!

Leonardo Montes 

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2 comentários:

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