quarta-feira, 16 de outubro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 41 - CIGANOS


Imagem do google
A “linha dos ciganos” é composta por espíritos que viveram entre os ciganos, no Brasil ou no exterior (sendo muito comum a descendência hispânica). São entidades festivas, alegres e que mexem muito com o imaginário popular por terem um “ar de sensualidade” e mistério.

Linha do Oriente

Em meados da década de 1940 (década do orientalismo na Umbanda), diversos terreiros começaram a trabalhar com uma linha “nova”, denominada: linha do oriente.

Nesta linha, manifestavam-se espíritos de ciganos, monges, celtas, egípcios, chineses, etc. Uma gama vasta e plural de entidades provenientes dos mais diversos povos.

As giras com os ciganos se tornaram tão populares que, desde então, foi organizada, no astral, um trabalho próprio, independente da linha do oriente (embora ainda existam ciganos vinculados a esta) e que hoje atuam nos terreiros à sua própria maneira.

Preconceito

Nada revela mais a nossa hipocrisia do que o trabalho com os ciganos e eu vou explicar o motivo.

Eu cresci ouvindo falar mal dos ciganos, que eram pessoas ruins, ladrões, assassinos e que jamais devia fazer negócios com um. Isso era tão claro em minha mente que só depois da Umbanda parei para refletir neste preconceito que se tornou um verdadeiro conceito social.

Mesmo dentro do terreiro, por vezes, escutei as pessoas falando que os ciganos que haviam aqui em Uberaba não tinham nada a ver com os ciganos que vinham no terreiro, que estes últimos eram “nobres” e outras tantas tolices.

Claro, sem dúvida, existem ciganos que são tudo de ruim que se possa imaginar, assim como existem negros, brancos, índios, mulatos, nessa mesma condição, pois nunca se tratou de um problema étnico, mas de uma questão moral.

Assim, ainda hoje, quando vamos trabalhar com os ciganos, penso sempre em todos os anos de preconceito que cultivei em mim mesmo de forma irrefletida, julgando todo um povo e sua rica história por uma série de preconceitos e discriminações a que somos expostos desde a infância.

Quando fazemos gira com os ciganos, o terreiro lota. Mas, quando cruzamos com um na rua, mudamos de lado da calçada... É ou não é uma bela hipocrisia?

Mobilidade

Ao contrário do relato das demais entidades que frequentemente dividem seu tempo entre as esferas espirituais e a Terra, a maioria dos ciganos permanece por aqui mesmo, de maneira itinerante, indo e vindo, visitando outros terreiros, outras cidades, sem uma base fixa de atuação.

Quando chegam para trabalhar em um terreiro, costumam levantar um acampamento em alguma área verde próxima e os médiuns logo sentem, durante os dias que antecedem o trabalho, uma misteriosa aura de alegria e paz os envolvendo.

Futuro

Sem dúvida, o aspecto que desperta mais interesse e curiosidade nos leigos são as previsões sobre o futuro. Trata-se de uma linha muito hábil neste sentido, embora nem todas as entidades atuem assim.

Seja através do baralho cigano, das linhas das mãos ou numa taça de vinho, alguns ciganos realmente possuem a habilidade de ver o futuro de forma mais ou menos clara.

A explicação para essa previsibilidade é a seguinte:

Alguns ciganos têm a capacidade de penetrar a dimensão temporal. Frequentemente, eles descrevem o tempo como o fluxo de um rio, dizendo que conseguem visualizar, com base na energia da pessoa, uma série de desdobramentos que se apresentam como visões mais ou menos nítidas e, por isso, mais ou menos precisas dos acontecimentos futuros.

Entretanto, essa visão do futuro não é determinista. Eles conseguem ver probabilidades, consequências do que advirá se a pessoa continuar naquele caminho. Contudo, se a pessoa muda seu caminho, o resultado do futuro muda também.

É comum dizerem, também, que não possuem visão ilimitada sobre o que há de vir e nem sempre conseguem responder às ânsias do consulente: veem aquilo que Deus lhes permite ver, nada mais, até por que o que é visto e dito numa consulta com um cigano é apenas o que pode ser alterado pela pessoa sem prejuízo geral para sua caminhada na Terra, pois do contrário, estariam interferindo no livre-arbítrio, o que seria uma violação de uma lei Divina.

Estereótipo

Creio que a liberdade seja a característica mais determinante destas entidades. São as que mais abordam esse assunto, incentivando o consulente a descobrir e a trilhar seu próprio caminho, nunca se comparando com outras pessoas: cada um é único, tem um passado único e um caminho único na Terra. A felicidade consiste em descobrir este caminho e trilhá-lo e não imitar o outro.

São entidades geralmente “alto astral”, sempre disposta a colocar o consulente para cima, a fazer com que perceba a beleza da vida na música, na dança, na natureza e na família.

Os ciganos, geralmente, dão muito valor à família, tanto consanguínea quanto espiritual, falando com frequência da importância dos laços afetivos na construção de uma vida digna e boa.

Adereços

Alguns ciganos pedem adereços como: pano de cabeça, braceletes, pulseiras, leques, etc.

Obs.: Em geral, os terreiros permitem que os médiuns vistam roupas coloridas, o que dá a este trabalho um charme próprio. Contudo, é preciso sempre estar em guarda... Já vi muitos médiuns que se “travestiam” de ciganos e, não raro, passavam a agir como se fossem um...

Pombagira cigana

Uma das perguntas mais comuns, é: qual a diferença entre uma cigana e uma pombagira cigana? A resposta é simples:

- Se a entidade se apresenta como uma cigana, então, pertence a linha dos ciganos; Se ela se apresenta como pombagira cigana, então, é uma entidade de origem cigana que não atua na linha dos ciganos e, sim, na linha das pombagiras, possivelmente, por fatores pessoais que a inserem melhor neste contexto espiritual.

Não há nada de errado nisso.

Conclusão

O trabalho com os ciganos, sem dúvida, tem uma aura mística e profunda. É um trabalho de beleza singular e que nos lembra sempre que a vida, por mais sofrida, pode ser vivida sem tantas correntes, cada um buscando seu próprio caminho, seu próprio jeito de ser feliz.

A capacidade que estas entidades têm de ver o futuro apenas aumentam a nossa responsabilidade sobre o presente, sobre nossas ações e o quanto podemos construir um futuro de paz ou de dor conforme nossos próprios atos.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes



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