sábado, 13 de julho de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 13 - CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS E PAI ANTÔNIO

C7E - Imagem do google

Ainda sobre a Umbanda nascente, não podemos deixar de lado o nome de duas entidades que se manifestaram através de Zélio e que deixaram a sua marca na história: Caboclo das Sete Encruzilhadas (C7E) e Pai Antônio, respectivamente, o caboclo e o preto-velho que se manifestavam através de Zélio e que foram os responsáveis por estruturar a religião.

Caboclo das Sete Encruzilhadas

Vamos recordar que a família de Zélio de Moraes, responsável por conduzir as atividades da TENSP, sempre se preocupou em manter a tradição e não necessariamente divulga-la. Certamente, muitos relatos sobre o C7E devem ter corrido pelo Rio, levando seu nome e sua caridade até os lugares mais longínquos, embora pouca coisa tenha chegado até os nossos dias.

Se você tem curiosidade em saber como era a fala do caboclo, felizmente, temos alguns áudios no Youtube. Ouça:


A descrição mais antiga da personalidade desta entidade foi feita por Leal de Souza em seu clássico: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, Cap. 23, publicado em 1933. Trarei apenas algumas citações, porém, recomendo que seja lido o referido capítulo por completo:

“Se alguma vez tenho estado em contato consciente com algum espírito de luz, esse espírito é, sem dúvida, aquele que se apresenta sob o aspecto agreste, e o nome bárbaro de Caboclo das Sete Encruzilhadas. Sentindo-o ao nosso lado, pelo bem estar espiritual que nos envolve e sensibiliza, pressentimos a grandeza infinita de Deus, e, guiados pela sua proteção, recebemos e suportamos os sofrimentos com uma serenidade, quase ingênua, comparável ao enlevo das crianças, nas estampas sacras, contemplando, da beira do abismo, sob às azas de um anjo, as estrelas do céu”. Pág. 66

“Entre a humildade e a doçura extremas, a sua piedade se derrama sobre quantos o procuram e, não poucas vezes, escorrendo pela face do médium, as suas lagrimas expressam a sua tristeza diante dessas provas inevitáveis a que as criaturas não podem fugir”. Pág. 66/67

“Acidentalmente, o seu saber se revela, uma ocasião, para justificar uma falta, por esquecimento, de um de seus auxiliares humanos, explicou, minucioso, o processo de renovação das células cerebrais, descreveu os instrumentos que servem para observá-las, e contou numerosos casos de fenômenos que as atingiram, e como foram tratados na grande guerra deflagrada em 1914”. Pág. 67

“A linguagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas varia, de acordo com a mentalidade de seus auditórios. Ora chã, ora simples, sem atavio, ora fulgurante nos arrojos da alta eloquência, nunca descem tanto, que se abastardem nem se eleva demais, que se torne inacessível.” Pág. 67

“A primeira vez em que os videntes o vislumbraram, no início de sua missão, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se apresentou como um homem de meia idade, a pele brônzea, vestindo uma túnica branca, atravessada por uma faixa onde brilhava, em letras de luz, a palavra “Caritas”.” Pág. 68

Estas narrativas nos levam a pensar o C7E como um ser de extrema evolução espiritual e grande sabedoria: capaz de conversar com a mais humílima das pessoas e com os grandes intelectuais da época, sempre levando a mensagem de Jesus a todos os corações que procurassem sua ajuda.

Aliás, o seu próprio nome de falangeiro (nome simbólico adotado pelas entidades), que sempre rendeu muitas – e controversas explicações pela internet – é desvendado por Leal de Souza de maneira simples e tocante:

“Estava esse espírito no espaço, no ponto de interseção de sete caminhos, chorando sem saber o rumo que tomasse, quando lhe apareceu, na sua inefável doçura, Jesus e, mostrando-lhe , numa região da Terra, as tragédias da dor e os dramas da paixão humana, indicou-lhe o caminho a seguir, como missionário do consolo e da redenção. E em lembrança desse incomparável minuto de sua eternidade e para se colocar ao nível dos trabalhadores mais humildes, o mensageiro do Cristo tirou o seu nome do número dos caminhos que os desorientavam, e ficou sendo o Caboclo das Sete Encruzilhadas.” Pág. 66

Simples, não?

A Umbanda é simples...

Pai Antônio

A manifestação de Pai Antônio não foi menos surpreendente. De andar lento, fala de difícil compreensão, sentou-se num toco de árvore e pediu um cachimbo.

Imagine o espanto das pessoas...

Se ainda hoje poucos conhecem, de fato, a importância do fumo, a energia do tabaco e sua relevância para os trabalhos espirituais, imagine naquele tempo...

Se você tem curiosidade em saber como era a fala de Pai Antônio, também existem alguns registros na internet. Ouça:


Ainda no clássico de Leal de Souza, podemos ler algumas informações sobre esta venerável entidade:

 “- Pai Antônio não pode ser o espírito de um preto da África e não se compreende que baixe para fumar cachimbo e falar língua inferior ao cassanje (dialeto crioulo do português falado nessa região; por ext. português mal falado e escrito.)

- Eu sou preto, meu filho.

- Não, Pai Antônio. O senhor sabe mais medicina do que eu. Por que fala desse modo? Há de ser por alguma razão. O preto velho explicou:

- Eu não baixo em roda de doutores. Doutor, aqui só há um, que és tu, e nem sempre vens cá. Depois, meu filho, se eu começo a falar língua de branco, posso ficar tão pretensioso como tu, que dizes saber menos medicina de que eu - disse, numa linguagem, arrevesada, que traduzimos”. Pág. 59/60.

Recentemente, o bisneto de Zélio, Leonardo Cunha, disse que Pai Antônio era a entidade que mais se manifestava através de Zélio e era também a mais alegre, brincalhona, e que falava mais abertamente sobre “as coisas do espírito”. Infelizmente, não há muitas informações sobre ele fora do círculo familiar de Zélio.

Ainda segundo Leonardo Cunha, numa destas conversas, Pai Antônio revelou ter sido médico na Bahia, daí seu entendimento em medicina.

Arquétipos?

Um dos conceitos mais difundidos hoje na Umbanda é a noção de arquétipos. Emprestada da psicologia, essa noção arquetípica afirma que a entidade pode se apresentar como um caboclo e não ter sido necessariamente um índio ou descendente de índio, por exemplo.

Embora tal conceito tenha ganhado popularidade recentemente, ele é bem antigo e já encontrei registros sobre isso desde a literatura de meados do século passado.

Um dos fatos que dão base a esta interpretação é a própria aparição do C7E, que se afirmava um caboclo, mas foi visto como um padre pelo médium vidente presente à sessão. Como conciliar?

A explicação encontrada, adotada e aceita por boa parte do contingente umbandista, fortemente influenciada pelo conceito esotérico ocidental, é: Na verdade, este espírito pode ter qualquer procedência, mas se apresenta com a roupagem de caboclo para falar mais diretamente às nossas tradições, ancestralidade, para se colocar mais próximo do povo, etc.

Esta é, em resumo, a noção de arquétipo: a entidade finge ser uma coisa para se aproveitar de todo caldo cultural ligado à imagem que está evocando em sua manifestação...

Contudo, da forma como aprendi com as entidades e trabalhamos em nossa casa, o conceito é bem diferente.

O que não se leva em consideração é uma explicação que consta no livro A Gênese, de Allan Kardec, Cap. XIV, item 14:

“É assim, por exemplo, que um Espírito se faz visível a um encarnado que possua a vista psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo na época em que o segundo o conheceu, embora haja ele tido, depois dessa época, muitas encarnações. Apresenta-se com o vestuário, os sinais exteriores — enfermidades, cicatrizes, membros amputados etc. — que tinha então.

Um decapitado se apresentará sem a cabeça. Não quer isso dizer que haja conservado essas aparências, certo que não, porquanto, como Espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem zarolho, nem decapitado; o que se dá é que, retrocedendo o seu pensamento à época em que tinha tais defeitos, seu perispírito lhes toma instantaneamente as aparências, que deixam de existir logo que o mesmo pensamento cessa de agir naquele sentido. Se, pois, de uma vez ele foi negro e branco de outra, apresentar-se-á como branco ou negro, conforme a encarnação a que se refira a sua evocação e à que se transporte o seu pensamento”.

Quando o C7E se fez visível ao médium vidente, estava sustentando a aparência que tinha quando foi, no passado, o frei Gabriel Malagrida (que, inclusive, viveu entre os índios no Brasil e se encarnou entre eles em algum momento). Porém, com o tempo, passou a ser visto com a aparência de um índio que, inclusive, foi pintada (figura de abertura deste texto).

O próprio Leal de Souza registra essas alterações de aparência:

“A primeira vez em que os videntes o vislumbraram, no início de sua missão, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se apresentou como um homem de meia idade, a pele brônzea, vestindo uma túnica branca, atravessada por uma faixa onde brilhava, em letras de luz, a palavra “Caritas”.

Depois, e por muito tempo, só se mostrava como caboclo, tanga de plumas, e mais atributos dos pajés silvícolas. Passou, mais tarde, a ser visível na alvura de sua túnica primitiva, mas há anos acreditamos que só em algumas circunstâncias se reveste de forma corpórea, pois os videntes não o veem, e quando a nossa sensibilidade e os outros guias assinalam a sua presença, fulge no ar uma vibração azul e uma claridade dessa cor paira no ambiente”. Pág. 68

Como se pode notar, não se trata de arquétipo, mas de um fato muito mais simples: o espírito não tem cor, nacionalidade ou aparência definida. Em cada encarnação, vivendo em um povo, aprendendo uma cultura, alargando seus conhecimentos, guarda em seu espírito os resultados das experiências vividas na Terra e pode se apresentar com qualquer aparência das encarnações anteriores.

É por isso que Pai Antônio se apresentava como um preto-velho, pois ele foi escravo, mas antes disto ou mesmo depois, esteve encarnado em condições que lhe permitiram estudar medicina e, como o conhecimento verdadeiro fica guardado no espírito, podia se manifestar com a aparência de africano que de fato possuiu em alguma encarnação e guardar o conhecimento que adquiriu quando foi médico em outro tempo.

O espírito não finge ser de uma etnia que nunca viveu, pelo contrário, ele assume as características que tinha quando, justamente, viveu nela, com todos os saberes que conseguiu nesta encarnação e que integrarão seus saberes espirituais para todo o sempre...

Esta opinião, que muitos veem como preconceito é justamente o oposto: é o fim do preconceito! Pois espírito nenhum precisa fingir algo para poder ajudar alguém... Quando uma entidade se manifesta como um caboclo é por que está integrada às falanges espirituais dos indígenas e ainda tem uma missão a cumprir neste grupo espiritual que, um dia, foi também seu grupo consanguíneo e o mesmo vale para os pretos-velhos, etc.

Revelações Espirituais

Certa feita, o Pai Cipriano me disse que Zélio e o C7E já viveram outras vidas juntos, entre os índios e também na igreja católica, inclusive como irmãos, recebendo diretamente de Jesus a missão espiritual que cumpriram com êxito.

Nunca li nada a respeito em alguma outra fonte, mas espero um dia que mais informações surjam.

Salve o Caboclo das Sete Encruzilhadas, Salve Pai Antônio!

Até a próxima aula!

Leonardo Montes


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2 comentários:

  1. Já conhecia os áudios, mas sempre é emocionante e as elucidações, como sempre fantásticas irmão, que Oxalá permita que suas abordagens alcancem a todos que necessitam de uma luz da umbanda.

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