segunda-feira, 29 de julho de 2019

CADA UM QUE CUMPRA O SEU PAPEL

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No início dos meus estágios em psicologia, uma professora, conversando com os alunos ávidos por iniciar os atendimentos clínicos, disse:

- Vocês verão que muitas famílias estão em dificuldade porque não conseguem assumir os seus papéis.

Ninguém entendeu muito bem e ela explicou:

- É pai se comportamento como filho, filho querendo ocupar o lugar do pai, mãe querendo se comportar como filha, etc.

Aquilo fez muito sentido para mim e creio que agora deve estar fazendo para você também.

Aliás, isso não se vê apenas na organização familiar, mas em todos os setores da vida humana: é chefe se comportando como dono, é dono agindo como se não fosse dono, é empregado querendo ser dono e por aí vai...

Em todo lugar vemos isso, não é?

No terreiro, não é diferente: é médium querendo ser dirigente, é dirigente querendo voltar a ser médium de corrente, é cambone querendo ser médium, é médium querendo ser cambone e por aí vai...

O que pouco se reflete, porém, é que cada um é chamado por Deus para desempenhar um papel e, como diz aquele velho comparativo que corre pela internet:

“Que seria do cérebro se não fossem os pulmões? Ou os pulmões se não fosse o intestino? Ou o intestino se não fosse o fígado? etc.”

Quando as partes trabalham há harmonia no conjunto!

Se todos fossem médiuns de incorporação, quem seriam os “olhos e ouvidos do terreiro?”, mas se todos fossem cambones, quem atenderia esta multidão? E se todos resolvessem se tornar dirigentes, como ficaria? E se ninguém quisesse ser dirigente, como o terreiro funcionaria?

Dentro de um trabalho espiritual cada um deve cumprir o papel que lhe foi dado pela espiritualidade: nem mais, nem menos, apenas o seu papel!

A espiritualidade, sempre sábia, conhecendo nosso passado – e prevendo nosso futuro – sabe o que necessitamos e, por isso, convida a cada um de nós a assumir, na Terra, parte de um trabalho que, para funcionar, precisa, impreterivelmente, de todas as partes funcionando igualmente!

É preciso, ainda, ter ciência de que estamos todos num Mundo de Provas e Expiações e, portanto, somos todos “farinha do mesmo saco”, não sendo o dirigente melhor que o médium ou o médium melhor que o cambone ou o cambone melhor que o consulente: somos todos espíritos endividados buscando fazer algo de bom com aquilo que a espiritualidade nos ofertou!

Portanto: não inveje a posição do outro! Frequentemente, todos os lauréis que você o imagina coroado sejam apenas fantasias da sua cabeça... A luta é igual para todos, os desafios são os mesmos para todos e se quisermos buscar a felicidade, aprendamos esta lição: seja onde for, como for, cumpra o seu papel!

Nem mais, nem menos do que isso.

E quando tivermos cumprido o nosso papel, a vida naturalmente se encarregará de direcionar nossos passos...

Leonardo Montes


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sexta-feira, 26 de julho de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 16 - PERSEGUIÇÕES

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Desde o seu nascimento, a Umbanda se viu no meio de forças poderosas que, por alguma razão, sentiram-se ameaçadas com a sua presença, fazendo todo o possível para erradica-la.

Já tivemos oportunidade de estudar (cap. 09) como a lei brasileira limitava a liberdade religiosa em fins do século XIX, início do século XX, fechando terreiros e prendendo seus dirigentes. Agora, vamos empreender um vai e vem entre os anos inicias de expansão da religião até a década de 1970.

O governo Vargas, com sua onda populista e nacionalista, favoreceu a religião no sentido de instigar no coração do brasileiro a valorização dos patrimônios culturais e religiosos próprios da sua nação e a Umbanda era bem a cara do brasileiro: mistura de “raças”, crenças e culturas.

Contudo, a elite econômica e política desejava colocar o Brasil entre as nações desenvolvidas e, para estas pessoas, tudo que estava relacionado às “religiões primitivas”, era indício de atraso e, portanto, deveria ser superado. Assim, houve flexibilização na liberdade religiosa, mas as repressões continuaram.

A constituição de 1934, dizia que:

“Art 17 - É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: II - estabelecer, subvencionar ou embaraçar o exercício de cultos religiosos”.

Em outro momento:

“ 5) É inviolável a liberdade de consciência e de crença e garantido o livre exercício dos cultos religiosos, desde que não contravenham à ordem pública e aos bons costume. As associações religiosas adquirem personalidade jurídica nos termos da lei civil.”

Em teoria, os terreiros poderiam existir. Na prática, precisariam estar registrados na delegacia e, mesmo tendo liberdade para realizar seus cultos, eram frequentemente denunciados por vizinhos, seja pelo som do atabaque ou pelo receio de suas práticas e acabavam sendo enquadrados como contravenção a ordem pública ou mesmo como violação dos bons costumes.

O resultado você já está cansado de ouvir: perseguições, prisões, fechamento de terreiros.

É justamente esse sentimento de insegurança que fez com que grande parte dos terreiros se fechasse, realizando suas cerimônias de portas fechadas, sem registro jurídico, ecos que chegaram até nossos dias.

Ainda hoje, boa parte dos terreiros não tem existência jurídica e muitos sequer têm fachada ou algo que identifique que naquele imóvel exista uma casa de Umbanda. Muitos dirigentes, ainda hoje, receiam em divulgar abertamente suas atividades, não mais com medo da repressão policial, mas pela intolerância religiosa semeada décadas atrás...

Neste período, como o Espiritismo desfrutava de certa tranquilidade junto as autoridades, vários dirigentes preferiram chamar suas instituições de espíritas ao invés de umbandistas, pois isso acabava desviando os olhares das autoridades.

Contudo, façamos uma pausa.

Já tivemos oportunidade de estudar (cap. 07), que a Umbanda, inicialmente, foi entendida como uma variante, uma linha do Espiritismo propriamente dito e isso porque se popularizou no Brasil a ideia de que tudo quanto tivesse a ver com espíritos era Espiritismo.

Assim, o próprio Zélio se dizia espírita e vários terreiros de Umbanda da época se diziam espíritas. Havia, porém, a distinção (que ecoa até hoje), entre os espíritas de fato (chamados Kardecistas) e os espíritas de linha (chamados Umbandistas).

Em meados da década de 1930, porém, a adoção do termo “espírita” junto às instituições, não tinha apenas razão de ser por uma concepção conceitual da religião como uma vertente do Espiritismo, mas também como forma de fugir às repressões das autoridades.

E se você acha confuso isso ainda hoje, imagina como não devia ser para as autoridades da época: foi uma estratégia de sobrevivência por um lado, porém, por outro, foi uma identidade costurada com base numa compreensão popular do que seria o Espiritismo.

É por isso que, ainda hoje, vemos terreiros de Umbanda cujos membros se definem espíritas, seja pela resistência às repressões ou pela concepção de que a Umbanda era uma variante do Espiritismo propriamente dito, herança de muito tempo atrás.

A partir da década de 1940, gradativamente, os terreiros puderam ser registrados com o nome de Umbanda.

Igreja Católica

Desde meados do século XIX, a Igreja Católica vinha perdendo espaço no cenário religioso brasileiro. Já estudamos, por exemplo, que a vinda dos primeiros imigrantes para suprir a mão de obra escrava, “obrigou” o governo imperial a abrir espaço para manifestações protestantes no Brasil.

Assim, de religião oficial do império, o Catolicismo se tornou apenas a maior expressão religiosa, perdendo espaço dia a dia para outras confissões e perdendo também a influência que desfrutava junto ao governo.

Não pense, porém, que a instituição aceitou isso de braços cruzados. Houve intenso movimento por parte de padres e bispos para que isso não acontecesse, mas isso é conversa que interessa mais ao campo histórico.

No que se refere a Umbanda, o que podemos dizer com segurança é que a popularização da religião causava desconforto aos intelectuais católicos que viam os símbolos da igreja (imagens, terços, cruzes, etc), sendo utilizados por uma denominação religiosa que nada tinha a ver com a igreja.

Causava ainda mais espanto aos padres perceber que boa parte dos frequentadores das igrejas também frequentavam terreiros. Para reverter esse quadro, a igreja estabeleceu várias campanhas difamatórias contra a Umbanda, ameaçando os fiéis de excomunhão (expulsão) caso frequentassem terreiros.

Hoje em dia talvez a excomunhão cause pouco aborrecimento aos brasileiros, mas no passado era algo terrível. A pessoa excomungada (palavra que virou até palavrão), era malvista socialmente e lhe era negado, inclusive, o enterro em “solo sagrado”, isto é, a ser enterrado no cemitério administrado pela igreja, como foi comum no passado.

Assim, muitos padres aproveitavam a missa para alertar os fiéis dos perigos que a Umbanda representava, sua associação ao demônio (que, diga-se, nunca foi crença na religião), e os perigos que a juventude corria ao frequentar os terreiros.

Contudo, o nome que mais expressão ganha neste período é o de Frei Boaventura que, em 1954, publica um livro chamado: Posição católica perante a Umbanda:

“1. Perante os umbandistas, a atitude do católico é de respeito cristão e de prudente discrição [...] É sobretudo aconselhável afastar a infância inexperiente e a juventude aventureira do contato habitual com estas pessoas [...];

2. Perante a Umbanda como doutrina, a atitude do católico é de franca e total condenação [...];

3. Perante a Umbanda como prática, a atitude do católico é de enérgica e declarada repulsa [...];

4. Perante as sessões de Umbanda, a atitude do católico é de completa abstenção [...];

5. Perante os livros de Umbanda, a atitude do católico é de desaprovação e censura sem restrição.

6. Perante a diagnose umbandista, a atitude do católico é de absoluta reserva [...];

7. Perante a terapêutica umbandista, a atitude dos católicos é de repudio integral [...];

8. Perante o culto umbandista aos Orixás, a atitude do católico é de decidida reprovação [...];

9. Perante o culto aos Exus, a atitude do católico é de santo horror e ele o repelirá sempre com apostólico vigor [...];

10. Perante os despachos, atitude do católico é de soberano desdém [...];

11. Perante os demais meios supersticiosos de defesa contra a atuação dos maus espíritos, os amuletos [...] a atitude do católico é de simples e formal desprezo [...];

12. Perante o Espiritismo de Umbanda, portanto, a atitude do católico é de absoluta, total e frontal oposição [...].”

Frei Boaventura continuaria publicando outras obras até mesmo com um discurso mais persuasivo, contudo, creio que o exposto seja o suficiente para se compreender que, enquanto pôde, a Igreja Católica tudo fez contra a religião, inclusive, utilizando-se de programas de rádio e jornais para atacar a Umbanda.

Esse quadro começou a perder força em 1962, quando ocorreu o Concílio Vaticano II, onde se reconheceu a salvação além da igreja. Desde então, houve relativo sossego entre Umbanda e Catolicismo, embora, eventualmente, apareça aqui ou ali algum padre pregando contra a Umbanda.

Fique registrado, contudo, que a Igreja Católica foi a primeira instituição religiosa a disseminar a intolerância religiosa contra a Umbanda e embora desde a década de 1960 sua postura tem sido de relativa distância dos assuntos umbandistas, ainda há uma dívida não paga por toda difamação plantada por ela e continuada por fundamentalistas neopentecostais evangélicos.

Fundamentalistas Neopentecostais

Em fins da década de 1970, começam a se organizar no Brasil as primeiras igrejas neopentecostais. Neste período, é comum nestas organizações um forte discurso contra práticas que consideram de magia negra (Umbanda e Candomblé).

Tais igrejas cresceram elegendo um inimigo e fazendo em seus cultos manifestações de “demônios” que se apresentavam como entidades de Umbanda.

Assim, não era raro chegar alguém a estas igrejas e ser levado ao púlpito para dar testemunho da sua antiga vida metida em “macumbarias” e agora a sua nova vida como convertido e liberto.

E isso quando não se manifestavam “entidades” que eram doutrinadas e expulsas pelos pastores em “nome de Jesus” e tantas outras bizarrices que hoje sabemos ser, em grande parte, simplesmente encenações com o claro propósito de atacar e difamar (e ganhar fiéis, claro).

Estas encenações chegaram mesmo a televisão, quando estas igrejas passaram a comprar horários comerciais e a transmitirem seus cultos. Tanto é que a Igreja Universal do Reino de Deus e a TV Record foram condenadas pela justiça a pagar multa e a ceder direito de resposta a entidades ligadas à Umbanda e ao Candomblé por terem disseminado intolerância religiosa por seus canais durante anos...

Assim, não há a menor dúvida em dizer que algumas (não todas) igrejas neopentecostais, difundindo uma visão fundamentalista de religião, foram responsáveis por décadas de difamações e perseguições, cujos efeitos nocivos se pode perceber ainda hoje.

Conclusão

Com o direito de resposta assegurado pela justiça, agora em 2019, a Umbanda e o Candomblé puderam, finalmente, sentir o gostinho de uma vitória pequenina, mas muito significativa, mostrando a sociedade que as religiões existem para promover a felicidade humana e nunca para destruir a quem quer que seja.

Os danos causados a imagem da Umbanda, contudo, levarão ainda muitas décadas para serem reparados. No imaginário popular, Umbanda ainda é associada ao rol das “coisas ruins”, daquilo que é “melhor deixar de lado”.

A justiça finalmente começa a fazer a sua parte, cabe agora os profitentes desta fé levar adiante o conhecimento de que a “Umbanda é paz e amor”.

Referências

CUMINO, Alexandre. Períodos de Expansão Umbandista. Texto 3.03. Material de Apoio. História da Umbanda - EAD - Curso Virtual Gratuito. 2016.

CUMINO, Alexandre. Terceiro e Quarto Período, Esvaziamento e Amadurecimento. Texto 4.01. Material de Apoio. História da Umbanda - EAD - Curso Virtual Gratuito. 2016. 

Até a próxima aula!

Leonardo Montes



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quinta-feira, 25 de julho de 2019

COMO RECONHECER UM BOM TERREIRO?

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Um bom terreiro, para mim, precisa de três coisas: Disciplina, amor e caridade. Sem estas três coisas, não pode haver um bom terreiro.

A disciplina se avalia de várias formas: Os médiuns chegam com antecedência ou em cima da hora? Ficam dentro do terreiro recolhidos e em oração ou conversando, brincando, rindo? Ficam na porta fumando e batendo papo? Respeitam a ordem e a hierarquia? As consultas são com as linhas pré-determinadas ou mudam em cima da hora? As giras terminam mais ou menos dentro do horário ou se estendem sem limite?

Tudo isso pode e deve ser observado pela consulência e, especialmente, pelos futuros membros da casa, pois sem disciplina é impossível executar um bom trabalho espiritual.

O amor pode ser observado de várias maneiras: Os médiuns e cambones da casa parecem felizes por estar ali? Chegam sorrindo? São simpáticos? Demonstram fraternidade entre si ou se alfinetam na frente da consulência? Tratam bem os visitantes e os novatos? São atenciosos ou rudes no trato com as pessoas?

É extremamente importante observar como o amor é vivenciado dentro do terreiro, até por que, frequentemente, é a falta dele que gera os grandes problemas que fazem com que várias casas baixem suas portas...

Por fim, a caridade: Os trabalhos são gratuitos ou se cobra para ter atendimento? As contribuições são voluntárias ou obrigatórias? Se você não puder ajudar financeiramente, há pressão para que o faça?

Umbanda é caridade e caridade é gratuidade nos atendimentos, cursos e ensinos. Jamais um terreiro poderia cobrar por qualquer uma destas atividades, sob pena de faltar, justamente, com a caridade que, segundo o Apóstolo Paulo, é a mais importante das virtudes.

Estas são, para mim, as três coisas essenciais para se reconhecer um bom terreiro. O resto, é resto...

Leonardo Montes

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sábado, 20 de julho de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 15 - AS SETE TENDAS

Zélio reunido com os presidentes das Tendas fundadas pelo C7E - Imagem do google

Durante dez anos, as atividades na TENSP ocorreram dentro dos parâmetros estabelecidos pelo C7E. Contudo, em algum momento, o chefe escolheu expandir a “sua escola”, formando novos médiuns, escolhidos por ele, para que fundassem, administrassem e conduzissem uma casa de Umbanda.

Era a expansão oficial da TENSP em outras casas que seriam orientadas e dirigidas pela matriz.

Leal de Souza descreveu o processo de fundação das tendas, porém, exporei apenas alguns trechos, para que o estudo não fique muito longo, embora recomende que o capítulo seja lido integralmente:

“O processo de fundação dessas Tendas foi o seguinte: O caboclo das Sete Encruzilhadas, que é vulgarmente denominado o “Chefe”, quer pelos seus auxiliares da Terra, quer pelos do espaço, escolheu, para seu médium, o filho de um espírita e, por intermédio dos dois, agremiou os elementos necessário à constituição da Tenda de N. S. da Piedade.

Dez ou doze anos depois, com contingentes dessa Tenda, incumbiu a Sra. Gabriela Dionysio Soares de fundar, com o Caboclo Sapoéba, a de N. S. da Conceição e quando a nova instituição começou a funcionar normalmente, encarregou o Dr. José Meirelles, antigo agente da municipalidade carioca e deputado do Distrito Federal, e os espíritos de Pai Francisco e Pai Jobá, com o auxílio das duas existentes, da criação da Tenda de S. Pedro.” Pág. 69

“Cada uma dessas Tendas constitui uma sociedade civil, cabendo a sua responsabilidade legal, e a espiritual, ao respectivo presidente que é nomeado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, independente de indicação ou sanção humana, e por ele transferido, suspenso, ou demitido livremente, bem como os médiuns que o “Chefe” designa e pode, se o entender, afastar de suas Tendas.” Pág. 70

“Na primeira quinta-feira de cada mês celebra-se na Tenda Matriz, uma sessão privativa dos presidentes, e seus auxiliares, e médiuns dos chefes de terreiro, e nessa assembleia o Caboclo das Sete Encruzilhadas faz as observações necessárias, louvando ou admoestando, sobre os serviços do mês anterior, e dá instruções para os trabalhos do mês corrente.” Pág. 70

Basicamente, o que o C7E fez foi o seguinte: Ele escolheu entre os frequentadores/trabalhadores da TENSP, aqueles que poderiam conduzir outras casas, dando a cada um os recursos necessários, bem como as instruções requeridas.

Com essa outorga do chefe, cada uma das pessoas apontadas organizava uma casa em uma determinada região e se tornava responsável por gerenciá-la. Médiuns eram indicados pelo C7E para compor a corrente e tantos outros foram desenvolvidos nas próprias casas.

Os dirigentes se reuniam mensalmente na matriz para uma conversar com o chefe que fazia as observações necessárias, apontando caminhos, respondendo dúvidas, distribuindo orientações, etc.

A equipe espiritual que assessorava as tendas era uma só: todos eram enviados pelo C7E, sendo que cada uma destas tendas funcionava mais como uma filial, reproduzindo o modelo da matriz do que propriamente como uma casa independente, embora os dirigentes possuíssem autonomia para organizar o trabalho, este deveria manter a mesma ritualística da matriz.

É assim, por exemplo, que Leal de Souza fala sobre seu papel junto ao C7E:

“E pelo dever de assumir a responsabilidade social de minha investidura, acrescento que sou o presidente da Tenda de Nossa Senhora da Conceição, ou, mais modestamente, o delegado humano incumbido, pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, de coordenar a ordem material necessária à execução dos trabalhos espirituais.” Pág. 76


Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição (1918)
Tenda Espírita São Pedro (1924)
Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia (1927)
Tenda Espírita Santa Bárbara (1933)
Tenda Espírita São Jerônimo (1935)
Tenda Espírita São Jorge (1935)
Tenda Espírita Oxalá (1935/1939?)

Veja como o trabalho de fundamentação da religião foi lento e gradativo: dez anos só para fundamentar a casa matriz e pelo menos mais dezoito para fundar as que seriam responsáveis por difundir esta raiz.

Perceba, também, que todas eram chamadas por tendas (não terreiros) e que seis delas tinham nomes de santos, sendo a última a única com nome de Orixá.

Isto é um fato que sempre bato na mesma tecla, muito embora os ideólogos acostumados a ver racismo em tudo não consigam entender: A Umbanda nascente tinha muito mais influência do Espiritismo e do Catolicismo que das religiosidades africanas (Bantu ou Nagô), que só começam a ser mais presentes na Umbanda em fins da década de 1940, início de 1950.

Outras casas

Nestes dez anos iniciais (1908-1918), muitos médiuns passaram pela TENSP, fizeram o seu desenvolvimento e foram embora. Muitos migraram para outras cidades, alguns para outros estados e de uma forma ou de outra, acabaram constituindo novas casas que, a seu tempo, também passaram a formar outras e assim, gradativamente, a religião foi se espalhando pelo Brasil.

Então, quando o C7E autorizou a abertura de uma segunda casa (1918), é provável que houvessem no Rio de Janeiro algumas casas fundadas por ex-membros da TENSP e que atuavam de forma independente da matriz.

Portanto, embora possamos dizer que “oficialmente” o C7E tenha fundado outras sete casas religiosas, é bem provável que nos anos que se seguiram ao intervalo entre a primeira e a última (1918-1935/39?), dezenas de casas tenham surgido sem controle ou assistência direta do C7E.

Além do mais, como já estudamos nos primeiros capítulos, a Macumba Carioca começou a perder força no início do século XX, seja pela perseguição religiosa ou pela repressão policial, de modo que muitos médiuns macumbeiros acabaram migrando para as casas de Umbanda que se popularizavam cada vez mais e, com isso, levaram também muito da influência religiosa que tinham aprendido anteriormente, sendo esta a provável via por onde a religiosidade afro-brasileira tenha entrado com força na formação da Umbanda como uma religião de abrangência nacional.

Diversidade

Não é difícil imaginar que sem um órgão centralizador e unificador (embora as diversas tentativas para organizar federações tenham produzido algum resultado), a religião se espalhasse pelo Brasil de forma aleatória: cada médium que se mudava para um lugar onde não havia uma casa acabava fundando uma.

Assim, seja pela influência do chefe espiritual da casa que podia determinar que os trabalhos ocorressem desta ou daquela maneira ou pelas influências religiosas que os próprios membros da corrente imprimiam às suas práticas, a Umbanda cresceu através da diversidade.

Enquanto casas oriundas da TENSP procuravam manter o trabalho conforme aprenderam, sem atabaques e uso de palmas, por exemplo, outras casas com maior influência das religiosidades africanas, possuíam uma formatação bem diferente com vários rituais, cultos e práticas originárias dos Candomblés, por exemplo.

Essa diversidade não se deu sem conflitos, porém.

Os intelectuais da época viram a necessidade de organizar um congresso em que os principais pensadores da religião pudessem expor suas ideias na tentativa de construir uma identidade homogênea. Tanto é que no livro: Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda, em 1941, logo após a introdução, podemos ler:

“O conceito alcançado entre nós pelo Espiritismo de Umbanda nestes últimos vinte anos de sua prática, deu motivo à fundação nesta capital de elevado número de associações destinadas especialmente a esta modalidade de trabalhos, cada qual procurando desempenhar-se a seu modo, para atender a um número sempre crescente de adeptos. Sua prática variava, entretanto, segundo os conhecimentos de cada núcleo, não havendo, assim, a necessária homogeneidade de práticas, o que dava motivo a confusão por parte de algumas pessoas menos esclarecidas, com outras práticas inferiores de espiritismo.” Pág. 02.

Já tivemos ocasião de estudar (cap. 07), que a influência espírita sobre a Umbanda foi tão grande no começo do século XX, que os adeptos não se identificavam como “umbandistas”, mas como “espíritas de umbanda”, pois a Umbanda era entendida como uma linha, uma variante, do Espiritismo propriamente dito.

Assim, no começo, os espíritas de fato (vulgo, Kardecistas), faziam de tudo para dissociar a imagem do Espiritismo das práticas umbandistas. Contudo, na década de 1940, eram os “espíritas de umbanda” que se preocupavam em ver suas práticas associadas aos cultos onde se praticava o mal.

Particularmente, especulo que essa preocupação se deu em razão do grande número de médiuns macumbeiros que migraram para a Umbanda ou mesmo em razão do grande número de casas de Macumba que passaram a se definir como “de Umbanda”, dado que a Macumba possuía um caráter “amoral” em seus trabalhos.

Como este é um curso básico, fica como sugestão ao leitor conhecer o referido material e acompanhar o esforço dos intelectuais que buscaram através de congressos, reunir pessoas que pudessem elucidar os problemas históricos e conceituais da religião.

Diversidade é valor

Conforme acabamos de estudar, a religião se espalhou pelo Brasil através da migração de médiuns que, residindo em outras localidades, acabaram por dar continuidade ao trabalho espiritual que já desenvolviam, não raro, imprimindo suas próprias características/preferências no culto que professavam.

Além do mais, inicialmente, grande parte da população não era alfabetizada, o que se fez com que a tradição oral e o aprendizado com o mais velho se tornasse a forma comum de transmissão do conhecimento.

Gradativamente, com o correr dos anos, era muito natural que as práticas religiosas começassem a se diferenciar umas das outras, seja pela influência da regionalidade, seja pelos rumos que cada casa tomava.

Hoje, a maioria das pessoas se espanta com a diversidade da Umbanda. Visitam um terreiro aqui, outro ali e se perguntam: por que são tão diferentes entre si se são todos Umbanda?

Na verdade, diversidade é normal em matéria de religião. Veja, por exemplo, como são diferentes entre si as igrejas evangélicas... Mesmo no Catolicismo existem variações, como por exemplo, a ala carismática, etc.

Por outro lado: Como ser igual? Para quê ser igual?

Uma pessoa que viva no Amazonas terá a mesma experiência religiosa que eu, no interior de Minas Gerais?

Caso eu viesse a morar no Amazonas e abrisse por lá um terreiro, não levaria toda a influência religiosa que aprendi aqui, para lá? Ao abrir uma casa neste estado, não influenciaria a Umbanda que já se pratica por lá e, ao mesmo tempo, não serei influenciado por ela?

A humanidade é composta por espíritos que nasceram e renasceram em diversas culturas ao longo da história e que adquiriram, por isso, preferências em suas jornadas evolutivas.

Reunir todas as pessoas num único culto, praticado de uma única forma, pode ser o sonho de vários puristas, mas seria um tremendo exercício de castração religiosa: as pessoas são diferentes, têm preferências diferentes, necessidades diferentes e, por isso, percorrem caminhos diferentes!

Uma das coisas mais belas na Umbanda é que uma pessoa que tenha 40 anos de vivência católica, ao entrar num terreiro, não terá que jogar fora toda a sua bagagem religiosa, pelo contrário, ela será muito bem acomodada entre os novos conceitos aprenderá.

A Umbanda entrará na vida desta pessoa como uma contribuição, algo que vem para somar, trazer mais conhecimento, mais informação, porém, ela não será obrigada a parar de cultuar os seus santos, não terá que adotar um estilo de vida que fira as convicções que foram construídas ao longo dos anos em sua caminhada...

Além do mais, graças à diversidade, hoje temos terreiros de Umbanda em que se pode perceber claramente a influência do Espiritismo, outros em que se nota a influência dos Candomblés, outros que caminham pelo viés Esotérico e, sabem de uma coisa? Em todos os guias baixam!

Com atabaque ou sem atabaque. Com roupa branca ou colorida. Trabalhando-se com a esquerda ou não: Todos recebem seus guias que se manifestam para trazer a caridade, desde que os valores fundamentais da religião sejam mantidos!

Logo, não existe uma única forma de se praticar a Umbanda! Existem formas, no plural, adaptáveis às necessidades das pessoas, conforme as tendências de cada um e plenamente funcionais dentro de suas propostas.

Assim, a Umbanda oferece um panorama religioso riquíssimo em diversidade: quem tem uma pegada mais afro, vai se sentir bem numa casa mais afro. Quem tem uma pegada mais católica, vai se sentir bem numa casa mais católica. Quem tem uma pegada mais espírita, vai se sentir bem numa casa mais espírita, etc.

Portanto, fique bem entendido: Diversidade é valor, não defeito da religião!

Até a próxima aula!

Leonardo Montes




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sexta-feira, 19 de julho de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 14 - A TENDA ESPÍRITA NOSSA SENHORA DA PIEDADE

Tenda Nossa Senhora da Piedade - Imagem do google

Ainda em sua primeira manifestação na casa de Zélio de Moraes, o C7E teria dito que, assim como Maria (mãe de Jesus) acolhe a todos, a nova casa também o faria, aprendendo com quem soubesse mais, ensinando aos que soubessem menos e a ninguém virando as costas. Nascia a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

Vejamos algumas palavras de Leal de Souza, em seu já citado livro, sobre esta casa:

“Sob a presidência do Sr. Zélio Moraes, médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas, erigida em sítio tranqüilo, entre arvores, a Tenda Nossa Senhora da Piedade é a casa humilde dos milagres...” Pág. 72

“A média mensal das curas de obsedados que iriam para os hospícios como loucos, é de vinte e cinco doentes, na Tenda da Piedade. Os espíritos que baixam nesse recinto não procuram deslumbrar os seus consulentes com o assombro de manifestações portentosas, mas as produzem muitas vezes, que lhas exigem as circunstâncias.

Os auxiliares humanos do Caboclo das Sete Encruzilhadas, na Tenda que é, por excelência, a sua Tenda, mesmo os que têm posição de revelo na sociedade, não se orgulham dos favores que lhes são conferidos e procuram, com doçura e humildade, merecer a graça de contribuir, como intermediários materiais, para a execução na Terra, dos desígnios do espaço.” Pág. 73

Ainda em sua primeira manifestação, o C7E determinou que o uniforme seria o branco e que não se deveria usar calçados (ou calçados de algodão). Os pontos seriam cantados sem ajuda de atabaques (há uma entrevista em que Zélio diz que para o chefe, atabaque era perda de tempo), assim como não se podia bater palmas para acompanhar o ritmo.

Nenhum trabalho poderia ser cobrado e todos que quisessem trabalhar deveriam fazê-lo pela caridade.

A Tenda Nossa Senhora da Piedade (TENSP, para facilitar), notabilizou-se pelo socorro aos “loucos” e pelo incansável trabalho espiritual realizado. Há um documento, disponibilizado por Lilia Ribeiro, provavelmente da década de 1970, e que nos dá dimensão do trabalho:

Segunda – caboclos;

Terça – caboclos e pretos-velhos;

Sexta – pretos-velhos.

Além disso, haviam sessões de desenvolvimento mediúnico, fechadas ao público, às quartas-feiras, divididas em duas partes: a primeira hora, com o desenvolvimento propriamente dito e a segunda, quando os trabalhadores poderiam se consultar com os guias da casa.

Na primeira quinta do mês havia uma sessão especial com o C7E e nas demais quintas havia um grupo de estudos, além de tantas outras tarefas. Haja fôlego!

O regimento interno da TENSP nos dá a impressão de que a casa era muito simples, bem organizada e disciplinada. Tudo ocorrendo conforme as determinações do chefe (como era chamado o C7E) e creio que assim continua até hoje.

A TENSP funcionou em vários locais do Rio de Janeiro e todos, infelizmente, se perderam. Em 2011, a primeira casa da TENSP foi demolida, o que causou muito reboliço na internet. As pessoas se indignavam com o “descaso”.

Porém, recentemente, na palestra já citada em outros textos desta série, Leonardo Cunha, bisneto de Zélio, reforçou que sempre houve preocupação da família em preservar a tradição e não necessariamente estruturas, sendo que seu bisavô era contrário a qualquer iniciativa que visasse culto, seja a personalidade dele, do chefe ou da tenda.

Além do mais, arrematou essa questão polêmica com um pensamento muito simples: Onde estavam essas pessoas que se indignaram pela derrubada da casa? Se queriam tanto preservá-la, por que não fizeram alguma coisa? Os membros da TENSP não tinham condições de comprar o imóvel que havia sido vendido, muitos anos antes, para outras pessoas...

Imagem do google
E isto é uma boa síntese do comportamento brasileiro na internet, ainda mais sobre as questões espirituais: reclama muito, produz pouco...

Alabanda

Hoje se sabe que, inicialmente, o nome do novo “culto” era Alabanda (Ala seria um aportuguesamento da expressão Alláh (Deus, em árabe), e banda (povo). Alabanda seria algo como: Povo de Deus. Era uma homenagem que o C7E havia feito para Orixá Mallet, uma das entidades que se manifestavam através de Zélio e que teria sido muçulmano em sua última encarnação.

Porém, o nome não soava bem e em algum momento foi substituído por Aumbanda, sendo Aum (Deus), banda (povo), mantendo o significado original, mudando apenas a forma de se escrever.

Acredita-se, contudo, que com o passar do tempo, as pessoas ao falarem o nome do “culto” de forma apressada (faça o teste mentalmente) – Aumbanda, acabaram separando o “A”, transformando-o em artigo para se referir a nova religião: a umbanda, portanto, Umbanda!

Existe a palavra “umbanda” entre os povos Bantus, onde é empregada como sinônimo de “curandeiro”, o que fez com que muitos pesquisadores no passado associassem a religião a estes povos (que no Brasil foram responsáveis por formar a nação Congo-Angola, do Candomblé), porém, como vimos, o nome da religião simplesmente não tem nada a ver com isso.

Atualmente

Atualmente, a TENSP realiza uma sessão pública mensal e está situada na rua José Ribamar Pereira Ramos, 271, em Cachoeira de Macacu, Rio de Janeiro, num sítio extremamente exuberante em natureza, com córrego, pedreira, enfim, o sonho de qualquer terreiro...

O número de visitantes é muito grande, razão pela qual, atualmente, é preciso agendar com antecedência a sua visita. Para se ter ideia, não há mais vagas para 2019 e o calendário de 2020 já está se formando.

A TENSP mantém seus trabalhos conforme trazidos pelo C7E há 110 anos.



Até a próxima aula!

Leonardo Montes

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