sexta-feira, 4 de outubro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 37 - PRETOS-VELHOS

Imagem de Pai Cipriano - google

A chamada “linha dos pretos-velhos” é composta por espíritos que viveram no período da escravidão, na África ou no Brasil, e que passaram por este imenso período de expiação coletiva, conseguindo aprender e evoluir. Assim, nem todo escravo se tornou um preto-velho, mas todo preto-velho foi um escravo.

Expiação

A escravidão, no dizer dos próprios espíritos, foi um imenso movimento de expiação coletiva, onde almas que viviam em diversos povos reencarnaram em determinado momento na África e, posteriormente, no Brasil, a fim de resgatarem seus débitos para com a justiça Divina.

É certo que esta expiação coletiva foi muito piorada pelos portugueses e colonos que, não compreendendo sua finalidade, desceram fundo no egoísmo e na exploração, gerando vínculos cármicos fortíssimos fazendo com que, não raro, vários portugueses viessem a reencarnar, posteriormente, como filhos dos próprios escravos...

Neste processo doloroso, várias almas se revoltaram ainda mais, agravando seus padecimentos, enquanto outras souberam suportar a opressão e tiraram dessa experiência poderosos valores para seus próprios espíritos. São essas almas virtuosas que compõe a chamada “linha dos pretos-velhos”.

Sabedoria

Uma característica comum desta linha é a sabedoria. Através de palavras simples, muitas vezes, em um “português errado” (que na verdade, não é errado, mas aquilo que ele aprendeu na época em que viveu na Terra), tais entidades conseguem, com muita facilidade, chamar qualquer pessoa à razão com conselhos simples e humildes, revelando a sabedoria daqueles que sofreram, mas aprenderam com a vida e que agora retornam, muitas vezes, manifestando-se nos corpos de seus antigos algozes, nos ensinando o caminho da paz e da caridade.

A maioria dos pretos-velhos evoca a figura de um ancião em sua manifestação, como um avô carinhoso, uma avó acolhedora e fraterna, porém, existem também pretos-velhos firmes e disciplinadores, embora todos sejam almas bondosas, desejosas sempre de se melhorarem continuamente à medida que nos exortam a seguir pelo caminho do bem.

Paciência

A paciência de um preto-velho é de fazer corar qualquer apressadinho. Ainda hoje eu me espanto com a capacidade de renúncia destas entidades que normalmente escutam as queixas mais absurdas dos consulentes sem o menor ímpeto de julgamento e com a mais sublimada paciência.

Acolhimento

Outra característica comum desta linha é o acolhimento aos sofredores. Por esta razão, os pretos-velhos são excelentes ouvintes e sábios conselheiros. Quantas e quantas vezes vi algum preto-velho de cabeça baixa, ouvindo o desabafo de algum consulente entre lágrimas, enquanto segurava as mãos trêmulas da pessoa.

Esta capacidade de acolhimento tem feito, pelo menos em nossa casa, que as giras deles se tornem as mais disputadas, pois num mundo onde todos acham que têm direito de falar, sem necessariamente ter de ouvir, os pretos-velhos são o retrato vivo de um passado onde se valorizava mais ouvir do que falar.

Adereços

Vários pretos-velhos pedem adereços como: bengala, um crucifixo, um rosário, um chapéu, etc.

Elementos

Esta linha costuma fazer uso do cachimbo e de alguma bebida, sendo muito comum o uso do café e, menos comum, o uso do vinho e, raramente, uso de uma bebida mais forte, como a pinga, por exemplo.

Além disso, fazem uso do cachimbo que, muitas vezes, pode ser usado apenas com tabaco ou misturado com outras ervas, cigarro de palha ou mesmo charutos.

Trabalham muito com as velas, com a energia do fogo, da água, das ervas, sendo verdadeiros “mandigueiros”, isto é, feiticeiros, no bem sentido da palavra.

Curas

Muitos pretos-velhos dedicam-se aos tratamentos espirituais. É muito comum que acompanhem uma pessoa enferma até que se restabeleça, dando passes em feridas, receitando chás, banhos e uma infinidade de recursos que seus largos conhecimentos possam auxiliar.

Na esquerda

Atualmente, quando se fala em pretos-velhos, naturalmente os classificamos como entidades da direita (conforme já estudamos). Porém, existem alguns pretos-velhos que, anteriormente, foram também exus e que podem, portanto, se manifestar também na esquerda, o que se chamava, antigamente, de “preto-velho quimbandeiro”.

Ao que me parece, contudo, isto é relativamente raro, sendo muito difícil presenciar que algo assim se dê, justamente, por que cada vez mais os exus e pombagiras ganham espaços nos terreiros (o que nem sempre foi comum).

Estereótipo

Os pretos-velhos, quase sempre, manifestam-se segundo um estereótipo do que se imagina inerente a esta linha, isto é: andar curvado, fala mansa, cadenciada, etc.

Dentro da religião, cada linha de trabalho desenvolveu seus próprios estereótipos, de forma que basta uma rápida observação para sabermos, mesmo à distância, se tal manifestação é de um preto-velho ou de um caboclo, por exemplo, justamente, por que os pretos-velhos terão seus trejeitos e que serão diferentes dos trejeitos dos caboclos e assim por diante.

Não se segue que todo preto-velho tenha sido um escravo que desencarnou em idade avançada, o que era proporcionalmente raro na época. Este “velho” significa sábio sendo comum que vários brinquem dizendo que são “pretos-novos”.

Conclusão

Pensei muito no que escrever neste capítulo, tendo em vista que me dirijo, essencialmente, aos leigos. Meu encanto com essa linha (que é a minha preferida) dificultou muito este processo, pois há tanta coisa por ser dito...

Contudo, conclui que o exposto seja o suficiente. O restante, você só saberá o dia que sentir o cheiro do “cachimbo do vovô” e se sentar em frente a uma entidade destas.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes



Share:

0 Comments:

Postar um comentário

Os anos de internet me ensinaram a não perder tempo com opositores sistemáticos, fanáticos, oportunistas, trolls, etc. Por isso, seja educado e faça um comentário construtivo ou o mesmo será apagado.