sexta-feira, 24 de maio de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 08 - O SINCRETISMO


Imagem do google
A partir de agora, o nosso estudo estará, cada vez mais, se afunilando ao universo da Umbanda a fim de compreendermos mais e melhor como a nossa religião surgiu, quais foram as suas influências e como ela se consolidou.

A palavra sincretismo significa: “fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos”

A ideia de sincretismo está tão arraigada à Umbanda que muitas pessoas pensam que apenas a Umbanda passou por um processo sincrético, e não foi. Na verdade, o sincretismo é praticamente inerente à experiência religiosa humana, de modo que todas as religiões são mais ou menos sincréticas, todas absorveram elementos de religiões mais antigas. 

O Cristianismo, por exemplo, nasceu com um judeu (Jesus). Os apóstolos (especialmente Tiago), deram continuidade ao trabalho de Jesus mesclado a elementos do Judaísmo, que era a religião de origem de todos eles. A própria igreja católica, por exemplo, carrega elementos do sincretismo no próprio nome, quando se define “romana”. 

A diferença é que a maioria dos fiéis, conhecendo pouco sobre religião, não compreende que a religião por ele praticada herdou costumes, tradições, mitos e até mesmo divindades de outros povos... Como são religiões muito antigas, suas fontes estão muito distantes no tempo... Já a Umbanda é muito jovem, suas influências podem ser rastreadas com alguma facilidade. 

Assim, tenha em mente que todas as religiões possuem influências de outras religiões mais antigas. A Umbanda não é exceção!

Sincretismo entre os Orixás 

Nos estudos sobre o sincretismo, muito se fala da ligação do Orixá com o Santo, mas pouco se comenta sobre o sincretismo entre os próprios Orixás. No livro: Orixás, de Pierre Verger (p. 08), lemos o seguinte:

Léo Frabenius é o primeiro a declarar, em 1910, que a religião dos iorubás tal como se apresenta atualmente só gradativamente tornou-se homogênea. Sua uniformidade é o resultado de adaptações e amálgamas progressivos de crenças vindas de várias direções. 

Atualmente, setenta anos depois, ainda não há, em todos os pontos do território chamado Iorubá, um panteão dos orixás bem hierarquizado, único e idêntico. As variações locais demonstram que certos orixás, que ocupam uma posição dominante em alguns lugares, estão totalmente ausentes em outros. O culto de Xangô, que ocupa o primeiro lugar em Oyó, é oficialmente inexistente em Ifé, onde um deus local, Oramfé, está em seu lugar com o poder do travão.

Oxum, cujo culto é muito marcante na região de Ijexá, é totalmente ausente na região de Egbá. Iemanjá, que é soberana na região de Egbá, não é sequer conhecida da região de Ijexá. A posição de todos estes orixás é profundamente dependente da história da cidade onde figuram como protetores”.

Perceba, portanto, que cada Orixá era cultuado em uma determinada região e não por todos os povos daquela nação. Aliás, são esses cultos isolados, através das eras, que deram origem aos diversos mitos onde vemos, por exemplos, Orixás que trapaceiam uns aos outros, não se dão bem uns com os outros, etc. Estes mitos, provavelmente, refletem as tensões existentes entre estes povos que, por vezes, guerreavam entre si.

No Brasil, contudo, os escravos foram misturados entre povos de diversas etnias, religiões e tradições, assim, ao mesmo tempo como um processo de resistência, mas também de sobrevivência da cultura, os próprios Orixás acabaram reunidos num panteão, dando origem, assim, ao início do processo sincrético afro-brasileiro.

Um exemplo clássico:

Você já deve ter ouvido falar do Orixá Nanã, certo? Só que Nanã não é um Orixá, é um Vodum. Embora haja certa semelhança entre Orixás e Voduns (e haja quem defenda serem as mesmas divindades, com nomes diferentes), Orixás são crenças dos Iorubas que, conforme já estudamos, viviam predominantemente no país que hoje chamamos Nigéria. Já os Voduns são do antigo Daomé, hoje, Benin, país fronteiriço à Nigéria.

Seja como for, Nanã se tornou Orixá ao mesmo tempo em que continua sendo cultuada como Vodum. Assim, antes de falarmos sobre o sincretismo entre os Orixás e os Santos, é preciso não esquecer que ele começa na reunião dos Orixás, o que se deu em solo brasileiro.

Sincretismo afro-católico

Você deve se recordar que os negros foram proibidos de praticar suas religiões nas senzalas. Assim, por um processo que ninguém sabe bem quando e onde começou, deu-se início o sincretismo entre Santos e Orixás.

A história mais aceita é que os escravos perceberam que poderiam enganar seus proprietários fingindo cultuar os Santos quando, na verdade, cultuavam os Orixás/Inkices/Voduns e o faziam à maneira tradicional: danças, cânticos, festas que, gradativamente, foram permitidas, pois se observou que assim eles “rendiam mais”.

Muitos escravos, quando conseguiam alguma imagem católica, tinham por hábito colocar atrás ou embaixo da mesma um Otá (uma pedra sacralizada para um determinado Orixá). Assim, aos olhos leigos, o escravo rezava para o Santo. Aos olhos do escravo, ele rezava para o Orixá.

Mas, qual a razão de se associar tal Orixá a tal Santo, você já se perguntou isso?

A ideia mais aceita é que, conforme foram conhecendo as imagens e histórias de cada Santo, os escravos buscaram nelas elementos de ligação com os Orixás. Um exemplo clássico é Ogum/São Jorge.

Ogum é o Orixá dos metais e da guerra. Qual Santo se apresenta com metais (armadura, lança, etc) e tem aspecto guerreiro? São Jorge! (Ver: Orixás, Pierre Verger, p. 16)

Xangô, por outro lado, é o Orixá da justiça e foi associado com São Jerônimo, um dos compiladores da Bíblia onde está escrito, para os Cristãos, as leis da Justiça Divina. Além do mais, os Iorubas representam a realeza com um leão e tendo sido Xangô um rei, o mesmo símbolo aparece nas imagens de São Jerônimo.

Como fica evidente, essas ligações sincréticas não foram estabelecidas aleatoriamente. Buscou-se elementos nas imagens ou nas histórias que ligassem ambas as culturas, de forma que um sincretismo foi costurado.

As ligações sincréticas se espalhavam em uma localidade, provavelmente, com a revenda de escravos: cada escravo vendido passava para a nova comunidade a vivência religiosa adquirida na fazenda anterior. Estes valores foram recebidos, rejeitados ou mesmo “amalgamados” aos valores daquela nova localidade. Contudo, se as distâncias aumentavam, o sincretismo variava enormemente.

Assim, ainda hoje, São Jorge é sincretizado com Oxóssi na Bahia, enquanto no Rio de Janeiro é sincretizado com Ogum. Da mesma forma, existem outras tantas variações, por exemplo: Oxum, em nossa casa, é sincretizada com Nossa Senhora Aparecida. Em outros terreiros é sincretizada com Nossa Senhora da Conceição e assim por diante: não há certo ou errado, existem apenas tradições, costumes e origens!

Aliás, quando a internet se popularizou e os umbandistas de norte a sul começaram a conversar entre si, as desavenças eram enormes: um não compreendia como aquele sincretismo que para ele era óbvio podia ser tão diferente para outro. Eu não vivi esta época, pois era adepto do Espiritismo, onde observei o mesmo processo, contudo, conversei com muitas pessoas que me narraram as imensas disputas ocorridas, inicialmente, através das listas de e-mail e, posteriormente, no falecido (e saudoso), Orkut.

As representações sincréticas entre Santos e Orixás são facilmente encontradas na internet, razão pela qual não me aprofundarei no assunto. Além do mais, voltarei a ele quando estudarmos, especificamente, sobre os Orixás. Neste momento, o essencial é que você entenda a origem e razão do sincretismo.

Atualmente

Se, inicialmente, o sincretismo surgiu como fruto da repressão, com o passar do tempo se tornou cultura. A prova disso é que a escravidão foi extinta em 1888 e, mesmo tendo se passado 131 anos, o sincretismo ainda permanece entre nós de tal forma que o “Orixá se tornou o Santo e vice-versa”.

Ainda hoje, tanto na fala de adeptos dos Candomblés quanto da Umbanda, os termos Orixá/Santo são usados como sinônimos, embora, doutrinariamente se saiba que um não ocupa o espaço do outro, no imaginário popular eles se tornaram um só.

Entretanto, alguns anos atrás, adeptos dos Candomblés começaram a difundir pelas redes sociais textos que buscavam desassociar o Orixá do Santo, o que ficou conhecido pelo slogan: Iansã não é Santa Bárbara. Estas pessoas veem o sincretismo como uma forma de repressão e desejando resgatar de alguma maneira a originalidade de seus cultos, querem definitivamente dissociá-lo de suas práticas.

Esta me parece uma tendência deste seguimento que também influenciou muitos terreiros de Umbanda. Como meu objetivo é fazer um estudo sobre a Umbanda, nada comentarei sobre esta tendência dos Candomblés, mas gostaria de algo dizer em relação à Umbanda:

O sincretismo não é uma ameaça para nós!

Não é um defeito, muito menos um desvalor. Pelo contrário, é um valor da Umbanda e uma das características que mais define a brasilidade das nossas crenças que são, justamente, a fusão de elementos de diversas outras tradições religiosas.

Quando um umbandista reza para Oxalá olhando a imagem de Jesus Cristo (de braços abertos, acolhendo a todos), ele não entra em dissonância cognitiva imaginando que está pensando em um e olhando para outro... Ele vê uma só força a quem ele reza de todo o seu coração.

Quando reza para São Jorge, ele não pensa que está rezando para o Orixá dos metais, mas para uma força guerreira, força que ele evoca, não importando o nome pelo qual seja reverenciada, pois sabe que, independentemente disto, esta força responderá dando-lhe coragem para vencer as lutas do dia-a-dia.

É certo que existem casas de Umbanda que abandonaram o sincretismo e elas certamente têm liberdade para fazê-lo. Contudo, fique bem entendido que o sincretismo é inerente à Umbanda, foi trazido por um Preto-Velho (que provavelmente vinha de uma cultura Ioruba) e faz parte da imensa maioria dos terreiros e, como tal, não deve ser desmerecido ou desvalorizado.

Ponto sobre sincretismo

Há uma cantiga sobre o sincretismo na Umbanda muito bonita. Não conheço a autoria, mas vale muito assisti-la:


Até a próxima aula!

Leonardo Montes
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