terça-feira, 22 de outubro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 44 - OUTRAS LINHAS

Imagem do google

As linhas apresentadas durante este estudo são aquelas com as quais trabalhamos em nossa casa, mas não são as únicas. Existem também as linhas dos malandros, mineiros, marinheiros, boiadeiros, exus mirins, linha d’água, etc.

Cada terreiro atuará com as linhas necessárias ao desempenho de suas funções.

As linhas de um terreiro

Muitas pessoas já me perguntaram: por que vocês não trabalham, por exemplo, com boiadeiros?

A resposta é sempre a mesma:

- Porque nunca se apresentou um para mim.

Eu sempre tive largo contato com as linhas dos caboclos e dos pretos-velhos em todos os terreiros que já visitei ou já trabalhei, de modo que estas linhas se apresentaram, para mim, como as linhas-mestras do meu trabalho na religião.

Contudo, será assim com todas as pessoas?

Certamente, não!

Existem médiuns que desde cedo vão desenvolver afinidade com a linha dos baianos, por exemplo, e que terão como guia-chefe um baiano e todo seu trabalho será dando prioridade a esta linha. Então, afinal de contas, o que determina as linhas de um terreiro?

Essencialmente: a tarefa a ser desempenhada por aquela casa.

Imagine um determinado hospital numa cidade grande. Ele certamente não possui todas as modalidades médicas existentes no mundo, mas deve possuir, pelo menos, aquelas modalidades necessárias para atender as demandas das pessoas daquela localidade.

Noutro ponto da cidade, pode haver outro hospital que tenha modalidades médicas em comum com o primeiro hospital, mas que se diferencia por possuir outras que o primeiro não possui e que são adaptadas, por sua vez, as necessidades das pessoas do local em que se encontra.

É por um sistema semelhante que cada terreiro se estrutura para atender as necessidades da localidade onde está inserido. Por isso os terreiros não são (e não precisam ser) todos iguais, quer no que se refere ao culto, quer no que se refere às linhas de trabalho.

Equipe espiritual

Quando um médium reencarna, ficam do outro lado as entidades que formam (ou formarão) a sua equipe espiritual de trabalho, isto é, a equipe espiritual que atuará através da sua mediunidade em conformidade com a tarefa que ele executará na Terra.

Assim, quando este médium estiver apto ao exercício mediúnico e acabar chegando em algum terreiro, gradativamente, cada um de seus guias espirituais se apresentarão, esperando o momento em que esteja maduro o suficiente para poderem atuar e darem cumprimento ao projeto de trabalho que foi, anteriormente, traçado pela espiritualidade superior.

É por esta razão que o compromisso mediúnico é uma das coisas mais importantes da vida de alguém. Contudo, abordaremos isso mais tarde.

Por enquanto, o que importa saber é que as linhas espirituais que atuarão através de um médium, quase sempre, já estão definidas antes da sua encarnação, porém, dependendo da extensão do trabalho realizado, novas podem se apresentar, se forem necessárias.

Contudo, justamente por esse planejamento anterior, onde cada médium já tem muito bem definido quais linhas atuarão através de si, muitos sentem enormes dificuldades se forem submetidos a um desenvolvimento com uma linha com a qual não possui essa ligação prévia.

Todas as linhas?

Muitos médiuns novatos se mostram ansiosos para experimentar a energia de diferentes linhas, pois querem saber como será, o que perceberão, como ocorrerá a incorporação, etc.

É um desejo muito natural. Contudo, tenho aprendido com os guias que menos é mais.

Em todas as casas que já estive onde se trabalhavam com muitas linhas, observei o mesmo fenômeno: mistura na forma com que as entidades se apresentam.

O médium incorpora, mas você não sabe que linha ele incorporou, pois passa a agir e a falar com formas próprias de outras linhas, exemplo: incorpora um baiano que fala “eixe” e que as vezes brada; enquanto incorpora um caboclo com sotaque de baiano e que fala “axé”.

O que acontece? Animismo? Mistificação?

Na verdade, creio que seja falta do que denomino como “amplitude mental”.

Incorporar uma entidade, com sua própria personalidade, trejeito e preferências, é uma senhora tarefa para o cérebro humano que abrigará, durante o transe, duas personalidades diferentes: a do médium e a do guia.

Creio que se um dia houver um estudo cerebral com mapeamento neural em pessoas antes e depois do desenvolvimento mediúnico, se perceberá que a estrutura do cérebro se modifica, pois para dar guarida às personalidades diferentes (creio eu), o cérebro chega a modificar estruturas, facilitando o transe mediúnico.

Contudo, somos ainda espíritos em início de jornada evolutiva, muito distantes do fim dessa caminhada. Nossa “amplitude mental” e nossa “plasticidade cerebral” são severamente limitadas, de modo que nunca vi um único caso em que um médium incorporasse mais de sete linhas e conseguisse o mesmo desempenho em todas elas.

Pelo contrário: vejo médiuns incorporarem bem duas, três linhas de trabalho, ao passo que incorporam mais ou menos outras duas ou três linhas e se passam de sete entidades, o resultado quase sempre é uma miscelânea não identificável de personalidades que se misturam e se perpassam umas às outras.

E comigo não é diferente...

A concepção de que o médium na Umbanda deve incorporar todas as linhas, na verdade, é bastante recente. Em boa parte da história da religião o médium trabalhava apenas com duas, quando muito, três entidades diferentes.

Assim, embora compreensível o desejo dos médiuns em incorporarem outras linhas que não sejam as que trabalham frequentemente, eu sempre lhes digo: mais é menos.

Por o guia para trabalhar

É comum ouvirmos que o médium precisa desenvolver tal linha por que o guia precisa trabalhar. E enquanto o médium não desenvolve, o que o guia fica fazendo o quê? Jogando dominó em Aruanda?

É uma infantilidade pensar que os guias só atuam quando estão incorporados, pelo contrário, eles possuem imensos afazeres no mundo espiritual, estão quase sempre ocupados, de modo que, incorporar em um médium para atender é apenas uma face do trabalho espiritual da entidade e não todo o trabalho que ela executa.

Assim, o desenvolvimento mediúnico não é um movimento que deve ser pensado no sentido de colocar o “guia para trabalhar”, mas ao contrário, é onde se coloca o médium para trabalhar.

Conclusão

Como dito no início do texto, cada médium tem sua equipe espiritual e se ligará mais particularmente a uma ou outra linha de trabalho. Não há nada de errado nisso.

Não importa se sua ligação se dá mais diretamente com o preto-velho ou com o exu. Importa que incorpore bem, seja que linha for e consiga fazer um bom trabalho.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes

FIM DA SEGUNDA PARTE




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