segunda-feira, 26 de agosto de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 24 - OFERENDAS


Em muitas culturas antigas, os homens agradeciam a fartura de alimento para suas tribos repartindo com as divindades o fruto de seu trabalho. Assim nasceram as celebrações religiosas em que se oferendavam comidas, bebidas e mesmo o sangue de animais criados para alimentar as pessoas da comunidade.

Nestas celebrações, realizavam-se muitas festas, com muita fartura, dividindo o profano e o sagrado o mesmo espaço, pois não havia real separação entre eles.

Em praticamente todas as culturas encontramos celebrações religiosas em que se oferendavam coisas em agradecimento às colheitas, desde as festas dionisíacas entre os gregos aos bacanais romanos.

Aliás, o próprio dízimo das igrejas teve aí a sua origem e podemos até mesmo encontrar este referencial na bíblia:

“Todos os dízimos da terra - seja dos cereais, seja das frutas - pertencem ao Senhor; são consagrados ao Senhor.” Levítico 27:30.

Com o passar do tempo, contudo, as oferendas passaram de “simples agradecimentos” a meios de “barganha” com as forças espirituais.

É esta, aliás, a visão que predomina ainda hoje na Umbanda...

Umbanda

A maioria dos umbandistas possui uma visão muito estreita sobre as oferendas, resumindo-as a um processo mágico. Por exemplo:

Se acendem uma vela para o Anjo de Guarda, imaginam que estarão imunes de resfriado à bala perdida;

Se oferendam para Oxóssi na mata, imaginam que na próxima semana deverão receber uma promoção no serviço;

Se arriam um padê para exu, pensam que estarão livres dos obsessores, das pessoas invejosas, etc.

Além disso, também é muito comum a concepção de que a “oferenda que encanta os olhos atrai a atenção do Orixá”, assim, ao invés de fazer uma oferenda simples, as pessoas frequentemente esbanjam um grandioso banquete, como se o “tamanho” da oferenda despertasse maior interesse do Orixá sobre a causa do sujeito.

Em suma: é um processo de barganha... Oferece-se alguma coisa, querendo algo muito maior em troca! 

Em nossa casa, porém, as entidades sempre ensinaram um ponto de vista bem diferente: a oferenda é a forma material de algo imaterial. Explico:

A oferenda, que deve ser sempre simples, é a representação dos sentimentos daquele que oferenda. Assim, se uma pessoa é filha de Oxóssi, não fará uma oferenda a ele pedindo fartura, dinheiro, abundância, mas fará uma oferenda a ele pedindo forças, inspiração, auxílio! Como filho de Oxóssi, ao realizar uma oferenda com toda sua vontade e fé, ele se coloca na mesma sintonia de Oxóssi e, certamente, será respondido, obterá a força necessária para lutar em busca daquilo que deseja!

Os Orixás não são forças mágicas, gênios da lâmpada a quem basta arriar uma comida aqui e pedir ali um milagre!

Vamos a outro exemplo:

Certa feita, os membros do terreiro queriam fazer uma oferenda à Iemanjá, semelhante a estas que vemos na internet. Já estavam planejando as comidas, o barquinho, as bugigangas, quando uma preta-velha, Vó Cambinda (salve!), com todo carinho e paciência do mundo, começou a conversar, orientando, rodeando, até que disse:

- O fi, as oferendas que suncês tão querendo fazê vai ficá mesmo muito formosa, mas nega véia acha que nossa mãe Iemanjá vai ficá mais satisfeita se ocêis juntá tudo essas comida e dá pras crianças pobres.

Foi um balde de água fria, mas uma poderosa lição:

Iemanjá, aquela que representa nossa grande mãe, não quer barquinho e espelhos para sujar sua praia, quer ver as crianças deste Brasil sem fome.

Nunca mais se falou em barquinho para Iemanjá.

Simplicidade

As entidades sempre me ensinaram que as oferendas mais importantes para os Orixás e mesmo para os guias, são aquelas que habitam nosso coração: nossa fé, nossa vontade sincera, nosso desejo de nos tornarmos pessoas melhores, nossa dedicação ao trabalho espiritual, isto compõe, verdadeiramente, a oferenda que eles mais apreciam.

Contudo, se sentirmos vontade de materializar esses sentimentos em algo, devemos fazê-lo sempre da forma mais simples possível, sem exagero e, principalmente, sem pesar no bolso.

A Vó Cambinda sempre nos falava que via com tristeza casas que impunham aos filhos a necessidade de contribuírem financeiramente para a realização de grandes oferendas, quase sempre, deixando os mais pobres constrangidos por não terem de onde tirar dinheiro... 

Veja abaixo dois exemplos de oferendas em nossa casa. Uma de Oxóssi e outra de Preto-Velho:

Oferenda para Oxóssi da Casa de Umbanda União

Oferenda para os pretos-velhos da Casa de Umbanda União.
Estas oferendas são compostas da seguinte forma: cada membro da casa leva, dentro dos fundamentos de cada comida (isso é assunto para quem está em terreiro), aquilo que esteja ao seu alcance: uma fruta, duas frutas, três frutas, etc. E se porventura alguém não puder contribuir, não há o menor problema. A soma de tudo aquilo que os membros da casa levam é deixado no congá para ser abençoado e, ao final da gira, tudo é repartido com todos: cada um come alguma coisa, levando para si, além do alimento, todo axé que as entidades, em nome dos Orixás, ali depositaram.

Fazemos uma oferenda coletiva, sempre dentro do terreiro, para cada um dos Orixás cultuados na casa. Somente uma oferenda por Orixá ao longo do ano, nada mais!

Conexão

Outro tipo de oferenda que eventualmente podemos necessitar é o de praticar um certo retiro para nos conectarmos às forças superiores. Continuemos no exemplo de Oxóssi.

Suponhamos que eu comece a sentir vontade de me conectar a Oxóssi. Por alguma razão estranha, dentro de mim, sinto que preciso buscar essa força.

Para consegui-lo, dirijo-me a uma mata tranquila, acendo uma vela, acendo um incenso, deixo ao pé de uma árvore algumas frutas e permaneço algum tempo ali sentado observando o vento soprar nos galhos, os pássaros cantando, o cheiro da terra e, em oração, faço os meus agradecimentos e pedidos, aguardando pelo menos meia hora em meditação e oração, sentindo a energia do local ao meu redor e certamente recebendo o amparo espiritual que necessito.

Depois, apago a vela, retiro tudo que não for de decomposição natural, deixando o local tão limpo quanto eu o encontrei. As frutas serão o meu agradecimento a este momento de meditação/oração à própria mata, que através de processos naturais, fará a decomposição das mesmas.

Veja: não é só chegar, arriar um monte de comidas, acender uma vela, cantar um ponto, virar as costas e largar a bagunça... É preciso simplicidade e conexão!

Em casa

Uma pergunta muito comum é: posso oferendar em casa? A resposta é: sim, desde que você possua conhecimento. Caso contrário, melhor deixar para o futuro, pois uma pessoa desestruturada, num lar perturbado, ao sair oferendando de qualquer jeito, poderá atrair qualquer coisa...

Contudo, quando há conhecimento de causa e sentimento verdadeiro, é perfeitamente possível e, por vezes, muito útil que assim façamos. Relatarei mais um caso:

Um senhor, muito humilde, habituou-se a colocar, todas as manhãs, uma xícara de café para um preto-velho que lhe atendeu em um momento de aflição e a quem se tornou eternamente grato.

Toda santa manhã, lá estava a xícara em cima da geladeira, oferecida com amor, carinho e oração.

Quando soube do caso, recorri ao Velho (Pai Cipriano), perguntando como quase todo leigo:

- Mas qual a razão disso, a entidade irá beber o café?

O Velho riu, cachimbou e disse:

- Não, filho. Mas, através do café ali posto, terá acesso ao coração daquele filho.

Tempos depois, este senhor desencarnou e vi, com lágrimas nos olhos, o referido preto-velho a quem ele fazia esta pequena oferenda matinal com lágrimas nos olhos dizendo:

- E agora, quem colocará café pra mim?

A ternura daquelas palavras não pode ser descrita na singeleza de um texto como este. Fica para a imaginação de cada um...

Meio Ambiente

Ao oferendar na natureza, é preciso não esqueçamos de que nenhuma oferenda real pode ser feita se agredirmos a mãe terra. Se no passado foi comum, hoje é inadmissível, até por que não somos donos do local e da mesma forma que vamos até uma mata, uma cachoeira, uma pedreira, outras pessoas também vão e elas não são obrigadas a encontrar nosso lixo.

Portanto, se você oferendar na natureza, lembre-se de recolher tudo que a terra não consuma: recolha velas, copos, garrafas, papéis, plásticos, enfim, tudo aquilo que não for biodegradável.

Imagem do google

Observe a imagem acima e se pergunte: Isso é oferenda? Você gostaria de estar com sua família na praia e encontrar algo assim?

Antes de encerrar, convém falarmos de outra oferenda que sempre causa muita polêmica: os despachos para exus nas encruzilhadas... Isso também é desnecessário, já que podem ser feitos no próprio terreiro, em frente a tronqueira, sem necessidade de sujar a rua ou mesmo amedrontar as pessoas, afinal, muitas encruzilhadas, para nós, são esquinas da casa, para alguém.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes 

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3 comentários:

  1. Excelente irmão, muito obrigado por está série, que permite rever conteúdos e aprofundar em muitos campos com seus links. Gratidão!

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