sexta-feira, 17 de maio de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 05 - CABULA E A MACUMBA

Foto do livro: UMBANDA – A MANIFESTAÇÃO DO ESPÍRITO PARA A CARIDADE (p. 206)

Em fins do século XIX e início do século XX, temos notícias de uma religião misteriosa que se desenvolveu principalmente no Espírito Santo, chamada: Cabula.

A palavra Cabula, provavelmente, deriva de Cabala (de origem judaica) e que deve ter sido propagada por influência dos povos malês que foram escravizados no Brasil e que tinham uma cultura islamizada por conta das invasões árabes no norte da África, de onde vieram.

A primeira menção a esta religião que se tem notícias veio através do bispo João Batista Corrêa Nery em uma carta que foi descoberta pelo pesquisador Nina Rodrigues que a inseriu em seus livros.

Nesta carta, o bispo relata ter conhecido uma “seita” estranha e misteriosa em sua visita à cidade de São Mateus, no norte do estado. Tão impressionado ficou com tudo que ouviu dos moradores locais quanto de ex-praticantes que se dedicou alguns dias a estudar e conhecer o assunto.

A primeira constatação de Nery é que se tratava de uma prática religiosa envolta em mistério e silêncio pelo risco de vida que corriam todos os que se dispunham a “contar os segredos” dos cabulistas (praticantes de Cabula).

Havia uma jura de morte por envenenamento caso tais segredos fossem revelados (eu especulo que tenha surgido aqui esse mito que perpetua até os nossos dias, algo adaptado, de que se a pessoa sair da Umbanda ela será castigada, sua vida desandará, etc).

Mesmo com esses receios, algumas pessoas se dispuseram a falar e o que foi registrado por Nery foi fundamentalmente importante para compreendermos não só essa misteriosa religião, mas os antecedentes da própria Umbanda, que como vimos em estudo anterior, estava sendo implantada pelo Mundo Espiritual, embora sem relativo sucesso até 1908.

Esta carta é de 1901, mas Nery relata que a “seita” existia mesmo antes da abolição da escravatura e que, àquela altura, contava com adeptos brancos e negros, chegando a mais de oito mil integrantes, o que o surpreendeu fortemente por se tratar de um movimento muito grande numa localidade tão distante dos grandes centros urbanos.

As cerimônias da Cabula ocorriam nas matas fechadas, distantes de olhos curiosos. O iniciante na religião era chamado de Cafioto. Os adeptos homens mais experientes eram chamados de Macambos e as mulheres de Macambas. O local das reuniões era chamado de Camucite.

Os homens usavam camisa e calça brancas, um cinturão com símbolos religiosos e um gorro branco do tipo muçulmano à cabeça. As mulheres deviam usar uma vestimenta semelhante, talvez com uma saia.

Os apetrechos de trabalho incluíam espelhos, pedras, cachimbos, ervas e um altar com imagens católicas sobre uma mesa. O chefe do trabalho era chamado de Embanda e era auxiliado por um Cambone, a quem competia acender o cachimbo ou charuto e acompanhar a entidade em sua manifestação.

Nestas reuniões manifestavam-se espíritos de pretos-velhos, caboclos, exus, pombagiras, etc. As entidades faziam uso do fumo e também bebidas que iam do vinho à cachaça. Ao que parece, não havia a divisão de linhas: as entidades se manifestavam de forma mista, ou seja, num trabalho poderia estar em terra um preto-velho, um caboclo, um exu e uma pombagira ao mesmo tempo.

Essas reuniões se davam preferencialmente em torno de uma grande árvore onde se fazia um grande círculo de pessoas. Durante o ritual, andava-se em círculo por toda extensão ao redor da árvore até que entrassem em transe, recebendo as entidades, quando, então, formava-se uma Engira (é provável que venha daqui o termo “gira” aplicado aos trabalhos atuais de Umbanda).

As entidades, quando manifestadas, eram chamadas de tatás (pelo grande número de palavras em Quimbundo, percebe-se que havia muita influência Bantu na Cabula). Cada grupo de Cabula era chamada de Mesa.

Os rituais eram iniciados com uma oração, seguidos de pontos cantados, como o que se segue:

"Dai-me licença, Carunga
"Dai-me licença, tatá
"Dai-me licença, baculo
Que o embanda qué[r] quendá[r]".

Existem outros detalhes interessantíssimos sobre esta prática, porém, não a abordarei aqui. Meu objetivo é oferecer, em linhas gerais, um panorama sobre este movimento que, sem dúvida, poderia ser classificado como precursor da Umbanda.

Contudo, apesar das semelhanças, haviam diferenças gritantes entre a Umbanda e a Cabula. Por exemplo:

Quando o Embanda incorporava, o Cambone trazia brasas para que este colocasse na boca, enquanto cantava pontos (talvez aqui tenha nascido as famosas provas de fogo, cujo objetivo era o de comprovar se a pessoa estava mesmo incorporada).

Os demais médiuns, em transe, eram testados com azeite fervente: se estivessem mesmo incorporados, não deviam se queimar.

Para purificarem-se, o Embanda passava uma vela acesa sobre o corpo do médium. Se a vela se apagasse, era sinal de pouca fé, o que lhe renderia castigos físicos através de uma palmatória.

Os novatos deviam passar três vezes por debaixo das pernas do Embanda, como prova de submissão a ele.

Os trabalhos não tinham diretriz moral definida, pendendo para o bem ou para o mau, conforme os interesses.

Inicialmente, os trabalhos visavam atender a demanda dos escravos por liberdade ou melhores condições de vida. Posteriormente, passaram a atender interesses diversos e, por fim, criaram um clima de agitação nas cidades vizinhas que temiam os feitiços, causando conflitos, inclusive, entre diversas Mesas, às quais se destacavam a de Santa Bárbara e a de Santa Maria.

Padrinho Juruá registra em seu livro (p. 223) o seguinte relato de um ex-cabuleiro:

“- Houve um ponto que foi um confronto entre duas mesas de Cabula. Uma de Santa Maria (a mais frequentada) e outra de Santa Bárbara (de menor número de adeptos). Eu estava na mesa de Santa Maria. Era um cabuleiro querendo matar o outro. Um chamava-se Sebastião e o outro Zé Gonçalves, mas esse era mais conhecido com Zé da mesa de Santa Bárbara.

- Quando estava acabando a sessão na de Santa Maria, apareceu uma cobra no meio da mesa. O cabuleiro ordenou ao seu cambone que não deixasse ninguém matar ou tocar nela. Pegou uma zema (areia) e soprou em cima da cobra, dizendo que foi o Zé da mesa de Santa Bárbara quem havia enviado a cobra para matá-lo. Colocou levemente a mão sobre ela. E ela morreu logo em seguida.

- Depois de encerrado a sessão da Cabula, ele convidou os participantes a seguirem com ele para a beira do rio, a fim de apreciar o corpo de Zé da mesa de Santa Bárbara passar para o cemitério. E não é que apareceu uma canoa com o corpo do Zé? Uma grande canoa de pequi, com adeptos da mesa de Santa Bárbara, em silêncio, trazendo o defunto do cabuleiro inimigo para ser enterrado no cemitério de Itaúnas.”

O fim da Cabula, contudo, é um dos episódios mais nefandos de intolerância religiosa que já tive notícias, pois a igreja pressionou o Estado que passou a ver a Cabula como atividade criminosa, intensificando as perseguições que, não raro, culminavam em chacinas.

Os cabuleiros que não foram mortos acabaram deixando a prática para sempre e uma parte acabou migrando para o Rio de Janeiro, levando consigo a tradição religiosa aprendida e que seria mesclada ao culto aos Orixás, efervescente na capital a época, dando origem a uma religião muito semelhante a Cabula e que ficou conhecida como Macumba.

MACUMBA CARIOCA

Quando você ouve a palavra Macumba, o que lhe vem à mente? Provavelmente, algum despacho numa encruzilhada com um alguidar, velas, bebidas... Não é mesmo?

Se pesquisar na internet, encontrará outras tantas informações: Macumba era um instrumento, como um reco-reco; Macumba era uma árvore; Macumba era um tambor, e assim vai.

Toda essa confusão gira em torno da polissemia, isto é, os diversos significados atribuídos a uma mesma palavra ou expressão. Por exemplo, quando alguém diz que está comendo um “pé-de-moleque” você sabe que é um doce e não o pé de uma criança, certo?

O mesmo acontecia com o termo Macumba que passou a ser usado para definir tanto um tipo de reco-reco, quanto uma árvore, quanto um tambor, etc. Todos estes significados estão corretos, cada um em seu contexto. A origem etimológica do termo, porém, varia tanto que nem me arriscarei a dar uma definição mais ou menos precisa.

O que importa a este estudo é saber que a Macumba (também chamada de Macumba Carioca, por ter florescido no Rio de Janeiro), foi uma religião oriunda da fusão da tradição cabuleira com diversos outras influências religiosas existentes na capital (Angola, Nagô, Candomblé de Caboclo, etc), principalmente, devido ao fluxo migratório pós-escravidão.

Foto do livro: UMBANDA – A MANIFESTAÇÃO DO ESPÍRITO PARA A CARIDADE (p. 207)
Se a Cabula se desenvolvia de forma secreta, em meio às matas, a Macumba se deu no meio da cidade, do centro à periferia, espalhando-se de forma vertiginosa, a ponto de, em 1904, João do Rio, ao publicar o clássico “Religiões do Rio”, afirmar:

“Nós dependemos do feitiço. Não é um paradoxo, é a verdade de uma observação longa e dolorosa. Há no Rio, magos estranhos que conhecem a alquimia e os filtros encantados, como nas mágicas de teatro, há Espíritos que incomodam as almas para fazer os maridos incorrigíveis voltarem ao tálamo conjugal, há bruxas que abalam o invisível só pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses homens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscutível valor do feitiço, do misterioso preparado dos negros”. (p. 09)

Os macumbeiros também trabalhavam de branco e, por vezes, com roupas coloridas. As entidades fumavam, bebiam, riscavam ponto, da mesma forma que se fazia na Cabula.

Os macumbeiros (praticantes da Macumba) tocavam freneticamente os tambores e as reuniões não tinham hora para acabar. Manifestavam-se espíritos de ancestrais africanos, caboclos, exus, etc.

Quando incorporados, para atestar a veracidade da manifestação, queimava-se pólvora nas mãos do médium ou eram obrigados a caminhar sobre cacos de vidro ou ainda comê-los.

Os trabalhos também eram amorais e, aparentemente, desequilibrados para o lado do mal, pois os relatos de pessoas que procuravam as casas de Macumba para pedir malefícios aos seus desafetos era muito grande, além de, obviamente, serem pagos...

A sociedade carioca ao mesmo tempo fomentava o feitiço, como escreveu João do Rio, e o detestava profundamente. O preconceito ganhou novo fôlego. As repressões policiais motivadas pela pressão da igreja se intensificaram fortemente (falaremos mais sobre isso no capítulo das perseguições).

Diferentemente da Cabula, contudo, a Macumba não foi extinta na força da bala, mas foi se transformando. Com a popularização da Umbanda, muitos macumbeiros continuaram a exercer o seu ofício, chamando-o, agora, de Umbanda, ao passo que outros tantos migraram para os Candomblés e talvez alguns poucos ainda mantenham suas práticas em pequenos grupos espalhados aqui e ali.

CABULA – MACUMBA – UMBANDA

Os pesquisadores do passado, enxergando na Umbanda muitos elementos ritualísticos semelhantes às anteriores, terminaram por concluir (e esta é a visão dominante no meio acadêmico), que a Umbanda seja uma espécie de Macumba “esbranquiçada”, “espiritizada”, adaptada ao gosto da classe média carioca no início do século XX, sem muitos elementos “dos negros” em sua formação.

Esta visão me parece completamente ideológica e foi responsável por legar a Umbanda, no seio acadêmico, a um campo terciário, pois muitos intelectuais a viram apenas como “sincretismo”, uma prática que perdeu a sua “essência negra” e, portanto, pouco interessante culturalmente.

O que estes pesquisadores ignoravam (e continuam ignorando) é que a Umbanda não foi construída apenas e tão somente por movimentos humanos, mas por força da Espiritualidade Superior, que procurando edificar na Terra o movimento que permitisse às entidades praticar a sua caridade e não encontrando campo fértil na Cabula e na Macumba, deram origem a uma nova frente de trabalho, profundamente entrelaçada com a moral Cristã (algo que as anteriores não possuíam), e que chamamos hoje de Umbanda.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes

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6 comentários:

  1. Olá, Leonardo.
    Mais uma aula muito interessante!
    Gostaria de saber se existe alguma relação entre a cabula e o batuque, muito praticado no Rio Grande do Sul (acho que a maioria dos terreiros, que lá se chama terreirA com "a" no final, é praticante de batuque). Pergunto isso pois reconheci no seu texto dois termos usados por lá:"engira" e "cafioto", daí minha curiosidade. Sei quase nada sobre o batuque e muito pouco dobre a Umbanda, mas estou aprendendo muito com seu canal no You Tube e com o curso. Gratidão! Sucesso!

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  2. Oi, Débora. Esta é uma boa pergunta, contudo, não sei te responder. Na verdade, nesta caminhada, nunca encontrei alguém que participasse do Batuque. Já li algumas coisas na internet, mas nunca tive contato.

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  3. Será que é dai que vem o termo "encabulado"? rs

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    1. Também não sei. Já ouvi dizer que é de onde veio o termo "cabuloso".

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