terça-feira, 19 de novembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 56 - IRMANDADE NO TERREIRO

Imagem do google

Dentro de um terreiro, todos são irmãos. É o que dizem frequentemente as entidades. Por esta razão, gosto de pensar em “irmandade” como um sentimento a ser cultivado tendo em vista um fato em comum: o pertencimento ao terreiro.

Conflitos

Muitas pessoas esperam o terreiro ideal (diga-se, perfeito), para poderem assumir o compromisso do trabalho espiritual. Contudo, infelizmente, elas apenas esperarão, pois não existe (e não existirá tão cedo), uma instituição humana perfeita e o terreiro não é exceção.

Em todos os terreiros existem conflitos.

É preciso não esquecer que, geralmente, a espiritualidade chama os devedores ao trabalho espiritual e não os que já saudaram a sua dívida para com a vida. Por esta razão, em um terreiro, encontramos as mais diversas pessoas, com as mais diferentes virtudes e os mais diferentes defeitos.

Isto vale para todos, sem exceção!

Ao unir pessoas tão diferentes num espaço em comum, logicamente, surgirão conflitos. Assim, a discussão não é propriamente sobre a existência ou não de conflitos, mas como administrá-los e, na medida do possível, resolvê-los.

Orientar e controlar

Também já tivemos ocasião de estudar, brevemente, a diferença entre esses dois conceitos. Agora, porém, é a hora de nos aprofundarmos um pouco mais.

Orientar pode ser entendido como: indicar a direção. Controlar pode ser entendido como: fiscalizar a conduta alheia.

Cabe ao terreiro (seja através de um dirigente ou de um grupo de pessoas) orientar os membros da casa, especialmente os novatos, no que se refere às tradições, costumes, normas e procedimentos, tanto no que diz respeito à organização e das práticas sadias de mediunidade.

O terreiro deve ensinar a religião aos interessados de maneira simples, descomplicada e facilmente compreensível por todos, sem jamais esquecer que há uma lei regendo as ações humanas: o livre-arbítrio, que faculta a cada um segundo suas obras.

As pessoas são livres para agir e encararão as consequências de seus atos. Assim, não há razão para os dirigentes se inquietarem com o comportamento dos membros fora do terreiro, afinal, a vida lhes pertence e eles podem fazer o que bem entenderem.

Um exemplo.

Certa feita, uma entidade me disse:

- Estamos fazendo o possível para ajudar fulano (cambone), porém, ele anda resistindo. Está muito triste e voltou a fumar maconha.

Imediatamente, minha reação foi de repulsa, dizendo:

- Como vocês permitem que ele continue trabalhando?

Ao que a entidade me respondeu:

- Filho, ninguém concorda com isso. Mas, antes ele fumar lá fora e a gente socorrê-lo aqui dentro, do que tirá-lo daqui para que apenas fume lá fora.

A espiritualidade é muito sábia!

Meu primeiro impulso, sem o menor receio, foi o de julgá-lo, pensando que a presença dele num trabalho espiritual seria fonte de desequilíbrios, ao passo que as entidades, mais sábias, viam uma excelente oportunidade de ajudar um irmão em desajuste momentâneo...

Claro que, no caso em específico, o cambone fumava apenas eventualmente, quando não se sentia bem. Não era uma prática que pusesse em risco o trabalho espiritual que ele executava e as entidades não deixaram de orientá-lo no que fosse preciso...

Assim, uma das formas de minimizar conflitos, da parte dos que conduzem o terreiro, é compreender claramente os limites entre orientar e controlar, exigindo, sim, dentro do terreiro, que as normas sejam cumpridas e que lá fora, na vida cotidiana, cada um viva como achar melhor, pois todos nós prestaremos contas de nossos atos à Deus e não ao próximo...

O(s) dirigente(s)

Na internet, abundam reclamações contra dirigentes ou contra a diretoria das casas. Por vezes, estas reclamações possuem fundamento, outras vezes, nascem apenas da ingratidão. Seja como for, precisamos refletir.

Já tivemos oportunidade de estudar que o(s) dirigente(s) são pessoas comuns, recheadas de problemas e dificuldades como todo mundo, porém, com um pouco mais de responsabilidade: a de conduzir um trabalho espiritual.

Infelizmente, muitos dirigentes comportam-se como se fossem reis, exigindo lealdade e subserviência como se tratassem com vassalos e não com companheiros de jornada.

Assim, não é tão raro encontrar pessoas que extrapolam suas funções espirituais, agindo de maneira leviana ou mesmo desleal, ameaçando quem os critique ou confronte e, neste caso, a minha sugestão pessoal é: nem perca seu tempo batendo de frente, a vida passa depressa demais e enquanto você perde tempo reclamando do que seu dirigente deveria ser, o tempo para que você seja algo acaba se esgotando...

Por outro lado, às vezes, o dirigente erra tentando acertar e talvez não consiga por falta de suporte. Assim, se boa parte dos que criticam resolvessem arregaçar as mangas, talvez as coisas fluíssem melhor para todos. É uma questão de postura!

Terreiro em construção

Existe um forte apelo ao tradicionalismo na Umbanda, onde geralmente se procura preservar normas e costumes. Contudo, nenhum terreiro para no tempo. As relações e práticas são reinventadas o tempo todo.

Assim, o meu conselho, tanto para dirigentes quanto para trabalhadores, é: vejam o terreiro como um organismo vivo, crescendo, se adaptando e evoluindo conforme as necessidades do cotidiano.

Por isso, procuremos sempre estar abertos às sugestões que chegam de todos os lados, avaliando as opções e mudando, se for necessário. Se todas as pessoas que fazem parte de uma casa se sentirem responsáveis por sua manutenção, quem ganha é o próprio terreiro.

Resolução de conflitos

Em um espaço religioso, o que nunca nos deve faltar é a tolerância e o diálogo, especialmente, entre os mais difíceis que, frequentemente, são os que mais precisam de atenção e cuidado.

Assim, a obtenção da irmandade se adquire com o exercício da fraternidade, através do exercício da tolerância, do respeito e da boa-vontade em todos os níveis nas relações de terreiro.

Quando alguém veste o branco e se coloca como trabalhador espiritual, o que nunca deve esquecer é o compromisso assumido e a razão de estar ali dentro. Se por ventura a convivência se tornar difícil, é este sentimento que deve guiar o coração do trabalhador enquanto seus olhos não enxergarem uma solução pacífica.

Se todas as pessoas cuidassem dos próprios afazeres, colaborando umas com as outras por espírito de serviço, as diferenças seriam colocadas de lado e o terreiro poderia se tornar, verdadeiramente, uma segunda casa para todos.

Portanto, diante de conflitos, quaisquer que sejam, busquemos sempre em Deus, com auxílio das entidades, as soluções justas, a fim de que possamos produzir e, produzindo, ajudemos a melhorar um pouco este mundo.

Quando um terreiro fecha, é uma luz que se apaga na Terra!

Até a próxima aula!

Leonardo Montes


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Um comentário:

  1. Metade dos problemas de convívio entre irmãos é devido a falta de educação e respeito

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