sexta-feira, 31 de maio de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 10 - AS RELIGIÕES NO RIO


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Uma das obras mais importantes para conhecermos o “momento religioso” que antecedeu o surgimento da Umbanda, no Rio de Janeiro, é a obra: As Religiões no Rio, de João do Rio.

Este livro, composto de reportagens publicadas em 1904 (e reunidas em um livro em 1906), formam um registro histórico muito importante sobre aquilo que denomino como “efervescência religiosa” no Rio de Janeiro no início do século XX e que nos oferece um panorama sobre a vida religiosa da então capital do Brasil.

Contudo, é preciso olhar a obra com cautela.

A escrita de João do Rio, além de rebuscada (ele era membro da Academia Brasileira de Letras), é recheada de referências cruzadas e citações de obras e autores que, normalmente, são desconhecidos do grande público, o que dificulta, sobremaneira, a leitura.

Além do mais, é composta de frases que soam pejorativas, satíricas e mesmo preconceituosas, dificultando a compreensão do culto por ele descrito. Ademais, enquanto lia, fiquei pensando se o “guia turístico” por ele escolhido não insuflava, propositalmente, situações bizarras para satisfazer a curiosidade do seu “turista”.

Seja como for e mesmo com seus senões, a obra é interessante e nos revela um Rio de Janeiro abundante em termos do que chamarei de “cultos mediúnicos”, já que a descrição de João não é rica o suficiente para determinar, com precisão, a origem e procedência de cada movimento por ele descrito.

Como se pode notar – e este é um alerta muito importante – estudar sobre as religiões não é tarefa fácil em razão da complexidade do tema e de todas as suas nuances. Aliás, isto é uma lição para a vida: buscar sempre observar diferentes ângulos antes de se concluir sobre algo.

Panorama geral

Neste livro, João do Rio visita diversos agrupamentos religiosos, registrando suas observações e opiniões sobre o que via nas mais diversas religiões. A importância destas observações, em nosso estudo, cada vez mais afunilado ao universo da Umbanda, é que ele sustenta um ponto de vista do Caboclo das Sete Encruzilhadas: os trabalhos mediúnicos estavam voltados, preponderantemente, para o mal e é por isso que a Umbanda surgiu!

Vejamos algumas citações que constam em apenas uma página (p.12):

- Vamos lá, dizia eu, camarário, como é que faz para matar um cidadão qualquer?

Eles riam, voltavam o rosto com uns gestos quase femininos.

- Sei lá!

Outros porém tagarelavam:

- V. S. não acredita? É que ainda não viu nada. Aqui está quem fez um deputado! O...

Os nomes conhecidos surgiam, tumultuavam, empregos na polícia, na Câmara, relações no Senado, interferências em desaguisados de famílias notáveis.

- Mas como se faz isso?

- Então o senhor pensa que a gente diz assim o seu meio de vida?

Em outro momento:

Há feitiços de todos os matizes, feitiços lúgubres, poéticos, risonhos, sinistros. O feiticeiro joga com o Amor, a Vida, o Dinheiro e a Morte, como os malabaristas dos circos com objetos de pesos diversos. Todos entretanto são de uma ignorância absoluta e afetam intimidades superiores, colocando-se logo na alta política, no clero e na magistratura. Eu fui saber, aterrado, de uma conspiração política com os feiticeiros, nada mais nada menos que a morte de um passado presidente da República. A princípio achei impossível, mas os meus informantes citavam com simplicidade nomes que estiveram publicamente implicados em conspirações, homens a quem tiro o meu chapéu e aperto a mão. Era impossível a dúvida.”

Na página seguinte:

“Há também feitiços porcos, o mantucá, por exemplo, preparado com excremento de vários animais e coisas que a decência nós salva de dizer; e feitiços cômicos como o terrível xuxuguruxu... Esse faz-se com um espinho de Santo Antônio besuntado de ovo e enterra-se à porta do inimigo, batendo três vezes e dizendo:- Xuxuguruxu io le bará.”

“A policia visita essas casas como consultante. Soube nesses antros que um antigo delegado estava amarrado a uma paixão, graças aos prodígios de um galo preto”. (p. 13)

“Eu vi senhoras de alta posição saltando, às escondidas, de carros de praça, como nos folhetins de romances, para correr, tapando a cara com véus espessos, a essas casas; eu vi sessões em que mãos enluvadas tiravam das carteiras ricas notas e notas aos gritos dos negros malcriados que bradavam: - Bota dinheiro aqui!”. (p. 13)

“- Ah! meu senhor. Não é só por causa do egum que negro mata. Quando as iauô não andam direito, quando não fingem bem, quase nunca escapam de morrer. Há vários processos de morte, a morte lenta, com beberagens e feitiços diretos, a morte na camarinha por sufocação...” (p. 15)

“Quando entramos na sala das almas, à luz fumarenta dos candeeiros a cena era estranha. Havia brancas, meretrizes de grandes rodelas de carmim nas faces, mulatas em camisa, mostrando os braços com desenhos e iniciais em azul dos proprietários do seu amor, e negros, muitos negros. Estes últimos, sentados em roda do assoalho, estavam quase nus, e algumas negras mesmo inteiramente nuas com os seios pendentes e a carapinha cheia de banha.” (p. 16)

- Eles fingem os gestos dos mortos, segredou-me Antônio. Palmas ressoavam estridentes saudando a chegada do invisível, as varas de marmelo lanhavam o ar e as almas, e naquele círculo silvante, ao som dos xeguedés e dos atabaques batiam surdamente no chão aos pulos da dança demoníaca.” (p. 17)

“- Veja V. S. a chantage, murmurou Antônio. Os negros recebem dinheiro antes dos homens e obrigam as criaturas pelo terror a tudo quanto quiserem. Por isso quem descobre o egum, morre”. (p. 17)

João do Rio nos descreve sessões em que as pessoas ficavam nuas, onde sacerdotes recebiam dinheiro previamente para favorecer a consulta para este ou aquele lado, onde pessoas fantasiavam-se de “espíritos” para amedrontar ou extorquir os mais sensíveis, grupos que juravam segredos que, se revelados, eram punidos com a morte, etc.

Até que ponto essas descrições são fiéis, é difícil dizer. Contudo, sabe-se que não foram inventadas, embora provavelmente exageradas, é fato que um pouco de tudo isso havia aquela época como continua havendo hoje em dia.

Atmosfera espiritual

As entidades que me orientaram sempre me falaram das imensas dificuldades que enfrentaram no plano espiritual, antes do nascimento da Umbanda.

Se procuravam se aproximar dos centros espíritas, eram rechaçadas, afinal, o escravo era inculto, não sabia ler nem escrever, o que iria ensinar? E o que dizer do índio, selvagem, vivendo nas matas, clara demonstração de espírito primitivo?

Quando conseguiam brechas nas sessões, eram tratadas como entidades que necessitavam de amparo e socorro, não sendo muito bem toleradas se procurassem instruir e socorrer.

Havia um preconceito latente na sociedade e, “naturalmente”, essas entidades eram vistas como inferiores em razão do preconceito institucionalizado que a sociedade brasileira criou com a ajuda dos portugueses em trezentos anos de escravidão africana e desprezo indígena.

Ao contrário do que muitos pensam, essa recusa entre os espíritas não se baseou no fato das entidades utilizarem elementos como as velas e o cachimbo, por exemplo. Bastaria falar como um escravo ou um índio para logo serem “fraternalmente” socorridas.

Além do mais, estávamos na virada do século, bombardeados de referências iluministas/positivistas francesas onde a razão (e não a religião) era a grande engrenagem daqueles tempos (daí a predileção, nas sessões espíritas, pela manifestação de entidades que foram conhecidas na Terra por seu saber científico ou filosófico e não por entidades que partilhavam outros saberes).

Aqui é importante, contudo, compreender que não se tratava propriamente de preconceito religioso, mas de um reflexo religioso do preconceito que era difundido na sociedade daquele tempo. Portanto, precisamos ter cuidado para não julgar negativamente as pessoas na virada do século, pois nós também temos as nossas contradições hoje em dia.

Vejamos um exemplo:

As giras com os Ciganos, em nossa casa, sem dúvida, são as mais disputadas. Geralmente, aparecem pessoas que nunca vimos antes em nossa casa e, talvez, não vejamos novamente. Trata-se de um trabalho que faz a casa lotar!

Contudo, aqui em Uberaba mesmo, os ciganos são muito marginalizados e malvistos. Possuem fama de ladrões e violentos. Quando surge um acampamento cigano num bairro, a população daquele local faz de tudo para que sumam dali.

Quem é de Uberaba sabe que isto é verdade assim como sei que não ocorre apenas por aqui: em praticamente todo o Brasil os ciganos são malvistos, exceto no terreiro, quando atraem a curiosidade de muitos que mudam de lado na calçada quando veem uma cigana no centro da cidade, mas disputam espaço no terreiro para que suas mãos sejam lidas pelos "ciganos espirituais"...

Por esta razão, em meus estudos, faço questão de deixar claro que não há apenas uma maneira de se ver e perceber as coisas e que, antes de julgarmos negativamente, precisamos refletir, nos avaliar...

Voltando ao contexto espiritual do Brasil, vimos que os centros espíritas não eram os ambientes mais adequados para que as almas de ex-escravos e indígenas pudessem se manifestar. As Macumbas tampouco ofereciam melhores condições, como nos mostra João do Rio. Os Candomblés estavam focados no culto às divindades africanas, enfim, a alternativa mais viável era a criação de um movimento novo, aproveitando o que já havia de religiosidade disseminada entre o povo, a fim de que estas entidades (e tantas outras, com o tempo), pudessem se unir e se manifestar trazendo a sua caridade.

Até a próxima aula!

Leonardo Montes

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terça-feira, 28 de maio de 2019

EVITE TOCAR O CONSULENTE DURANTE O PASSE

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Os passes aplicados pelas entidades no terreiro, quase sempre, são feitos através de gesticulações, estalos de dedos ou de imposição de mãos. A entidade incorporada possui a sua própria forma de trabalhar e, frequentemente, usa as mãos do médium como direcionador do fluxo energético emitido.

Algumas entidades gostam de tocar nas pessoas, como o Caboclo Pemba Branca, que eu incorporo, que gosta de colocar a mão sobre o ombro da pessoa quando vai dialogar com a mesma ou a Vó Maria Rosa, preta-velha, que gosta muito de segurar a mão do consulente enquanto conversa com ele.

Até aí, normal.

Contudo, por vezes, a entidade precisa fazer um trabalho mais demorado sobre um chackra ou determinada região do corpo que, se tocadas, podem gerar algum constrangimento. Algumas entidades tocam mesmo o consulente mas, na maioria das vezes, é o médium que não mede o impulso do próprio braço e acaba tocando.

Pode ser que na maioria das vezes não haja nenhum problema, mas é bom evitar dor de cabeça. A ação espiritual promovida pela entidade não prescinde do toque físico, bastando conservar a mão alguns centímetros do corpo do consulente, sem necessidade do toque físico.

Para exemplificar essa questão, vou contar um caso que aconteceu com um antigo conhecido.

Certa feita ele foi a um Centro Espírita tomar passes. Por uma questão “natural” de respeito, as pessoas tiram o boné quando entram para a câmara de passes. Ele não tirou. O passista se aproximou e pediu que o tirasse, ele não aceitou, pois estava ficando careca e não gostava de tirar o boné. O passista insistiu novamente, ao que meu amigo respondeu:

- Se seu passe não passa pelo boné, então, não quero.

Levantou-se e saiu.

Claro que achei um exagero a atitude dele e uma falta de respeito com a boa-vontade do passista...

Porém, no fundo, ele tinha razão: Se era preciso tirar o boné para receber o passe, por que não era preciso tirar toda a roupa? Se o passe passa pela camisa, não passaria pelo boné?

O passe nada mais é do que a transfusão de energias do médium/entidade para o consulente e não entra no corpo pelos poros ou é impedido pela roupa, já que atinge diretamente o corpo espiritual que repassa a energia para o corpo físico, como a circulação sanguínea seguindo seu percurso natural.

Então, da mesma forma, a sugestão é: evite tocar o corpo do consulente, seja homem ou mulher, por que o passe passa por onde tiver que passar até chegar onde deve chegar e bem pode ser que algumas pessoas se sintam incomodadas quando tocadas e acabem por gerar desconfianças e receios em relação ao médium ou mesmo ao terreiro.

Leonardo Montes

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sábado, 25 de maio de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 09 - Código Penal de 1890

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A república nascera em 1889 e, no ano seguinte, aprovara o famoso Código Penal de 1890, inspirado na constituição dos Estados Unidos, mas severamente criticado por diversos setores. Sobre o referido código, vamos pensar sobre os artigos 157 e 158, responsáveis por reforçar estereótipos negativos sobre as “religiões mediúnicas” e toda forma de espiritualidade livre.

Contudo, como nosso curso básico procura oferecer elementos para uma melhor compreensão da Umbanda, vamos analisar e refletir com o máximo de isenção possível, pois é tentador quedarmos para o vitimismo, justificando as repressões apenas e tão somente como formas institucionalizadas de preconceito.

Os artigos

Os artigos 157 e 158 do Código Penal de 1890, dizem:

“Art. 157. Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilegios, usar de talismans e cartomancias para despertar sentimentos de odio ou amor, inculcar cura de molestias curaveis ou incuraveis, emfim, para fascinar e subjugar a credulidade publica: Penas - de prisão cellular por um a seis mezes e multa de 100$ a 500$000.

§ 1º Si por influencia, ou em consequencia de qualquer destes meios, resultar ao paciente privação, ou alteração temporaria ou permanente, das faculdades psychicas:

Penas - de prisão cellular por um a seis annos e multa de 200$ a 500$000.

§ 2º Em igual pena, e mais na de privação do exercicio da profissão por tempo igual ao da condemnação, incorrerá o medico que directamente praticar qualquer dos actos acima referidos, ou assumir a responsabilidade delles.

Art. 158. Ministrar, ou simplesmente prescrever, como meio curativo para uso interno ou externo, e sob qualquer fórma preparada, substancia de qualquer dos reinos da natureza, fazendo, ou exercendo assim, o officio do denominado curandeiro:

Penas - de prisão cellular por um a seis mezes e multa de 100$ a 500$000.

Paragrapho unico. Si o emprego de qualquer substancia resultar á pessoa privação, ou alteração temporaria ou permanente de suas faculdades psychicas ou funcções physiologicas, deformidade, ou inhabilitação do exercicio de orgão ou apparelho organico, ou, em summa, alguma enfermidade:

Penas - de prisão cellular por um a seis annos e multa de 200$ a 500$000.

Si resultar a morte:

Pena - de prisão cellular por seis a vinte e quatro annos.”

Este código foi decretado por Deodoro da Fonseca e seus ministros que viam a necessidade de reformar o código penal brasileiro, não apenas para romper, em definitivo, os laços com o período monarquista, mas para que o Brasil entrasse, efetivamente, numa nova fase.

Você consegue imaginar como este código tornou a vida dos espíritas, candomblecistas e macumbeiros, difíceis? A Umbanda ainda não havia nascido, mas as religiões que a influenciaram, sim.

A esta altura do nosso estudo, você deve ter compreendido que séculos e séculos de desvalorização da cultura do índio e do negro foram responsáveis por gerar um sentimento de negatividade em torno de suas práticas, o que persiste até hoje. Some isto ao poderio da igreja católica que, tanto na monarquia, quanto na república nascente, fora muito influente, apesar dos ares de liberdade e modernidade com que a república foi desenhada.

Lembre-se que estudamos (Cap. 07) que a confusão em torno do que era Espiritismo, fez com que praticamente todas as pessoas que exerciam alguma atividade espiritual se definissem como espíritas. Assim, quando o código afirma que a prática do Espiritismo estava proibida, ele se referia a todas as “religiões mediúnicas” e a qualquer tipo de prática espiritual que não fosse as igrejas cristãs.

Contudo, se avançarmos no estudo do referido código, encontraremos alguns artigos que parecem verdadeiros paradoxos, como o artigo 185, que diz:

“Art. 185. Ultrajar qualquer confissão religiosa vilipendiando acto ou objecto de seu culto, desacatando ou profanando os seus symbolos publicamente: Pena - de prisão cellular por um a seis mezes.”

Você deve estar pensando que as pessoas que fizeram este código não sabiam muito bem o que estavam fazendo, não é? Afinal, como eles podem criminalizar práticas religiosas e ao mesmo tempo dizer que qualquer ultraje às religiões seria passível de prisão?

A resposta, contudo, é muito simples: Eles não viam o Espiritismo, Candomblé, Macumba, etc., como religiões. Viam como práticas negativas, arraigadas, primitivas, desrespeitosas, indecentes e cabia-lhes erradica-las. Religião, mesmo, apenas o Catolicismo, Protestantismo e, talvez, alguma das grandes confissões como o Judaísmo ou Islamismo.

Este código não inventou o asco às “religiões mediúnicas” ou às práticas adivinhatórias, ele apenas a institucionalizou, traduzindo o sentimento da maioria da população que não via (como ainda hoje) as religiões fora das tradicionais com bons olhos (apesar de, hipocritamente, sempre as buscarem).

O código, portanto, ofereceu legalidade às repressões que sempre existiram e inauguraram um período sombrio para todas as práticas espirituais por 50 anos a partir da sua publicação.

Alto e baixo Espiritismo

Lembre-se que, no Brasil, o Espiritismo começou entre as camadas mais altas da sociedade, atraindo a atenção de pessoas com algum poder de influência social e política. Essas pessoas se uniram, não para se opor ao código penal, mas para que não associassem o Espiritismo com outras práticas. O jornal O Reformador (da Federação Espírita Brasileira), publicou uma matéria, da qual podemos extrair o seguinte trecho:

“Hoje, até na imprensa profana já se procura distinguir o verdadeiro do falso espiritismo, já se compreende que a doutrina espírita, como todos os demais credos, teorias e ciências, é susceptivel de falsificações (...) (Reformador, 16 jul. 1919)”. [1]

É neste contexto que surge, pelos meios jornalísticos, as expressões “alto e baixo Espiritismo”. O “alto Espiritismo” era o Espiritismo propriamente dito, popularmente chamado de Kardecismo ou Mesa Branca e o “baixo espiritismo” eram os Candomblés, as Macumbas, o Catimbó e todas as demais “religiões mediúnicas”.

Gradativamente, especialmente pelo apoio político e pelo trabalho social caritativo, a FEB conseguiu demonstrar que suas práticas nada tinham a ver com as dos demais grupos, assim os centros espíritas foram deixados em paz.

É importante registrar que, sim, o Espiritismo sofreu perseguições policiais e, sim, muitos dirigentes de centros foram presos. Contudo com apoio da FEB, este quadro mudou completamente, promovendo certo respeito das instituições políticas em relação às práticas espíritas. Já as religiões afro-brasileiras continuariam a serem perseguidas, aberta ou veladamente, até meados do século XX.

Infelizmente, a FEB e demais lideranças dos centros espíritas perderam a oportunidade de usar da sua força social e política para, de alguma forma, intervir a favor da liberdade de culto... Ao contrário, a estratégia adotada foi de isolamento, distanciamento das demais práticas religiosas. É deste período que nasce o receio que, normalmente, o espírita tem das práticas afro-brasileiras, não conseguindo vê-las, senão, como primitivas e inferiores. Certo, há exceções!

Adendo: Recentemente assisti a uma palestra proferida pela professora Valquíria Velasco, abordando as perseguições policiais no Rio de Janeiro entre 1890 e 1929 e posso dizer, com sinceridade, que tomei um baita susto quando ela afirmou que, em algum momento, as delegacias de polícia começaram a cruzar informações com a FEB para saber se as pessoas presas eram mesmo espíritas ou não. Se a FEB dissesse que sim, eram liberadas. Se disse que não, continuavam presas. Eu nunca li isso em lugar algum, assim, espero um dia poder ler a pesquisa sobre isso, pois certamente é um detalhe “esquecido” da história e que suscitará muitas análises...

Olhando para dentro

É claro que seria bem mais fácil tratar essas perseguições como, simplesmente, frutos da ignorância, do desrespeito, do desvalor e da criminalização das práticas de “baixo espiritismo”, porém, é preciso reconhecer que muitas pessoas desestruturadas, sem formação religiosa adequada também se aproveitaram (como sempre foi comum) para exercerem as suas práticas nefandas.

Ao lado de pessoas que buscavam exercer sua religiosidade de forma serena e tranquila, haviam casas que batiam tambores a noite inteira, o que certamente incomodava os vizinhos que denunciava à polícia que, amparada pelo código penal, prendia àquelas pessoas e fechava a casa.

Ao lado de pessoas que exerciam suas práticas de forma respeitosa, haviam aqueles que não se intimidavam em sacrificar animais e deixá-los nas encruzilhadas.

Ao lado de pessoas que procuravam fortalecer a sua fé religiosa em devoção ao seu Santo/Orixá/Inquice/Vodum, haviam aqueles que usavam da sua religiosidade para ameaçar, amedrontar e até mesmo prejudicar alguém em troca do “vil metal”.

Ao lado dos curandeiros que benziam e curavam com ervas, haviam mercadores do sagrado sempre dispostos a vender fórmulas mágicas para encher seus bolsos.

Ao lado dos médiuns receitistas que recebiam, dos médicos espirituais, receitas de remédios alopáticos, fitoterápicos ou homeopáticos, haviam outros tantos que recebendo vento, também queriam receitar sem condições mediúnicas para isto.

Portanto, ao lado de pessoas sérias e respeitosas, sempre houveram pessoas desestruturadas, exercendo práticas estranhas que serviam de fomento ao preconceito e a discriminação que sempre existiram, mas eram frequentemente reforçados a cada vez que um novo absurdo se apresentava na “praça”.

Conclusão

O Código Penal de 1890, ao criminalizar as “religiões mediúnicas” e demais práticas espirituais, institucionalizara o preconceito e a discriminação. Some-se isto às condenações públicas que a igreja católica promovia, os terreiros que eram apedrejados, os dirigentes presos, os jornais sensacionalistas e as pessoas desequilibradas que exerciam publicamente suas tarefas espirituais e o resultado será um contexto tenso e sombrio.

Daí a importância de conhecer este código, pois quando a Umbanda surge, em 1908, ele estava em pleno vigor, reforçando um estigma social que apenas em meados de 1950 é que perderia força.

Referência

1 - GIUMBELLI, Emerson. O "baixo espiritismo" e a história dos cultos mediúnicos. Horiz. antropol.,  Porto Alegre ,  v. 9, n. 19, p. 247-281,  July  2003 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832003000100011&lng=en&nrm=iso>. access on  25  May  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832003000100011

Até a nossa próxima aula!

Leonardo Montes
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sexta-feira, 24 de maio de 2019

CURSO BÁSICO DE UMBANDA - CAP. 08 - O SINCRETISMO


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A partir de agora, o nosso estudo estará, cada vez mais, se afunilando ao universo da Umbanda a fim de compreendermos mais e melhor como a nossa religião surgiu, quais foram as suas influências e como ela se consolidou.

A palavra sincretismo significa: “fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos”

A ideia de sincretismo está tão arraigada à Umbanda que muitas pessoas pensam que apenas a Umbanda passou por um processo sincrético, e não foi. Na verdade, o sincretismo é praticamente inerente à experiência religiosa humana, de modo que todas as religiões são mais ou menos sincréticas, todas absorveram elementos de religiões mais antigas. 

O Cristianismo, por exemplo, nasceu com um judeu (Jesus). Os apóstolos (especialmente Tiago), deram continuidade ao trabalho de Jesus mesclado a elementos do Judaísmo, que era a religião de origem de todos eles. A própria igreja católica, por exemplo, carrega elementos do sincretismo no próprio nome, quando se define “romana”. 

A diferença é que a maioria dos fiéis, conhecendo pouco sobre religião, não compreende que a religião por ele praticada herdou costumes, tradições, mitos e até mesmo divindades de outros povos... Como são religiões muito antigas, suas fontes estão muito distantes no tempo... Já a Umbanda é muito jovem, suas influências podem ser rastreadas com alguma facilidade. 

Assim, tenha em mente que todas as religiões possuem influências de outras religiões mais antigas. A Umbanda não é exceção!

Sincretismo entre os Orixás 

Nos estudos sobre o sincretismo, muito se fala da ligação do Orixá com o Santo, mas pouco se comenta sobre o sincretismo entre os próprios Orixás. No livro: Orixás, de Pierre Verger (p. 08), lemos o seguinte:

Léo Frabenius é o primeiro a declarar, em 1910, que a religião dos iorubás tal como se apresenta atualmente só gradativamente tornou-se homogênea. Sua uniformidade é o resultado de adaptações e amálgamas progressivos de crenças vindas de várias direções. 

Atualmente, setenta anos depois, ainda não há, em todos os pontos do território chamado Iorubá, um panteão dos orixás bem hierarquizado, único e idêntico. As variações locais demonstram que certos orixás, que ocupam uma posição dominante em alguns lugares, estão totalmente ausentes em outros. O culto de Xangô, que ocupa o primeiro lugar em Oyó, é oficialmente inexistente em Ifé, onde um deus local, Oramfé, está em seu lugar com o poder do travão.

Oxum, cujo culto é muito marcante na região de Ijexá, é totalmente ausente na região de Egbá. Iemanjá, que é soberana na região de Egbá, não é sequer conhecida da região de Ijexá. A posição de todos estes orixás é profundamente dependente da história da cidade onde figuram como protetores”.

Perceba, portanto, que cada Orixá era cultuado em uma determinada região e não por todos os povos daquela nação. Aliás, são esses cultos isolados, através das eras, que deram origem aos diversos mitos onde vemos, por exemplos, Orixás que trapaceiam uns aos outros, não se dão bem uns com os outros, etc. Estes mitos, provavelmente, refletem as tensões existentes entre estes povos que, por vezes, guerreavam entre si.

No Brasil, contudo, os escravos foram misturados entre povos de diversas etnias, religiões e tradições, assim, ao mesmo tempo como um processo de resistência, mas também de sobrevivência da cultura, os próprios Orixás acabaram reunidos num panteão, dando origem, assim, ao início do processo sincrético afro-brasileiro.

Um exemplo clássico:

Você já deve ter ouvido falar do Orixá Nanã, certo? Só que Nanã não é um Orixá, é um Vodum. Embora haja certa semelhança entre Orixás e Voduns (e haja quem defenda serem as mesmas divindades, com nomes diferentes), Orixás são crenças dos Iorubas que, conforme já estudamos, viviam predominantemente no país que hoje chamamos Nigéria. Já os Voduns são do antigo Daomé, hoje, Benin, país fronteiriço à Nigéria.

Seja como for, Nanã se tornou Orixá ao mesmo tempo em que continua sendo cultuada como Vodum. Assim, antes de falarmos sobre o sincretismo entre os Orixás e os Santos, é preciso não esquecer que ele começa na reunião dos Orixás, o que se deu em solo brasileiro.

Sincretismo afro-católico

Você deve se recordar que os negros foram proibidos de praticar suas religiões nas senzalas. Assim, por um processo que ninguém sabe bem quando e onde começou, deu-se início o sincretismo entre Santos e Orixás.

A história mais aceita é que os escravos perceberam que poderiam enganar seus proprietários fingindo cultuar os Santos quando, na verdade, cultuavam os Orixás/Inkices/Voduns e o faziam à maneira tradicional: danças, cânticos, festas que, gradativamente, foram permitidas, pois se observou que assim eles “rendiam mais”.

Muitos escravos, quando conseguiam alguma imagem católica, tinham por hábito colocar atrás ou embaixo da mesma um Otá (uma pedra sacralizada para um determinado Orixá). Assim, aos olhos leigos, o escravo rezava para o Santo. Aos olhos do escravo, ele rezava para o Orixá.

Mas, qual a razão de se associar tal Orixá a tal Santo, você já se perguntou isso?

A ideia mais aceita é que, conforme foram conhecendo as imagens e histórias de cada Santo, os escravos buscaram nelas elementos de ligação com os Orixás. Um exemplo clássico é Ogum/São Jorge.

Ogum é o Orixá dos metais e da guerra. Qual Santo se apresenta com metais (armadura, lança, etc) e tem aspecto guerreiro? São Jorge! (Ver: Orixás, Pierre Verger, p. 16)

Xangô, por outro lado, é o Orixá da justiça e foi associado com São Jerônimo, um dos compiladores da Bíblia onde está escrito, para os Cristãos, as leis da Justiça Divina. Além do mais, os Iorubas representam a realeza com um leão e tendo sido Xangô um rei, o mesmo símbolo aparece nas imagens de São Jerônimo.

Como fica evidente, essas ligações sincréticas não foram estabelecidas aleatoriamente. Buscou-se elementos nas imagens ou nas histórias que ligassem ambas as culturas, de forma que um sincretismo foi costurado.

As ligações sincréticas se espalhavam em uma localidade, provavelmente, com a revenda de escravos: cada escravo vendido passava para a nova comunidade a vivência religiosa adquirida na fazenda anterior. Estes valores foram recebidos, rejeitados ou mesmo “amalgamados” aos valores daquela nova localidade. Contudo, se as distâncias aumentavam, o sincretismo variava enormemente.

Assim, ainda hoje, São Jorge é sincretizado com Oxóssi na Bahia, enquanto no Rio de Janeiro é sincretizado com Ogum. Da mesma forma, existem outras tantas variações, por exemplo: Oxum, em nossa casa, é sincretizada com Nossa Senhora Aparecida. Em outros terreiros é sincretizada com Nossa Senhora da Conceição e assim por diante: não há certo ou errado, existem apenas tradições, costumes e origens!

Aliás, quando a internet se popularizou e os umbandistas de norte a sul começaram a conversar entre si, as desavenças eram enormes: um não compreendia como aquele sincretismo que para ele era óbvio podia ser tão diferente para outro. Eu não vivi esta época, pois era adepto do Espiritismo, onde observei o mesmo processo, contudo, conversei com muitas pessoas que me narraram as imensas disputas ocorridas, inicialmente, através das listas de e-mail e, posteriormente, no falecido (e saudoso), Orkut.

As representações sincréticas entre Santos e Orixás são facilmente encontradas na internet, razão pela qual não me aprofundarei no assunto. Além do mais, voltarei a ele quando estudarmos, especificamente, sobre os Orixás. Neste momento, o essencial é que você entenda a origem e razão do sincretismo.

Atualmente

Se, inicialmente, o sincretismo surgiu como fruto da repressão, com o passar do tempo se tornou cultura. A prova disso é que a escravidão foi extinta em 1888 e, mesmo tendo se passado 131 anos, o sincretismo ainda permanece entre nós de tal forma que o “Orixá se tornou o Santo e vice-versa”.

Ainda hoje, tanto na fala de adeptos dos Candomblés quanto da Umbanda, os termos Orixá/Santo são usados como sinônimos, embora, doutrinariamente se saiba que um não ocupa o espaço do outro, no imaginário popular eles se tornaram um só.

Entretanto, alguns anos atrás, adeptos dos Candomblés começaram a difundir pelas redes sociais textos que buscavam desassociar o Orixá do Santo, o que ficou conhecido pelo slogan: Iansã não é Santa Bárbara. Estas pessoas veem o sincretismo como uma forma de repressão e desejando resgatar de alguma maneira a originalidade de seus cultos, querem definitivamente dissociá-lo de suas práticas.

Esta me parece uma tendência deste seguimento que também influenciou muitos terreiros de Umbanda. Como meu objetivo é fazer um estudo sobre a Umbanda, nada comentarei sobre esta tendência dos Candomblés, mas gostaria de algo dizer em relação à Umbanda:

O sincretismo não é uma ameaça para nós!

Não é um defeito, muito menos um desvalor. Pelo contrário, é um valor da Umbanda e uma das características que mais define a brasilidade das nossas crenças que são, justamente, a fusão de elementos de diversas outras tradições religiosas.

Quando um umbandista reza para Oxalá olhando a imagem de Jesus Cristo (de braços abertos, acolhendo a todos), ele não entra em dissonância cognitiva imaginando que está pensando em um e olhando para outro... Ele vê uma só força a quem ele reza de todo o seu coração.

Quando reza para São Jorge, ele não pensa que está rezando para o Orixá dos metais, mas para uma força guerreira, força que ele evoca, não importando o nome pelo qual seja reverenciada, pois sabe que, independentemente disto, esta força responderá dando-lhe coragem para vencer as lutas do dia-a-dia.

É certo que existem casas de Umbanda que abandonaram o sincretismo e elas certamente têm liberdade para fazê-lo. Contudo, fique bem entendido que o sincretismo é inerente à Umbanda, foi trazido por um Preto-Velho (que provavelmente vinha de uma cultura Ioruba) e faz parte da imensa maioria dos terreiros e, como tal, não deve ser desmerecido ou desvalorizado.

Ponto sobre sincretismo

Há uma cantiga sobre o sincretismo na Umbanda muito bonita. Não conheço a autoria, mas vale muito assisti-la:


Até a próxima aula!

Leonardo Montes
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quarta-feira, 22 de maio de 2019

OBTENDO PROVAS!

Imagem do google

Quando visitei pela primeira vez um terreiro de Umbanda, movido por curiosidade e interesse, intentava obter uma prova, algo que me convencesse da realidade do fenômeno e que provasse que as incorporações eram realmente verdadeiras.

Chegando minha vez para o atendimento, a decepção: fui direcionado a um médium mais jovem que eu (imaginava que os de “cabeça branca” é que deviam ser os “bons”).

Assim que me coloquei à frente do médium, incorporado pelo caboclo, após as saudações costumeiras, o mesmo me disse:

- Sei por que você está aqui!

- Por quê? – Perguntei surpreso e curioso.

- Você foi promovido no serviço e tem receio que seus colegas de trabalho não te aceitem agora como chefe deles...

Eu não me lembro de mais nada do que a entidade disse.

Fiquei tão chocado com aquela fala precisa que tudo o mais se perdeu. Olhei desconfiado para o médium, olhei ao redor, pensando e perguntando a mim mesmo se ele ou alguém ali me conhecia...

Não, ninguém me conhecia...

Eu trabalhava em uma empresa na zona rural, bem distante da cidade onde resido e nenhuma daquelas pessoas me parecia familiar. Além do mais, havia apenas uma semana que havia sido promovido...

Das outras quatro vezes que estive neste terreiro, em três eu obtive apontamentos bastante específicos que me convenceram da realidade do fenômeno. Foi o suficiente para alimentar a minha curiosidade e acender a chama que faria com que nos dois anos seguintes eu buscasse mais informações.

Quando resolvi entrar para a Umbanda, em 2015, novamente tive uma série de provas, que foram desde informações sobre familiares desencarnados que eu mesmo desconhecia à queima de pólvora nas mãos do médium incorporado.

O patrimônio de provas que as entidades voluntariamente me ofereceram (e digo voluntariamente pois, apesar de deseja-las, eu não as pedia) não tiveram apenas por efeito o meu convencimento pessoal, mas o meu despertar e, principalmente, o incentivo ao trabalho mediúnico e de divulgação das verdades espirituais que eu viria a realizar no futuro.

Muita gente da corrente não entendia a razão pela qual as entidades me dedicavam tanto tempo e deferência. Alguns chegavam a me olhar de cara feia, pensando em protecionismo exagerado das entidades e outras tantas suscetibilidades humanas...

O fato, contudo, é que não se tratava de nenhum privilégio... Era, antes, uma preparação!

As entidades reconheciam em mim um potencial maior do que eu mesmo imaginava... Elas estavam, portanto, investindo em mim, sabendo que, no tempo certo, eu haveria de dar frutos e, por isso, me ofereceram tanto quanto puderam, sabendo do quanto eu necessitava.

Após a minha iniciação, as provas continuaram a vir (até mesmo por mim mesmo, como médium), mas não com a mesma frequência de antes. É compreensível: as entidades já haviam me mostrado o caminho, cabia-me agora caminhar por ele!

Trago estas palavras (e lembranças) para dizer a todos que sinceramente estão em busca de provas, que nada será maior incentivo às entidades em lhe provar - sejam quais forem os seus critérios -, do que seu próprio esforço, perseverança e boa-vontade em mostrar-se digno de tudo quanto deseja receber.

E caso obtenha as provas que procura, não as deixe cair no esquecimento, pois se algo aprendi neste caminho, é que normalmente a nossa fé é tão fraca que podemos obter uma tonelada de provas hoje, mas se daqui alguns meses não as obtivermos, acabamos por questionar a certeza que, até ontem, tínhamos...

Leonardo Montes

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