sábado, 20 de julho de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 15 - AS SETE TENDAS

Zélio reunido com os presidentes das Tendas fundadas pelo C7E - Imagem do google

Durante dez anos, as atividades na TENSP ocorreram dentro dos parâmetros estabelecidos pelo C7E. Contudo, em algum momento, o chefe escolheu expandir a “sua escola”, formando novos médiuns, escolhidos por ele, para que fundassem, administrassem e conduzissem uma casa de Umbanda.

Era a expansão oficial da TENSP em outras casas que seriam orientadas e dirigidas pela matriz.

Leal de Souza descreveu o processo de fundação das tendas, porém, exporei apenas alguns trechos, para que o estudo não fique muito longo, embora recomende que o capítulo seja lido integralmente:

“O processo de fundação dessas Tendas foi o seguinte: O caboclo das Sete Encruzilhadas, que é vulgarmente denominado o “Chefe”, quer pelos seus auxiliares da Terra, quer pelos do espaço, escolheu, para seu médium, o filho de um espírita e, por intermédio dos dois, agremiou os elementos necessário à constituição da Tenda de N. S. da Piedade.

Dez ou doze anos depois, com contingentes dessa Tenda, incumbiu a Sra. Gabriela Dionysio Soares de fundar, com o Caboclo Sapoéba, a de N. S. da Conceição e quando a nova instituição começou a funcionar normalmente, encarregou o Dr. José Meirelles, antigo agente da municipalidade carioca e deputado do Distrito Federal, e os espíritos de Pai Francisco e Pai Jobá, com o auxílio das duas existentes, da criação da Tenda de S. Pedro.” Pág. 69

“Cada uma dessas Tendas constitui uma sociedade civil, cabendo a sua responsabilidade legal, e a espiritual, ao respectivo presidente que é nomeado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, independente de indicação ou sanção humana, e por ele transferido, suspenso, ou demitido livremente, bem como os médiuns que o “Chefe” designa e pode, se o entender, afastar de suas Tendas.” Pág. 70

“Na primeira quinta-feira de cada mês celebra-se na Tenda Matriz, uma sessão privativa dos presidentes, e seus auxiliares, e médiuns dos chefes de terreiro, e nessa assembleia o Caboclo das Sete Encruzilhadas faz as observações necessárias, louvando ou admoestando, sobre os serviços do mês anterior, e dá instruções para os trabalhos do mês corrente.” Pág. 70

Basicamente, o que o C7E fez foi o seguinte: Ele escolheu entre os frequentadores/trabalhadores da TENSP, aqueles que poderiam conduzir outras casas, dando a cada um os recursos necessários, bem como as instruções requeridas.

Com essa outorga do chefe, cada uma das pessoas apontadas organizava uma casa em uma determinada região e se tornava responsável por gerenciá-la. Médiuns eram indicados pelo C7E para compor a corrente e tantos outros foram desenvolvidos nas próprias casas.

Os dirigentes se reuniam mensalmente na matriz para uma conversar com o chefe que fazia as observações necessárias, apontando caminhos, respondendo dúvidas, distribuindo orientações, etc.

A equipe espiritual que assessorava as tendas era uma só: todos eram enviados pelo C7E, sendo que cada uma destas tendas funcionava mais como uma filial, reproduzindo o modelo da matriz do que propriamente como uma casa independente, embora os dirigentes possuíssem autonomia para organizar o trabalho, este deveria manter a mesma ritualística da matriz.

É assim, por exemplo, que Leal de Souza fala sobre seu papel junto ao C7E:

“E pelo dever de assumir a responsabilidade social de minha investidura, acrescento que sou o presidente da Tenda de Nossa Senhora da Conceição, ou, mais modestamente, o delegado humano incumbido, pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, de coordenar a ordem material necessária à execução dos trabalhos espirituais.” Pág. 76


Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição (1918)
Tenda Espírita São Pedro (1924)
Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia (1927)
Tenda Espírita Santa Bárbara (1933)
Tenda Espírita São Jerônimo (1935)
Tenda Espírita São Jorge (1935)
Tenda Espírita Oxalá (1935/1939?)

Veja como o trabalho de fundamentação da religião foi lento e gradativo: dez anos só para fundamentar a casa matriz e pelo menos mais dezoito para fundar as que seriam responsáveis por difundir esta raiz.

Perceba, também, que todas eram chamadas por tendas (não terreiros) e que seis delas tinham nomes de santos, sendo a última a única com nome de Orixá.

Isto é um fato que sempre bato na mesma tecla, muito embora os ideólogos acostumados a ver racismo em tudo não consigam entender: A Umbanda nascente tinha muito mais influência do Espiritismo e do Catolicismo que das religiosidades africanas (Bantu ou Nagô), que só começam a ser mais presentes na Umbanda em fins da década de 1940, início de 1950.

Outras casas

Nestes dez anos iniciais (1908-1918), muitos médiuns passaram pela TENSP, fizeram o seu desenvolvimento e foram embora. Muitos migraram para outras cidades, alguns para outros estados e de uma forma ou de outra, acabaram constituindo novas casas que, a seu tempo, também passaram a formar outras e assim, gradativamente, a religião foi se espalhando pelo Brasil.

Então, quando o C7E autorizou a abertura de uma segunda casa (1918), é provável que houvessem no Rio de Janeiro algumas casas fundadas por ex-membros da TENSP e que atuavam de forma independente da matriz.

Portanto, embora possamos dizer que “oficialmente” o C7E tenha fundado outras sete casas religiosas, é bem provável que nos anos que se seguiram ao intervalo entre a primeira e a última (1918-1935/39?), dezenas de casas tenham surgido sem controle ou assistência direta do C7E.

Além do mais, como já estudamos nos primeiros capítulos, a Macumba Carioca começou a perder força no início do século XX, seja pela perseguição religiosa ou pela repressão policial, de modo que muitos médiuns macumbeiros acabaram migrando para as casas de Umbanda que se popularizavam cada vez mais e, com isso, levaram também muito da influência religiosa que tinham aprendido anteriormente, sendo esta a provável via por onde a religiosidade afro-brasileira tenha entrado com força na formação da Umbanda como uma religião de abrangência nacional.

Diversidade

Não é difícil imaginar que sem um órgão centralizador e unificador (embora as diversas tentativas para organizar federações tenham produzido algum resultado), a religião se espalhasse pelo Brasil de forma aleatória: cada médium que se mudava para um lugar onde não havia uma casa acabava fundando uma.

Assim, seja pela influência do chefe espiritual da casa que podia determinar que os trabalhos ocorressem desta ou daquela maneira ou pelas influências religiosas que os próprios membros da corrente imprimiam às suas práticas, a Umbanda cresceu através da diversidade.

Enquanto casas oriundas da TENSP procuravam manter o trabalho conforme aprenderam, sem atabaques e uso de palmas, por exemplo, outras casas com maior influência das religiosidades africanas, possuíam uma formatação bem diferente com vários rituais, cultos e práticas originárias dos Candomblés, por exemplo.

Essa diversidade não se deu sem conflitos, porém.

Os intelectuais da época viram a necessidade de organizar um congresso em que os principais pensadores da religião pudessem expor suas ideias na tentativa de construir uma identidade homogênea. Tanto é que no livro: Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda, em 1941, logo após a introdução, podemos ler:

“O conceito alcançado entre nós pelo Espiritismo de Umbanda nestes últimos vinte anos de sua prática, deu motivo à fundação nesta capital de elevado número de associações destinadas especialmente a esta modalidade de trabalhos, cada qual procurando desempenhar-se a seu modo, para atender a um número sempre crescente de adeptos. Sua prática variava, entretanto, segundo os conhecimentos de cada núcleo, não havendo, assim, a necessária homogeneidade de práticas, o que dava motivo a confusão por parte de algumas pessoas menos esclarecidas, com outras práticas inferiores de espiritismo.” Pág. 02.

Já tivemos ocasião de estudar (cap. 07), que a influência espírita sobre a Umbanda foi tão grande no começo do século XX, que os adeptos não se identificavam como “umbandistas”, mas como “espíritas de umbanda”, pois a Umbanda era entendida como uma linha, uma variante, do Espiritismo propriamente dito.

Assim, no começo, os espíritas de fato (vulgo, Kardecistas), faziam de tudo para dissociar a imagem do Espiritismo das práticas umbandistas. Contudo, na década de 1940, eram os “espíritas de umbanda” que se preocupavam em ver suas práticas associadas aos cultos onde se praticava o mal.

Particularmente, especulo que essa preocupação se deu em razão do grande número de médiuns macumbeiros que migraram para a Umbanda ou mesmo em razão do grande número de casas de Macumba que passaram a se definir como “de Umbanda”, dado que a Macumba possuía um caráter “amoral” em seus trabalhos.

Como este é um curso básico, fica como sugestão ao leitor conhecer o referido material e acompanhar o esforço dos intelectuais que buscaram através de congressos, reunir pessoas que pudessem elucidar os problemas históricos e conceituais da religião.

Diversidade é valor

Conforme acabamos de estudar, a religião se espalhou pelo Brasil através da migração de médiuns que, residindo em outras localidades, acabaram por dar continuidade ao trabalho espiritual que já desenvolviam, não raro, imprimindo suas próprias características/preferências no culto que professavam.

Além do mais, inicialmente, grande parte da população não era alfabetizada, o que se fez com que a tradição oral e o aprendizado com o mais velho se tornasse a forma comum de transmissão do conhecimento.

Gradativamente, com o correr dos anos, era muito natural que as práticas religiosas começassem a se diferenciar umas das outras, seja pela influência da regionalidade, seja pelos rumos que cada casa tomava.

Hoje, a maioria das pessoas se espanta com a diversidade da Umbanda. Visitam um terreiro aqui, outro ali e se perguntam: por que são tão diferentes entre si se são todos Umbanda?

Na verdade, diversidade é normal em matéria de religião. Veja, por exemplo, como são diferentes entre si as igrejas evangélicas... Mesmo no Catolicismo existem variações, como por exemplo, a ala carismática, etc.

Por outro lado: Como ser igual? Para quê ser igual?

Uma pessoa que viva no Amazonas terá a mesma experiência religiosa que eu, no interior de Minas Gerais?

Caso eu viesse a morar no Amazonas e abrisse por lá um terreiro, não levaria toda a influência religiosa que aprendi aqui, para lá? Ao abrir uma casa neste estado, não influenciaria a Umbanda que já se pratica por lá e, ao mesmo tempo, não serei influenciado por ela?

A humanidade é composta por espíritos que nasceram e renasceram em diversas culturas ao longo da história e que adquiriram, por isso, preferências em suas jornadas evolutivas.

Reunir todas as pessoas num único culto, praticado de uma única forma, pode ser o sonho de vários puristas, mas seria um tremendo exercício de castração religiosa: as pessoas são diferentes, têm preferências diferentes, necessidades diferentes e, por isso, percorrem caminhos diferentes!

Uma das coisas mais belas na Umbanda é que uma pessoa que tenha 40 anos de vivência católica, ao entrar num terreiro, não terá que jogar fora toda a sua bagagem religiosa, pelo contrário, ela será muito bem acomodada entre os novos conceitos aprenderá.

A Umbanda entrará na vida desta pessoa como uma contribuição, algo que vem para somar, trazer mais conhecimento, mais informação, porém, ela não será obrigada a parar de cultuar os seus santos, não terá que adotar um estilo de vida que fira as convicções que foram construídas ao longo dos anos em sua caminhada...

Além do mais, graças à diversidade, hoje temos terreiros de Umbanda em que se pode perceber claramente a influência do Espiritismo, outros em que se nota a influência dos Candomblés, outros que caminham pelo viés Esotérico e, sabem de uma coisa? Em todos os guias baixam!

Com atabaque ou sem atabaque. Com roupa branca ou colorida. Trabalhando-se com a esquerda ou não: Todos recebem seus guias que se manifestam para trazer a caridade, desde que os valores fundamentais da religião sejam mantidos!

Logo, não existe uma única forma de se praticar a Umbanda! Existem formas, no plural, adaptáveis às necessidades das pessoas, conforme as tendências de cada um e plenamente funcionais dentro de suas propostas.

Assim, a Umbanda oferece um panorama religioso riquíssimo em diversidade: quem tem uma pegada mais afro, vai se sentir bem numa casa mais afro. Quem tem uma pegada mais católica, vai se sentir bem numa casa mais católica. Quem tem uma pegada mais espírita, vai se sentir bem numa casa mais espírita, etc.

Portanto, fique bem entendido: Diversidade é valor, não defeito da religião!

Até a próxima aula!

Leonardo Montes




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