terça-feira, 21 de maio de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 07 - O ESPIRITISMO

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O Espiritismo nasceu na França, em 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Nos doze anos seguintes, espalhou-se por toda a Europa e América, tendo chegado ao Brasil bem rapidamente.

A primeira notícia que se tem do Espiritismo por aqui foi trazida pelo próprio Allan Kardec, quando publicou um artigo no mês de novembro de 1865, na Revista Espírita, chamado: O Espiritismo no Brasil.

(Será que Kardec imaginava que, um dia, o Brasil seria a pátria do Espiritismo? É pouco provável...)

Ainda em 1865, em 17 de setembro, o jornalista Luís Olímpio Teles de Menezes, funda em Salvador – BA, o: Grupo Familiar de Espiritismo, primeiro centro espírita formalmente constituído que se tem conhecimento.

No espaço de poucos anos, vários outros centros são fundados, atraindo a atenção da elite intelectual brasileira que sempre esperava com certa ansiedade as novidades vindas do “velho mundo”.

Os fenômenos mediúnicos aqui eram abundantes e os intelectuais, já um tanto distanciados das explicações da igreja católica, buscavam uma nova forma de lidar com esses fenômenos sem que fosse preciso recorrer as crenças anímicas dos negros: o Espiritismo caiu como uma luva!

Contudo, a formação e consolidação do Espiritismo no Brasil não foi pacífica. Os espíritas logo se polarizaram em duas frentes que disputavam o controle sobre o crescente movimento espírita nacional. De um lado os místicos e de outro os científicos.

Os místicos na verdade eram religiosos e defendiam a doutrina como uma nova religião; os científicos, como o próprio nome indica, viam no Espiritismo uma nova ciência e queriam afastá-lo da ideia religiosa.

Esses grupos conviveram durante um bom tempo com alguma tensão, não raro, se atacando mutuamente pelos jornais. A cada artigo novo publicado, vinha logo um outro combatendo. Essa polarização criou muita tensão sobre o novo e frágil movimento.

Os místicos saíram vitoriosos, principalmente pela liderança e carisma de Bezerra de Menezes, enquanto os científicos caíram no esquecimento. Desde então, o movimento se consolidou de forma acentuadamente religiosa, característica que pode ser percebida até os dias de hoje.

Visando acabar com as tensões e estender este modelo para todo o país, Augusto Elias da Silva, criador do jornal espírita “O Reformador”, promoveu um encontro entre líderes espíritas na capital, Rio de Janeiro, e juntos fundaram a Federação Espírita Brasileira (FEB) em 1884, ativa e atuante até os nossos dias.

Modelo religioso

Quem conhece a obra de Allan Kardec percebe, claramente, que o movimento feito no Brasil se assemelha muito pouco ao modelo francês (isto não é uma crítica, mas um fato) que era, sobretudo, de caráter filosófico e pouco religioso.

A FEB, por outro lado, instituiu um modelo que falava às massas, especialmente, pelo trabalho caritativo exercido e incentivado por ela desde o princípio.

O Espiritismo caiu no gosto popular e foi se desenvolvendo muito aceleradamente por aqui (Emmanuel viria a dizer, na década de 1970, que muitos espíritas franceses reencarnaram no Brasil para alavancar o movimento por aqui).

O rápido crescimento (como aconteceu com a Umbanda) teve suas desvantagens: muitos centros foram criados, mas poucos tinham estrutura doutrinária para funcionar. A inserção de “práticas estranhas” e a difusão de conceitos errôneos se espalhou por toda parte.

Além do mais, as entidades federativas estaduais viviam em conflito umas com as outras e com a matriz, FEB. A desorganização chegou a tal ponto que alguns líderes espíritas preocupados com o rumo do movimento mobilizaram forças por todo o Brasil no sentindo de conscientizar outras lideranças sobre a importância de unirem suas forças.

Em outubro de 1949, foi assinado o “Pacto Áureo”, um acordo entre as entidades federativas estaduais visando unificar o movimento espírita. Foi graças a este pacto que o movimento alcançou a “uniformização” que vemos hoje na maioria dos centros espíritas.

Popularidade

O Espiritismo caiu no gosto popular. Era uma religião vinda da Europa, especialmente da França, país que gozava de muito estima na época. A elite intelectual aderiu, os livros foram publicados, o povo adorou. Os trabalhos de caridade, o receituário mediúnico, as psicografias, chamaram a atenção de todo mundo.

Conceitos como mediunidade, reencarnação, vida após a morte, que já eram de interesse dos brasileiros, passaram a ter uma explicação lógica, sensata, baseada em fatos e com argumentos sólidos trazidos pelo Espiritismo.

Assim, a doutrina se enraizou de forma tão profunda que mesmo pessoas de outras crenças, não raro, acreditavam em seus princípios, embora não a professassem.

O Espiritismo se difundiu tanto que se tornou sinônimo de Espiritualismo. Assim, ao invés de se dizerem espiritualistas, as pessoas que de alguma forma tinham alguma crença na existência de algo além da matéria diziam-se espíritas. Tudo que envolvia mediunidade ou espíritos passou a ser chamado de Espiritismo, mesmo sem o ser, de fato.

Essa visão, de certa forma, foi embasada pelo próprio Kardec, quando escreveu em O Livro dos Médiuns que o espírita era aquele que “crê na manifestação dos espíritos”.

Este conceito, generalizando-se pelo Brasil, trouxe inúmeros inconvenientes, pois muitos brasileiros acreditavam na manifestação dos espíritos sem necessariamente serem adeptos do Espiritismo. Assim, cartomantes passaram a se dizer espíritas; umbandistas passaram a se dizer espíritas e praticamente qualquer pessoa com qualquer ligação espiritual passou a se definir como espírita e isso é perceptível ainda hoje.

O problema é que na época em que Kardec escreveu suas obras não havia nenhum seguimento que pudesse se apropriar deste conceito, já que havia basicamente apenas as igrejas cristãs na Europa. Aqui, porém, a história foi outra...

Esta é uma das razões pelas quais muitos terreiros de Umbanda se dizem centros espíritas... Contudo, voltaremos a este assunto mais tarde.

Espiritismo X Umbanda

Uma das coisas que mais me impressionou quando comecei a estudar sobre a Umbanda foi conhecer as ligações que a mesma possuía com o Espiritismo... Mesmo tendo permanecido tanto tempo no meio espírita e estudado tão bem sua história, eu nunca havia lido sequer um autor espírita que mencionasse uma ligação histórica entre Espiritismo e Umbanda.

E, com pesar, devo dizer que acredito isso tenha ocorrido de forma proposital. Não interessava aos líderes espíritas na época ter o movimento associado com qualquer outra prática religiosa, especialmente a Umbanda, que ao fazer uso de elementos de trabalho, sempre causou abominação aos espíritas mais conservadores.

Contudo, não podemos pensar nesta recusa apenas como preconceito. É preciso recordar que estes líderes batalharam muito para que a doutrina fosse conhecida pela massa, tolerada pela igreja e aceita pelos intelectuais. 

Obviamente isso não era fácil e não os ajudava em nada ter que lidar com uma multidão de pessoas que se definiam como espíritas e chamavam suas instituições de centros espíritas sem, de fato, atuarem conforme o modelo espírita e, especialmente, o modelo religioso do Espiritismo no Brasil.

É claro que houveram outras razões para os umbandistas se definirem como espíritas, contudo, abordaremos isto em outro momento.

Influências

As principais influências do Espiritismo sobre a Umbanda foram em relação aos estudos sobre mediunidade, reencarnação e moral cristã. O próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas, através do regimento interno da Tenda Nossa Senhora da Piedade, recomendava o estudo de: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e de O Evangelho Segundo o Espiritismo, todos de Allan Kardec.

E, certamente, o Caboclo sabia o que estava fazendo, já que estas obras são, realmente, essenciais para o estudo da mediunidade, reencarnação, vida após a morte e também do evangelho, não sendo superadas ainda hoje. Aliás, o próprio termo “médium”, amplamente usado no meio umbandista é uma herança direta da influência espírita.

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As primeiras casas de Umbanda trabalhavam de forma bem diferente do que se verifica hoje, sendo comum que houvesse uma grande mesa central onde os médiuns recebiam os obsessores antes das consultas, num molde muito semelhante ao que se fazia nas sessões espíritas públicas do início do século XX. Gradativamente, contudo, esse modelo foi desaparecendo, de forma que restam poucas casas que trabalham assim, atualmente.

A Umbanda trilhou um caminho de assistência aberto pelos centros espíritas que, desde fins do século XIX, promoviam sessões públicas, sejam de desobsessão ou de receituário mediúnico. Quando a Umbanda efetivamente surgiu, o brasileiro já estava mais ou menos habituado com as sessões mediúnicas públicas, inauguradas pelos centros espíritas, quarenta anos antes.

Revelação Espiritual

As entidades sempre me ensinaram que não há barreiras para se fazer o bem. Que muitos espíritos que se manifestam tipicamente na Umbanda podem se manifestar onde se faça necessário, adaptando, claro, sua forma de trabalho, de modo que as fronteiras humanas não incidem sobre as liberdades espirituais.

Por esta razão, muitos pretos-velhos e caboclos, por exemplo, atuam em centros espíritas e entidades que comumente estão ligadas ao Espiritismo também se manifestam na Umbanda auxiliando onde seja possível. Isso não se restringe à relação Umbanda/Espiritismo: os bons espíritos auxiliam onde quer que haja necessidade!

Esse intercâmbio espiritual, naturalmente, aproximará ambas as religiões, o que já tem acontecido, aliás. Eu mesmo me desenvolvi numa casa que era, claramente, meio espírita, meio umbandista e não raro converso com pessoas que atuam em casas onde se trabalha com as duas correntes, embora o façam em dias separados.

Porém, deixo claro que não acredito, propriamente, na umbandização dos centros espíritas ou na espiritização dos terreiros. Acredito que essa aproximação cultural favorece o aparecimento de uma terceira via, de casas mistas, que serão responsáveis por quebrar as barreiras de gelo que envolvem as duas religiões que, no fundo, podem ser consideradas religiões-primas.

O Velho sempre me ensinou: O Espiritismo precisa ser menos rígido e a Umbanda mais pé no chão

Conclusão

No estudo passado, vimos que uma das vias de influência sobre a Umbanda foram os Candomblés, especialmente as nações Ketu/Angola através das Macumbas. Hoje, conhecemos a segunda grande via de influência sobre a religião, que foi o Espiritismo, através de seus estudos sobre a mediunidade, reencarnação e dos evangelhos.

No próximo estudo, conheceremos a última grande via de influência (houveram outras menores), que foi o sincretismo com o Catolicismo. Estas três influências: africana, espírita e católica, foram fundamentais para delinear a Umbanda e é por esta razão que considero inadequado se referir a mesma como uma religião afro-brasileira, pois a contribuição do Espiritismo e do Catolicismo foram fundamentais pra estrutura-la.

Ao invés disso, prefiro dizer: religião brasileira! Onde crenças afro, espíritas e católicas se encontraram e deram-se as mãos em prol de um bem maior!

Até a próxima aula.

Leonardo Montes.


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