sábado, 31 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 36: FIM DO DESENVOLVIMENTO?


No momento em que escrevo esse texto (24/06/2016) nada mudou em minha mediunidade de incorporação. O que descrevi para vocês é exatamente como tenho trabalhado até o presente. Porém, uma nova mediunidade começa a nascer em mim: a audiência espiritual. 

Há algumas semanas comecei a perceber algo diferente. Não parecia a costumeira intuição, nem a sempre presente inspiração. Eu tinha a nítida impressão de ouvir uma voz, mas não dentro da minha cabeça e, sim, fora. Como se alguém sussurrasse em meus ouvidos de forma a poder compreender algumas sentenças bem completas. Vamos aos exemplos. 

Estava trabalhando quando tive a impressão de ouvir o Pai José do Congo dizer, de forma lenta, como se fosse um ditado: fulana precisa descansar mais. Fulana é uma amiga nossa e médium. Para minha surpresa, tão logo chego em casa minha esposa me disse que ela estava internada, pois sofreu tonturas. Por esses dias, estávamos em dúvida se a próxima gira seria de caboclos ou pretos-velhos e tive a impressão de ouvir uma voz firme dizendo: Caboclo! 

Ocorreram poucas manifestações até o momento deste novo gênero mediúnico para mim, mas como já havia sido instruído previamente que isso cedo ou tarde aconteceria, estou encarando com naturalidade, se é que esta mediunidade se tornará mais intensa... Portanto, caro leitor, tenha sempre em mente que o desenvolvimento nunca terá fim. 

Novos gêneros de mediunidade podem surgir para você conforme o trabalho que você vier a construir aqui na Terra. Não seria de surpreender se, de repente, além da incorporação, você viesse a desenvolver outros dons, mesmo a tão rara e apreciada psicografia. Tudo depende da tarefa que, como médium, você terá que executar e dos seus esforços como indivíduo perseverante no bem e representante da luz - ainda que imperfeitamente -, na Terra. 

De uma coisa, porém, nunca se esqueça: há sempre com quem aprender e a quem ensinar e é sempre tempo de recomeçar e reaprender.

Leonardo Montes

Share:

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 35: DESOBSESSÃO


Não tenho a menor dúvida de que a desobsessão ajudou e muito o meu desenvolvimento mediúnico. Nas giras convencionais temos que aprender a reconhecer e a trabalhar com apenas uma ou duas entidades. Na desobsessão, nunca se sabe que espírito se manifestará. 

Atuei durante pouco mais de um ano na desobsessão, que ocorria toda segunda-feira. A princípio como esclarecedor e, depois, como médium de incorporação. Recebia, principalmente, suicidas e perdidos, mas também recebia assassinos, assassinados, enlouquecidos, etc. 

Essa grande variedade de manifestações, embora me causasse enorme cansaço e, por vezes, muita dor no corpo (se se manifestava um suicida que deu um tiro em sua cabeça, eu sentia muita dor de cabeça) fez com que eu evoluísse como médium. Se antes eu demorava alguns minutos para incorporar, na desobsessão isso se tornou segundos. 

Grande variedade de espíritos, grande variedade de sofredores, maior flexibilidade para energias diferentes, melhor médium eu me tornava. Sei, contudo, que não são todas as casas de Umbanda que mantém reuniões de desobsessão. A maioria faz apenas o “puxado” que é quando o espírito se manifesta ali mesmo, na gira. Mas, se a casa que você frequenta tiver desobsessão ou qualquer outro tipo de serviço mediúnico, eu sugiro que você participe, pois a exposição a tantos tipos diferentes de espíritos e energias irá acelerar muito o seu desenvolvimento. 

Posso dizer que a desobsessão foi um divisor de águas no meu desenvolvimento mediúnico e, ao contrário do que possa parecer, não causa nenhum prejuízo ao médium ainda em desenvolvimento... Porém, como em tudo, é preciso calma e prudência, além do aval dos chefes para ingressar ou não um novo médium nesse tipo de trabalho.

Leonardo Montes 

Share:

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 34: ENVOLVA-SE


Defino envolvimento como uma relação de amor, onde você faz coisas pelo simples prazer de estar ali e poder viver aquele momento. Quando comecei a frequentar o terreiro, sentia-me como alguém que visita uma cidade nova e se encanta com tanta coisa diferente. As entidades me acolheram muito bem, deram-me liberdade para pesquisar, perguntar, questionar à vontade. 

Quando comecei a me desenvolver, fui auxiliado sem preguiça pelas bondosas almas, sempre prontas a me esclarecer e orientar. Parecia um sonho! Eu finalmente encontrara a casa espiritual que a vida toda procurara... Eu trabalhava o dia todo e não via a hora de chegar ao terreiro, ansioso por saber o que aconteceria, como seriam os trabalhos, o meu desenvolvimento, o que sentiria essa semana? Com o tempo notei, contudo, que nem todos os médiuns pareciam sentir igual. 

Muitos chegavam desanimados, reclamando, mostravam-se frustrados, apáticos. Alguns preferiam ficar do lado de fora batendo papo, mesmo a espiritualidade recomendando que entrássemos e nos concentrássemos... Ao fim dos trabalhos não queriam permanecer para o desenvolvimento dos médiuns novatos. Olhavam para o relógio o tempo todo. 

Se algum chefe demonstrasse interesse em ficar mais um pouco para alguma conversa, mostravam-se contrafeitos, quando não pediam para sair no meio da conversa... Se planejávamos uma ação de caridade, apareciam meia dúzia de médiuns... Enfim, parece-me sumamente importante que você, como médium, não se preocupe apenas com o seu desenvolvimento, com o seu trabalho. Você é parte de uma engrenagem que faz parte de um mecanismo maior que é o terreiro. 

Quanto mais você se envolver nas atividades do terreiro, melhor irá se sentir naquele local, isso facilitará, inclusive, a sua concentração e mostrará às entidades o quanto, de fato, você está empenhado em fazer o bem, o que pode mesmo acelerar o seu desenvolvimento mediúnico, já que eles ficam muito contentes quando desenvolvem médiuns que se encantam com a espiritualidade mesmo quando não estão incorporados...

Leonardo Montes 

Share:

terça-feira, 20 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 33: REFORMA ÍNTIMA


A maioria dos médiuns Umbandistas que eu conheci não gostava de estudar e, muito menos, esforçar-se por se tornarem melhores enquanto indivíduos. Em nossa antiga casa, implantamos um estudo e apenas cinco pessoas, quando muito, apareciam... No dia de trabalho, eram 20; nos estudos, cinco. 

Muitos diziam não ter tempo para vir ao estudo, mas arrumavam tempo para não faltar da gira e se fosse da esquerda, o que ocorria sextas à noite, não faltava um... A bem da verdade, mesmo sabendo que na Terra a imperfeição impera e não desconsiderando que eu mesmo sou muito imperfeito, devo dizer que as pessoas mais complicadas que eu já encontrei no campo espiritual estão dentro da Umbanda, isso tanto presencialmente quanto virtualmente. 

Não desejo menosprezar meus colegas de religião e muito menos a mim mesmo, contudo, é notório aos meus olhos a diferença existente entre o “comportamento típico Espírita” e o “comportamento típico Umbandista” e isso me chocou muito, pois eu via pessoas que dentro do terreiro se esforçavam muito para serem ótimos trabalhadores, cambones ou médiuns, mas bastava pisar fora do terreiro que todo aspecto mundano da personalidade do sujeito tomava novo vulto, sem maiores reflexões ou pudores. 

Não tenho dúvidas de que no Espiritismo há também muitas pessoas complicadas... Mas, pelos anos em que trabalhei em centros espíritas, elas procuravam minimizar isso ou pelos menos disfarçavam muito bem... O Espiritismo tem um apelo muito forte à reflexão, ao entendimento, ao exame da própria consciência e isso começa desde cedo, na evangelização infantil, o que normalmente não ocorre na Umbanda, malgrado os sempre belos ensinos morais dos guias... 

O Umbandista precisa conscientizar-se de que não basta apenas ser um excelente médium ou um excelente devoto de tal Orixá, é preciso que se torne uma excelente pessoa, o que exigirá um grande esforço e uma longa caminhada para conhecer a si mesmo, identificar as próprias imperfeições e traçar estratégias para vencê-las. Penso que, hoje, é indispensável o médium não apenas estudar e buscar conhecimento, mas que igualmente se dedique à sua reforma íntima, tornando-se uma pessoa melhor... Não dá para querer ser uma pessoa fora do terreiro e outra dentro dele!

Leonardo Montes

Share:

sábado, 17 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 32: VAIDADE

espelho

A vaidade é, sem dúvida, um dos maiores perigos a que o médium estará exposto. Ela pode se manifestar de várias formas e mesmo o mais firme dos médiuns está sujeito a ela. A vaidade na mediunidade geralmente se manifesta quando o médium superestima sua capacidade mediúnica ou as entidades com quem trabalha ou quando passa a se sentir agraciado com os créditos que na verdade são direcionados às entidades. 

É preciso combatê-la ainda em seu nascedouro. Se esperarmos demais, ela pode estar com raízes profundas o suficiente para resistir com força ou mesmo chegar ao ponto em que se torna impossível extirpá-la sem maiores danos. Se o médium possui uma faculdade pouco comum, como a vidência (capacidade de ver os espíritos) ou a psicografia, certamente as pessoas o colocarão num patamar diferenciado dos demais. 

Tais faculdades não são muito comuns, mas extremamente apreciadas pelas pessoas necessitadas, de modo que muito rapidamente esses médiuns se tornam famosos e bastante procurados. Como os médiuns, geralmente, são espíritos endividados com o passado, muitos podem trazer ainda a chaga da vaidade que frequentemente é instigada pela bajulação daqueles que, em busca de suas faculdades mediúnicas, ultrapassam as fronteiras do bom-senso, chegando mesmo a investigar o que o médium posta em suas redes sociais para descobrir seus gostos, derretendo-se em gentilezas, presenteando-o com regalias, enfim, uma série de tentações que o colocam perigosamente no limiar de um abismo. 

Cabe lembrar, ainda, que a vaidade não representa perigo apenas para o médium. Certa feita conheci um senhor que se gabava aos quatro ventos por ter sido cambone (auxiliar da entidade quando incorporada) de uma entidade e dava verdadeiros ataques pelo simples fato de ver outros médiuns usando o nome da referida entidade em seus perfis do facebook... Chegou mesmo ao ridículo de ameaçar de processo quem usasse o nome da entidade sem sua prévia autorização (como se os espíritos tivessem donos...). 

Noutra ocasião conheci uma senhora que se apresentava sempre com muita humildade, sempre fazendo menção de que somos todos iguais, que ninguém é melhor do que ninguém até que pude surpreendê-la num diálogo com um jovem rapaz que apenas lhe questionou uma informação, ao que ela respondeu: “Quem é você pra me questionar? Antes de você pensar em nascer eu já era mãe de santo” e outras coisas do tipo. A vaidade no meio religioso tem feito e continuará fazendo muitas pessoas caírem. 

É preciso, sempre, manter os olhos bem abertos e lembrar que somos apenas instrumentos, engrenagens de um mecanismo muito maior do que podemos supor... Contudo, é importante considerar que lutar contra a vaidade não quer dizer abstenção de elogios e incentivos. Há casas que proíbem as pessoas de fazerem quaisquer elogios aos médiuns ou às entidades, de baterem palmas após uma palestra, etc. O que se deve combater é a bajulação descabida e imprópria, mas o estimulo construtivo no bem deve sempre ser incentivado.

Leonardo Montes 

Share:

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 31: OS GUIAS TAMBÉM ERRAM


Os espíritos que atuam nos terreiros são chamados de falangeiros. São espíritos ainda imperfeitos, embora muito melhorados em relação à humanidade comum. Todos tiveram existência Terrena e alguns, quando nos dão a conhecer suas histórias, falam abertamente sobre seus erros do passado e afirmam ainda terem dívidas a pagar. Estou ciente de que isso possa causar polêmica, mas como meu objetivo é compartilhar a minha experiência da forma mais precisa e honesta possível, preciso dizer a verdade... 

Vejo muitos companheiros de fé falando das entidades como se fossem anjos de luz baixando à Terra e preciso dizer que isso está muito longe da verdade, pelo menos, da que tenho observado... Nossos guias (faço uma distinção entre guias – direita - e guardiões - esquerda) são, sim, espíritos em franco progresso espiritual. Espíritos que venceram a maioria das dificuldades em que ainda nos demoramos e, por isso, assumem a posição de guias: eles estão alguns passos à nossa frente! E embora possuam maior capacidade de auxílio, ainda são falíveis. 

Aliás, já tive oportunidade de conversar com alguns sobre suas reencarnações futuras e um deles chegou a me dizer que após o desencarne de todos os médiuns da casa, iria se encarnar para quitar antigos débitos e que contaria com nosso auxílio espiritual quando estivesse envolvido pela matéria... É por essa proximidade evolutiva que chamamos os guias de pai/mãe, avô/avó. 

Eles são como parentes que nos amam e que nos auxiliam na subida até onde se encontram, distanciados de nós alguns passos na senda do progresso. Esclarecido isso é preciso dizer que os guias também erram. Muitos talvez objetem que não, que o médium erra, mas não o guia... Mas, isso não é verdade. A respeito de o médium errar, isso já foi explicado no capítulo anterior, agora, é preciso entender o que leva um guia a errar. 

Certa vez vi uma entidade se manifestar e dizer que os trabalhos que ocorreriam em tal lugar seriam maravilhosos e na verdade foram um desastre completo. Tanto o médium quanto a entidade eram extremamente confiáveis. Então, o que aconteceu? Alguns espíritos conseguem ver o futuro de forma mais ou menos precisa e por um tempo mais ou menos longo. Mas, quando o veem, eles na verdade estão vendo um possível futuro. 

O futuro se apresenta como vários caminhos que, conforme as atitudes levarão a possíveis desfechos. Naquele momento a tendência dominante era de que tudo seria muito bom, mas acontecimentos que atrapalharam a caminhada mudaram completamente o rumo das coisas, resultando em um futuro diferente daquele que o guia achou que seria o mais plausível. 

No processo que defini antes como “leitura mental”, por exemplo, o guia pode não fazer uma correta interpretação das emoções da pessoa, dando um feedback, pelo menos em parte, incorreto. É claro que aqui fica muito difícil dizer que não foi o médium que entendeu errado, mas já conversei com uma entidade em que ela mesma me disse não ter entendido ou, pelo menos, feito a leitura pouco precisa das necessidades do consulente. 

Destaco, porém, que me parece ser extremamente raro um guia errar neste processo já que eles têm percepções que nós não temos. E, se acontecer, o médium não precisa se constranger... Ao contrário, deve perguntar a entidade o que aconteceu, por que motivo errou, etc. Não tenha dúvidas: as entidades são muito mais humildes do que nós e certamente assumirão o erro, se vierem a cometê-lo. 

Um diálogo franco, direto e fraterno, seja entre os filhos de fé, seja entre os filhos e os guias é fundamental para que ambas as equipes, espiritual e material, venham a se entender e construírem, juntas, um sólido e lindo trabalho espiritual num mundo onde não há - nem pode haver - perfeição!

Leonardo Montes 

Share:

terça-feira, 13 de julho de 2021

BANHO DE MARAFO?

 

marafo

A pergunta de hoje é: Ouvi uma pessoa relatar que foi a um terreiro numa gira de esquerda e o Exu que a atendeu recomendou que ela fosse a uma encruzilhada a meia noite em ponto, levasse uma garrafa de pinga e jogasse da cabeça aos pés e ao terminar, jogasse a garrafa pra trás sem olhar. Gostaria de entender pra qual situação é indicado esse tipo de trabalho? – Grato pela pergunta, ES.

O “banho de marafo” é uma prática antiga de limpeza profunda. Contudo, da forma como trabalho, ele não é indicado para caso algum, simplesmente, pela imensa dificuldade de se realizar tal coisa.

Imagina como ficaria uma pessoa ensopada com cachaça da cabeça aos pés? Ela andaria na rua assim? Entraria no seu carro molhada? Simplesmente, não faz sentido.

Além do mais, não fazemos nada em encruzilhadas (afinal, para alguém é uma encruzilhada, para outro, é a esquina da sua casa e, mesmo que não seja, é uma forma de poluir o local).

Então, em minha opinião, embora a cachaça realmente tenha esse poder de limpeza, trata-se de uma prática antiquada, haja vista que se pode obter o mesmo efeito fazendo um banho com ervas fortes, como arruda, guiné, manjericão, por exemplo, em casa mesmo e sem todo esse constrangimento.

Quer fazer sua pergunta? Envie para: canalumbandasimples@gmail.com

Leonardo Montes

Share:

sábado, 10 de julho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 30: MEDO DE ERRAR


Todo médium que se preze tem medo de errar. Tem medo de estar sendo mistificado. Tem medo de estar enganando a si mesmo na incerteza de estar ou não incorporado. E isso é ótimo! Sim, eu sei que é desagradável sentir medo, seja do que for... Porém, o medo de todas essas coisas que eu citei indica que você tem caráter. O que assusta são médiuns que não tem medo de nada, que colocam tudo na conta da “entidade”, isso, sim, assusta... Preciso dizer, contudo, que este medo nunca vai cessar. 

Com o tempo, você se acostumará com o trabalho e se entregará mais facilmente, mas a ansiedade e expectativa sempre estarão com você. Conheci uma senhora com 50 anos de mediunidade e embora ela trabalhasse com uma naturalidade incrível, me confessou que, pelo menos às vezes, ela sente uma pontinha de insegurança. Se você tem medo de errar, de não consolar a pessoa, de não passar direito o recado do guia, saiba: é absolutamente normal! Agora, o que vou explicar precisa ser entendido com muita atenção: Você vai errar! Sim, é isso mesmo... 

Você vai fazer o resguardo, vai se preparar, vai se concentrar e, ainda assim, haverá dias em que você não conseguirá passar corretamente o recado do guia, podendo, inclusive, causar um efeito negativo a partir disso... Eu já vi isso acontecer, inclusive, com médium inconsciente e que, trabalhando com raiva, a mesma transparecia em seus guias... Não que os guias ficassem com raiva por que o médium estava com raiva... Mas, a mensagem era contaminada no processo (uma vez que inconsciência não pressupõe isenção da mente, mas apenas sonolência da mesma). 

Se o guia queria dizer: você precisa ter mais paciência... Normalmente diria com amor, com bondade. Mas, o médium estando nervoso, a frase poderia até sair em sua sentença completa, mas teria tom áspero, rude... É a contaminação da mensagem pelo estado emocional do médium... E se isso acontece com médium inconsciente, imagina com o consciente? Então, não tenha dúvidas: você vai errar! Afinal, você é humano e embora os espíritos possam te chamar de “aparelho”, você não é feito de engrenagens e circuitos, mas de carne e osso. 

Afaste o desejo de perfeição num mundo imperfeito! Uma vez estando claro que você vai errar, resta saber o que se pode fazer a este respeito e, aqui, penso, cabe um diferencial que poderá te destacar como médium: a humildade. Nunca pense que seus guias são infalíveis (eles também erram...) ou que você é um médium “banda-larga” conectado com o além de forma incorruptível... Tenha humildade para aceitar seus erros e, principalmente, deixe as pessoas e entidades à vontade para te falarem sobre isso. 

Eu conheci médiuns que demoraram muito para se desenvolver por que não tinham abertura para aceitar o contraditório. As entidades queriam alertar que estavam errando, que estavam passando à frente delas, mas como se melindravam muito facilmente, o alerta vinha por rodeios, sem atacar tanto o ego, mas isso fazia o processo de desenvolvimento demorar mais do que o necessário. Se estes médiuns tivessem mais humildade e aceitassem que são falíveis, as entidades iriam orientá-los com maior precisão e eles aprenderiam, mais rapidamente, a fazer a distinção do que de fato é da entidade e do que é deles... Conheci, inclusive, uma médium que, vindo de uma casa menos criteriosa, trabalhava há anos como médium sem nunca, de fato, ter incorporado. 

O máximo que ocorria é a entidade se aproximar e entrelaçá-la fluidicamente, dando-lhe uma leve sensação de sua presença espiritual. E como era uma senhora extremamente melindrosa, os espíritos a incluíram no desenvolvimento, onde ela deveria caminhar com todos os que estavam iniciando, mas não demonstrava o menor interesse em aprender, até que terminou por se afastar da casa... Em outra situação, vi uma médium iniciante que, incorporada e tendo exagerado na bebida, se atirou nos braços de um médium amigo, tentando beijá-lo, desculpando-se, depois, pelo deslize da sua pombagira... 

Não me parece minimamente crível que uma entidade tente fazer isso, mas se a médium alimenta esse desejo, a bebida deixa-o transparecer mais facilmente... Como todo médium eu também sempre desejei fazer o melhor. Sempre desejei acertar e sentia, também, muito medo de errar. Como narrei anteriormente, no processo que em fiquei bêbado no terreiro, o Pai Cipriano falou abertamente comigo sobre isso, explicando-me o problema da minha concentração e de como isso poderia me afetar. Ali aprendi que a abertura para que outras pessoas ou mesmo as entidades nos orientassem sobre nossos erros é fundamental para nosso crescimento mediúnico. 

Sem dúvida, quando errava, eu sentia vergonha, receio no próximo trabalho, medo de errar novamente... Mas, com o tempo, fui aprendendo a confiar mais no processo e a não me culpar tanto pelos erros que pudesse ter cometido, tendo ciência de que ali estou de corpo e alma para servir, ainda que imperfeitamente...

Leonardo Montes 

Share:

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 29: PAI-DE-SANTO

médium

Muitas casas de Umbanda seguem a forma de trabalho onde se elege um pai-de-santo, isto é, um sacerdote para o templo e orientador espiritual dos membros da casa. Pessoalmente, não concordo com este sistema e nunca adotei nenhum pai-de-santo em minha vida. Nos capítulos anteriores vimos como as pessoas podem ser complicadas e isso, logicamente, se estende ao pai-de-santo... 

Soube de muitos casos em que a relação pai/filho-de-santo não era boa e terminou em brigas, desavenças de todos os tipos e mesmo ataques pessoais. Claro, há sempre exceções. Pude conversar com pessoas que tiveram maravilhosos pais e mães-de-santo que personificavam não apenas um cargo, mas uma figura amiga, caridosa, conselheira, alguém que realmente tinha o respeito de seus filhos de-fé. Na casa onde desenvolvi, contudo, não tínhamos um pai-de-santo. Tínhamos um presidente para fins legais e um médium principal, através do qual, podíamos conversar com as entidades-chefes, estas sim, as verdadeiras chefes-de-terreiro. Deixávamos às entidades a chefia do nosso trabalho. 

Entretanto, mesmo aqui, é preciso considerar o seguinte: a chefia do terreiro não pode ser impositiva e autoritária. As entidades precisam de nós para trabalhar tanto quanto nós precisamos delas. Cria-se, assim, um sistema de parceria, onde, temos total liberdade para dialogar com os chefes e mesmo discordar deles, se for o caso. Sem essa abertura, aí sim os médiuns se tornam mesmo “cavalos”, esperando apenas o chicote nas costas para poder trabalhar... Creio que esse tempo já passou. 

Talvez o amigo leitor se surpreenda com essas palavras, mas elas representam uma experiência real. Muitos talvez se perguntem: mas, quem é que cuida de vocês? E a resposta é: nós mesmos! Não sentimos a necessidade de escolhermos alguém para nos orientar e dirigir, senão, a nossa própria consciência, sempre respaldada pelos ensinos e conselhos de nossos guias. Cada um, assim, se torna o responsável por si mesmo, seu mestre ou seu feitor, prestando conta do que fez de bom ou ruim à Deus e não aos homens tão falíveis como quaisquer outros... 

Apoiamo-nos uns aos outros dentro de nossas possibilidades, estabelecendo uma fraternidade entre os membros da corrente sem que haja um que esteja acima dos demais: estamos todos no mesmo barco! Alguns me perguntam: Mas, você é pai-de-santo? Ao que respondo: Não sou nem quero ser! Sou apenas um médium como qualquer outro, lutando dia-a-dia para vencer minhas imperfeições e ser uma pessoa melhor. 

Devo deixar claro, contudo, que não sou contra o sistema de filiação-de-santo, apenas que não o sigo. Na casa onde desenvolvi não o adotávamos e onde trabalho atualmente, continuamos a não adotá-lo e tudo tem dado muito certo.

Leonardo Montes

Share:

domingo, 27 de junho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 28: AMIZADE FORA DO TERREIRO

amizade

Nada mais comum e desejável que os amigos que se faça dentro do terreiro possam sê-lo fora dele. Realmente, eu pude sentir isso e estabeleci laços de afeto com pessoas que, em outras ocasiões, certamente não cruzariam meu caminho, dada a diferença de personalidade e interesses. Este é, porém, um momento perigoso na vida do médium iniciante e que exige muita cautela. Por vezes, o seu companheiro de terreiro não é uma boa companhia para se ter na vida privada... 

É preciso ter tato e, principalmente, discernimento. Presenciei alguns episódios onde pessoas, empolgadas por um ideal em comum, buscaram estreitar laços fora do terreiro e isso não deu muito certo. É preciso considerar, sempre, que os médiuns são - quase todos -, espíritos tremendamente endividados com o passado e não se pode esperar que passem a viver valores nobres da noite para o dia... Você pode ter muito apreço pelas entidades de um determinado médium, mas daí este médium agir conforme as entidades pregam por sua boca, o passo é grande... 

Logo, amizades que, a princípio, pareciam promissoras e frutíferas, terminaram por se mostrar desgostosas a ponto de prejudicar, inclusive, o trabalho que realizavam em conjunto dentro do terreiro, obrigando, por vezes, à mudança de casa. O seu companheiro, irmão de corrente, pode mostrar um vivo ideal de trabalho dentro da casa, mas somente quando você o conhecer sem "o branco" é que poderá avaliar se realmente se trata de uma pessoa que vale a pena trazer para sua vida e para seu lar. 

Infelizmente, entre amizades cujo fim foi negativo, figuram casos, por exemplo, de traição. Pessoas que se mostravam como irmãos-de-fé e que, na primeira ocasião, não se importavam em lançar olhares maliciosos aos cônjuges... Por outro lado, também vi verdadeiros laços de amizade surgirem e produzir bons frutos. Pessoas que, a princípio, mal se cumprimentavam, hoje são amigos inseparáveis. Seus filhos estudam juntos, brincam juntos, suas esposas visitam-se, uma bela relação. 

Como em qualquer outro setor da vida humana, estabelecer um laço de amizade requer muito cuidado, atenção, envolvimento e muita observação, não é por que a pessoa é Umbandista e médium do mesmo terreiro que você que ela se torna uma boa companhia para sua família.

Leonardo Montes

Share:

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 27: ANTIPATIA DENTRO DO TERREIRO

casal discutindo

Como dito em capítulo anterior, os médiuns são pessoas comuns e, às vezes, possuidores de chagas morais que tornam a convivência com seus irmãos de fé um verdadeiro desafio. Entretanto, da mesma forma que o médium tem que silenciar sua mente para que a entidade possa falar, ele precisa silenciar suas inimizades para que os guias possam trabalhar. 

Acompanhei de perto o caso de dois senhores amigos que, de repente, passaram a se evitar dentro do terreiro... Certa noite, durante a gira, ambos incorporados com seus caboclos começaram a discutir no meio do trabalho, a ponto do guia-chefe intervir para abafar o falatório... 

A casa estava cheia, pessoas necessitadas, aflitas, doentes e ali dois caboclos, simplesmente, brigando na frente de todo mundo... Ou será que a antipatia pessoal entre os médiuns falou mais alto e ambos deixaram isso transparecer? Não fingiram incorporação... Ela apenas se deu de modo incompleto. Não houve perfeito alinhamento dos chakras entre entidade/médium de modo que atuação dos guias ficou severamente restrita a mero reflexo corporal... As línguas chicotearam-se por conta própria... 

Em outra ocasião, uma médium muito experiente contou-me algo curioso, dizendo só ter adquirido verdadeira confiança em sua própria mediunidade quando uma pessoa por quem nutria extremada antipatia visitou a casa em que trabalhava e acabou passando com seu guia, sendo amplamente atendida em suas aflições sem que ela própria sentisse a menor repulsa naquele momento. 

Tão logo desincorporou, a revolta bateu-lhe à porta... Sem dúvida, o desejável é que haja entre todos os membros da corrente os melhores sentimentos. Mas, além das dificuldades pessoais que cada um carrega em seu íntimo, é preciso considerar que, por vezes, os membros de um trabalho espiritual já se encontraram em algum lugar do passado e podem ter estabelecidos ligações complicadas e, por vezes, dolorosas que vão se manifestar agora - embora sem a lembrança clara do motivo -, em forma de aversão... O mínimo necessário para que uma casa se mantenha e um trabalho se sustente é o respeito. 

Leonardo Montes 

Share:

TERREIRO COMO ÚLTIMO RECURSO

imagem de fé

Existe uma concepção bastante equivocada no universo da Umbanda que afirma ser o terreiro uma espécie de último recurso quando tudo o mais falha. Esta concepção produz um senso utilitarista do terreiro e é isto que explica o fato das pessoas não se interessarem muito por outras atividades que não sejam as consultas espirituais.

Em razão da pandemia, por exemplo, suspendemos as giras, porém, ofertamos um trabalho de passes (sem a incorporação) como forma de manter os trabalhadores ativos e também oferecer alguma assistência aos frequentadores. No entanto, curiosamente, o número de interessados é muito pequeno se comparado ao número de participações das giras.

O terreiro é o mesmo. Os médiuns são os mesmos. Os passes são os mesmos. Até os guias que ali estão dando o suporte ao trabalho são os mesmos. Apenas não ocorre a incorporação...

O que atrai, então, as pessoas ao terreiro? O clima de paz? A sensação de bem-estar? A oportunidade de estar num templo para vivenciar a religião escolhida? 

Ou será que são os fenômenos? As incorporações? A oportunidade de conversar com uma entidade que, em última instância – precisamos reconhecer – quase sempre não dirá nada que a pessoa já não saiba?

O triste é que esta visão está, inclusive, entre os próprios médiuns e cambones que, frequentemente, apontam o terreiro como um último recurso, especialmente, aos sofredores, como a dizer: vai no terreiro que lá você cura.

Mas, o terreiro cura? O terreiro salva? O terreiro produz mais “milagre” do que uma igreja, um centro espírita? A Umbanda é mais forte que o Espiritismo? A Umbanda é mais forte que uma igreja evangélica?

Hoje farei apenas perguntas, deixando uma mensagem para nossa reflexão:

“E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.” Lucas 7:50

Leonardo Montes


Share:

segunda-feira, 21 de junho de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 26: CAMINHO RETO

estrada

Pai Cipriano das Almas uma vez me disse uma frase inesquecível: médium não é santo, se fosse, estaria no Altar, não no terreiro. Essa frase é bastante emblemática. A maior parte dos médiuns são espíritos com pesadas dívidas com o passado e a mediunidade surge como ferramenta de aperfeiçoamento e meio de quitar antigos débitos... 

Seguindo este raciocínio, não é difícil entender por que os médiuns possuem os mais diversos defeitos: desde falhas gravíssimas de caráter (mediunidade não é sinal de evolução), até pequenos desafios cotidianos comuns a todas as pessoas na Terra. Por isso, quando o médium resolve desenvolver-se, ele não está apenas assumindo um compromisso de servir de instrumento à manifestação do espírito em prol da caridade, ele também está assumindo o compromisso de melhorar-se como pessoa e será cobrado por isso. 

Há um ponto que diz: “não adianta bater no peito, saudar a encruza, e não agir direito... Viver só de traição, fazendo inimigos, maltratando seus irmãos... Ninguém engana a nenhuma entidade, por que exu é a própria verdade”. 

Certa vez um rapaz que estava se iniciando na mediunidade passou com meu exu para consulta e, tenho certeza, saiu dela muito pensativo. Ele foi advertido, severamente, em relação às traições que estava praticando, dividido entre duas moças, ambas enganadas. É ingenuidade pensar que um exu toleraria esse tipo de comportamento... 

Quando se trata de um preto-velho, a bronca pode ser suave, cheia de rodeios. Mas, se for um exu, é provável que ele lance a verdade nua, crua e sem pudor. Portanto, enganam-se gravemente os que pensam que podem desenvolver-se como médiuns sem mudarem, essencialmente, o que são como pessoas. 

As entidades nos acompanham, conhecem todos os aspectos da nossa vida, sabem onde erramos e onde acertamos. Elogiam-nos quando estamos certos e puxam nossa orelha quando erramos. Não esperam que nos tornemos santos da noite para o dia, mas cobram nossos esforços.

Leonardo Montes

Share:

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE: - CAPÍTULO 25: COMPROMISSO

aperto de mãos

Em capítulos anteriores eu mencionei brevemente como a mediunidade gera um sério compromisso. Basta lembrar, por exemplo, que a minha primeira atuação como médium atendendo publicamente se deu por ocasião em que vários médiuns experientes faltaram por conta da chuva e tive que agir naquele momento para suprir a ausência de pelo menos um deles. 

Geralmente, eu vejo as entidades perguntarem três vezes ao candidato à médium se ele quer, mesmo, trabalhar. Muitos negam, mas alguns dizem prontamente que sim. Entretanto, mesmo nestes casos, tenho visto as entidades exigirem provas mínimas de compromisso. Certa vez o caboclo que trabalha comigo (Uirapuru) atendeu a um rapaz e, imediatamente, percebeu sua mediunidade. 

Na conversa com o consulente, este lhe informou já ter recebido, antes, avisos sobre a mediunidade, mas sentia não ser a hora de trabalhar, pois ainda queria alcançar algumas metas profissionais. Mesmo assim, a entidade lhe alertou, dizendo que já estava, sim, na hora de começar. 

Uns três meses depois, eis que retorna o rapaz e acaba, novamente, passando com o caboclo, queixando-se das mesmas coisas de antes e, novamente, recebendo a mesma orientação: deveria trabalhar a mediunidade. Ele não aceitou. Passados mais uns dois meses, vi o rapaz novamente no terreiro, desta vez, sendo atendido por outra entidade. 

Eu já havia desincorporado e pude ouvir, ainda que de longe e imprecisamente, a entidade aconselhar, novamente, o trabalho mediúnico. Ao que parece, sem resultado algum. Em outras ocasiões, vi pessoas chegarem desesperadas ou super empolgadas ao terreiro, pedindo ajuda de todas as formas para desenvolver suas mediunidades, mas perante as menores provas de compromisso, como, por exemplo, passar a frequentar assiduamente os trabalhos de passes, simplesmente sumiam... 

É inegável que mediunidade gera compromisso. E, inegavelmente, cabe ao médium o que fazer com o compromisso assumido. Aqui, contudo, é preciso trazer alguns apontamentos. Antes de tudo, o médium tem de estar ciente de que seu compromisso é com a espiritualidade. Ele se coloca como instrumento dos bons espíritos para consolar, esclarecer, orientar, doar energias, etc. 

Como instrumento de trabalho, ele deverá entrar em ação sempre que se fizer necessário e nunca, jamais, esperar ou pedir recompensa financeira por conta disso... Se, por algum motivo, ele estiver impossibilitado de trabalhar numa casa, deverá procurar outra ou, na impossibilidade de conseguir outra casa, iniciar seu próprio trabalho, se tiver preparo para isso e seus guias concordarem, mas, nunca, deixar de trabalhar. 

As entidades que atuam na Umbanda, apesar de formarem equipes diferentes, atuam para o mesmo fim. Então, o médium não deve se esquecer que, acima da casa, existe a causa. E a causa da Umbanda, que é a caridade pelo espírito, será exercida em qualquer lugar onde haja alguém disposto a vivê-la. A casa onde desenvolvi era pequena. Cada médium servia de instrumento para o atendimento de cinco ou seis pessoas por trabalho. 

Logo, se muitos médiuns faltassem, o número de pessoas por cada entidade podia dobrar ou, em alguns casos, triplicar. Isso fazia o trabalho demorar mais do que o normal e, por consequência, os médiuns se desgastavam mais do que o esperado. Levando em consideração que a maioria tem família, no outro dia acorda cedo para trabalhar, alguns ainda fazem janta quando chegam em casa, etc., podemos fazer ideia do quanto pesa aos demais a falta de um médium. 

É fundamental que o médium tenha em mente que, enquanto ele puder trabalhar, ele deve trabalhar. Sem o desejo de me vangloriar, mas apenas para dar testemunho pessoal e real, cheguei diversas vezes molhado no terreiro para trabalhar, pois meu único veículo era moto e quando não pegava chuva na ida, pegava na volta e, nem por isso, faltava aos trabalhos, a não ser por motivo de força maior. 

Mas, então, o médium não tem o direito de faltar? Não pode, nem mesmo sob doença, deixar de comparecer? Deixará de ir, por exemplo, aos aniversários familiares se estes coincidirem com o trabalho a ser realizado? 

A resposta é: Você decide! Você vai adoecer, vai ter compromissos familiares, às vezes precisará fazer hora extra, enfim, vários motivos podem te impedir de comparecer ao terreiro e você será obrigado a faltar. Porém, existe uma grande diferença entre faltar de vez em quando e comparecer de vez em quando e, acredite, eu conheci vários médiuns que não se incomodavam em comparecer apenas de vez em quando...

Leonardo Montes 

Share:

quinta-feira, 27 de maio de 2021

DIÁRIO DE UM MÉDIUM INICIANTE - CAPÍTULO 24: ESTUDAR SEMPRE



Posteriormente, estudando sobre a história da Umbanda, descobri que muitos médiuns e dirigentes do passado não incentivavam o estudo ou tentavam reter a informação de modo que os demais médiuns precisassem sempre recorrer a eles para saber o que fazer, como fazer, etc.

Havia o pressuposto de que o melhor era o médium nada saber, pois se sua entidade soubesse, seria a prova inequívoca de que ele estava mesmo incorporado.

Nas primeiras décadas da Umbanda, vários médiuns inconscientes surgiram para dar força à religião. As entidades que por eles se manifestavam lançaram as bases de cada forma de trabalho e, para isso, era necessário dispor desse qualificativo mediúnico.

O correr dos anos, porém, fez com que a mediunidade inconsciente se tornasse cada vez mais rara... A mediunidade consciente prevaleceu como a forma comum de trabalho. Os médiuns agora eram chamados a servirem mais do que como meros aparelhos, meros cavalos... Eles deveriam participar de todo o processo e, com isso, enriquecerem-se com as experiências vividas através da sua própria mediunidade.

Ainda há quem defenda que o médium nada deva estudar ou saber... Mas, felizmente, uma onda de informações - algumas boas e outras nem tanto -, atravessa a Umbanda neste momento. Nunca tantas

pessoas produziram conhecimentos e os disponibilizaram de forma livre através da internet atingindo adeptos e leigos...

***

Eu vinha – como já mencionei – de uma educação espírita. No Espiritismo não se estuda sobre ervas. Logo, eu nada sabia sobre elas. Assim como eu, a maioria dos médiuns iniciantes no terreiro sabia pouco ou nada sobre o uso das mesmas. Muitos, vindos do Catolicismo ou do Espiritismo não tinham a menor ideia da variedade de ervas que poderiam ser utilizadas nos trabalhos de Umbanda.

Como médium consciente, se a entidade quisesse, por exemplo, recomendar um banho de Pinhão Roxo, é bem provável que eu não conseguisse traduzir corretamente essa informação, pois até bem pouco tempo eu sequer sabia que existia um Pinhão Roxo...

É claro que, com muita dificuldade, a entidade incorporada pode até conseguir transmitir o que deseja, mas pela minha experiência prática, isso se torna muito difícil e angustiante para o médium que, se tiver um pingo de bom-senso, sempre vai ter receio ao recomendar banhos ou chás de ervas sobre as quais nada sabe...

O fenômeno da incorporação não é possessão. O espírito não entra em nosso corpo e passa controlá-lo como um fantoche, senhor absoluto de tudo. A

mediunidade é, em última instância, processo de conversão e tradução de informações e, requer, sempre, um banco de dados para trabalhar.

Se a entidade incorporada souber falar japonês, com o tempo, pode criar afinidade suficiente com o médium para “forçar” uma informação que não existe previamente em seu cérebro, como falar uma ou outra palavra em japonês, mas jamais irá estabelecer um diálogo nesse idioma, a não ser que, nos arquivos da memória espiritual daquele médium – ou na atual - haja o conhecimento do idioma, mas isso é muito raro e desnecessário...

Portanto, quanto mais conhecimentos, sobre os mais diversos campos, o médium possuir, mais recursos a entidade terá para trabalhar.

Bem entendido a necessidade do estudo, talvez você se pergunte: estudar o quê? Bom, eis aí uma verdadeira caminhada que só você mesmo poderá percorrer. A literatura de Umbanda é ainda pequena, mas muito diversa e, por vezes, confusa.

Sempre me recomendaram a leitura das obras de Rubens Saraceni, mas, pessoalmente, eu não me adaptei

à forma como ele aborda a Umbanda. Na verdade, eu iniciei meus estudos da religião pelo seu viés histórico (que eu adoro) e isso tem me ajudado muito a compreender – inclusive – as coisas que vivencio dia-a-dia dentro do terreiro.

Logo, não vou indicar, diretamente, nenhum livro ou autor. Vou dizer algo mais valioso: estude o que você quiser e o que te faça bem! Tudo que você aprender ainda será pouco. Conhecimento nunca é demais!

É claro que, como médium umbandista, se torna evidente que você precisará dedicar um tempo ao estudo da religião, a fim de que sua prática mediúnica se torne cada vez mais apurada e rica. Contudo, não se feche a ponto de não estudar nada além da religião, pois o mundo lá fora é vasto, incrível e maravilhosamente rico em informações e mistérios.

Leonardo Montes

Share: