sexta-feira, 31 de maio de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 10 - AS RELIGIÕES NO RIO


Imagem do google
Uma das obras mais importantes para conhecermos o “momento religioso” que antecedeu o surgimento da Umbanda, no Rio de Janeiro, é a obra: As Religiões no Rio, de João do Rio.

Este livro, composto de reportagens publicadas em 1904 (e reunidas em um livro em 1906), formam um registro histórico muito importante sobre aquilo que denomino como “efervescência religiosa” no Rio de Janeiro no início do século XX e que nos oferece um panorama sobre a vida religiosa da então capital do Brasil.

Contudo, é preciso olhar a obra com cautela.

A escrita de João do Rio, além de rebuscada (ele era membro da Academia Brasileira de Letras), é recheada de referências cruzadas e citações de obras e autores que, normalmente, são desconhecidos do grande público, o que dificulta, sobremaneira, a leitura.

Além do mais, é composta de frases que soam pejorativas, satíricas e mesmo preconceituosas, dificultando a compreensão do culto por ele descrito. Ademais, enquanto lia, fiquei pensando se o “guia turístico” por ele escolhido não insuflava, propositalmente, situações bizarras para satisfazer a curiosidade do seu “turista”.

Seja como for e mesmo com seus senões, a obra é interessante e nos revela um Rio de Janeiro abundante em termos do que chamarei de “cultos mediúnicos”, já que a descrição de João não é rica o suficiente para determinar, com precisão, a origem e procedência de cada movimento por ele descrito.

Como se pode notar – e este é um alerta muito importante – estudar sobre as religiões não é tarefa fácil em razão da complexidade do tema e de todas as suas nuances. Aliás, isto é uma lição para a vida: buscar sempre observar diferentes ângulos antes de se concluir sobre algo.

Panorama geral

Neste livro, João do Rio visita diversos agrupamentos religiosos, registrando suas observações e opiniões sobre o que via nas mais diversas religiões. A importância destas observações, em nosso estudo, cada vez mais afunilado ao universo da Umbanda, é que ele sustenta um ponto de vista do Caboclo das Sete Encruzilhadas: os trabalhos mediúnicos estavam voltados, preponderantemente, para o mal e é por isso que a Umbanda surgiu!

Vejamos algumas citações que constam em apenas uma página (p.12):

- Vamos lá, dizia eu, camarário, como é que faz para matar um cidadão qualquer?

Eles riam, voltavam o rosto com uns gestos quase femininos.

- Sei lá!

Outros porém tagarelavam:

- V. S. não acredita? É que ainda não viu nada. Aqui está quem fez um deputado! O...

Os nomes conhecidos surgiam, tumultuavam, empregos na polícia, na Câmara, relações no Senado, interferências em desaguisados de famílias notáveis.

- Mas como se faz isso?

- Então o senhor pensa que a gente diz assim o seu meio de vida?

Em outro momento:

Há feitiços de todos os matizes, feitiços lúgubres, poéticos, risonhos, sinistros. O feiticeiro joga com o Amor, a Vida, o Dinheiro e a Morte, como os malabaristas dos circos com objetos de pesos diversos. Todos entretanto são de uma ignorância absoluta e afetam intimidades superiores, colocando-se logo na alta política, no clero e na magistratura. Eu fui saber, aterrado, de uma conspiração política com os feiticeiros, nada mais nada menos que a morte de um passado presidente da República. A princípio achei impossível, mas os meus informantes citavam com simplicidade nomes que estiveram publicamente implicados em conspirações, homens a quem tiro o meu chapéu e aperto a mão. Era impossível a dúvida.”

Na página seguinte:

“Há também feitiços porcos, o mantucá, por exemplo, preparado com excremento de vários animais e coisas que a decência nós salva de dizer; e feitiços cômicos como o terrível xuxuguruxu... Esse faz-se com um espinho de Santo Antônio besuntado de ovo e enterra-se à porta do inimigo, batendo três vezes e dizendo:- Xuxuguruxu io le bará.”

“A policia visita essas casas como consultante. Soube nesses antros que um antigo delegado estava amarrado a uma paixão, graças aos prodígios de um galo preto”. (p. 13)

“Eu vi senhoras de alta posição saltando, às escondidas, de carros de praça, como nos folhetins de romances, para correr, tapando a cara com véus espessos, a essas casas; eu vi sessões em que mãos enluvadas tiravam das carteiras ricas notas e notas aos gritos dos negros malcriados que bradavam: - Bota dinheiro aqui!”. (p. 13)

“- Ah! meu senhor. Não é só por causa do egum que negro mata. Quando as iauô não andam direito, quando não fingem bem, quase nunca escapam de morrer. Há vários processos de morte, a morte lenta, com beberagens e feitiços diretos, a morte na camarinha por sufocação...” (p. 15)

“Quando entramos na sala das almas, à luz fumarenta dos candeeiros a cena era estranha. Havia brancas, meretrizes de grandes rodelas de carmim nas faces, mulatas em camisa, mostrando os braços com desenhos e iniciais em azul dos proprietários do seu amor, e negros, muitos negros. Estes últimos, sentados em roda do assoalho, estavam quase nus, e algumas negras mesmo inteiramente nuas com os seios pendentes e a carapinha cheia de banha.” (p. 16)

- Eles fingem os gestos dos mortos, segredou-me Antônio. Palmas ressoavam estridentes saudando a chegada do invisível, as varas de marmelo lanhavam o ar e as almas, e naquele círculo silvante, ao som dos xeguedés e dos atabaques batiam surdamente no chão aos pulos da dança demoníaca.” (p. 17)

“- Veja V. S. a chantage, murmurou Antônio. Os negros recebem dinheiro antes dos homens e obrigam as criaturas pelo terror a tudo quanto quiserem. Por isso quem descobre o egum, morre”. (p. 17)

João do Rio nos descreve sessões em que as pessoas ficavam nuas, onde sacerdotes recebiam dinheiro previamente para favorecer a consulta para este ou aquele lado, onde pessoas fantasiavam-se de “espíritos” para amedrontar ou extorquir os mais sensíveis, grupos que juravam segredos que, se revelados, eram punidos com a morte, etc.

Até que ponto essas descrições são fiéis, é difícil dizer. Contudo, sabe-se que não foram inventadas, embora provavelmente exageradas, é fato que um pouco de tudo isso havia aquela época como continua havendo hoje em dia.

Atmosfera espiritual

As entidades que me orientaram sempre me falaram das imensas dificuldades que enfrentaram no plano espiritual, antes do nascimento da Umbanda.

Se procuravam se aproximar dos centros espíritas, eram rechaçadas, afinal, o escravo era inculto, não sabia ler nem escrever, o que iria ensinar? E o que dizer do índio, selvagem, vivendo nas matas, clara demonstração de espírito primitivo?

Quando conseguiam brechas nas sessões, eram tratadas como entidades que necessitavam de amparo e socorro, não sendo muito bem toleradas se procurassem instruir e socorrer.

Havia um preconceito latente na sociedade e, “naturalmente”, essas entidades eram vistas como inferiores em razão do preconceito institucionalizado que a sociedade brasileira criou com a ajuda dos portugueses em trezentos anos de escravidão africana e desprezo indígena.

Ao contrário do que muitos pensam, essa recusa entre os espíritas não se baseou no fato das entidades utilizarem elementos como as velas e o cachimbo, por exemplo. Bastaria falar como um escravo ou um índio para logo serem “fraternalmente” socorridas.

Além do mais, estávamos na virada do século, bombardeados de referências iluministas/positivistas francesas onde a razão (e não a religião) era a grande engrenagem daqueles tempos (daí a predileção, nas sessões espíritas, pela manifestação de entidades que foram conhecidas na Terra por seu saber científico ou filosófico e não por entidades que partilhavam outros saberes).

Aqui é importante, contudo, compreender que não se tratava propriamente de preconceito religioso, mas de um reflexo religioso do preconceito que era difundido na sociedade daquele tempo. Portanto, precisamos ter cuidado para não julgar negativamente as pessoas na virada do século, pois nós também temos as nossas contradições hoje em dia.

Vejamos um exemplo:

As giras com os Ciganos, em nossa casa, sem dúvida, são as mais disputadas. Geralmente, aparecem pessoas que nunca vimos antes em nossa casa e, talvez, não vejamos novamente. Trata-se de um trabalho que faz a casa lotar!

Contudo, aqui em Uberaba mesmo, os ciganos são muito marginalizados e malvistos. Possuem fama de ladrões e violentos. Quando surge um acampamento cigano num bairro, a população daquele local faz de tudo para que sumam dali.

Quem é de Uberaba sabe que isto é verdade assim como sei que não ocorre apenas por aqui: em praticamente todo o Brasil os ciganos são malvistos, exceto no terreiro, quando atraem a curiosidade de muitos que mudam de lado na calçada quando veem uma cigana no centro da cidade, mas disputam espaço no terreiro para que suas mãos sejam lidas pelos "ciganos espirituais"...

Por esta razão, em meus estudos, faço questão de deixar claro que não há apenas uma maneira de se ver e perceber as coisas e que, antes de julgarmos negativamente, precisamos refletir, nos avaliar...

Voltando ao contexto espiritual do Brasil, vimos que os centros espíritas não eram os ambientes mais adequados para que as almas de ex-escravos e indígenas pudessem se manifestar. As Macumbas tampouco ofereciam melhores condições, como nos mostra João do Rio. Os Candomblés estavam focados no culto às divindades africanas, enfim, a alternativa mais viável era a criação de um movimento novo, aproveitando o que já havia de religiosidade disseminada entre o povo, a fim de que estas entidades (e tantas outras, com o tempo), pudessem se unir e se manifestar trazendo a sua caridade.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes

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