terça-feira, 13 de agosto de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 20 - INTERNET E UMBANDA


Conheci a internet em 2001, quando fiz um curso de informática básica e, logo em seguida, meu pai comprou o nosso primeiro computador, ainda com conexão discada, acessada apenas aos sábados, após às 14h ou durante a semana após a meia noite (quem é das antigas deve estar ouvindo agora aquele chiado característico dos modems de antigamente...).

“Coincidentemente”, neste mesmo período, conheci o Espiritismo e comecei a ler livros espíritas. Encantei-me com o universo da espiritualidade e comecei a usar a internet não apenas para buscar mais informações, mas também pessoas com quem pudesse conversar, trocar ideias.

Àquele tempo, a internet ainda era muito limitada, com conexão de 56kbps (hoje tenho conexão de 200mb), os sites eram escassos e simples, encontrar algo “valioso” era um verdadeiro desafio, podendo-se dizer que era praticamente um processo de garimpo...

Em 2013, quando tive interesse em buscar maiores informações sobre a Umbanda, a internet se mostrou, novamente, a companheira de sempre. Foi nela que encontrei os primeiros referenciais, as primeiras menções, vi as primeiras giras, etc.

Aliás, foi graças ao facebook, ainda em 2013, que eu obtive o endereço de um terreiro de Umbanda, pois não conhecia nenhum. Não fosse a internet, não apenas meu conhecimento em espiritualidade seria severamente limitado, como mesmo a minha experiência na Umbanda, pois até a casa onde eu me desenvolvi conheci pela rede.

Assim, não tenho a menor dúvida em dizer que a internet revolucionou a religião.

Início

Na década de 1990, a Umbanda se fechou para sobreviver. Embora as publicações de Rubens Saraceni tenham dado algum destaque à religião após a segunda metade da década, a impressão que tenho é que após a sofrida experiência dos anos 1980, a maioria das casas “sobreviventes”, não observando mais o glamour e a midialização da religião como antes, acabaram se fechando (no sentindo de voltar seus interesses para dentro do terreiro e não mais para fora).

Creio que seja este o retrato da religião ainda hoje, muito embora a internet represente um avanço de abertura.

É muito difícil apontar um caminho histórico da Umbanda pela internet. Pesquisando, o que encontrei são apenas alguns apontamentos, de tal forma que, certamente, este é um assunto que deverá ser revisto no futuro pois, apesar de não tão distante cronologicamente, faltam estudos mais aprofundados sobre o mesmo.

O que podemos dizer, com alguma segurança, é que após a segunda metade da década de 90, começam a surgir na internet os primeiros sites sobre a religião. Neste sentido, destaca-se a iniciativa de Manoel Lopes, criador do site “Saravá Umbanda”, em 1996 e também criador da lista de e-mails “Lista Saravá Umbanda”.

Captura de tela feita pelo https://web.archive.org - Em 17 de maio de 2001
Até onde sei, estas foram as primeiras iniciativas da religião na internet. O que se pode dizer, contudo, é que nos anos que se seguiriam, mais sites e mais listas surgiriam, embora lentamente.

As listas de e-mails possibilitaram as pessoas de todo o Brasil um meio de comunicação e interação e isso gerou, naturalmente, conflitos. Era a primeira vez, por assim dizer, que as pessoas saíam de suas “bolhas de Umbanda” para entrar em contato com outros pontos de vistas e isso causou muitos conflitos e disputas entre “certo e errado” em matéria de religião.

Em 2002 nasce um dos maiores blogs sobre Umbanda: Povo de Aruanda, cuja primeira postagem é de 11/09/2002 (ainda visível e disponível ao público). Entre 2002 e 2006 começam a surgir os primeiros blogs sobre a religião.

Em 2005, com a popularização do Orkut, surgem várias comunidades sobre Umbanda, oferecendo aos umbandistas a possibilidade de interação em maior escala e acentuando, igualmente, os conflitos.

Print de uma comunidade do Orkut - Imagem do google
Em 2006, novamente Manoel Lopes toma a dianteira e cria a “TV Saravá Umbanda”, possivelmente, a primeira web-tv da religião. 

Captura de tela feita pelo https://web.archive.org - Em 20 de março de 2007
Surgem também os primeiros vídeos sobre a religião no Youtube:


(Este é um dos vídeos mais antigos de Umbanda que encontrei no Youtube)

Neste período também nasce o Umbanda EAD, plataforma de ensino da religião pela internet.

Surgem também os primeiros canais dedicados a Umbanda, como de Norberto Peixoto, criado em 2007.

Entre 2007 e 2011 surgem muitos blogs sobre a religião de modo que estes se tornam o principal veículo para comunicação da religião (até mesmo pela sua simplicidade e praticidade), especialmente para leigos (eu mesmo li muitos blogs em 2013).

Em 2011 também é criado aquele que, para mim, foi o mais importante dos canais: Umbanda Eu Curto, pois foi através dele que assisti o meu primeiro vídeo de Umbanda, que foi exatamente esse:


A partir de 2011, com o Orkut dando sinais de falência, o facebook se torna cada vez mais popular. Começam a surgir os primeiros grupos de Umbanda, ativos ainda hoje, quando então a religião começa a ser percebida por pessoas fora do seu “círculo de interesses”, principalmente, pelo recurso de “compartilhar” imagens, textos e vídeos na timeline.

Contudo, o facebook não se destacaria tanto pelos grupos, mas por suas páginas. A página do Umbanda Eu Curto, por exemplo, é uma das maiores da religião na plataforma, com mais de 276 mil curtidas.

A partir de 2015, ganham popularidade na internet dois canais. O de Alan Barbieri (que atualmente conta com 339 mil inscritos) e o de Adérito Simões (que atualmente conta com mais de 231 mil inscritos).

Neste período, contudo, surgem dezenas de outros canais abordando a religião pelo YouTube. Um dos que ganha maior destaque é o canal de Jefferson Viscardi (Diálogo com os espíritos), que embora não verse sobre Umbanda, abre muito espaço para médiuns e entidades que comumente se manifestam na Umbanda.

De 2016 para cá, pode-se dizer que a Umbanda ganhou muita força na internet. Existem centenas de sites, blogs, grupos, páginas e canais produzido/divulgando conteúdos sobre a religião de tal forma que ela se espalhou por toda a internet, estando mesmo acessível a pessoas que nunca frequentaram um terreiro.

Diversidade

Uma das coisas que essa multiplicidade de recursos na internet nos mostra é que a Umbanda é plural. Embora surjam aqui e ali pessoas querendo se afirmar detentoras de uma verdade única, a grande maioria dos umbandistas, atualmente, lida bem a diversidade na religião.

Se, a princípio, essa diversidade causava choque e estranheza, hoje é muito bem trabalhada, sendo a Umbanda uma das religiões que mais toleram neste sentido.

Essa diversidade é um valor da religião e deve ser mantida por todos nós.

Exposição

A massificação do uso da internet igualmente atingiu a religião e já instiga alguns estudiosos a refletirem sobre o assunto. De repente, aquela mesma Umbanda que se fechou para sobreviver após década de 1980, está agora exposta em fotos e vídeos por toda a internet.

Um dos grandes abalos foi, justamente, quando começaram a surgir vídeos de médiuns incorporados. Houve muita resistência a isso. Os mais conservadores foram contra até mesmo a publicação de fotos.

Atualmente, não é difícil encontrar vídeos de pessoas incorporadas e o caso ainda desperta controvérsias. Particularmente, tenho a seguinte opinião: igrejas evangélicas transmitem seus cultos, igreja católicas transmitem suas missas, por que os terreiros não podem transmitir suas giras?

As grandes religiões fazem uso da internet desde seus primórdios a fim de espalharem sua doutrina (principalmente, as proselitistas). Na Umbanda, contudo, o conservadorismo imperou. Não fossem as iniciativas individuais, praticamente nada teríamos da religião na rede.

Assim, não sou contra tirar fotos, filmar a gira (não a consulta, claro) ou mesmo a entidade incorporada, desde que haja concordância das pessoas presentes e haja um fim providencial.

A minha maior crítica em relação às incorporações que vejo pelo Youtube é a falta de relevância e, não raro, de coerência naquilo que boa parte das “entidades” falam. Em minha opinião, com honrosas exceções, a maioria dos médiuns que já vi nestas entrevistas não me pareciam bem sintonizados com as entidades que afirmam incorporar...

Logo, é preciso ter cuidado e prudência com estas filmagens.

Se, por um lado, as filmagens podem divulgar a religião e permitir que pessoas que não têm acesso a um terreiro possam ter contato com a religião, por outro, principalmente se forem descuidadas, o que me parece ser a tendência do momento, podem passar uma imagem distorcida da religião e suas práticas, pois se estando dentro da religião, por vezes, vejo com muita reserva alguns vídeos, com que filtros não assistirão os leigos...

Seja como for, aceite-se isto ou não, o fato é que a Umbanda está na internet.

Futuro

Acredito que os últimos anos foram determinantes para fomentar o crescimento e expansão da religião. Por vezes, me pergunto se o meu caminho espiritual seria o mesmo caso não tivesse encontrado algum vídeo ou blog abordando o assunto... Creio que não!

Como já estudamos (cap. 18), o número de adeptos da Umbanda vem caindo ano após ano desde 1980. Contudo, especulo, especialmente pela exposição da religião pela internet, este número deverá apresentar crescimento no próximo censo (2020).

Observando todo impacto que a religião gera, principalmente, pelas redes sociais, sou levado a crer que o futuro será promissor e que pela primeira vez em 40 anos, o número de adeptos irá aumentar. Aguardemos para ver!

Até a próxima aula!

Leonardo Montes

FIM DA PRIMEIRA PARTE 
  

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