quarta-feira, 25 de setembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 33 - RITUAIS

Imagem do google

Quando se fala em ritual, geralmente, a imagem que surge em nossa mente é de algo sombrio feito por pessoas em algum porão ou cemitério, certo? Se você pensou em algo assim, não se culpe.

O cinema tem sido responsável por estigmatizar vários conceitos religiosos através de filmes exagerados que não possuem eco com a realidade.

Na verdade, ritual pode ser entendido como um conjunto de procedimentos necessários para se fazer determinada coisa e a nossa sociedade está recheada deles!

Você já assistiu a um julgamento na televisão? Já observou que não é feito em qualquer lugar, mas numa sala própria, onde as pessoas devem se vestir de determinada forma, sentar-se em determinados lugares, falando apenas ao tempo certo, etc?

Tudo isso é ritual!

Basicamente, o ritual serve para separar os tempos e os espaços: o tempo/espaço sagrado (no caso, do terreiro), do tempo/espaço profano (fora do terreiro).

Todo médium de incorporação sabe que uma coisa é incorporar no terreiro no dia da gira; outra, bem diferente, é incorporar em casa, por exemplo. Essa diferença não se deve apenas as diferenças energéticas entre os ambientes (que, sem dúvida, influem bastante), mas também aos diferentes espaços e tempos em que a manifestação acontece.

Resguardo

Todo trabalhador de terreiro se prepara antes da gira, geralmente, um dia antes, abstendo-se de comer carne, do fumo, da bebida alcoólica e de atividade sexual, além de redobrar seus cuidados para com a natureza dos pensamentos e sentimentos.

Essa preparação (resguardo), é parte fundamental do trabalho espiritual que se realizará e, além de toda a purificação que produzirá no corpo físico, inclina mentalmente o trabalhador para uma esfera de pensamento mais elevada, como uma preparação mental/energética necessária ao trabalho que executará em breve.

Chegada ao terreiro

A chegada ao terreiro deve ser feita sem alarde e com antecedência. Se o médium chega em cima da hora, não conseguirá se desligar adequadamente do mundo lá fora.

Pode, naturalmente, cumprimentar a todos, trocar uma palavra rápida com os presentes, mas assim que possível, deve seguir para seu lugar na corrente e permanecer em oração e concentração, conversando apenas o mínimo necessário, para sintonizar-se com as forças espirituais da casa.

Início da gira

Cada terreiro tem sua própria maneira de dar início aos trabalhos. Assim, seja breve ou não, simples ou complexo, todo terreiro tem seu próprio ritual de abertura.

Esse ritual serve para quê, gradativamente, o médium esqueça a vida lá fora e passe focar toda sua atenção e força no trabalho que executará. É comum que, lentamente, as pessoas sintam as energias da corrente, dos guias, conforme este ritual ocorre.

Aqui, fazemos assim: oração, saudação aos orixás/guias, defumação, bater cabeça, ponto das sete linhas, chamada dos guias.

Aqui reside a parte mais importante deste estudo: o ritual não é o fim, é o meio.

O ritual serve apenas para preparar, ambientar, direcionar as forças físicas, mentais e espirituais das pessoas para que o trabalho espiritual possa acontecer.

Portanto, a força de um trabalho não está no ritual, em si, mas em como aquele ritual é capaz de fazer com que cada um dê o máximo de si durante o trabalho.

Batismo

Cada terreiro desenvolve a sua própria ritualística no que se refere ao batismo, contudo, é comum que se batize crianças e também adultos. Neste trecho do estudo, não quero me prender a fórmulas, mas gostaria de falar sobre a essência.

O batizado na Umbanda é um momento muito importante da vida espiritual da pessoa e só deve ser realizado se realmente a pessoa estiver bastante certa de que deseja mesmo seguir por este caminho durante toda sua vida, pois é a reafirmação, perante toda a comunidade e todos os guias, do compromisso espiritual assumido.

O batismo da criança tem por finalidade pedir a proteção das entidades durante o seu crescimento e desenvolvimento, é como entregar, simbolicamente, a criança aos cuidados das entidades, ao mesmo tempo em que os pais assumem compromisso de educa-la conforme os valores da religião.

Claro que, futuramente, ela pode decidir se quer ou não continuar na religião.

Casamento

Também existem celebrações de casamento na religião e cada terreiro executa o ritual à sua própria maneira.

Contudo, aqui também reside um cuidado especial, pois o casamento é um compromisso espiritual de sérias consequências, de modo que não deve ser cogitado a menos que haja real interesse entre os noivos.

Assim como o batismo é o compromisso de seguir pelos caminhos da religião, o casamento é um voto de companheirismo assumido perante a comunidade, os guias e os Orixás.

Existem outros rituais na religião, mas estes são os mais comuns.

Exageros

É com certa tristeza que vejo que boa parte dos umbandistas não compreende o valor dos rituais ao mesmo tempo em que dão excessivo valor às coisas materiais.

É grande o número de pessoas que acha que há uma única maneira para se acender uma vela, de se fazer uma oferenda, de orar, etc. É preciso lembrar que toda forma só tem utilidade para acessar o conteúdo.

Exemplo:

É comum que as pessoas me procurem pedindo dicas pra fazer um padê para exu.

Bem, por que elas querem fazer um padê? Por que viram em algum canal do youtube que padê é um tipo comum de oferenda para os exus.

Ok, mas para quem ela vai oferendar?

Na verdade, ela não sabe de nenhum exu, muitas vezes, nunca conversou com um, mas acha que seria bom fazer um agrado para que seus caminhos estejam abertos...

Entendem a incoerência de algo assim?

A Umbanda tem se reduzido em muitos lugares a um mero fetichismo bobo onde muita gente acha que basta colocar farinha num alguidar, acender umas velas, colocar pinga num copo, para estar em contato com algum exu!

Se a pessoa não conhece um exu, se não frequenta terreiros, se não é médium de um exu, para quê quer fazer algo direcionado a exu? Seria a mesma coisa que um cristão devoto, repentinamente, resolvesse orar para Shiva, muito embora ele nada conheça de Shiva...

Logo, são pouco válidas as muitas “receitas” que encontramos na internet, oferecendo fórmulas disso ou daquilo, como se bastasse seguir um passo-a-passo para alcançar determinado objetivo...

Enfim, tudo na Umbanda tem fundamento, exige preparação, conhecimento de causa e não mero ritualismo reduzido a expressão pobre de fetichismo tolo através de uma receitinha de internet...

Até a próxima aula!

Leonardo Montes



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4 comentários:

  1. Sou de Niterói RJ. Sou Umbandista frequento um terreiro em São Gonçalo aonde Pai Zelio começou os trabalhos. Eu resumo do em uma palavra por tudo o que vc faz pela religião que eu amo. GRATIDÃO

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