sábado, 3 de agosto de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 18 - PERÍODO DE RETRAÇÃO


No capítulo passado, vimos que a Umbanda se tornou bastante popular no Brasil, espalhando-se por todos os estados, aparecendo em todas as mídias, despertando a atenção de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, além de influenciar nossas músicas e costumes como um todo.

Vimos também que, embora o esforço de diversos companheiros em criar entidades federativas que pudessem nortear o crescimento da religião, na prática, isso foi pouco efetivo: a religião cresceu de forma autônoma e independente na maioria das cidades.

Estudamos, também, que as principais federativas do Rio de Janeiro não partilhavam a mesma visão sobre a religião, o que criou uma celeuma, cujos efeitos são perceptíveis ainda hoje e que, com o correr dos anos, outras tantas federativas foram criadas, em diversos estados, cada uma com um “projeto de Umbanda”, aumentando ainda mais a diversidade, por um lado, mas também as tensões, por outro.

Assim, não houve um único fator que levasse a Umbanda a decrescer, mas uma série deles: grande número de terreiros, mas com baixa qualidade; desconhecimento sobre os princípios da religião; entidades federativas que disputavam espaço e poder; busca desesperada por apoio político e, por fim, as pregações de algumas igrejas neopentecostais.

Terreiros

Alexandre Cumino cita uma fala muito interessante de Ronaldo Linares sobre a Umbanda dos anos oitenta:

“A Umbanda teve um “bum”, um crescimento extraordinário na década de 70/80, tinha terreiro em tudo quanto era canto, mas a qualidade destes terreiros, minha Nossa Senhora, era sofrível, compreende? Depois disso, a Umbanda teve um esvaziamento muito grande.” Pág. 19

Basicamente, o que aconteceu é a versão prática daquilo que Pai Antônio (preto-velho que trabalhava com o Zélio) costumava cantar: “todo mundo qué Umbanda, qué qué qué... Mas, ninguém sabe o que é Umbanda, qué qué qué Umbanda...”

Se, inicialmente, a religião foi se espalhando com terreiros que surgiam aqui e ali e que, a seu tempo, formavam novos médiuns que formavam novas casas, conforme a Umbanda ganha popularidade, o trânsito de pessoas entre casas cresce vertiginosamente.

Eu especulo que esta tenha sido a principal razão para o surgimento de casas desestruturadas, pois é o principal motivo ainda hoje: o médium fica um tempo numa casa, aprende um pouco. Depois, por qualquer razão sai e procura outra, onde aprende alguma coisa, depois sai e procura outra, até que decide que já aprendeu o suficiente e abre a sua própria, muitas vezes, sem outorga espiritual para isso...

Assim, os terreiros se multiplicam vertiginosamente, mas sem bases profundas. Isso fica evidente na literatura produzida entre 1950-1970... Eu tenho alguns exemplares destes livros, que ainda são vendidos em lojas de artigos religiosos e posso dizer sem receio de errar: são péssimos! (comentarei mais sobre isso futuramente).

Com essa multiplicidade de terreiros surgem, também, uma multiplicidade de opiniões sobre a religião, seus princípios e suas práticas. Por um lado, isso foi positivo, pois levou à diversidade, porém, por outro, foi terrível, pois produziu confusão: você podia ir num terreiro que trabalhava pela caridade, gratuitamente e apenas para o bem e no quarteirão seguinte frequentar uma casa cujas consultas eram pagas e os trabalhos se assemelhavam a um baile de carnaval e todos se definiam como Umbanda!

E se, inicialmente, os terreiros se ajudavam mutuamente, cedendo médiuns quando necessário, neste período, o que caracteriza a conduta dos terreiros é a disputa. É neste período que surge a “feudalização dos terreiros”, isto é, cada um se comportando como um “pequeno reino” e vendo seu vizinho não como um irmão de caminhada, mas como um potencial inimigo, alguém disposto a “tomar suas terras”.

Essa postura produziu um estado de tensão e aversão entre os terreiros, fazendo com que muitos dirigentes simplesmente proibissem seus membros de visitar outra casa, sob pena de expulsão...

Há um registro muito interessante feito por alemães e que mostra um pouco sobre os trabalhos no Rio de Janeiro, sem bem que no início da década de 1970. Aqui publico este vídeo não com o intento de julgar a prática da referida casa, mas como um registro da diversidade e por ser um dos poucos vídeos da época disponíveis:


Princípios básicos

Outra característica deste período é que os princípios da religião se resumem aos “princípios da minha casa”. Assim, cada terreiro com sua doutrina, cada terreiro com suas práticas, cada terreiro com o que julga certo ou errado (vemos ecos disso ainda hoje).

Dentre estes princípios, havia um que, embora surgido bem antes, fica bastante evidente neste momento: o médium nada precisa saber, a entidade tudo sabe. Isto é, havia o receio de que, com o estudo, o médium pudesse influenciar a manifestação, contaminando-a. Eu especulo que, além disso, também atemorizava os dirigentes a ideia de ensinar alguém que, amanhã, poderia ser o seu “rival”.

Tudo era segredo, quase nada era ensinado.

A pessoa chegava ao terreiro como consulente, recebia a informação de que era médium, perguntavam se ela gostaria de se desenvolver e, se respondesse que sim, na próxima gira já vinha de branco, era inserida no desenvolvimento e ia, gradativamente, aprendendo uma coisa aqui e outra ali, sem nenhum aprofundamento.

Aprendia que devia acender velas, fazer tais banhos, agir assim ou assado, arriar estas ou aquelas oferendas, mas nada lhe era explicado: os fundamentos, os motivos, as razões, eram mantidos em segredo e quem sabia os segredos detinha poder e quem tinha poder, tinha a casa cheia...

A pessoa podia permanecer dez anos no terreiro, já ter desenvolvido a sua mediunidade e se lhe fosse pedido que explicasse o motivo de se fazer assim ou assado na Umbanda, respondia que não sabia dizer que só mesmo “indo pra ver”. Qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência...

Tente imaginar este processo acontecendo não apenas em um terreiro, mas em milhares, todas as semanas, durante muitos anos e você entenderá o porquê, ainda hoje, há tantas informações desencontradas sobre a religião...

Toda essa desinformação fez com que muitos adeptos se definissem como católicos, espíritas, espiritualistas ou a dizer simplesmente que “estavam” na Umbanda, mas não “eram da Umbanda”.

Federativas

Embora o desejo nobre e sincero de ajudar, as federativas se atrapalharam na busca pelo poder e direção do movimento. Vamos recorrer, novamente, as citações de Cumino:

“Ainda em 1986, a chamada Academia Federal Superior de Umbanda Esotérica e Espiritualista publicou, no dia 10 de dezembro, no Diário Oficial da União, matéria em que se arrogava o direito disciplinador sobre a Umbanda e demais cultos afro-brasileiros que, para funcionar, teriam de ter sua permissão, mediante a concessão de carteira aos pais de santo. Além disso, ficavam proibidos os despachos em vias públicas.

Referindo-se à publicação, o Jornal da Tarde do dia seguinte informava: “Chefe de Umbanda, só com carteirinha”. Tratava-se evidentemente de federação que procurava a hegemonia por meio de publicação de matéria no Diário da União, que, embora paga, sugeria tratar-se de medida oficial.

Tanta repercussão a matéria alcançou que motivou desmentido formal do presidente Sarney, em sua “Conversa ao pé do rádio”, conforme transcreveu a Folha de S. Paulo em 10 de janeiro de 1987:

Eu não sei também a que atribuir, mas divulgaram que o governo havia proibido práticas religiosas de Umbanda e de outros cultos. Quero dizer que esta decisão nunca existiu, não é verdadeira, nunca se tratou disso em nível de governo. E nunca iremos tratar disso. A Constituição respeita a liberdade de culto nesse país. E eu sempre respeitei, respeito e respeitarei essa liberdade, como homem de fé. Eu até hoje, quero repetir, não sei como esta notícia surgiu e nem com que finalidade ela foi divulgada.” pág. 22

Desde o congresso de 1941, onde fica evidente a crise identitária do movimento e sua aposta em teorias sem fundamentação histórica, como dizer que a Umbanda veio da Atlântida ou da Lemúria (sem comentários...), cada federativa construiu uma visão própria de Umbanda e se via no dever/direito de conduzir a massa pelo caminho delineado.

O resultado só podia ser conflito e desinformação. Porém, não apenas isso. Buscando fortalecimento, várias delas buscaram apoio político.

Política

Em 1960, os umbandistas conseguiram eleger Átila Nunes como deputado pelo então estado da Guanabara. Era a primeira vez que alguém se elegia como representante da religião. Sua eleição abriu caminho para tantos outros que, ainda hoje, buscam um lugar “ao sol” como representantes da mesma.

As federativas também queriam atrair esta força política. Cumino cita:

“A matéria seguinte, “Uma Festa Política para Ogum”, provinha de São Paulo, publicada no Jornal da Tarde de 27 de abril de 1981, registrando o início da movimentação em torno das eleições do ano vindouro:

Mais de 6000 adeptos de Umbanda foram ontem ao Ginásio do Ibirapuera para a festa em homenagem a São Jorge, ou Ogum, mas o acontecimento foi muito mais político que religioso: governantes e membros do PDS e do PTB fizeram filas para discursar e tentar ganhar votos. Até a imagem do santo ficou esquecida [...].” Pág. 21

Quem me conhece sabe o quanto gosto de política, então, não vou comentar. Creio que a citação fale por si mesma...

Igrejas neopentecostais

Como abordamos este tema no cap. 16, limitarei a dizer o seguinte: não foram as perseguições obsessivas dos pastores de algumas igrejas neopentecostais que causaram a retração da religião, foi todo o contexto exposto acima.

O que estes pastores fizerem foi aproveitar toda confusão e desinformação existente neste período para arrebanhar fiéis para suas fileiras. Os discursos inflamados contra a religião vinham de encontro as frustrações e decepções dos adeptos que passaram a ver nestas igrejas um caminho para suas religiosidades.

É certo que toda essa pregação contrária deixaria uma mancha na religião, porém, este efeito se tornaria evidente apenas anos depois.

Bolha

O que aconteceu à religião nos anos oitenta é semelhante ao conceito de uma bolha econômica, hoje em dia.

O crescimento desenfreado de terreiros, o aumento exponencial do número de adeptos sem boa formação, as várias federações disputando a liderança do movimento, a busca desesperada por apoio político e, por fim, o surgimento de igrejas que apostavam na teologia da prosperidade e discursavam contra a religião, fizeram estourar a “bolha da Umbanda”.

Lembra-se que, no capítulo passado, vimos que mais de 1 milhão de pessoas estavam em Praia Grande para homenagear Iemanjá? Em 1980, apenas um ano depois, a situação foi bem diversa. Cita Cumino:

“O informativo Integração Umbandista, de 1979, faz a estimativa de mais de um milhão de pessoas, o que deve ter sido o ponto mais alto da Festividade. Já no ano seguinte, 1980, a Folha de São Paulo comenta: “A tradicional Festa de Iemanjá... não recebeu o mesmo número de pessoas dos anos anteriores, estimando o reduzido número de 20 mil pessoas presentes”. Pág. 12

Toda essa confusão, ao longo de uma década, fez com que muitas pessoas simplesmente se afastassem dos terreiros. As brigas, decepções e disputas entre médiuns e terreiros fizeram com que muitos  simplesmente “aposentassem as suas guias”, afastando-se definitivamente da religião, quando não migrassem para as igrejas neopentecostais.

Boa parte dos terreiros fecharam suas portas para sempre. Houve redução do número de adeptos segundo o censo:

Em 1991 – 541.518 pessoas;
Em 2000 – 432.001 pessoas;
Em 2010 – 407.331 pessoas.

É claro que os dados do IBGE são obtidos por amostragens, contudo, são razoáveis para se ter ideia do número de adeptos e, como está claro, vem caindo desde 1991.

Especulo, contudo, que o próximo censo registrará aumento, principalmente, por conta das redes sociais.


Referência

1 - CUMINO, Alexandre. Terceiro e Quarto Período, Esvaziamento e Amadurecimento. Texto 4.01. Material de Apoio. História da Umbanda - EAD - Curso Virtual Gratuito. 2016. 

Até a próxima aula!

Leonardo montes


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