quarta-feira, 7 de agosto de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 19 - IGREJAS NEOPENTECOSTAIS

Imagem do google
Em fins da década de 1970, surgem no Brasil as primeiras igrejas neopentecostais. Como característica deste movimento religioso, destaca-se a teologia da prosperidade e a crença na atuação dos demônios que, no Brasil, não assumirão o aspecto mítico encenado pelos filmes, mas serão identificados com as entidades que atuam em terreiros, principalmente, exus e pombagiras.

É certo que o surgimento destas igrejas inaugura, em nosso país, um capítulo novo da intolerância religiosa, a ponto de merecer destaque em nosso estudo num capítulo próprio.

Cumpre dizer, contudo, que nem todas as pessoas deste seguimento pensam e agem como algumas lideranças do movimento. É importante evitar a generalização para não produzirmos intolerância por nossa parte... Pois, um dos efeitos de décadas de intolerância é, justamente, a aversão que o umbandista geralmente tem do evangélico, mas isso é um reducionismo e precisamos evitá-lo.

A bem da verdade, boa parte do movimento evangélico não nos incomoda de forma alguma. É certo que não concordam com nossas práticas e nossas crenças (e não precisam mesmo), porém, quase sempre, portam-se de maneira educada, focando seus interesses em assuntos de suas próprias igrejas, não causando qualquer aborrecimento ao “povo de terreiro”.

O movimento que nos incomoda – e sempre incomodou – é apenas uma fração, se bem que numerosa, distribuída entre diversas igrejas e que enxergam na Umbanda e nas entidades que se manifestam em nossas giras os demônios que tanto temem.

A maioria das pessoas que conheço, sobre este assunto, logo assumem discursos superficiais, como a dizer: são simplesmente fanáticos, pessoas sem bom-senso, etc. Porém, a causa é mais profunda...

Embora não seja meu desejo realizar um estudo aprofundado deste seguimento religioso – com o qual nunca tive contato pessoal -, penso ser importante compreender algumas de suas características para construirmos um entendimento em torno do motivo pelo qual se incomodam tanto com a nossa presença.

Doutrina

O antropólogo Ari Pedro Oro, num excelente artigo1, destaca algumas características das crenças deste seguimento:

“O neopentecostalismo brasileiro reproduz e exacerba a crença no demônio. Especialmente a Igreja Universal do Reino de Deus – esta igreja que há alguns anos constitui a face mais visível (e mais polêmica) dos evangélicos – sustenta dois princípios fundamentais: o primeiro (compartilhado com maior ou menor ênfase por outras igrejas pentecostais): os demônios são os causadores dos males e problemas de toda ordem que afetam as pessoas, os elementos perturbadores da "ordem natural" das coisas ("natural" no sentido daquilo que está conforme a vontade divina), cujo objetivo é "distrair Deus" (Gomes, 1994: 233-234). Ouçamos as palavras do seu fundador, retiradas do seu livro "Orixás, Caboclos e Guias: deuses ou demônios": "Tudo o que existe de ruim neste mundo têm sua origem em satanás e seus demônios. São eles os causadores de todos os infortúnios que atingem o homem direta ou indiretamente". Pág. 03

Em outro momento ele se questiona, e responde: 

"Qual a origem de todos os males que afligem a humanidade? Doenças, misérias, desastres e todos os problemas que tem afligido o homem desde que este iniciou sua vida na terra, tem uma origem: o diabo" (Macedo, 1995: 43)10. Portanto, para a Universal, "O diabo não é somente a antítese (o arqui-inimigo) de Deus. Ele é a encarnação do Mal; uma presença constante (e ameaçadora) na vida e no cotidiano das pessoas" (Barros, 1995: 146). E prossegue, com razão, a autora, afirmando que as representações sobre o diabo "constituem o eixo a partir do qual o universo simbólico desta igreja é construído". Pág. 03

Logo em seguida, conclui:

“Em segundo lugar (e neste ponto distinguindo-se das demais igrejas pentecostais), sustenta a Universal que "a Umbanda, Quimbanda, Candomblé e o espiritismo de um modo geral, são os principais canais de atuação dos demônios, principalmente em nossa pátria" (Macedo, 1987: 113). Por isso mesmo, desde a sua fundação, em 1977, essa Igreja conduz um ataque sem trégua, contumaz, radical, contra àquelas religiões, a tal ponto que esse combate "tornou-se um de seus principais pilares doutrinários". Pág. 05

Perceba, portanto, que não se trata, simplesmente, de “fanatismo” ou “falta de bom-senso”, a doutrina construída pelas igrejas que compartilham essa cosmovisão, identifica nas entidades espirituais os demônios de sua teologia, o que causa a aversão costumeira a que estamos habituados.

Lembre-se que, como estudado no capítulo passado, essas igrejas ganharam popularidade à medida que a Umbanda decrescia, sendo que muitos adeptos decepcionados com os caminhos tomados por diversos terreiros, abandonando sua prática definitivamente, migraram para essas igrejas onde encontraram pastores com um discurso que ia de encontro a suas frustrações.

Tristemente, boa parte dos testemunhos dos “convertidos” sobre suas vidas “metidas em macumbarias”, vieram de pessoas que, realmente, anos antes, batiam cabeça e juravam ceder seus corpos para a caridade...

Combate

Mais do que simplesmente identificar e associar os demônios de sua teologia com as entidades da Umbanda, estas igrejas criaram ferramentas para combatê-los, como a “noite da libertação”, onde diversos templos organizam cerimônias em que pessoas “endemoniadas”, a mando do pastor, “recebem” as entidades que as atormentam e que logo se identificam como: pretos-velhos, caboclos, exus, crianças, etc.

Não é preciso dizer – como está evidente há tempos – que boa parte destas manifestações são encenações, por vezes, paga. A estratégia é simples, antiga e eficaz: essas igrejas crescem à medida que conseguem “materializar” os demônios que tanto temem e os associam com aquilo que acontece nos terreiros, com as manifestações espirituais.

Oro continua:

“Por sua vez, C. R. Brandão (1988) percebe uma crescente lógica mercadológica no campo religioso brasileiro, sendo o ataque pentecostal as religiões afro-brasileiras uma expressão de concorrência religiosa existente no mercado de bens e serviços simbólicos. Igualmente, R. Mariano entende que os ataques dos crentes contra os afro-brasileiros e espíritas ocorrem por serem eles "os maiores concorrentes no mercado de soluções simbólicas e prestação de serviços religiosos para os problemas materiais e espirituais dos estratos pobres da população" Pág. 08

Em resumo: eles atacam os terreiros por vê-los como concorrentes no “mercado religioso”, tanto é que, não raro, vemos práticas comuns nos terreiros, como o descarrego, sendo deturpados e adaptados a lógica destas igrejas (é quase surreal, mas é verdade...).

Legado negativo

Estas igrejas construíram grande poder econômico no Brasil, assumindo o controle de diversos veículos de comunicação de grande alcance, onde implementaram, por muitos anos, efetivo e persistente combate a diversos seguimentos religiosos, seja através da fala preconceituosa de seus líderes, seja pela deturpação de seus princípios e até mesmo com ataques diretos e nominais às religiões.

Assim, não é difícil imaginar o que anos e anos de pregações contrárias possam fazer com o imaginário popular a respeito de Umbanda, Orixás, exus, pombagiras, etc. Basta conversar com qualquer leigo e, provavelmente, você perceberá que a primeira reação dele será de assombro, recuo, medo...

Contudo, considero que o principal legado negativo destas iniciativas foi o de criar um campo propício a manifestações de violência religiosa que, embora surgidas no contexto das primeiras igrejas neopentecostais, hoje está muito além de seu alcance, atingindo níveis alarmantes, principalmente, no Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, contudo, principalmente por conta dos processos sofridos, a Igreja Universal, principal protagonista destes discursos, após ser condenada na justiça, parece ter refreados seus impulsos... Contudo, o ódio que ela acendeu no Brasil já vai para muito longe de suas fronteiras...

Ano passado, o canal National Geographic Brasil, publicou em seu canal um programa chamado: Explore InvestigationEm Nome de Deus e – confesso – foi a primeira vez na minha vida que me assustei com o que vi em termos de intolerância religiosa no mais baixo nível que se possa imaginar.

Veja:


 Condenação

Como já vimos em outro capítulo, em abril de 2018, depois de quinze anos de vai e vem jurídico, a Record foi finalmente condenada pela exibição de programas que, claramente, atacavam diversas religiões e demonizavam, especialmente, as entidades que comumente se manifestam em terreiros de Umbanda.

A notícia causou pouco impacto, sendo ignorada pela maioria dos meios de comunicação, mas representou uma grande vitória para todas as comunidades de terreiro.

Nesta condenação, foi acordado que, além de multa, a emissora deveria produzir quatro programas e transmiti-los em sua rede como um direito de resposta. Porém, não na Rede Record, de reconhecimento nacional, mas na Record News, canal menor da emissora, sendo transmitido pela madrugada, sem obrigatoriedade de incluí-los na grade de programação...

Os programas foram transmitidos e já estão disponíveis pela internet. Lideranças do movimento fizeram uso massivo de suas redes para tentar mobilizar os umbandistas a compartilhar estes vídeos ao máximo possível, procurando compensar a tentativa da emissora de escondê-los e minimizar o impacto “negativo” em sua programação.

Ainda assim, contudo, é igualmente surpreendente a apatia e desinteresse do umbandista sobre essa questão... As pessoas que sacudiram o Brasil compartilhando vídeos de “traficantes evangélicos” destruindo terreiros não tiveram o mesmo empenho em divulgar esta marcante vitória...

Antes de encerrarmos, é bom dizer que a cúpula religiosa que dirige a emissora não assistiu de braços cruzados os programas com o direito de resposta: bastou que terminassem para, logo em seguida, relançarem o best-seller: Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios? – Livro que, simplesmente, destila ódio religioso...

O site Gospel Prime noticiou assim a nova publicação:

“O relançamento do livro aconteceu na última sexta-feira (2) em 8.773 templos e catedrais da Igreja Universal do Reino de Deus por todo o Brasil, atraindo milhares de pessoas.

A condenação da Record, representou uma vitória importante que deixará todas as demais emissoras de “orelha em pé”. Contudo, engana-se quem pense que essa “guerra” chegou ao fim...

Programa 1



Programa 2



Programa 3


Programa 4



O que fazer?

Tenho aprendido com as entidades que em todas as situações devemos buscar os ensinos de Jesus, especialmente, o “dar a outra face”, que não é oferecer um outro lado para ser batido, mas não “pagar o mal com o mal”.

Precisamos tomar cuidado para não criarmos intolerância por nossa vez, como em comentários que, vez ou outra, escutamos entre umbandistas que buscam taxar os evangélicos de loucos, fanáticos, etc. Não se combate ignorância com ignorância!

Temos uma ferramenta maravilhosa a nosso favor: a internet. Pela primeira vez na história os umbandistas podem ser protagonistas de sua história e como quem acredita que “a verdade liberta”, eu penso que a melhor forma de resistirmos ao ataque religioso seja, justamente, fortalecendo nossa presença, perpetuando nossos ensinos, produzindo conteúdos e divulgá-los por todas as formas possíveis, tanto presencialmente nos terreiros, quanto por nossas redes sociais, blogs, sites, etc.

Eu procuro fazer a minha parte, e você?

Até a próxima aula!

Leonardo Montes

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