domingo, 29 de setembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 35 - PONTOS RISCADOS

Ponto riscado trazido pelas entidades como símbolo do nosso terreiro

Pontos riscados são símbolos grafados pelas entidades com a finalidade de se identificarem ou usados com propósitos espirituais bem definidos como pontos de firmezas ou de assentamentos.

Passado

Antigamente (e, principalmente, devido as distâncias geográficas e escassa comunicação), acreditava-se que os pontos riscados eram símbolos universais.

Assim, se um preto-velho, por exemplo, Pai Joaquim de Angola, riscasse um determinado ponto, acreditava-se que todos os demais guias que se apresentassem como Pai Joaquim de Angola riscariam o mesmo símbolo.

Isso fez surgir, aliás, livros contendo pontos riscados de diversas entidades e que foram (e em alguns lugares ainda são), usados como “manuais” para se confirmar a veracidade da manifestação.

Exemplo:

Um médium novato alegava receber o Caboclo Cobra Coral, o dirigente então mandava riscar o ponto e recorria ao livro de pontos que possuía para confirmar se de fato era a entidade, pois os desenhos deveriam ser iguais.

Era um procedimento ingênuo, que atribuía excessiva confiabilidade ao autor do livro, ao mesmo tempo que incentivava o animismo, pois frequentemente o médium, inseguro, pesquisava antes o “ponto riscado de tal entidade”, para na hora do teste, simplesmente copiá-lo...

Felizmente, contudo, é cada vez maior o número de adeptos esclarecidos que compreende que os pontos riscados, assim como as entidades, são únicos para cada guia.

Assinatura

O ponto riscado tem o valor de uma assinatura, uma assinatura simbólica e, por esta razão, é único para cada entidade: existem pontos semelhantes, mas eles nunca serão iguais, pois as entidades também não são iguais, embora, muitas vezes, apresentem-se com um nome de falangeiro comum.

Dois Pai Joaquim de Angola (seguindo no exemplo citado anteriormente), não riscarão o mesmo ponto, embora partilhem o mesmo nome, assim como dois médiuns com nome Leonardo no terreiro, embora partilhem o mesmo nome, não terão a mesma assinatura.

O ponto riscado é a forma simbólica da entidade se identificar para os encarnados.

Símbolos

Nós vivemos uma cultura muito pobre em termos simbólicos, atualmente. Algo que foi sumamente importante na história da humanidade, hoje em dia, é praticamente ignorado por boa parte da sociedade e no terreiro não é diferente.

Eu ainda me espanto com a falta de interesse dos próprios médiuns que, não raro, nunca se perguntaram (e – mais, nunca perguntaram as entidades), o que significam os símbolos que elas riscam em seus pontos.

A maioria simplesmente se contenta em saber que o desenho está certo e não dedicam maior tempo a isso.

Entre os símbolos que normalmente aparecem nos pontos riscados, podemos destacar: sol, estrela, lua, cruzeiro, tridente, flor, foice, árvore, machado, espada, lança, flecha, etc.

Por outro lado, herança do tempo em que se recorria aos livros de pontos, surgem diversos manuais procurando dar uma explicação universal ao uso de cada símbolo, o que nem sempre se verifica na realidade. Por esta razão, na dúvida, o melhor é sempre perguntar para a entidade.

Linguagem simbólica

Num ponto riscado pode-se saber muito sobre uma entidade sem que ela tenha dito uma única palavra. Na maioria das vezes, pode-se saber a falange e, não raro, até mesmo em qual vibração aquela entidade trabalha, simplesmente, observando seu ponto.

Este conhecimento não se adquire lendo autor A ou B que, quase sempre, registraram apenas suas próprias experiências, embora, não raro, cressem que suas observações tivessem efeito universal...

Tal aprendizado se faz em terreiro, dialogando com as entidades, observando os pontos riscados, entendo como cada símbolo se encaixa dentro do ponto. Por esta razão, não apresentarei nenhum resumo, mas deixo o convite, instigando a todos os interessados, que procurem estudar mais sobre isso, diretamente com as entidades.

Pontos de força

Quando uma entidade risca seu ponto no chão (ou numa tabua, ou num azulejo, numa pedra, etc.), ela não está apenas apresentando a sua assinatura simbólica, mas criando um ponto de força dentro do terreiro.

Tanto é que, normalmente, depois de riscado o ponto no chão (energia da terra), a entidade coloca uma vela acesa (energia do fogo), coloca também um copo com água (energia da água) e bafora a fumaça do seu cachimbo ou do seu charuto (energia do ar), formando um pequeno ponto de imensa força espiritual dentro do terreiro.

Deste ponto a entidade muitas vezes retira energia.

Por exemplo:

É comum que ao dar um passe de limpeza, a entidade direcione a mão do médium até a chama da vela, retirando a energia do fogo, para em seguida continuar o passe no consulente.

Porém, o ponto também pode servir para absorver energia.

Por exemplo:

A entidade dá passes de descarrego, direcionando a mão do médium como se estivesse jogando algo na chama da vela (muitas vezes, fazendo a vela trepidar) ou no copo com água (deve-se ter muito cuidado com esta água, que deve ser descarta sem entrar em contato com o corpo do médium).

Considerações

Muitas outras coisas poderiam ser distas sobre os pontos. Porém, como este é um curso básico e direcionado aos leigos, creio que seja o suficiente.

Como se pode ver, não se trata de riscar “solzinho, estrelinha e flechinha” no chão, os pontos têm significados e forças muito profundos, cabendo apenas aos interessados se aprofundarem ou não neste universo.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes 

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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 34 - PONTOS CANTADOS

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A expressão “pontos cantados” refere-se a cantigas da religião. Em toda a Umbanda, independente da vertente, as cantigas têm uma importância muito grande dentro da ritualística.

Característica comum dos pontos cantados são os versos simples, por vezes, cantados em “português errado”, pois boa parte deles surgiram quando a alfabetização era ainda precária no Brasil (tente imaginar o percentual de pessoas que sabia ler/escrever no começo do século XX).

Os pontos de Umbanda são majoritariamente em português, porém, alguns carregam termos em Iorubá (influência Ketu) ou Quimbundo (influência Bantu). Por vezes, contam a história de uma entidade, outras vezes são apenas agradecimentos, pedidos de auxílio, etc.

É comum que os trabalhos se iniciem e se encerrem com pontos cantados.

Oração

O ponto cantado deve ser visto como uma oração, uma oração em forma de canto, sendo extremamente útil para que o médium eleve seu pensamento através das estrofes simples que normalmente compõe o ponto (por isso o termo “ponto”, já que costuma ser pequeno).

Uma das grandes dificuldades dos terreiros é fazer com que os membros da corrente cantem. Muitos, por vergonha, acabam apenas mexendo os lábios, sem emitir verdadeiramente um canto.

É preciso superar essa vergonha, tendo-se em vista que o canto num ritual religioso tem a força de uma oração, sendo capaz de congregar boas vibrações em todo o ambiente.

Cantar fora do terreiro

Há pessoas que cantam pontos no caminho para o trabalho, limpando casa, andando de bicicleta, enfim, haverá algum problema nisso?

Na verdade, não!

Pode-se cantar pontos onde e quando se queira. Mas, é preciso ter um certo cuidado.

Se a pessoa canta com frequência nos mais diversos ambientes, existe uma boa chance de que transforme, sem querer, o ponto numa espécie de “marchinha”, uma música qualquer, fazendo com que aquele aspecto sagrado do ponto que faz arrepiar os pelos dos braços se perca, tornando o ponto simplesmente uma música sem maior valor: algo que se canta com a boca, mas que não vibra o coração.

Por esta razão, recomendo sempre que se evite cantar fora do terreiro, não por que isso traria algo de ruim, mas para que o aspecto sagrado do ponto não se perca...

Atabaques

Na Umbanda nascente não se usava atabaques. Isso basicamente por duas razões:

A primeira é que o C7E entendia que a entidade vinha para fazer caridade, não para ficar dançando, cantando, etc. Isto é, ele tinha uma visão restrita ao trabalho: entidade baixa para fazer caridade. Ponto final.

A segunda razão é que se temia (com certa razão), que o som dos atabaques condicionasse os médiuns negativamente, isto é, só conseguindo incorporar se os atabaques fossem tocados. Por isso, àquele tempo, os pontos eram entoados apenas com a voz, sem palmas, sem atabaques, sem nenhum outro instrumento.

Sem dúvida os receios do C7E eram justificáveis, pois muitos médiuns realmente só conseguem entrar em sintonia se houver um atabaque, e isto é um condicionamento mental muito negativo...

Atualmente, a maior parte dos terreiros possui atabaques e estes são tocados juntamente com outros instrumentos de percussão que, se bem executados, são capazes de proporcionar belíssimas cantigas que tocam o coração e a alma.

Ponto gritado

A força de um ponto não está no timbre de voz ou na afinação de quem canta, mas na fé com que a pessoa canta. Quanto mais o ponto mexer com as nossas emoções, mais força ele terá.

Ainda assim, contudo, muitos exageram na hora de cantar, literalmente, passando do canto ao grito, o que certamente não convém...

Pontos antigos x modernos

Este é um assunto que eventualmente aparece: o melhor é cantar os pontos antigos ou os modernos?

Na verdade, não há uma resposta certa sobre isso, ficando a critério do gosto pessoal.

Particularmente, prefiro os pontos antigos, sem atabaques, só na voz. Eles me remetem a um espaço gostoso entre o espiritual e o material, uma certa nostalgia...

Contudo, eu também aprecio o som dos atabaques quando bem executados e também gosto de vários pontos modernos que estão sendo divulgados, principalmente, pelo youtube.

Não acho que necessariamente precisa haver atrito entre o passado e presente, ambos podem conviver e trazer a sua contribuição, porém, cada um é livre para escolher aquilo que mais desperta a sua fé, que é o objetivo do ponto cantado.

Pontos para a esquerda

Antigamente, era comum ouvirmos pontos de exus que faziam associações com o diabo ou até mesmo com atos de violência. Contudo, embora populares, pontos desta natureza mais enfraquecem do que ajudam a religião, pois, não raro, difundem uma imagem que não condiz com a realidade.

Por esta razão, sugiro evitá-los.

Exemplos de pontos cantados

Trarei alguns pontos cantados que aprecio, como forma de exemplificação ao leigo:



Até a próxima aula!

Leonardo Montes


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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 33 - RITUAIS

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Quando se fala em ritual, geralmente, a imagem que surge em nossa mente é de algo sombrio feito por pessoas em algum porão ou cemitério, certo? Se você pensou em algo assim, não se culpe.

O cinema tem sido responsável por estigmatizar vários conceitos religiosos através de filmes exagerados que não possuem eco com a realidade.

Na verdade, ritual pode ser entendido como um conjunto de procedimentos necessários para se fazer determinada coisa e a nossa sociedade está recheada deles!

Você já assistiu a um julgamento na televisão? Já observou que não é feito em qualquer lugar, mas numa sala própria, onde as pessoas devem se vestir de determinada forma, sentar-se em determinados lugares, falando apenas ao tempo certo, etc?

Tudo isso é ritual!

Basicamente, o ritual serve para separar os tempos e os espaços: o tempo/espaço sagrado (no caso, do terreiro), do tempo/espaço profano (fora do terreiro).

Todo médium de incorporação sabe que uma coisa é incorporar no terreiro no dia da gira; outra, bem diferente, é incorporar em casa, por exemplo. Essa diferença não se deve apenas as diferenças energéticas entre os ambientes (que, sem dúvida, influem bastante), mas também aos diferentes espaços e tempos em que a manifestação acontece.

Resguardo

Todo trabalhador de terreiro se prepara antes da gira, geralmente, um dia antes, abstendo-se de comer carne, do fumo, da bebida alcoólica e de atividade sexual, além de redobrar seus cuidados para com a natureza dos pensamentos e sentimentos.

Essa preparação (resguardo), é parte fundamental do trabalho espiritual que se realizará e, além de toda a purificação que produzirá no corpo físico, inclina mentalmente o trabalhador para uma esfera de pensamento mais elevada, como uma preparação mental/energética necessária ao trabalho que executará em breve.

Chegada ao terreiro

A chegada ao terreiro deve ser feita sem alarde e com antecedência. Se o médium chega em cima da hora, não conseguirá se desligar adequadamente do mundo lá fora.

Pode, naturalmente, cumprimentar a todos, trocar uma palavra rápida com os presentes, mas assim que possível, deve seguir para seu lugar na corrente e permanecer em oração e concentração, conversando apenas o mínimo necessário, para sintonizar-se com as forças espirituais da casa.

Início da gira

Cada terreiro tem sua própria maneira de dar início aos trabalhos. Assim, seja breve ou não, simples ou complexo, todo terreiro tem seu próprio ritual de abertura.

Esse ritual serve para quê, gradativamente, o médium esqueça a vida lá fora e passe focar toda sua atenção e força no trabalho que executará. É comum que, lentamente, as pessoas sintam as energias da corrente, dos guias, conforme este ritual ocorre.

Aqui, fazemos assim: oração, saudação aos orixás/guias, defumação, bater cabeça, ponto das sete linhas, chamada dos guias.

Aqui reside a parte mais importante deste estudo: o ritual não é o fim, é o meio.

O ritual serve apenas para preparar, ambientar, direcionar as forças físicas, mentais e espirituais das pessoas para que o trabalho espiritual possa acontecer.

Portanto, a força de um trabalho não está no ritual, em si, mas em como aquele ritual é capaz de fazer com que cada um dê o máximo de si durante o trabalho.

Batismo

Cada terreiro desenvolve a sua própria ritualística no que se refere ao batismo, contudo, é comum que se batize crianças e também adultos. Neste trecho do estudo, não quero me prender a fórmulas, mas gostaria de falar sobre a essência.

O batizado na Umbanda é um momento muito importante da vida espiritual da pessoa e só deve ser realizado se realmente a pessoa estiver bastante certa de que deseja mesmo seguir por este caminho durante toda sua vida, pois é a reafirmação, perante toda a comunidade e todos os guias, do compromisso espiritual assumido.

O batismo da criança tem por finalidade pedir a proteção das entidades durante o seu crescimento e desenvolvimento, é como entregar, simbolicamente, a criança aos cuidados das entidades, ao mesmo tempo em que os pais assumem compromisso de educa-la conforme os valores da religião.

Claro que, futuramente, ela pode decidir se quer ou não continuar na religião.

Casamento

Também existem celebrações de casamento na religião e cada terreiro executa o ritual à sua própria maneira.

Contudo, aqui também reside um cuidado especial, pois o casamento é um compromisso espiritual de sérias consequências, de modo que não deve ser cogitado a menos que haja real interesse entre os noivos.

Assim como o batismo é o compromisso de seguir pelos caminhos da religião, o casamento é um voto de companheirismo assumido perante a comunidade, os guias e os Orixás.

Existem outros rituais na religião, mas estes são os mais comuns.

Exageros

É com certa tristeza que vejo que boa parte dos umbandistas não compreende o valor dos rituais ao mesmo tempo em que dão excessivo valor às coisas materiais.

É grande o número de pessoas que acha que há uma única maneira para se acender uma vela, de se fazer uma oferenda, de orar, etc. É preciso lembrar que toda forma só tem utilidade para acessar o conteúdo.

Exemplo:

É comum que as pessoas me procurem pedindo dicas pra fazer um padê para exu.

Bem, por que elas querem fazer um padê? Por que viram em algum canal do youtube que padê é um tipo comum de oferenda para os exus.

Ok, mas para quem ela vai oferendar?

Na verdade, ela não sabe de nenhum exu, muitas vezes, nunca conversou com um, mas acha que seria bom fazer um agrado para que seus caminhos estejam abertos...

Entendem a incoerência de algo assim?

A Umbanda tem se reduzido em muitos lugares a um mero fetichismo bobo onde muita gente acha que basta colocar farinha num alguidar, acender umas velas, colocar pinga num copo, para estar em contato com algum exu!

Se a pessoa não conhece um exu, se não frequenta terreiros, se não é médium de um exu, para quê quer fazer algo direcionado a exu? Seria a mesma coisa que um cristão devoto, repentinamente, resolvesse orar para Shiva, muito embora ele nada conheça de Shiva...

Logo, são pouco válidas as muitas “receitas” que encontramos na internet, oferecendo fórmulas disso ou daquilo, como se bastasse seguir um passo-a-passo para alcançar determinado objetivo...

Enfim, tudo na Umbanda tem fundamento, exige preparação, conhecimento de causa e não mero ritualismo reduzido a expressão pobre de fetichismo tolo através de uma receitinha de internet...

Até a próxima aula!

Leonardo Montes



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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 32 - VESTUÁRIO


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O vestuário tradicional da religião é:

·         Camisa branca e calça comprida branca, para os homens;
·         Camisa branca e saia comprida branca, para as mulheres.

Existem casas que adicionam ou retiram elementos do vestuário, mas este é o tradicional.

A roupa branca simboliza a paz que buscamos, a paz que a religião nos ajuda a construir, como se disséssemos, simbolicamente, que a Umbanda é uma religião que veio para a paz.

Chama atenção, também, o fato de os trabalhadores do terreiro ficarem descalços, o que simboliza a igualdade: no terreiro, não importa quem seja rico ou pobre, famoso ou anônimo, todos ficam descalços, simbolizando a humildade, a simplicidade e a igualdade entre todos no terreiro.

Adereços

Além da roupa branca característica, por vezes as entidades podem solicitar um adereço, isto é, um acessório do qual fará uso em sua manifestação. É comum o preto-velho, por exemplo, pedir um chapéu de palha ou uma bengala; um caboclo pedir um laço para amarrar na cintura ou na testa; uma pombagira um leque, etc.

Estes acessórios são utilizados apenas e tão somente quando a entidade se manifesta e fazem parte da caracterização de seu trabalho através de determinado médium.

Tais adereços não são indispensáveis, tanto é que as entidades trabalham sem eles, mas são “complementos” do vestuário espiritual da entidade (quando um preto-velho pede um chapéu, por exemplo, é que espiritualmente se apresenta com um).

É preciso ter cuidado, porém, para que não haja exagero, pois frequentemente o médium acaba passando à frente, colocando na “conta do guia”, uma série de adereços que ele acha interessante usar e que nem sempre são da vontade da entidade.

Do uso simples de alguns adereços a se tornar um penduricalho ambulante, o passo por vezes é curto.
 
Guias

Também fazem parte do vestuário dos trabalhadores do terreiro o uso de guias (colar de contas), que são sempre cruzadas (isto é, energizadas) pelas entidades, servindo como meio de proteção e fortalecimento de quem as possui.

Cada um pode comprar ou confeccionar a própria guia (o mais adequado é que cada um faça a sua), que pode seguir qualquer padrão de cores ou tamanho, desde que, claro, haja coerência com a sistemática de cores da religião.

Geralmente, usa-se uma guia confeccionada para uso pessoal do trabalhador do terreiro, isto é, uma guia que ele poderá levar consigo para fora do terreiro e uma guia exclusiva para uso dentro do terreiro (pode ser que alguma entidade peça para que seja feita uma guia para uso exclusivo dela).

Contudo, aqui também é preciso ter o mesmo cuidado do item anterior: o médium não precisa andar com dez guias no pescoço para estar espiritualmente protegido. Em nossa casa, apenas duas são recomendadas: a pessoal e a guia de trabalho. Não é preciso mais do que isso!

Simplicidade

A simplicidade é característica da religião. Porém, simplicidade não significa carência. Há pessoas que acham que um terreiro de chão batido seja necessariamente melhor do que um em que haja piso, mas isso não é verdade.

Um terreiro é bom quando as pessoas que fazem parte dele são boas, independentemente do tipo de piso onde estão seus pés. Assim, não é a falta de reboco numa parede que faz com que uma casa seja boa ou ruim, mas as pessoas que estão lá dentro, a diretriz doutrinária da casa e, principalmente, o amor com que conduzem os trabalhos.

Cada terreiro é livre o suficiente para construir sua casa com a estrutura que julgar necessária ao desempenho de suas funções.

Entretanto, é preciso estar em guarda.

Parece-me cada vez mais comum “giras temáticas”, com direito a globo de luz e fumaça, com entidades com trajes de gala ou vestidas de seda, homens de corpete por que estão incorporados com “pombagiras”, maquiagem pesada no rosto, colares de brilhantes, enfim.

Não concordo com nada disso e as entidades que me orientam sempre deixaram claro que um trabalho espiritual não deveria se tornar um carnaval...

Consulência

Existem casas que se preocupam com a vestimenta da consulência, recomendando que não venham aos trabalhados vestidos de preto, com roupas curtas, decotadas, etc.

É uma preocupação justa até certo ponto, tendo-se em conta que se trata de um espaço religioso, não de uma festa.

Recordo-me que, certa feita, uma moça compareceu numa gira de pretos-velhos com um vestido tão curto que para receber o passe precisou sentar-se de lado no banquinho do preto-velho.

Foi uma cena constrangedora para todos e que despertou burburinho na assistência... É claro, é lógico, é bom-senso que aquele tipo de roupa não é adequada seja para um terreiro, seja para uma igreja ou qualquer outro espaço religioso.

Assim, acho justa e compreensível a recomendação quanto a roupas decotadas, escandalosas, que deixam o corpo à mostra ou com frases agressivas que sempre despertam pensamentos negativos em que as leia, não, porém, em relação a cor.

Se o consulente está com uma camisa branca, vermelha, preta, verde, é indiferente. Não há menor afetação nas energias ou nos trabalhos em razão da cor da roupa que a pessoa está usando, mas, sim, a vibração do seu coração, a natureza dos seus pensamentos: isto sim, importa!

Daí que, muito mais importante do que observar se a pessoa está usando ou não roupas escuras, é pedir que dentro do terreiro haja luz em seus pensamentos e em seus corações, que mantenham o silêncio, a concentração, a oração...

Contudo, mesmo que a pessoa compareça ao terreiro com uma roupa curta ou indecorosa, ela precisa ser recebida e tratada da mesma forma. Existem casas que adotam procedimentos como cobrir o corpo da pessoa com uma coberta ou coisas do tipo, mas considero esse tipo de ação um puritanismo desnecessário e que acaba por humilhar a pessoa que veio pedir uma caridade.

Aos consulentes de primeira viagem que desejam visitar qualquer terreiro, recomendo: calça jeans, camisa de manga curta, roupas claras. Com esse tipo de vestimenta, certamente você não terá problema algum.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes 



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domingo, 22 de setembro de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 31 - USO DAS ERVAS

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Hoje falaremos sobre o uso de ervas dentro da religião, assunto que desperta sempre muita curiosidade e interesse das pessoas, principalmente, por se tratar de uma prática cujos efeitos podem ser perceptíveis facilmente.

Se existem terreiros que não fazem uso do fumo ou da bebida (e existem), eu nunca ouvi falar de um que não fizesse uso de ervas, de tal forma que quase sempre se associa um trabalho de terreiro com a presença de plantas com poderes medicinais e energéticos.

Aplicações medicinais

A maioria das entidades que atendem nos terreiros (como caboclos e pretos-velhos), viveram na Terra muitos anos antes do nosso nascimento, boa parte delas, antes da industrialização, razão pela qual eram obrigadas, por imposição da própria vida, a conhecer os mistérios das raízes e das folhas.

Desencarnadas, aprenderam ainda mais profundamente sobre isso no mundo espiritual, onde todo conhecimento é mais profundo, e retornaram nos terreiros para auxiliar, não apenas com seus conselhos e orientações, mas também com seus conhecimentos sobre as ervas, tanto a nível medicinal quanto energético.

É assim que frequentemente elas indicam fazer um chá com esta ou aquela erva, uma compressa com tal combinação de ervas e – mais espantoso ainda – é observar que geralmente os resultados são obtidos muito rapidamente, se o consulente seguir a prescrição adequadamente, claro.

Não foram poucas as vezes em que as entidades me recomendaram fazer sucos, chás, unguentos, comer essa fruta, aquela verdura, etc. Com olhar clínico, elas conseguem rapidamente saber o que necessitamos a nível orgânico e quais os tratamentos adequados para solucionarmos tal problema.

Aplicações energéticas

As aplicações energéticas das ervas na Umbanda são basicamente três: defumações, banhos e passes.

Nas defumações, procura-se extrair a energia da erva através da queima da mesma. Assim, conforme a fumaça é liberada, junto dela, vai toda a energia daquela erva que é direcionada pelas entidades que normalmente auxiliam na defumação, para que o objetivo seja atingindo.

Nos banhos, procura-se extrair a energia da erva através do “sangue verde”, isto é, o sumo da erva, que quando preparado corretamente, é capaz de realizar uma verdadeira limpeza/energização no corpo da pessoa.

Nos passes, é comum que as entidades segurem as ervas nas mãos, entre os dedos ou mesmo passando-as pelo corpo do consulente, extraindo a energia da erva e misturando-a a sua própria força espiritual, formando um extrato energético que agirá diretamente no campo energético do consulente, limpando ou energizando.

Existem ainda outros usos e aplicações como sabões, perfumes, etc.

Efeitos

No que se refere à parte medicinal, o componente mais importante é o aspecto fitoterápico da erva, agindo diretamente no organismo da pessoa, restabelecendo o equilíbrio necessário.

No aspecto energético, a energia das plantas é o componente mais importante, pois agirá diretamente no campo espiritual da pessoa, sendo capaz de influenciar diretamente os fluxos energéticos do seu corpo, trazendo-lhe mais harmonia e paz espiritual.

As entidades sempre me ensinaram sobre as ervas, basicamente, em dois grandes eixos: saúde física e saúde espiritual. Assim, embora seja comum ler textos na internet que falam da aplicação das ervas para efeitos como o de “atrair sorte”, “prosperidade”, “o amor da sua vida”, considero que tais conceitos não possuem o menor fundamento prático.

Combinações

As ervas podem ser utilizadas isoladamente ou em combinações para fins específicos, contudo, isso requer estudo e prática. É fato que as entidades sabem o potencial de cada erva, porém, é imprescindível que o médium estude, até mesmo para fornecer material mental para que a entidade possa atuar através de si.

Exemplo real:

Certa vez, uma entidade queria recomendar a um consulente o uso de Pinhão Roxo. Entretanto, eu não conhecia a planta. Assim, vinham na minha cabeça: Pinha, Pinhal, Pinheiro, Roxo, etc.

Como eu não tinha conhecimento prévio desta planta, a entidade não conseguia reproduzir com fidelidade aquilo que gostaria de dizer (estudaremos mais sobre este processo no futuro).

Portanto, é fundamental que o médium estude sobre as ervas, a fim de aumentar seu cabedal de conhecimentos e, portanto, o leque de informações que disponibilizará a entidade que atuará através de si.

Antes de encerrar este tópico, convém esclarecer que cada pessoa possui uma determinada energia que reage melhor com determinada erva. Assim, não existem receitas universais: um tratamento que pode ser excelente para mim, pode não ser para você. Um banho que me pareça fantástico, pode não causar efeito algum em outra pessoa.

Além do mais, as plantas podem ser prejudiciais dependendo da condição de cada indivíduo. Por exemplo: existem plantas tóxicas, capazes de produzir efeitos muito indesejáveis...

Por esta razão, quanto maior o conhecimento sobre as ervas, maior será o leque de opções com as quais as entidades poderão trabalhar para atender os consulentes.

Uso e abuso

As ervas são um poderoso recurso para o equilíbrio da nossa saúde e todos podemos nos beneficiar de seus efeitos. Contudo, é preciso usá-las com sabedoria, evitando abusos.

Exemplo:

Banho com arruda, geralmente, é indicado para casos de limpeza profunda. Se a pessoa estiver muito carregada e fizer este banho, é provável que acordará no outro dia completamente renovada, descansada, pois deve dormir como uma pedra.

Mas, se a pessoa fizer este banho rotineiramente o que acontecerá?

Ela ficará fraca!

A energia das plantas é uma “força cega”, digamos assim. No caso da arruda, serve para limpar e toda vez que usada corretamente, provocará uma limpeza. Mas, se a pessoa já estiver energeticamente limpa, ela afetará também as boas energias do corpo, causando desgaste que, a longo prazo, pode mesmo provocar efeitos desastrosos para a saúde física e espiritual de alguém.

Os guias sempre me ensinaram que (exceto o banho no dia da gira), todos os demais banhos devem ser feitos apenas e tão somente em caso de necessidade, pois as energias das ervas são como quaisquer outros medicamentos: devemos toma-los quando necessitarmos, não todo dia, toda hora.

Não é raro conversar com pessoas que me pedem indicação de um banho para as segundas-feiras, outro para terças e assim sucessivamente. Isso é totalmente desnecessário, sendo bem provável que faça mais mal do que bem.

É preciso lembrar que nosso corpo é uma máquina maravilhosa e que tende sempre ao equilíbrio se cuidarmos dele por dentro e por fora. Assim, as ervas são um recurso, mas não devem ser a fonte de nossa saúde, o que, aliás, é tarefa essencialmente nossa, através de hábitos saudáveis.

Banho na cabeça?

Este é um assunto que gera muitas dúvidas: pode jogar um banho na cabeça? A resposta é: depende!

No topo da nossa cabeça existe o chakra coronário, responsável por emitir e receber as energias de ordem espiritual. É o que os guias chamam de “coroa mediúnica”. Um centro poderoso de irradiações espirituais.

Por esta razão, muitas pessoas temem jogar qualquer tipo de banho de ervas na cabeça (embora não se preocupam em jogar shampoo, condicionador, creme para pentear, etc.), temendo alguma reação negativa. Para resolver esta questão, basta conhecermos bem os efeitos energéticos de cada erva para sabermos se convém que seja jogada na cabeça ou não.

De modo geral, as chamadas “ervas quentes”, isto é, plantas que possuem uma energia muito forte para limpeza ou que podem causar reações alérgicas, só são usadas na cabeça de quando em quando, pois podem causar desgaste energético que seria mais prejudicial do que a “sujeira” que se quer limpar.

Outras ervas, usadas mais para equilíbrio e energização, geralmente podem ser usadas na cabeça sem maiores problemas. Percebe? Tudo depende!

Além do mais, é bom repetir mais uma vez: não existem receitas universais. Uma erva boa para um, pode não ser para outro. O mais adequado é que todos os interessados estudem, façam suas combinações e vejam o que se adéqua melhor para si, evitando passar receitas para outras pessoas, justamente, por não saber se será bom para elas.

Na dúvida, peça que se consultem com uma entidade que, tendo maior poder de observação, poderá com facilidade indicar a erva adequada a cada caso.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes 

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