quinta-feira, 6 de junho de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 11 - ZÉLIO DE MORAES


Imagem do google
A história de Zélio Fernandino de Moraes (10/04/1891 – 03/10/1975), embora relativamente conhecida hoje em dia, ainda é recheada de lacunas que, espero, sejam preenchidas um dia.

Sem dúvida, o nome de Zélio deve ser lembrado, não apenas como o médium-fundador da Umbanda ou como médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas, mas como o de alguém que, durante toda a sua vida, tudo fez para viver coerentemente os valores da religião.

E trago estas certezas não apenas por tudo aquilo que os livros dizem sobre ele ou mesmo o que os seus familiares contam, mas também – e especialmente – sobre aquilo que as entidades me diziam sobre ele:

- Zélio era um dos médiuns como poucos foram no mundo... Certa vez me disse o Pai Cipriano.

A história a que me refiro, contudo, pode ser facilmente encontrada na internet em inúmeras versões mais ou menos acertadas. Seja como for, trarei aqui um breve resumo de cunho pessoal:

Zélio nasceu numa família católica de classe média (e branca) em São Gonçalo, Rio de Janeiro, em 1891, filho de Joaquim Costa e Leonor de Moraes. Recentemente, numa interessantíssima entrevista, o bisneto de Zélio, Leonardo Cunha, revelou que seu trisavô, Joaquim, era proprietário de uma fábrica de cerâmicas, o que proporcionou à família uma condição financeira muito boa.

Quando Zélio contava 17 anos (1908) e se preparava para ingressar na Marinha, uma série de estranhos ataques começaram a se abater sobre ele. Não está muito claro como eram esses ataques, porém, sabe-se que na fase mais aguda, teria ficado de cama, sem poder andar.

A família, buscando alguma solução para o caso, procurou ajuda em um parente padre, que nada teria visto de anormal no garoto e também em um tio médico, que igualmente nada diagnosticou.

Alguém teria dito a mãe do rapaz que se tratava de um “caso de Espiritismo” e que deveriam buscar ajuda na Doutrina Espírita.

Assim, apesar de católico, o pai de Zélio resolveu levá-lo a um centro espírita.

A sessão

As sessões espíritas no começo do século XX eram bem diferentes das atuais. Iniciavam-se com preleções evangélicas e, em seguida, abria-se espaço para as manifestações espirituais onde os médiuns, sentados à mesa principal, onde normalmente havia um forro branco (daí a gíria: Mesa Branca), recebiam os espíritos necessitados que eram atendidos ali mesmo, na frente de todos.

Foi num ambiente semelhante a este que Zélio esteve com seu pai em 15/11/1908.

Após a preleção inicial, o Sr. José de Souza, presidente da sessão, disse que iriam passar à segunda fase dos trabalhos, onde seriam atendidos os espíritos enfermos.

Os médiuns já estavam à mesa, em oração e concentração, quando Zélio, apossado de uma estranha força, levanta-se e diz no meio do salão:

- Aqui falta uma flor!

Dirige-se para fora do centro espírita e, sob olhares atônitos, volta com uma flor que deixa sobre a mesa, retornando ao seu lugar em seguida (quem conhece o rigor dos procedimentos espíritas, deve imaginar que esta atitude não foi bem vista).

Assim que a sessão se iniciou, porém, os médiuns começaram a receber espíritos de ex-escravos e indígenas que foram imediatamente rechaçados pelo dirigente da sessão. Imagino, isto é, especulo, que ao invés de se colocarem na posição de quem pede ajuda, como é típico nas desobsessões, esses espíritos começaram a trazer conselhos, orientações, palavras de ordem evangélica, o que não foi bem visto.

Vamos recordar, conforme já estudamos, que o negro era socialmente visto como inculto, incivilizado, inferior, ao passo que o índio era preguiçoso, marginalizado, selvagem... Assim, quando se manifestavam nos centros espíritas, era para receber ajuda e não para ajudar.

Contudo, vamos recordar mais uma vez o que estudamos no capítulo passado: Não era preconceito religioso, era o reflexo religioso do preconceito que havia em toda a sociedade...

Subitamente, Zélio sentiu-se apossado, novamente, de uma estranha força e, enquanto o dirigente tentava normalizar a situação, levantou-se e disse:

- Por que repelem estes humildes sem sequer ouvir suas palavras? Será preconceito?

Houve, então, um intenso debate no meio do trabalho.

Em algum momento, um médium vidente se dirige a Zélio e pergunta:

- Por que fala desta forma se estou vendo um padre?

- O que você vê são os restos de minha antiga veste carnal, quando fui padre jesuíta.

- Por que deseja que aceitemos a presença destes espíritos que são claramente atrasados?

Ao que “Zélio” teria respondido:

- Se julgam estes espíritos atrasados, amanhã fundarei, na casa do meu aparelho, um culto que falará aos humildes.

Com ironia, o médium perguntou:

- Julga que alguém irá assistir a seu culto? E qual o seu nome?

- Eu colocarei um mensageiro em cada colina de Niterói avisando que amanhã darei início a um culto onde espíritos de pretos e de índios poderão se manifestar e trazer a sua caridade e se queres saber meu nome, que seja: Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois não haverá caminhos fechados para mim!

As narrativas não dão conta do que teria acontecido ao término da sessão, apenas o que se passou no dia seguinte, que será abordado em nosso próximo capítulo.

Curiosidades sobre Zélio

As narrativas sobre a personalidade de Zélio de Moraes nos dão a conhecer um homem dedicado a família, resoluto em suas decisões e obediente às ordens de seus guias espirituais. Alguém que realmente viveu a caridade de forma desinteressada, sem nunca ter auferido ganho financeiro pelo trabalho realizado.

Profissionalmente, dedicou-se à farmácia e durante dois mandatos foi vereador em São Gonçalo, no período de 1924-1929, atuando, principalmente, na educação.

Viveu de forma praticamente anônima, realizando seu trabalho na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade durante toda a sua vida, afastando-se somente nos últimos anos, por problemas de saúde.

Somente na década de 1970, com a divulgação feita por Ronaldo Linares, é que Zélio tornou-se nacionalmente conhecido.

O Velho (Pai Cipriano), sempre me falou de Zélio como um médium formidável, alguém que realmente procurou viver a Umbanda de forma plena, sendo um exemplo de pessoa e médium.

Entretanto, muito pouco sabemos sobre este valoroso trabalhador, que nunca permitiu (como todos os verdadeiros missionários), que se fizesse culto à sua personalidade e nem mesmo gostava que o chamassem de “Pai Zélio”, como é tão comum hoje em dia...

Zélio de Moraes foi o espírito escolhido para romper com os ciclos de viciações mediúnicas que imperavam no Brasil àquele tempo, conforme já estudamos. Por esta razão se encarnou e dedicou toda a sua vida, seu tempo e suas forças em prol do próximo, pavimentando uma via pela qual caminhamos hoje em dia com relativa segurança.

Sem dúvida, entrou para a história da espiritualidade na Terra como alguém que santificou sua mediunidade, sendo modelo para todos nós de modo que, se hoje temos a Umbanda, devemos agradecer a Deus por nos ter enviado este missionário!

História ou Mito?

Ainda hoje, muitos pesquisadores classificam a história de Zélio de Moraes como um “mito de origem”, isto é, uma narrativa a partir da qual estabeleceu-se os fundamentos de uma nova religião ou movimento segundo uma concepção mitológica, não factual.

Não se levou em consideração as gravações em que o próprio Zélio conta sobre sua experiência, o depoimento de amigos e familiares atestando a veracidade da história, ela foi – e continua sendo – entendida como um mito.

Um dos principais argumentos para isso foi que não houve sessão na Federação de Niterói em 15/11/1908, logo a narrativa não seria verdadeira. Mas, será mesmo?

O que ocorreu, na verdade, foi uma confusão quanto ao local.

A sessão que Zélio participou foi a do Centro Espírita Santo Agostinho que cedia, à Federação Espírita do Rio de Janeiro, na cidade de Niterói, uma sala para a realização de suas atividades, já que a federação não tinha sede própria.

Lembre-se que Zélio foi levado por seu pai através de indicações de um amigo. Assim, é possível que, naquele tempo, o referido centro fosse conhecido por “federação”, já que a federação realmente usava uma das salas da instituição.

Esta pesquisa só foi possível recentemente, o que nos mostra uma das facetas mais incríveis da história: a capacidade de ir se transformando conforme novos fatos se apresentem!

Além do mais, a pesquisa acadêmica sobre a Umbanda sempre me pareceu acentuadamente ideológica, retratando a religião como um movimento de “embranquecimento” e, com isso, perda das raízes negras em razão de uma classe média “consumidora” que adorava e odiava o feitiço ao mesmo tempo, como nos narrou João do Rio (visão esta, aliás, que relegou a Umbanda ao desprezo acadêmico).

Os grandes pesquisadores, apoiados nesta ideologia, não aceitavam que uma pessoa de classe média, branca, pudesse ter fundado um movimento novo, vendo em Zélio apenas alguém que ressignificou aquilo que os negros já faziam... É o velho problema de toda ideologia: torcer a realidade para caber em um modelo...

O mito, contudo, está em classificar a Umbanda como uma religião afro-brasileira, ignorando toda a conjuntura espiritual do seu nascimento, que não se deu entre os ex-escravos, seus descendentes ou nas favelas, mas no seio de uma família católica, branca e de classe média do Rio de Janeiro no início do século XX.

É claro que, espiritualmente, essas discussões sociológicas pouco importam. Contudo, na construção de uma narrativa histórica sobre a Umbanda, o quadro é bem diverso e se torna muito importante esclarecer este equívoco que ainda teima em perdurar em livros sobre o assunto.

A Umbanda é uma religião brasileira!

Até a próxima aula,

Leonardo Montes


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3 comentários:

  1. seus textos e suas historias, confirma muitas coisas para mim, eu guardei em uma pasta no meu computador, mais gostaria de se o senhor permitir levar um capitulo por vez para colocar no meu terreiro com a permissão do meu pai de santo e do senhor.

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