sexta-feira, 26 de julho de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 16 - PERSEGUIÇÕES

Imagem do google
Desde o seu nascimento, a Umbanda se viu no meio de forças poderosas que, por alguma razão, sentiram-se ameaçadas com a sua presença, fazendo todo o possível para erradica-la.

Já tivemos oportunidade de estudar (cap. 09) como a lei brasileira limitava a liberdade religiosa em fins do século XIX, início do século XX, fechando terreiros e prendendo seus dirigentes. Agora, vamos empreender um vai e vem entre os anos inicias de expansão da religião até a década de 1970.

O governo Vargas, com sua onda populista e nacionalista, favoreceu a religião no sentido de instigar no coração do brasileiro a valorização dos patrimônios culturais e religiosos próprios da sua nação e a Umbanda era bem a cara do brasileiro: mistura de “raças”, crenças e culturas.

Contudo, a elite econômica e política desejava colocar o Brasil entre as nações desenvolvidas e, para estas pessoas, tudo que estava relacionado às “religiões primitivas”, era indício de atraso e, portanto, deveria ser superado. Assim, houve flexibilização na liberdade religiosa, mas as repressões continuaram.

A constituição de 1934, dizia que:

“Art 17 - É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: II - estabelecer, subvencionar ou embaraçar o exercício de cultos religiosos”.

Em outro momento:

“ 5) É inviolável a liberdade de consciência e de crença e garantido o livre exercício dos cultos religiosos, desde que não contravenham à ordem pública e aos bons costume. As associações religiosas adquirem personalidade jurídica nos termos da lei civil.”

Em teoria, os terreiros poderiam existir. Na prática, precisariam estar registrados na delegacia e, mesmo tendo liberdade para realizar seus cultos, eram frequentemente denunciados por vizinhos, seja pelo som do atabaque ou pelo receio de suas práticas e acabavam sendo enquadrados como contravenção a ordem pública ou mesmo como violação dos bons costumes.

O resultado você já está cansado de ouvir: perseguições, prisões, fechamento de terreiros.

É justamente esse sentimento de insegurança que fez com que grande parte dos terreiros se fechasse, realizando suas cerimônias de portas fechadas, sem registro jurídico, ecos que chegaram até nossos dias.

Ainda hoje, boa parte dos terreiros não tem existência jurídica e muitos sequer têm fachada ou algo que identifique que naquele imóvel exista uma casa de Umbanda. Muitos dirigentes, ainda hoje, receiam em divulgar abertamente suas atividades, não mais com medo da repressão policial, mas pela intolerância religiosa semeada décadas atrás...

Neste período, como o Espiritismo desfrutava de certa tranquilidade junto as autoridades, vários dirigentes preferiram chamar suas instituições de espíritas ao invés de umbandistas, pois isso acabava desviando os olhares das autoridades.

Contudo, façamos uma pausa.

Já tivemos oportunidade de estudar (cap. 07), que a Umbanda, inicialmente, foi entendida como uma variante, uma linha do Espiritismo propriamente dito e isso porque se popularizou no Brasil a ideia de que tudo quanto tivesse a ver com espíritos era Espiritismo.

Assim, o próprio Zélio se dizia espírita e vários terreiros de Umbanda da época se diziam espíritas. Havia, porém, a distinção (que ecoa até hoje), entre os espíritas de fato (chamados Kardecistas) e os espíritas de linha (chamados Umbandistas).

Em meados da década de 1930, porém, a adoção do termo “espírita” junto às instituições, não tinha apenas razão de ser por uma concepção conceitual da religião como uma vertente do Espiritismo, mas também como forma de fugir às repressões das autoridades.

E se você acha confuso isso ainda hoje, imagina como não devia ser para as autoridades da época: foi uma estratégia de sobrevivência por um lado, porém, por outro, foi uma identidade costurada com base numa compreensão popular do que seria o Espiritismo.

É por isso que, ainda hoje, vemos terreiros de Umbanda cujos membros se definem espíritas, seja pela resistência às repressões ou pela concepção de que a Umbanda era uma variante do Espiritismo propriamente dito, herança de muito tempo atrás.

A partir da década de 1940, gradativamente, os terreiros puderam ser registrados com o nome de Umbanda.

Igreja Católica

Desde meados do século XIX, a Igreja Católica vinha perdendo espaço no cenário religioso brasileiro. Já estudamos, por exemplo, que a vinda dos primeiros imigrantes para suprir a mão de obra escrava, “obrigou” o governo imperial a abrir espaço para manifestações protestantes no Brasil.

Assim, de religião oficial do império, o Catolicismo se tornou apenas a maior expressão religiosa, perdendo espaço dia a dia para outras confissões e perdendo também a influência que desfrutava junto ao governo.

Não pense, porém, que a instituição aceitou isso de braços cruzados. Houve intenso movimento por parte de padres e bispos para que isso não acontecesse, mas isso é conversa que interessa mais ao campo histórico.

No que se refere a Umbanda, o que podemos dizer com segurança é que a popularização da religião causava desconforto aos intelectuais católicos que viam os símbolos da igreja (imagens, terços, cruzes, etc), sendo utilizados por uma denominação religiosa que nada tinha a ver com a igreja.

Causava ainda mais espanto aos padres perceber que boa parte dos frequentadores das igrejas também frequentavam terreiros. Para reverter esse quadro, a igreja estabeleceu várias campanhas difamatórias contra a Umbanda, ameaçando os fiéis de excomunhão (expulsão) caso frequentassem terreiros.

Hoje em dia talvez a excomunhão cause pouco aborrecimento aos brasileiros, mas no passado era algo terrível. A pessoa excomungada (palavra que virou até palavrão), era malvista socialmente e lhe era negado, inclusive, o enterro em “solo sagrado”, isto é, a ser enterrado no cemitério administrado pela igreja, como foi comum no passado.

Assim, muitos padres aproveitavam a missa para alertar os fiéis dos perigos que a Umbanda representava, sua associação ao demônio (que, diga-se, nunca foi crença na religião), e os perigos que a juventude corria ao frequentar os terreiros.

Contudo, o nome que mais expressão ganha neste período é o de Frei Boaventura que, em 1954, publica um livro chamado: Posição católica perante a Umbanda:

“1. Perante os umbandistas, a atitude do católico é de respeito cristão e de prudente discrição [...] É sobretudo aconselhável afastar a infância inexperiente e a juventude aventureira do contato habitual com estas pessoas [...];

2. Perante a Umbanda como doutrina, a atitude do católico é de franca e total condenação [...];

3. Perante a Umbanda como prática, a atitude do católico é de enérgica e declarada repulsa [...];

4. Perante as sessões de Umbanda, a atitude do católico é de completa abstenção [...];

5. Perante os livros de Umbanda, a atitude do católico é de desaprovação e censura sem restrição.

6. Perante a diagnose umbandista, a atitude do católico é de absoluta reserva [...];

7. Perante a terapêutica umbandista, a atitude dos católicos é de repudio integral [...];

8. Perante o culto umbandista aos Orixás, a atitude do católico é de decidida reprovação [...];

9. Perante o culto aos Exus, a atitude do católico é de santo horror e ele o repelirá sempre com apostólico vigor [...];

10. Perante os despachos, atitude do católico é de soberano desdém [...];

11. Perante os demais meios supersticiosos de defesa contra a atuação dos maus espíritos, os amuletos [...] a atitude do católico é de simples e formal desprezo [...];

12. Perante o Espiritismo de Umbanda, portanto, a atitude do católico é de absoluta, total e frontal oposição [...].”

Frei Boaventura continuaria publicando outras obras até mesmo com um discurso mais persuasivo, contudo, creio que o exposto seja o suficiente para se compreender que, enquanto pôde, a Igreja Católica tudo fez contra a religião, inclusive, utilizando-se de programas de rádio e jornais para atacar a Umbanda.

Esse quadro começou a perder força em 1962, quando ocorreu o Concílio Vaticano II, onde se reconheceu a salvação além da igreja. Desde então, houve relativo sossego entre Umbanda e Catolicismo, embora, eventualmente, apareça aqui ou ali algum padre pregando contra a Umbanda.

Fique registrado, contudo, que a Igreja Católica foi a primeira instituição religiosa a disseminar a intolerância religiosa contra a Umbanda e embora desde a década de 1960 sua postura tem sido de relativa distância dos assuntos umbandistas, ainda há uma dívida não paga por toda difamação plantada por ela e continuada por fundamentalistas neopentecostais evangélicos.

Fundamentalistas Neopentecostais

Em fins da década de 1970, começam a se organizar no Brasil as primeiras igrejas neopentecostais. Neste período, é comum nestas organizações um forte discurso contra práticas que consideram de magia negra (Umbanda e Candomblé).

Tais igrejas cresceram elegendo um inimigo e fazendo em seus cultos manifestações de “demônios” que se apresentavam como entidades de Umbanda.

Assim, não era raro chegar alguém a estas igrejas e ser levado ao púlpito para dar testemunho da sua antiga vida metida em “macumbarias” e agora a sua nova vida como convertido e liberto.

E isso quando não se manifestavam “entidades” que eram doutrinadas e expulsas pelos pastores em “nome de Jesus” e tantas outras bizarrices que hoje sabemos ser, em grande parte, simplesmente encenações com o claro propósito de atacar e difamar (e ganhar fiéis, claro).

Estas encenações chegaram mesmo a televisão, quando estas igrejas passaram a comprar horários comerciais e a transmitirem seus cultos. Tanto é que a Igreja Universal do Reino de Deus e a TV Record foram condenadas pela justiça a pagar multa e a ceder direito de resposta a entidades ligadas à Umbanda e ao Candomblé por terem disseminado intolerância religiosa por seus canais durante anos...

Assim, não há a menor dúvida em dizer que algumas (não todas) igrejas neopentecostais, difundindo uma visão fundamentalista de religião, foram responsáveis por décadas de difamações e perseguições, cujos efeitos nocivos se pode perceber ainda hoje.

Conclusão

Com o direito de resposta assegurado pela justiça, agora em 2019, a Umbanda e o Candomblé puderam, finalmente, sentir o gostinho de uma vitória pequenina, mas muito significativa, mostrando a sociedade que as religiões existem para promover a felicidade humana e nunca para destruir a quem quer que seja.

Os danos causados a imagem da Umbanda, contudo, levarão ainda muitas décadas para serem reparados. No imaginário popular, Umbanda ainda é associada ao rol das “coisas ruins”, daquilo que é “melhor deixar de lado”.

A justiça finalmente começa a fazer a sua parte, cabe agora os profitentes desta fé levar adiante o conhecimento de que a “Umbanda é paz e amor”.

Referências

CUMINO, Alexandre. Períodos de Expansão Umbandista. Texto 3.03. Material de Apoio. História da Umbanda - EAD - Curso Virtual Gratuito. 2016.

CUMINO, Alexandre. Terceiro e Quarto Período, Esvaziamento e Amadurecimento. Texto 4.01. Material de Apoio. História da Umbanda - EAD - Curso Virtual Gratuito. 2016. 

Até a próxima aula!

Leonardo Montes



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