terça-feira, 17 de setembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 29 - USO DO FUMO

Imagem do google

O uso do fumo nos trabalhos de Umbanda, sem dúvida, é um tema que gera muita curiosidade e resistência no leigo. É comum as pessoas se espantarem vendo um preto-velho com seu cachimbo ou um caboclo com seu charuto e se perguntarem: isso não faz mal?

Vamos responder a essa pergunta no decorrer deste texto.

Contexto

Já tivemos oportunidade de estudar que a primeira entidade a solicitar um elemento de trabalho foi Pai Antônio, através de Zélio de Moraes, quando pediu um cachimbo. O mesmo espanto que acometeu às pessoas da época ainda hoje causa reboliço.

Isso por uma razão muito simples: crescemos aprendendo que o fumo faz mal, que fumar é nocivo, que causa câncer, etc. Contudo, pergunto: fumar o quê, quando e como?

É cada vez maior o número de pessoas que concordam que o que mais prejudica não é o fumo, em si, mas toda industrialização na fabricação de um cigarro. Nas muitas (e nocivas) substâncias tóxicas que não guardam relação com o fumo natural que é utilizado pelos índios há incontáveis eras.

Assim, quando as pessoas veem uma entidade fumando no terreiro, imediatamente associam este “ato de fumar” com as viciações que tomam conta da nossa sociedade neste sentido e imediatamente transferem toda a carga negativa que este hábito possui “lá fora” para aquilo que se faz dentro do terreiro.

Este é o erro!

O fumo é utilizado há incontáveis eras por diversas tribos indígenas em rituais religiosos, como facilitador do transe, meio de comunicação com os ancestrais, com a natureza e com fins medicinais. O problema nunca foi o fumo, mas sua transformação em mercadoria, sua industrialização...

Na Umbanda

O fumo (tabaco) possui basicamente duas utilidades dentro da religião:

A primeira é para fortalecer o transe mediúnico, pois os trabalhos espirituais na religião demandam uma quantidade enorme de energia a fim de manter o transe o maior tempo possível, algo que o fumo auxilia sobremaneira, pois a energia do fumo fortifica o transe mediúnico.

A segunda é como agente asséptico, pois a energia do fumo, liberada na fumaça, é um recursos poderoso para limpeza espiritual, desagregação de fluidos densos (por isso as entidades têm o costume de baforar a fumaça no corpo da pessoa), a fim de realizar uma limpeza profunda e também como meio de revitalização das forças espirituais, já que através do sopro (baforada), além da energia do fumo, ela envia também um misto de forças físicas (do médium) e espirituais (suas próprias).

Cumpre lembrar, todavia, que as entidades não tragam (isto é, não engolem) a fumaça do fumo. Elas retêm na boca pelo tempo suficientemente necessário para manipular esta energia e em seguida sopram em direção ao consulente, realizando uma profunda limpeza.

Antes de encerrar este item, convém esclarecer que as entidades usam o fumo dentro dos critérios energéticos mencionados anteriormente e não por que sejam viciadas, apegadas à matéria, como geralmente o leigo pensa...

Outras ervas

Além do fumo, algumas entidades têm o hábito de misturar outras ervas ao fumo, como alecrim, alfazema, camomila, etc. Essa mistura ocorre quando a entidade agrega uma energia extra ao fumo que manipulará, isto é, além da energia comum do fumo, ela também trabalhará com a energia oriunda de outra erva (e cada erva tem uma energia em particular).

Isto é perfeitamente possível e natural, sendo mesmo um dos muitos usos energéticos que as entidades sabiamente manipulam com maestria.

Obrigatoriedade?

Muitas pessoas me perguntam se o fumo é obrigatório no trabalho com as entidades. Respondo sempre da mesma maneira: não é!

O fumo - como diversos outros elementos que estudaremos ao longo deste curso -, é apenas um recurso, um poderoso recurso, muito utilizado pelas entidades em seus trabalhos, porém, não obrigatoriamente, tanto é que algumas entidades não o utilizam.

Cada entidade é única e tem sua especialidade e embora todas sejam capazes de realizar os mesmos trabalhos, elas acabam focando naquilo que melhor caracteriza o seu trabalho.

Exemplo:

Entidades que trabalham mais com curas ou recursos energéticos que atuam mais a nível mental/espiritual, usam pouco ou mesmo não usam o fumo. Já entidades que trabalham mais na limpeza, no descarrego ou na desobsessão, costumam usar bastante o fumo.

Não há certo ou errado, melhor ou pior, cada elemento na Umbanda possui uma finalidade e é trabalhado dentro de um propósito para atingir uma determinada finalidade.

O que devemos fazer sempre é respeitar a forma como a entidade trabalha e não querer impor-lhe um meio de trabalhar, o que seria um contrassenso, já que eles é que nos guiam e não o contrário...

Saúde

É importante lembrar que o fumo dentro da religião é usado apenas em certas situações, manipulado quando há necessidade, sendo que as próprias entidades se esforçam muito para que as pessoas compreendam as diferenças entre uso religioso e do uso recreativo do fumo. 

Aliás, elas com frequência nos falam sobre os malefícios do fumo fora deste contexto, razão pela qual deve ficar muito bem entendido que embora a Umbanda use o fumo em seus rituais, de forma alguma endossa o hábito de fumar.

Como uma energia poderosa, o fumo precisa ser manipulado com cuidado, pois se forem excedidos os limites que guardam sempre as barreiras do uso e do abuso, certamente poderá fazer mal ao médium.

É comum as pessoas dizerem que as entidades levam tudo, que não fica nenhum resíduo em seu corpo, mas isso não é verdade. Aprendemos isso na escola: não há transformação de energia sem que haja perda no processo. Sem dúvida, sempre ficam resíduos no corpo do médium, os dentes perdem um pouco do branco, fica um gosto amargo na boca, por vezes a língua queima, etc.

Entretanto, se o médium “não fumar pela entidade”, isto é, se ele não passar à frente da entidade, não terá com o que se preocupar, por que as entidades deixarão seu corpo livre das energias que poderiam lhe fazer mal.

Aliás, é ainda por isso que o médium jamais deve querer impor às entidades o uso deste ou daquele fumo. Pode, sem dúvida, dialogar, procurar encontrar um meio termo (afinal, o corpo é dele), mas não deve influenciar na escolha, como muitas vezes ouvi alguns médiuns dizerem: meu exu só fuma charuto dessa marca... Meu preto-velho só usa fumo com sabor de cereja, etc.... Muito cuidado com isso!

A manipulação de elementos é algo que exige muita responsabilidade e se não for feita com cautela poderá – repito – poderá fazer mal a saúde do médium.

Antes de encerrar este texto, convém tocar noutro problema muito comum: os médiuns que já fumaram.

Muitos médiuns que já fumaram e estão em processo de abstinência ficam com medo de voltar a fumar pelo fato das entidades fazerem uso do fumo. Posso garantir que, embora justificável esse receio, são situações totalmente diferentes. Contudo, se o médium não se sentir forte o suficiente para se entregar ao processo, o melhor é que converse com suas entidades e peça que elas não façam uso enquanto ele não se sentir melhor preparado para isso. 

Da mesma forma, não é preciso ter receio em se tornar um viciado em tabaco pelo fato das entidades usarem no terreiro... Eu não tenho hábito de fumar e isso não mudou pelo fato de atuar como médium.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes. 



Share:

0 Comments:

Postar um comentário

Os anos de internet me ensinaram a não perder tempo com opositores sistemáticos, fanáticos, oportunistas, trolls, etc. Por isso, seja educado e faça um comentário construtivo ou o mesmo será apagado.